Defesa da Fé


A teologia da tragédia


Onde está Deus quando uma catástrofe acontece?


Por Augustus Nicodemus Lopes

Mestre em Novo Testamento pela Universidade Reformada de Potchefstroom (África do Sul) e doutor em interpretação bíblica pelo Seminário Teológico de Westminster (EUA)


É preocupante a maneira como alguns cristãos estão querendo entender as catástrofes e tragédias que os jornais têm noticiado nos últimos dias. Revoltam-se com o fato de que centenas de pessoas boas, desprevenidas, cidadãos de bem, foram apanhadas numa tragédia e morreram de forma terrível, deixando para trás famílias, filhos, entes queridos. Perguntam-se, em grande aflição: “Onde estava Deus quando tudo isso aconteceu?”.

Entendemos essa preocupação com o dilema moral que as tragédias representam quando vistas com base no conceito cristão histórico e tradicional de Deus. Se Deus é pessoal, soberano, Todo-Poderoso, onisciente, amoroso e bom, como, então, podemos explicar as tragédias, as calamidades, as doenças, os sofrimentos que atingem bons e maus ao mesmo tempo?

Tentando responder a essa pergunta, desenvolveu-se, em nosso meio, a teologia do processo, ou teologia relacional, também conhecida como “teísmo aberto”. A seguir, refletiremos sobre essa corrente teológica e suas implicações.


A fragilidade do teísmo aberto


A teologia relacional, como movimento, teve início em décadas recentes, embora seus conceitos sejam bem antigos. Ela ganhou popularidade por meio de escritores norte-americanos como Greg Boyd, John Sanders e Clark Pinnock. No Brasil, essas idéias têm sido assimiladas e difundidas por alguns líderes evangélicos, às vezes, de forma aberta e explícita.

A teologia relacional considera a concepção tradicional de Deus inadequada, ultrapassada e insuficiente para explicar a realidade, especialmente catástrofes, como, por exemplo, o tsunami de março de 2011, e se apresenta como uma nova visão sobre Deus e sua maneira de se relacionar com a criação. Seus pontos principais podem ser resumidos da seguinte forma:

1. O atributo mais importante de Deus é o amor. Todos os demais estão subordinados a esse. Isso significa que Deus é sensível e se comove com os dramas de suas criaturas.

2. Deus não é soberano. Só pode haver real relacionamento entre Deus e suas criaturas se estas tiverem, de fato, capacidade e liberdade para cooperar ou contrariar os desígnios últimos de Deus. Deus abriu mão de sua soberania para que isso ocorresse. Portanto, Deus é incapaz de realizar tudo o que deseja, como impedir tragédias e erradicar o mal. Contudo, Ele acaba se adequando às decisões humanas e, ao final, vai obter seus objetivos eternos, pois redesenha a história de acordo com essas decisões.

3. Deus ignora o futuro, pois Ele vive no tempo e não fora dele. Deus aprende com o passar do tempo. O futuro é determinado pela combinação do que Deus e suas criaturas decidem fazer. Nesse sentido, o futuro inexiste, pois os seres humanos são absolutamente livres para decidir o que quiserem e Deus não sabe antecipadamente que decisão determinada pessoa haverá de tomar em determinado momento.

4. Deus se arrisca. Ao criar seres racionais livres, Deus estava se arriscando, pois não sabia qual seria a decisão dos anjos e de Adão e Eva. E continua a se arriscar diariamente. Deus corre riscos porque ama suas criaturas, respeita a liberdade delas e deseja relacionar-se com elas de forma significativa.

5. Deus é vulnerável. Ele é passível de sofrimento e de erros em seus conselhos e orientações. Em seu relacionamento com o homem, seus planos podem ser frustrados. Ele se frustra e expressa esta frustração quando os seres humanos não fazem o que Ele gostaria.

6. Deus muda. Ele é imutável apenas em sua essência, mas muda de planos e até mesmo se arrepende de decisões tomadas. Ele muda de acordo com as decisões de suas criaturas, ao reagir a elas. Os textos bíblicos que falam do arrependimento de Deus não devem ser interpretados de forma figurada. Eles expressam o que realmente acontece com Deus.

Esses conceitos sobre Deus decorrem da lógica adotada pela teologia relacional quanto ao conceito da liberdade plena do homem, que é o ponto doutrinário central da sua estrutura, a sua “menina dos olhos”. De acordo com a teologia relacional, para que o homem tenha realmente pleno livre-arbítrio, suas decisões não podem sofrer qualquer tipo de influência externa ou interna. Portanto, Deus não pode ter decretado essas decisões, e muito menos tê-las conhecido antecipadamente.

Dessa forma, a teologia relacional rejeita não somente o conceito de que Deus preordenou todas as coisas (calvinismo) como também o conceito de que Deus sabe todas as coisas antecipadamente (arminianismo tradicional).

Nesse sentido, o assunto deve ser entendido não como uma discussão entre calvinistas e arminianos, mas uma discussão dos dois sobre a teologia relacional. Vários líderes calvinistas e arminianos, em todo o mundo, têm considerado essa visão da teologia relacional alheia ao cristianismo.

A teologia relacional traz um forte apelo a alguns evangélicos, pois diz que Deus está mais próximo de nós e se relaciona mais significativamente conosco do que tem sido apresentado pela teologia tradicional.

Segundo os teólogos relacionais, o cristianismo histórico tem apresentado um Deus impassível, que não se sensibiliza com os dramas de suas criaturas. A teologia relacional, por sua vez, pretende apresentar um Deus mais humano, que constrói o futuro mediante o relacionamento com suas criaturas. Os seres humanos são, dessa forma, co-participantes com Deus na construção do futuro, podendo, na verdade, determiná-lo por suas atitudes.

Contudo, a teologia relacional não é novidade. Ela tem raízes em conceitos antigos de filósofos gregos: no socinianismo (que negava exatamente que Deus conhecia o futuro, pois atos livres não podem ser preditos) e, especialmente, nas ideologias modernas, como a teologia do processo. O que ela tem de novo é que virou um movimento teológico composto de escritores e teólogos que se uniram em torno dos pontos comuns e estão dispostos a persuadir a Igreja cristã a abandonar seu conceito tradicional de Deus e a convencê-la de que essa “nova” visão de Deus é evangélica e bíblica.

Mesmo tendo surgido como uma reação a uma possível ênfase exagerada na impassividade e transcendência de Deus, a teologia relacional acaba sendo um problema para a Igreja evangélica, especialmente em seu conceito sobre Deus. Embora os evangélicos tenham divergências em algumas questões, reformados, arminianos, wesleyanos, pentecostais, tradicionais, neopentecostais, entre outros, todos concordam, no mínimo, que Deus conhece todas as coisas, que é onipotente e soberano.

Entretanto, o Deus da teologia relacional é totalmente diferente do Deus da teologia cristã. Não se pode afirmar que os adeptos da teologia relacional não são cristãos, mas, sim, que o conceito que eles têm de Deus é, no mínimo, estranho ao cristianismo histórico.

Ao declarar que o atributo mais importante de Deus é o amor, a teologia relacional perde o equilíbrio entre as qualidades de Deus apresentadas na Bíblia, entre as quais o amor é apenas uma delas.

Ao dizer que Deus ignora o futuro, é vulnerável e mutável, deixa sem explicação adequada dezenas de passagens bíblicas que falam da soberania, do senhorio, da onipotência e da onisciência de Deus (Is 46.10a; Jó 28; Jó 42.2; Sl 90; Sl 139; Rm 8.29; Ef 1; Tg 1.17; Ml 3.6; Gn 17.1, entre outros).

Ao dizer que Deus não sabia qual seria a decisão de Adão e Eva no Éden, e que, mesmo assim, arriscou-se em criá-los com livre-arbítrio, a teologia relacional transforma Deus em um ser irresponsável.

Ao falar do homem como co-construtor de Deus de um futuro que inexiste, a teologia relacional esquece tudo o que a Bíblia ensina sobre a queda e a corrupção do homem.

Ao fim, parece-nos que, na tentativa extrema de resguardar a plena liberdade do arbítrio humano, a teologia relacional está disposta a sacrificar a divindade de Deus. Ao limitar sua soberania e seu pleno conhecimento, entroniza o homem livre, todo-poderoso, no trono do Universo e, dessa forma, deixa-nos o desespero como única alternativa diante das tragédias e catástrofes deste mundo e o ceticismo como única atitude diante da realidade do mal no Universo, roubando-nos o final feliz prometido na Bíblia. Pois, afinal, poderá este Deus ignorante, fraco, mutável, vulnerável e limitado cumprir tudo o que prometeu?


A queda do homem e o caráter de Deus


Cremos que qualquer tentativa que um cristão que crê que a Bíblia é a Palavra de Deus faça para entender as tragédias, os desastres, as catástrofes e muitos outros males que sobrevêm à humanidade não pode deixar de levar em consideração dois componentes da revelação bíblica, que são a realidade da queda moral e espiritual do homem e o caráter santo e justo de Deus.

Lemos, em Gênesis 1–3, que Deus criou o homem, macho e fêmea, à sua imagem e semelhança, e que os colocou no jardim do Éden com o mandamento para que não comessem do fruto proibido. O texto relata como eles desobedeceram a Deus, seduzidos pela astúcia e tentação de Satanás, e decaíram assim do estado de inocência, retidão e pureza em que haviam sido criados. As conseqüências, além da queda daquela retidão com que haviam sido criados, foram a separação de Deus, a perda da comunhão com Ele e a corrupção por inteiro de suas faculdades, como, por exemplo, vontade, entendimento, emoções, consciência e arbítrio. Pior de tudo: ficaram sujeitos à morte, tanto espiritual, que consiste na separação de Deus, como a física e a eterna, sendo, esta última, a separação de Deus por toda a eternidade.

Esse fato, que chamamos de “queda,” afetou não somente Adão e Eva, antes, trouxe conseqüências terríveis a toda a sua descendência, isto é, à humanidade que deles procede, pois eles, Adão e Eva, eram o tronco e a cabeça da raça humana. Em outras palavras, a culpa deles foi imputada por Deus aos seus filhos, e a corrupção de sua natureza foi transmitida por geração ordinária a todos os seus descendentes.

Desde cedo na história da Igreja cristã, essa doutrina, que tem sido chamada de “pecado original”, foi questionada por pessoas como Pelágio, que afirmava que o pecado de Adão e Eva afetou somente a eles mesmos, e que seus filhos nasciam isentos, neutros, sem pecado, sem culpa e sem corrupção inata. Tal idéia foi habilmente rechaçada por homens como Agostinho, Lutero, Calvino e muitos outros, que demonstraram claramente que o ensino bíblico é o que chamamos de “depravação total e transmitida”, “culpa imputada” e “corrupção herdada”. As conseqüências práticas para nós, hoje, são terríveis. Por causa dessa corrupção inata, com a qual já nascemos, somos totalmente indispostos para com as coisas de Deus; somos, por natureza, inimigos de Deus e, portanto, filhos da ira. É dessa natureza corrompida que procedem os nossos pecados, as nossas transgressões, as nossas desobediências e as nossas revoltas contra Deus e sua Palavra.

Agora, chegamos ao ponto crucial e mais relevante ao nosso assunto. Entendemos que a Bíblia deixa claro que os nossos pecados, tanto o original quanto os pecados atuais que cometemos, por serem transgressões da lei de Deus, nos tornam culpados e, portanto, sujeitos à ira justa de Deus, à sua justiça retributiva, pela qual Ele trata o pecador de acordo com o que o pecador merece. Ou seja, a humanidade inteira, sem exceção — visto que não há um único justo, um único que seja inocente e sem pecado — está sujeita ao justo castigo de Deus, o que inclui (atenção!) a morte, as misérias espirituais, temporais (no qual se enquadram as tragédias, as calamidades, os desastres, as doenças e os sofrimentos) e as misérias espirituais (que a Bíblia chama de morte eterna, inferno, lago de fogo, etc.).


As determinações de Deus


A Bíblia revela, com muita clareza e sem a menor preocupação de deixar Deus sujeito à crítica de ser cruel, déspota e injusto, que Ele mesmo é quem determinou tragédias e calamidades sobre a raça humana, como parte das misérias temporais causadas pelo pecado original e as transgressões atuais. Isto, é claro, se acreditarmos realmente que a Bíblia é a Palavra de Deus e não uma coleção de idéias, lendas, sagas, mitos e histórias politicamente motivadas e destinadas a justificar seus autores.

De acordo com a Bíblia:

1. Foi Deus quem condenou a raça humana à morte no jardim: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (cf. Gn 2.17 com Hb 9.27).

2. Foi Deus quem determinou a catástrofe do dilúvio, que aniquilou a raça humana, com exceção da família de Noé: “Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne em que há espírito de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará” (cf. Gn 6.17 com Mt 24.39 e 2Pe 2.5).

3. Foi Deus quem destruiu Sodoma, Gomorra e outras cidades da região com fogo caído do céu: “Então, o Senhor fez chover enxofre e fogo, do SENHOR desde os céus, sobre Sodoma e Gomorra; e destruiu aquelas cidades e toda aquela campina, e todos os moradores daquelas cidades, e o que nascia da terra” (Gn 19.24,25).

4. Foi Deus quem levantou e enviou os caldeus contra a nação de Israel e demais nações ao redor do Mediterrâneo, os quais mataram mulheres, velhos e crianças e fizeram prisioneiros de guerra: “O Senhor levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço; e comerá o fruto dos teus animais, e o fruto da tua terra, até que sejas destruído; e não te deixará grão, mosto, nem azeite, nem crias das tuas vacas, nem das tuas ovelhas, até que te haja consumido; e sitiar-te-á em todas as tuas portas, até que venham a cair os teus altos e fortes muros, em que confiavas em toda a tua terra; e te sitiará em todas as tuas portas, em toda a tua terra que te tem dado o Senhor teu Deus” (Dt 28.49-52; Hc 1.6-11).

5. Foi Deus quem levantou e enviou contra Israel povos vizinhos para saquear, matar e fazer prisioneiros: “E o Senhor enviou contra ele as tropas dos caldeus, as tropas dos sírios, as tropas dos moabitas e as tropas dos filhos de Amom; e as enviou contra Judá, para o destruir, conforme a palavra do Senhor, que falara pelo ministério de seus servos, os profetas” (2Re 24.2; 2Cr 36.17; Jr 1.15,16).

6. Foi Deus quem ameaçou Israel com doenças, pestes, fomes, carestia, seca e pragas caso se desviassem dos seus caminhos. O texto é extenso, mas é muito forte e merece a leitura: “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do Senhor teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições, e te alcançarão [...] O Senhor fará pegar em ti a pestilência, até que te consuma da terra a que passas a possuir. O Senhor te ferirá com a tísica e com a febre, e com a inflamação, e com o calor ardente, e com a secura, e com crestamento e com ferrugem; e te perseguirão até que pereças [...] E o teu cadáver servirá de comida a todas as aves dos céus, e aos animais da terra; e ninguém os espantará [...] e todas estas maldições virão sobre ti, e te perseguirão, e te alcançarão, até que sejas destruído; porquanto não ouviste a voz do Senhor teu Deus, para guardares os seus mandamentos, e os seus estatutos, que te tem ordenado” (Dt 28.15-45).

7. Foi Deus quem enviou as dez pragas contra o Egito, ferindo, matando e trazendo sofrimento a milhares de egípcios, inclusive matando os seus primogênitos: “Então, disse o Senhor a Moisés: Levanta-te pela manhã cedo, e põe-te diante de Faraó, e dize-lhe: Assim diz o Senhor Deus dos hebreus: Deixa ir o meu povo, para que me sirva; porque esta vez enviarei todas as minhas pragas sobre o teu coração, e sobre os teus servos, e sobre o teu povo, para que saibas que não há outro como eu em toda a terra” (Êx 9.13,14).

8. Foi o próprio Jesus quem revelou a João o envio de catástrofes futuras sobre a raça humana, como castigos de Deus, próximos da vinda do Senhor, conforme o livro de Apocalipse, tais como guerras, fomes, pestes, pragas, doenças (Ap 6–9), entre outros: “Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares” (Mt 24.7).

9. Foi o próprio Jesus quem profetizou a chegada de guerras, fomes, terremotos, epidemias (Lc 21.9-11) e a destruição de Jerusalém, que Ele chamou de “dias de vingança” de Deus contra o povo que matou o seu Filho, nos quais até mesmo as grávidas haveriam de sofrer: “Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; os que estiverem no meio da cidade, saiam; e os que estiverem nos campos não entrem nela. Porque dias de vingança são estes, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas. Mas ai das grávidas, e das que criarem naqueles dias! porque haverá grande aperto na terra, e ira sobre este povo. E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem. E haverá sinais no sol e na lua e nas estrelas; e na terra angústia das nações, em perplexidade pelo bramido do mar e das ondas. Homens desmaiando de terror, na expectação das coisas que sobrevirão ao mundo; porquanto as virtudes do céu serão abaladas” (Lc 21.20-26).

10. E, por fim, foi Deus quem já decretou a catástrofe final, a destruição do mundo presente, por meio do fogo, no dia do juízo final: “Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios [...] Mas, o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão. Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato, e piedade, aguardando, e apressando-vos para a vinda do dia de Deus, em que os céus, em fogo se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?” (2Pe 3.7,10-12).

Isso não significa, na Bíblia, que o sofrimento das pessoas é sempre causado por uma culpa individual e específica. Há casos, sim, em que as pessoas foram castigadas com sofrimentos temporais em virtude de pecados específicos que cometeram, como, por exemplo, o rei Uzias, que foi ferido de lepra por causa de seu pecado: “Então Uzias se indignou; e tinha o incensário na sua mão para queimar incenso. Indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, a lepra lhe saiu à testa perante os sacerdotes, na casa do Senhor, junto ao altar do incenso” (2Cr 26.19. Cf., também, o caso de Miriã, em Nm 12.10).

O rei Davi perdeu um filho por causa de seu adultério: “Todavia, porquanto com este feito [o adultério] deste lugar sobremaneira a que os inimigos do Senhor blasfemem, também o filho que te nasceu certamente morrerá” (2Sm 12.14). Mas, em muitos outros casos, as tragédias, as catástrofes, as doenças e os sofrimentos não se devem a um pecado específico, mas fazem parte das misérias temporais que sobrevêm a toda a raça humana por conta do estado de pecado e culpa em geral em que todos nós nos encontramos.


A pedagogia de Deus


Deus traz essas misérias e castigos para despertar a raça humana, para provocar o arrependimento, para refrear o pecado do homem, para incutir-lhe temor de Deus, para desapegar o homem das coisas desta vida e levá-lo a refletir sobre as coisas vindouras. Veja, por exemplo, a reflexão atribuída a Moisés no Salmo 90, provavelmente escrito durante os quarenta anos de peregrinação no deserto. Veja frases como estas: “Tu reduzes o homem ao pó e dizes: Tornai, filhos dos homens [...] Tu os arrastas na torrente, são como um sono, como a relva que floresce de madrugada; de madrugada, viceja e floresce; à tarde, murcha e seca. Pois somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados. Diante de ti puseste as nossas iniqüidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos. Pois todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento...”.

Não devemos pensar que aquelas pessoas que ficam doentes, passam por tragédias, morrem em catástrofes — como as crianças de Realengo (bairro do RJ) ou os japoneses — eram mais pecadoras do que as demais ou que cometeram determinados pecados que lhes acarretou tal castigo. Foi o próprio Jesus quem ensinou isto quando lhe falaram do massacre dos galileus cometido por Pilatos e a tragédia da queda da torre de Siloé que matou dezoito: “E, naquele mesmo tempo, estavam presentes ali alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis. E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis” (Lc 13.1-5).

Jesus ensinou a mesma coisa no caso do cego relatado em João 9.3,4. Os seus discípulos levantaram o problema do sofrimento do cego com base em um conceito individualista de culpa, ponto que foi rejeitado por Jesus. A cegueira dele não se deveu a um pecado específico, quer dele, quer de seus pais. As pessoas nascem cegas, deformadas, morrem em tragédias e acidentes, perdem tudo o que têm em catástrofes, não necessariamente porque são mais pecadoras do que as demais, mas porque somos todos pecadores, culpados e sujeitos às misérias, castigos e males aqui neste mundo.

No caso do cego, Jesus disse que ele nascera assim “para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo 9.3). Sofrimento, calamidades e coisas afins não são somente um prelúdio do julgamento eterno de Deus; há também um tipo de sofrimento no qual Deus é glorificado por meio de Cristo em sua graça, e assim se torna, portanto, um exemplo e um prelúdio da salvação eterna. As tragédias servem para levar as pessoas a refletir sobre a temporalidade e fragilidade da vida, e para levá-las a refletir nas coisas espirituais e eternas. Muitos têm encontrado Deus no caminho do sofrimento.

O que eu quero dizer, meu amigo, é que, diante de catástrofes como o terremoto seguido de tsunami no Japão, devemos lembrar que eles ocorrem como parte das misérias e castigos temporais resultantes de nossas culpas, de nossos pecados, como raça pecadora que somos. Qualquer um de nós poderia ter sido uma vítima. Ou, alguém muito melhor e mais reto diante de Deus. Ainda assim, Deus não teria cometido qualquer injustiça, ainda que as cidades atingidas estivessem cheias dos melhores homens e mulheres que já pisaram a face da terra. Pois, mesmo estes são pecadores. Não existem inocentes diante de Deus, meu amigo. Pense nisso, antes de ficar indignado contra Deus diante do sofrimento humano.

Por último, precisamos deixar claro duas coisas para você. Primeira, que nada do que eu disse me impede de chorar com os que choram e sofrer com os que sofrem. Somos membros da mesma raça, e quando um sofre, sofremos com ele. Segunda, é preciso reconhecer que a revelação bíblica é suficiente, mas não exaustiva. Não temos todas as respostas para todas as perguntas que se levantam quando uma tragédias dessas acontece.

Com certeza, a visão tradicional de Deus, adotada pelo cristianismo histórico por séculos, não é capaz de responder exaustivamente a todos os questionamentos sobre o ser e os planos de Deus. Ela própria é a primeira a admitir esse ponto. Contudo, é preferível permanecer com perguntas não respondidas a aceitar respostas que contrariem conceitos claros das Escrituras. Como já havia declarado Jó há milênios (42.2,3): “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Quem é aquele, como disseste, que sem conhecimento encobre o conselho? Na verdade, falei do que não entendia; cousas maravilhosas demais para mim, coisas que eu não conhecia”.

Podemos não saber os motivos específicos de determinados males que nos assolam, mas consola-nos saber que Deus é justo, bom e verdadeiro, e que todas as suas obras são perfeitas e retas, e que nele não há engano. No mais, terminamos com um apelo aos nossos leitores para que estejam sempre prontos a ser chamados à presença de Deus a qualquer instante. Somente em Cristo encontramos perdão para os nossos pecados e reconciliação com Deus.


*Esta matéria é uma adaptação dos textos do autor, sobretudo, de uma carta fictícia, elaborada com a finalidade de responder aos anseios dos cristãos em face das tragédias ocorridas em nosso cotidiano (“Carta a Bonfim”) e de um artigo escrito com o intuito de apresentar e refutar a teologia relacional (“Um novo Deus no mercado”).

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