Defesa da Fé


O surgimento da apologética moderna


Por Kean Boa e Robert Bowman

Tradução de Elvis Brassaroto Aleixo


O trabalho apologético de Butler, na obra intitulada A analogia da religião, foi largamente considerado uma obra fundamental para responder aos desafios da religião natural apregoada pelos deístas em sua época. Entretanto, a apologética cristã foi forçada a se “reinventar” com o advento do Iluminismo. O ceticismo do filósofo escocês David Hume (1711-1776) preparou o caminho para o Iluminismo, que rejeitou as prerrogativas de qualquer tipo de revelação, de religião natural ou de teologia natural e declarou a “autonomia da razão humana”. Hume convenceu a muitos de que o argumento teleológico, o argumento dos milagres e outros argumentos clássicos da apologética cristã eram insuficientes. O filósofo iluminista alemão Immanuel Kant (1724-1804), que confessou ter sido despertado de seu “sono dogmático” pelos escritos de Hume, igualmente criticou os argumentos cosmológico e ontológico acerca da existência de Deus.

Essas sucessivas ondas de ataques ao cristianismo forçaram os cristãos ortodoxos a desenvolver uma apologética mais refinada e, especialmente, dirigida ao ceticismo. Esse esforço variou de acordo com as convicções teológicas, com a cosmovisão filosófica dos apologistas e, também, com o conteúdo-alvo das críticas ceticistas.

Um dos primeiros apologistas a responder aos ataques de Hume foi William Paley (1743-1805), pesquisador que sistematizou as evidências dos argumentos em duas obras: Uma visão sobre as evidências do cristianismo e Teologia natural. Esta última constitui-se em uma apresentação clássica do argumento teleológico. Paley, habilmente, multiplicou as ilustrações e os argumentos em favor de um designer inteligente e das evidências dos milagres. Entretanto, o vigor de sua apologia foi severamente enfraquecido com a ascensão da biologia do século 19. A origem das espécies (1958), de Charles Darwin, ofereceu uma explanação naturalística para a ordem e a diversidade da vida, encorajando muitos ocidentais a abandonar a crença num Deus criador. Paley também defendeu a reabilitação dos escritos do Novo Testamento. Neste século, essa apologética histórica, centrada no Novo Testamento e baseada na vida, na morte e, especialmente, na ressurreição de Jesus, foi ao encontro dos trabalhos apologéticos de Richard Whately e Simon Greenleaf.

Outro contemporâneo um pouco mais velho que Paley foi Thomas Reid (1710-1796), um calvinista escocês que desenvolveu a filosofia que ficou mais tarde conhecida como “realismo de senso comum”. A filosofia de Reid e a de Paley foram, em grande parte, uma resposta ao conterrâneo Hume. Considerando que Hume era um cético, não apenas em relação aos milagres e à existência de Deus, mas também em relação à causa e efeito e à objetividade do certo e do errado, Reid sustentou que o conhecimento de todas essas coisas era uma simples questão de senso comum. Segundo Reid, os filósofos que questionavam essas coisas acabavam deixando a teoria obscurecer o que era óbvio e admitido por todos. O conhecimento humano sobre causa e efeito ou certo e errado é evidente por si mesmo, sendo um aspecto inalterável de nossa constituição como criaturas de Deus, independente de reconhecermos ou não a sua existência.

A epistemologia de Reid (ou sua teoria sobre o conhecimento) foi dominante no Seminário Teológico de Princeton no século 19 e início do século 20. Os acadêmicos mais antigos desse seminário afirmavam que alguém poderia arguir a verdade da revelação cristã a partir de certas pressuposições de senso comum sobre a natureza da verdade, da razão, da moralidade e do mundo.

Charles Hodge (1797-1878), o teólogo calvinista mais famoso da velha Princeton, defendia que, apesar de a razão precisar submeter-se à revelação de Deus nas Escrituras, era fundamental, antes, discernir se as Escrituras eram mesmo a revelação de Deus. Os não cristãos deveriam ser convidados a usar a razão e o senso comum para julgar as evidências do cristianismo (milagres, profecias cumpridas, etc.). Hodge também defendeu a validade do argumento mais tradicional sobre a existência de Deus e recomendou os trabalhos de Butler e Paley.

Um dos últimos professores de Princeton, antes de sua reorganização e adesão à teologia liberal, B. B. Warfield (1851-1921), deu continuidade à abordagem apologética de Hodge. O propósito da apologética de Warfield era, em primeiro lugar, combater um cristianismo liberal destituído do sobrenatural e da crença em Deus e, em segundo lugar, defender o cristianismo como um todo.

No século 19, os esforços dos pensadores cristãos europeus em defender a fé cristã estavam direcionados, de maneira concentrada, para os filósofos Kant e Hegel. Na Dinamarca, Sore Kierkegaard (1818-1855) denunciou veementemente a frieza do luteranismo ortodoxo confessional e o sistema abstrato que permeava a filosofia de Hegel. Kierkegaard convocou os cristãos a se apartarem das confissões de fé meramente intelectuais e a acreditarem, de maneira emotiva, racional e pessoal, em Cristo. Os fragmentos de sua obra póstuma rejeitam as provas teístas tradicionais e os argumentos em favor da deidade, por estarem presos a uma abordagem estritamente racional.

Algum tempo depois, o teólogo escocês James Orr (1844-1913) também se levantou para responder ao desafio iluminista. Orr foi um dos primeiros apologistas a apresentar o cristianismo como uma cosmovisão, defendendo que o peso das evidências de vários séculos fundamentava a visão cristã sobre Deus e o mundo.

Na Holanda, um contemporâneo de Orr, o teólogo calvinista Abraham Kuyper (1837-1920), desenvolveu a noção de antítese. Segundo Kuyper, existe uma antítese absoluta a dois tipos de princípios com os quais cristãos e não cristãos estão fundamentalmente comprometidos: Deus, como soberano e o homem, como autônomo. Em resumo, os cristãos e os não cristãos são incapazes de fitar os olhos no problema central. Os não cristãos são incapazes de verificar ou testar a revelação de Deus nas Escrituras porque, partindo do princípio de que elas são a Palavra de Deus, seus ensinamentos precisam ser aceitos como princípios primários e norteadores de tudo, antes de qualquer verificação. Por outro lado, o cristianismo não consegue convencer os não cristãos com base em argumentos filosóficos e evidências históricas, porque isso, de per si, já pressupõe alguns princípios cristãos. Não pode haver senso comum ou neutro entre cristãos e não cristãos. Segundo esse ponto de vista, a apologética tradicional precisaria ser abandonada. De maneira negativa, os apologistas cristãos deveriam procurar expor a raiz religiosa cristã que está por trás de todo pensamento não cristão. De maneira positiva, os cristãos deveriam tentar modelar a verdade cristã ao mundo, reconstruindo a sociedade de acordo com os princípios bíblicos.

As ideias de Kuyper foram mais bem desenvolvidas pelas filosofias de outros pensadores, entre eles, o renomado Herman Dooyeweerd (1894-1977). De acordo com Dooyeweerd, a apologética tradicional, especialmente aquela desenvolvida por Tomás de Aquino, baseou-se num dualismo não bíblico entre a natureza e a graça, ou seja, entre o que pode ser conhecido pelos não cristãos por meio da natureza e da razão e entre aquilo que pode ser conhecido somente pela revelação graciosa de Deus por meio da fé. A tarefa do filósofo cristão seria recomendar a cosmovisão cristã enquanto apresenta a inadequação das outras cosmovisões para prover um fundamento seguro do conhecimento e da ética.

Outro pensador cristão influenciado por Kuyper foi Corneliu Van Til (1895-1987), professor de apologética do Seminário Teológico de Westminster. A abordagem de Van Til foi essencialmente uma criativa síntese daquilo que defendia a velha guarda de Princeton e a filosofia apologética de Kuyper. Van Til concordava com a teoria do realismo de senso comum ensinada pela velha guarda de Princeton sobre a percepção, a lógica e os valores morais. Também, acreditava, tal como os princetonianos antigos, que a apologética deveria oferecer provas favoráveis à posição cristã. Mas, Van Til fundiu essa posição com a doutrina da antítese formulada pela filosofia de Kuyper.

O argumento do realismo de senso comum de Thomas Reid tinha assegurado aos não cristãos viver num universo criado por Deus e operar com base nas pressuposições cristãs, independente de eles reconhecerem ou não esse fato. Para os velhos princetonianos, isso significava que os cristãos podiam apelar para essas pressuposições compartilhadas por meio de argumentos apologéticos tradicionais. No pensamento de Van Til, contudo, o grande erro da apologética tradicional foi usar argumentos racionais que concluíam que as doutrinas do cristianismo eram “provavelmente” verdadeiras. Van Til entendia que o tratamento probabilístico apresentado por esses argumentos, que prevaleceu na apologética desde a obra de Butler, diminuía a certeza da fé e da autoridade absoluta das Escrituras, como Palavra escrita por Deus. Em substituição a esses argumentos, Van Til ensinava os cristãos apologistas a discutirem com base em pressuposições. Essa abordagem apologética tem duas etapas. A primeira é mostrar que os sistemas não cristãos de pensamento são incapazes de responder à racionalidade e à moralidade, caindo mesmo num irracionalismo. A segunda etapa é apresentar a visão cristã como a única pressuposição possível para pensar e viver. Segundo Van Til, essa abordagem seria o único método apologético legítimo.

Enquanto Van Til, na Filadélfia, ensinava sua versão da apologética baseada nessas pressuposições, do outro lado do Atlântico, o apologista cristão mais popular do século 20 trabalhava em rádios e escrevia livros na Inglaterra. C. S. Lewis (1898-1963) foi um acadêmico especialista em literatura medieval que se converteu ao cristianismo na metade de sua vida. Seus trabalhos apologéticos incluíram: O problema do sofrimento (que trata da reconciliação com o sofrimento humano e um Deus bondoso), Cartas de um diabo ao seu aprendiz (instruções de um diabo experiente a um demônio sobre a “arte da tentação”), Milagres (em defesa da crença em milagres), e Cristianismo puro e simples (em defesa da crença em Deus e em Cristo).

Lewis insistia no fato em que o cristianismo se baseava em evidências racionais e em que, uma vez que uma pessoa abraçasse a fé cristã, o verdadeiro resultado dessa fé deveria ser crer a despeito das evidências contrárias ao cristianismo, até que isso pudesse ser superado com as respostas necessárias. Entre os argumentos mais populares desenvolvidos por Lewis, está o seu tripé lógico. A saber: uma vez que Jesus reivindicou ser Deus, diante disso, uma pessoa poderia: 1) rejeitá-lo como mentiroso; 2) desdenhá-lo como sendo um lunático; 3) aceitá-lo como Senhor. Como as duas primeiras alternativas contradizem a sinceridade e a sanidade de Cristo, os não crentes deveriam concluir que Jesus é realmente o Senhor. Os escritos de Lewis exerceram influência imensa na apologética cristã. Entre os apologistas contemporâneos que mais receberam tal influência, encontra-se o filósofo católico Peter Kreeft, cuja articulação do evangelho é surpreendentemente ortodoxa.

Na próxima edição, enfim, encerraremos essa sequência de estudos sobre a história da apologética, finalizando com nomes como Karl Barth, Bernard Ramm, Donald Bloesch, Gordon Clark, Edward John Carnell e Norman Geisler. Entre outros.

Curso Teologia Online Bíblia Apologética com Apócrifos Curso Básico de Teologia Série Apologética Curso Médio de Teologia Bíblia Apologética com Apócrifos Curso Bacharel de Teologia Série Apologética

ICP - Instituto Cristão de Pesquisas © Todos os direitos reservados. 2017