Defesa da Fé


Seitas do Novo Testamento


Por João Flávio Martinez

Historiador e presidente do Centro Apologético Cristão de Pesquisas


O Novo Testamento usa a palavra grega hairesis para identificar as seitas contemporâneas a Jesus. O apóstolo Paulo disse: “Conforme a mais severa seita da nossa religião, vivi fariseu” (At 26.5). Essa mesma palavra é usada para identificar os saduceus: “E, levantando-se o sumo sacerdote e todos os que estavam com ele (e eram eles da seita dos saduceus), encheram-se de inveja” (At 5.17). Observamos, portanto, que o judaísmo, que era a religião de Saulo antes de sua conversão, conforme Gálatas 1.13,14, congregava em seu bojo esses grupos religiosos que o próprio Novo Testamento chama de seitas.

Vejamos, a seguir, um breve delineamento de alguns desses grupos.


Os publicanos


Era uma classe imposta aos judeus pelos dominadores romanos com a missão de lhes coletarem os impostos. Os publicanos eram funcionários romanos odiados e escorraçados pelos judeus. Apesar disso, muitos judeus se tornaram publicanos devido à rentabilidade da profissão: o chefe dos publicanos, em Roma, impunha uma taxa e distribuía aos seus subordinados que, por sua vez, quadruplicavam e repassavam as taxas, e assim sucessivamente. Mateus, também chamado Levi, antes de se tornar um dos apóstolos de Cristo e evangelista do Novo Testamento, era publicano (Mt 10.3).

Podemos observar o caráter depreciativo de um publicano para com os judeus nesses ditos de Jesus: “Ora, se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só; se te ouvir, ganhaste a teu irmão. Mas, se não te ouvir, leva ainda contigo um ou dois, para que, pela boca de duas ou três testemunhas, toda palavra seja confirmada. E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como gentio e publicano” (Mt 18.15-17).


Os escribas


Existiram no Antigo Testamento, porém, no Novo Testamento, aparecem formando uma classe religiosa. Quando voltou da Babilônia, Esdras se tornou um importante escriba: “Este Esdras subiu de Babilônia. E ele era escriba hábil na lei de Moisés, que o Senhor, Deus de Israel, tinha dado; e, segundo a mão de Senhor, seu Deus, que estava sobre ele, o rei lhe deu tudo quanto lhe pedira” (Ed 7.6).

Quando apareceram os fariseus e os saduceus, os escribas ficaram com os primeiros. Nos dias de Jesus, eram chamados de “doutores da lei”: “Ele [Jesus], porém, respondeu: Ai de vós também, doutores da lei, que carregais os homens com fardos difíceis de suportar, e vós mesmos nem ainda com um dos vossos dedos tocais nesses fardos” (Lc 11.46). Os escribas que se ocupavam do ensino eram conhecidos como rabi ou rabinos.


Os zelotes


A seita foi estabelecida por Judas, o galileu, que liderou uma revolta contra a dominação romana no ano 6 d.C., rejeitando o pagamento de tributo pelos israelitas a um imperador pagão, sob a alegação de que tal ato era uma traição contra Deus, o verdadeiro rei de Israel. Foram denominados como zelotes por seguirem o exemplo de Matatias, seus filhos e seguidores, que externaram o seu zelo pela a lei de Deus quando Antíoco IV tentou suprimir a religião judaica, assim como o exemplo de Fineias, que também demonstrou o seu zelo no deserto, durante uma época de apostasia (Nm 25.11; Sl 106.30).

Um dos apóstolos de Jesus Cristo é referido como “Simão, chamado Zelote” (Lc 6.15; At 1.13), ou por causa de seu zeloso temperamento ou por causa de alguma associação anterior com o partido dos zelotes. Paulo de Tarso, referindo a si mesmo, afirma que foi um zelote religioso (At 22.3; Gl 1.14), enquanto que os muitos membros da igreja de Jerusalém são descritos como “todos são zelosos da lei” (At 21.20).


Os herodianos


Formavam um partido mais político que religioso. Uma espécie de fraternidade em honra a Herodes, o Grande, iniciada com a morte dele. Pregavam incondicional fidelidade a Herodes quanto ao pagamento dos tributos. Julgavam que a lei de Moisés podia ser violada para se construir templos de idolatria aos romanos e seus imperadores – uma espécie de mistura de judaísmo com romanismo pagão. Eram aliados aos fariseus em oposição a Jesus, o que podemos ver em diversas ocasiões, uma delas, registradas no evangelho de Marcos: “E os fariseus, saindo dali, entraram logo em conselho com os herodianos contra ele, para o matarem” (Mc 3.6).


Os essênios


Os essênios viviam afastados da sociedade, no deserto, concentrados em estudar o Pentateuco, jejuar, orar e realizar rituais de purificação, numa espécie de comunismo primitivo, no qual todos os bens eram de propriedade coletiva. Em suas sociedades, que, em geral, excluíam mulheres, observavam rigorosamente os mandamentos de Moisés e obedeciam a uma estrita regra de disciplina, codificada em manuscritos, que regulava todos os detalhes da vida diária. O surgimento da seita ocorreu numa época em que a classe alta de Jerusalém, na Palestina, estava sob forte influência da cultura grega — racional e pagã. Uma das consequências da influência foi o afastamento do governo judeu local de alguns grupos religiosos, que pregavam a defesa de costumes mais tradicionais desse povo.

No final da década de 1940, a descoberta de centenas de manuscritos atribuídos aos essênios em cavernas na região do mar Morto despertou a esperança de que o material pudesse confirmar finalmente a ligação entre a seita e os primeiros cristãos. Entretanto, após décadas de trabalho e controvérsias, a tradução integral dos manuscritos do mar Morto foi completada em 2002, mas não havia nenhuma referência direta a Jesus, a João Batista e/ou aos primeiros cristãos. Os essênios, provavelmente, foram exterminados pelos romanos ou obrigados a deixar suas comunidades e fugir para salvar suas vidas, por volta do ano 68 d.C.


Os fariseus


Vem de parushim, que significa, literalmente, "separados". Observavam rigidamente os preceitos da lei de Moisés, tanto oral como escrita. Nos dias de Jesus, gozavam de grande prestígio entre o povo. Eram considerados, pelos judeus, grandes mestres e homens piedosos. No seu zelo fanático pela lei das purificações e as regras que a tradição (mishnah) lhes acrescentara, evitavam todo contato com os "pecadores", pessoas que, segundo eles, violavam a "lei". Jesus exprobrou os pecados dessa seita e responsabilizou-a por muitos crimes, injustiças e hipocrisias nos seus dias. Acreditavam na ressurreição e na imortalidade da alma.

Um dos discursos de censura mais eloquentes de Jesus foi a eles dirigido: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos e de toda imundícia” (Mt 23.27).


Os samaritanos


Era a classe mais odiada pelos judeus. Sargão, rei da Assíria, levou cativos os judeus do norte e, para Samaria, levou povo estrangeiro. Esse povo era idólatra. Nos tempos de Jesus, aumentou o conflito, tendo-se em vista a construção de um templo rival no monte Gerizim. De tal maneira se acentuaram as rivalidades entre eles, que os judeus consideravam os samaritanos como cães. Essa dissensão entre judeus e samaritanos fica explícita no diálogo de Jesus com uma mulher perto do poço de Jacó: “Disse-lhe, então, a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? (porque os judeus não se comunicam com os samaritanos)?” (Jo 4.9). Também é sintomático o fato de Jesus ter escolhido samaritanos para protagonizarem algumas narrativas, como, por exemplo, a parábola do bom samaritano.


Os saduceus


A seita dos saduceus era pequena, porém muito conceituada, pois os membros que a integravam eram ricos e influentes. Eram mais políticos do que religiosos, e tinham bastante conceito entre os romanos. Eram os céticos, os materialistas, os livres pensadores dos dias de Jesus. Não acreditavam na ressurreição, na imortalidade da alma, nos anjos, na providência divina; rejeitavam a tradição oral e interpretavam a lei e os profetas diferentemente dos outros. Foram arduamente repreendidos por João Batista: “Mas, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus que vinham ao seu batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?” (Mt 3.7).

Quanto à crença dos saduceus, é explicitada num diálogo com Jesus em que o mestre, de maneira muito inteligente, responde a uma arguição sobre a ressurreição enfatizando também a existência dos anjos: “Respondeu-lhes Jesus: Porventura, não errais vós em razão de não compreenderdes as Escrituras nem o poder de Deus? Porquanto, ao ressuscitarem dos mortos, [as pessoas] nem se casam, nem se dão em casamento; pelo contrário, são como os anjos nos céus” (Mc 12.18-25).

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