Defesa da Fé


Fundamentos para a pedagogia cristã


Por Rousas J. Rushdoony

Mestre em educação pela Universidade da Califórnia – EUA

Tradução: Márcio Santana Sobrinho


Para uma filosofia da educação cristã, é fundamental que o ensino esteja baseado em uma sã teologia e doutrina bíblica do homem. Sendo Cristo o Senhor, o homem não pode ser. A soberania de Deus exclui a soberania do homem. A soberania de Deus significa que os nossos critérios educacionais devem derivar da Escritura, não do homem. Isso tem muitos significados e é sobre essa premissa que desenvolveremos esta reflexão.


A educação não deve ignorar o pecado como um fato


Em razão de a Escritura deixar claro que o homem é uma criatura caída vivendo em um mundo caído, a educação deve tratar com o fato do pecado. A educação não é evangelismo, é instrução. Em todas as áreas da instrução, as pressuposições se extraem da Escritura e não do homem. Desse modo, na biologia, a base para a teoria da evolução não está na informação biológica, mas no esforço do homem para eliminar Deus do Universo. De modo que, o que atrai na teoria é religioso, não científico. Não explica, de maneira satisfatória, nada com respeito ao Universo, porém satisfaz a hostilidade do humanista para com Deus. Uma filosofia cristã da educação reconhecerá as pressuposições da educação não cristã e se concentrará em desenvolver pressuposições bíblicas como única base sólida para uma resposta e perspectiva cristãs. Em outras palavras, os homens pensam e agem em termos do que crêem. Ou seja, a fé governa a vida, e as pressuposições determinam nossas ciências, artes e filosofia.


A relação entre a fé e o conhecimento


O que sabemos é produto do que cremos. O progresso das ciências no Ocidente cristão não é uma casualidade. Somente é possível ciência onde existe fé em um Deus cujo conselho de predestinação introduz uma lei e uma ordem totais no Universo. Isso é muito difícil de ser sustentado sem indícios da cosmovisão judaico-cristã.


O homem e a sua unidade


Ao ensinar, é importante ver a unidade do ser do homem. Ele é totalmente uma criatura de Deus, e é uma unidade de fé e ação. A Bíblia fala do coração ou alma do homem como centro do seu ser, como núcleo da sua consciência, autoconhecimento e pensamento. Dele (o coração), emanam os caminhos da vida (Pv 4.23), quer sejam bons ou maus. O paganismo sustenta uma visão dualista do homem e, algumas vezes, uma visão tripartida. No pensamento grego, a mente e o corpo do homem eram duas substâncias distintas e, portanto, alheias uma da outra. Assim, a virtude podia restringir-se a uma esfera. O conflito do homem era metafísico, antes de ser moral.

A doutrina do “crente carnal”, uma visão extremamente perniciosa, sustenta que o homem pode ser salvo mesmo sem mostrar frutos de justiça ou do Espírito. A tendência do paganismo pode ser resumida no provérbio popular, que diz: “Não se pode julgar o coração”. Isso pressupõe que a alma e o corpo do homem são dois ambientes alheios um do outro. Mas, o nosso Senhor esclarece que o homem se dá a conhecer e há de ser julgado por seus feitos, assim como uma árvore é conhecida por seus frutos (Mt 7.16-20). Se não possuirmos uma visão unificada do homem, cairemos com facilidade, não só nessa doutrina do “crente carnal”, mas, também, no antinomismo, que vê na Bíblia dois planos de salvação, um “progresso” do material ao espiritual, e da lei para a graça, embora, na Escritura, a salvação sempre seja pela graça, sendo o “material” e o “espiritual” realidades igualmente criadas por Deus, ambas caídas, e ambas redimidas, e tanto a lei como a graça são básicas ao ser e ao plano de Deus, de modo que receber a graça é deleitar-se na lei de Deus.


A perspectiva deve ser teológica


Nossa perspectiva deve ser determinada pela teologia e não pela biologia. O homem é produto, não da biologia, mas da palavra criativa de Deus. Isso significa que a determinação teológica é anterior à biologia, e que o determinismo biológico não tem validez. Assim, a perspectiva moderna encara a adolescência com sua fase tempestuosa, tensa, rebelde e pretensamente independente como realidades biologicamente determinadas e naturais para o homem. Todavia, de fato, a adolescência é um produto cultural, a marca distintiva de uma cultura decadente, e é quase desconhecida na história da civilização fora da era moderna. Na maioria das culturas, o que chamamos “adolescência” é mais um tempo de imitação cuidadosa e atenta dos adultos e da geração mais velha. Os jovens, ingressando na vida madura e no trabalho, estão preocupados em aproximar-se cada vez mais do mundo dos adultos e, com isso, serem aceitos por eles. Em lugar de se rebelarem contra a geração adulta, os jovens buscam ingressar e se iniciar no mundo dos adultos. Foi somente porque o existencialismo coroou o isolamento e a independência radical que os jovens associam a chegada da maturidade física com uma declaração de guerra e independência. Simplesmente, estão representando, assim, o rito necessário de “confirmação” religiosa do mundo moderno. O jovem cristão é confirmado na fé de seus pais na medida em que se aproxima da maturidade; o rito de confirmação do jovem humanista é a adolescência e sua rebeldia ou existencialismo.


Disciplina não é castigo


A disciplina é fundamental para a educação cristã, porém, não se deve confundi-la com castigo. A raiz do termo “disciplina” é discípulo, e o verdadeiro ensino faz da criança um discípulo feliz e entusiasmado de Cristo, apto para aprender porque é importante e necessário que ele se empenhe completamente no serviço de Deus. O castigo é um recurso último, embora necessário. A verdadeira disciplina é positiva. O castigo é negativo. A disciplina estabelece metas, padrões, exigências, provas e medidas. A disciplina cria uma motivação e um relógio internos, de modo que a vida da criança se torna progressivamente uma vida disciplinada, e a disciplina se torna parte natural da vida da criança. A disciplina cria uma relação vital entre a fé e os hábitos, de modo que a fé do indivíduo se converte em uma fé disposta e ativa.


A educação deve ser teocêntrica


A educação é, por necessidade, não somente teológica por natureza, mas, também, teocêntrica. Ou seja, está centrada em Deus, porque Deus, como Senhor, requer que todas as coisas o sirvam. O Catecismo Menor de Westminster nos diz que “o fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo eternamente”. Todas as áreas da vida e pensamento devem estar alinhadas com esse propósito e, especialmente, a educação. A educação humanista tem como fim glorificar o homem e capacitá-lo, para que desfrute a si mesmo. Isso é algo que sempre estará fadado ao fracasso. A educação cristã não pode ser educação secular com um pouquinho de Bíblia. Não se adiciona a Bíblia a um currículo pronto. A Bíblia deve estabelecer, governar e condicionar o currículo, ou não teremos uma educação cristã.


Fonte:

The Philosophy of the Christian Curriculum, p.162-4.

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