Defesa da Fé


Qumran - Os manuscritos do Mar Morto


Por Neemias Barros

O ceticismo secular induziu parcelas da humanidade a questionamentos que, se não desdenham, buscam, ao menos, pôr em xeque a autenticidade dos textos sagrados bíblicos.

O perfil do homem comum, não-cristão, retrata, naturalmente, a desesperança e o desinteresse pelo sagrado, na medida em que a religiosidade mundial, em qualquer de seus segmentos, repousa sobre escritos variados cujo objetivo é esclarecer às almas sobre a divindade. Daí a confusão criada em torno dos textos sagrados.

A Bíblia não sucumbiu a essa censura e, vitimada pelo crivo da crítica intelectual, resistiu vitoriosa a toda espécie de afronta, permanecendo ilesa diante das acusações de contradições textuais, anacronismos e demais mazelas peculiares ao homem.

Não obstante, a maior descoberta do século 20 ofuscou, sobremaneira, os olhares inquisidores dos críticos, devido à sua importância como documento trazido a lume e que ratificou os textos veterotestamentários, fortalecendo a idéia da legitimidade dos evangelhos canônicos. Estamos nos referindo aos manuscritos encontrados em cavernas situadas nas falésias de Qumran por dois jovens pastores beduínos que proporcionaram aos seus posteriores examinadores alegria e alento, sentimentos que se propagaram pelas comunidades teológicas cristãs no mundo todo.

No total, os manuscritos do Mar Morto são compostos de uma coleção de aproximadamente 242 textos bíblicos e 565 textos não-bíblicos, perfazendo um volume de, mais ou menos, 850 documentos encontrados entre 1947 e 1956 em onze cavernas próximas de Qumran, uma região a Noroeste do Mar Morto, em Israel, e escritos em hebraico, aramaico e grego, entre os séculos 2o a.C. e 1o d.C.

A importância desses é porque são, praticamente, os únicos documentos da Bíblia judaica escritos e preservados antes da Era Cristã e, também, porque podem explicar muito sobre o contexto político e religioso da época em que o cristianismo nasceu. Tais pergaminhos contêm pelo menos um fragmento de cada livro do cânon hebraico, com exceção do livro de Ester.


Por que os manuscritos são interessantes para os cristãos?


Antes do descobrimento dos rolos do Mar Morto, os manuscritos mais antigos das Escrituras hebraicas que chegaram até nós datavam dos séculos 9o e 10o da nossa era. Por isso, havia dúvidas sobre a autenticidade desses manuscritos como cópias fiéis dos textos originais, uma vez que a escrita das Escrituras hebraicas foi completada bem mais de mil anos antes.

Um dos rolos encontrados, e o que estava em melhor estado de conservação, era o que continha o livro de Isaías. Confrontado com os textos atuais do referido livro, o “Rolo de Isaías de Qumran” nos proporcionou uma prova irrefutável de que a transmissão dos textos bíblicos, durante um período de mais de mil anos que passou pelas mãos de copistas judeus, foi feita de forma extremamente fiel e cuidadosa.

Ao contrário do rolo de Isaías, a maioria dos outros pergaminhos encontrados é formada por fragmentos com menos de um décimo dos livros bíblicos. Descobriu-se também que os livros bíblicos mais populares em Qumran eram os Salmos, dos quais foram achados 36 exemplares; Deuteronômio (29 exemplares) e Isaías (21 exemplares). Não por acaso, esses livros são os mais citados nas Escrituras gregas cristãs.

Muito embora os rolos encontrados demonstrem claramente que a Bíblia não sofreu mudanças fundamentais em suas sucessivas cópias e traduções, também revelam, até certo ponto, que havia versões diferentes dos textos bíblicos hebraicos usados pelos judeus no período em que Cristo esteve na terra, cada uma dessas versões tinha suas próprias variações.

Constatou-se que nem todos os rolos encontrados seguiam o padrão do massorá, que é o conjunto de comentários críticos e gramaticais, soletração, vocalização, divisão em orações e parágrafos que deveria seguir a Bíblia hebraica. Esse padrão, criado por sábios judeus, chamados massoretas, entre os séculos 6o a 10o d.C., tinha o objetivo de determinar a forma correta do texto escrito, mantendo-lhe a pureza e evitando, assim, que houvesse alterações durante a sua transmissão.

De acordo com a descoberta, ficou esclarecido que algumas versões dos textos encontrados se aproximavam mais da Septuaginta grega, o que serviu para desfazer uma dúvida dos eruditos da Bíblia, que achavam que as diferenças na Septuaginta eram resultado de erros ou mesmo de invenções deliberadas dos tradutores. Os rolos revelaram, enfim, que muitas das diferenças se deviam a variações que já existiam no texto hebraico.

Foi desse modo que a descoberta dos manuscritos forneceu excelente base para o estudo das transmissões dos textos bíblicos hebraicos. Os rolos do Mar Morto dissiparam todas as dúvidas sobre o valor, tanto da Septuaginta como do Pentateuco, para a comparação textual.


A sociedade judaica no tempo de Cristo


Os manuscritos de Qumran colaboraram com a compreensão do contexto social da vida dos judeus no tempo em que Jesus pregava. Esse caldo cultural também é confirmado por Flávio Josefo que, em seus escritos, divide a sociedade religiosa judaica daquela época em três grupos: saduceus, fariseus e essênios. Vejamos um pouco sobre cada um deles:


Os saduceus

A história não relata a origem desta seita. Sabe-se apenas que os saduceus existiram nos últimos dois séculos do segundo templo judaico e que viviam em intensa discórdia com os fariseus. O nome parece proceder do hebraico, tsedukim, de Zadoque – família que detinha o cargo de sumo sacerdote desde a época de Salomão (1Rs 2.35) e, conforme o programa ideal da constituição de Ezequiel, deveria ser a única família a exercer o sacerdócio na nova Judéia.

Naquela época, dizer “saduceus” era o mesmo que dizer “pertencentes ao partido da estirpe sacerdotal dominante”. Fazendo parte, portanto, da aristocracia do templo, os saduceus defendiam a política expansionista dos Macabeus (grupo que estava no poder), a união da religião com o Estado e queriam que o sumo sacerdote governasse a nação.

Alegavam aceitar somente os cinco livros de Moisés, rejeitando os demais livros do Antigo Testamento. Ao contrário dos fariseus, não acreditavam em anjos, espíritos e muito menos em ressurreição (At 23.8). Tornaram-se inimigos mortais de Jesus, a ponto de se unirem aos fariseus, superando todos os obstáculos ideológicos, apenas para matá-lo.

Suas diferenças com os fariseus não se restringiam apenas ao campo dogmático, por não aceitarem a tradição oral. A rivalidade entre eles começou no tempo dos Macabeus. Os saduceus, pertencendo à classe dominadora, tinham contato com a cultura helênica e estavam inclinados a admitir algumas modificações em sua cultura, o que era considerado heresia pelos fariseus.

Com a queda de Jerusalém (70 d.C.), a seita dos saduceus se extinguiu, mas, apesar de suas doutrinas serem quase desconhecidas, por não terem chegado nenhum dos seus escritos aos nossos dias, suas marcas permanecem em todas as tendências anti-rabínicas dos primeiros séculos depois de Cristo.


Os fariseus

Do hebraico prushim, cujo significado é “separados”. Foi um nome dado a um grupo de judeus que surgiu no século 2o a.C. e que se separou do resto da população comum para se dedicar ao estudo da Torá e de suas tradições. Pertencentes à classe média urbana, representavam o povo, eram membros do Sinédrio e foram os criadores da instituição da sinagoga. Defendiam a separação entre o Estado e a religião e acreditavam que o Estado deveria ser regido pela Torá, a lei de Moisés.

Por suas posições ortodoxas, tornaram-se opositores dos saduceus, principalmente porque criaram uma “lei oral” que deveria ser ensinada em conjunto com a “lei escrita”. A destruição de Jerusalém, em 70 d.C., e a conseqüente perda do poder dos saduceus fez que crescesse ainda mais a influência do farisaísmo dentro da comunidade judaica e suas idéias e filosofias fizeram que fossem os precursores do judaísmo rabínico.

Eram inimigos implacáveis de Jesus, que atacava duramente seu orgulho, sua avareza, suas hipocrisias e, sobretudo, o perigo de crer que a salvação vem da lei. Os fariseus tiveram grande influência em Israel devido à sua condição de serem os principais mestres nas sinagogas onde ministravam o ensino religioso e político.

Com relação à sua doutrina, aceitavam a Torá escrita e as tradições da Torá oral; defendiam a unicidade do Criador e, em oposição aos saduceus, criam na ressurreição dos mortos, em anjos e demônios, no julgamento futuro e na vinda do rei Messias que libertaria o povo judeu.


Os essênios

Não são mencionados no Novo Testamento, pois viviam no deserto. Eram chamados issim, que em hebraico significa “os que curam”, ou hasidim, que pode ser traduzido para “piedosos”, “fiéis”. Tinham conhecimentos de medicina.

Decepcionados com a corrupção reinante em seus dias, e por não reconhecerem a autoridade do sumo sacerdote nem do culto no templo, os essênios, ao invés de formarem uma facção político-religiosa, como os fariseus e os saduceus, afastaram-se de Jerusalém e formaram uma comunidade monástica e ascética ao lado do Mar Morto.

Adeptos de idéias separatistas, os essênios se isolaram no deserto e passaram a levar um modo de vida metódico e com hábitos alimentares extremamente frugais. Trabalhavam, meditavam e esperavam a vinda do Messias; vestiam-se sempre de branco e sua comunidade estava sujeita a rígidas regras de purificação, dando extrema atenção ao asseio, o que os obrigava a tomar banho várias vezes ao dia.

Criaram uma sociedade na qual não havia divisões de classes e aboliram a escravidão. A hierarquia era estabelecida conforme o grau de “pureza espiritual” dos participantes da comunidade e os sacerdotes ocupavam o topo da ordem.

Após as descobertas dos manuscritos, em 1947, cresceu o interesse da comunidade religiosa em saber mais sobre a realidade da vida dos essênios. Como não são mencionados nos evangelhos, foi preciso consultar o que os escritores da época disseram sobre eles.

Flávio Josefo (37-100 d.C.), o mais importante escritor do início do cristianismo, descreve a existência de cerca de quatro mil membros desse grupo, espalhados por aldeias e povoações rurais. Assim escreve o historiador a respeito dos essênios: “A terceira seita, que aspira a uma disciplina mais severa, é chamada essênia. Os componentes dessa seita são judeus de nascimento e parecem ter maior afeição um pelo outro do que se vê entre as outras seitas. Esses essênios rejeitam os prazeres como um mal, mas consideram a continência e a vitória sobre as paixões como virtudes. Esses homens menosprezam as riquezas e são tão prontos a dividir que cultivam nossa admiração”.

O historiador romano Plínio, conhecido como “o Velho”, que viveu de 23 a 79 d.C., também deixou, em seus escritos, referências importantes sobre os essênios: “A Oeste do Mar Morto, os essênios puseram a necessária distância entre si mesmos e a praia insalubre. Constituem um povo único no gênero e admirável acima de todos os outros no mundo inteiro, sem mulheres e renunciando completamente o relacionamento amoroso, sem dinheiro, e tendo palmeira por companhia”.

Os essênios criaram comunidades em vários locais espalhados pela Judéia e a mais importante delas foi a da região do Mar Morto, conhecida como Qumran, que ficava, aproximadamente, quinze quilômetros de Jericó, onde 134 anos antes de Cristo havia sido levantado um complexo de construções conhecido como “Mosteiro de Khirbet Qumran”.

A região pode ser considerada uma das mais inóspitas da terra. O clima é extremamente seco e quente, cujas temperaturas chegam a variar entre 30 e 40 graus centígrados e quase não chove durante o ano e, por este motivo, o ar é tão quente e tão seco que a água evaporada do Mar Morto seca imediatamente no ar provocando um constante cheiro de enxofre.

O Mar Morto é assim conhecido por não se encontrar nenhuma forma de vida nele, nem peixes, nem plantas, nem algas marinhas. Devido ao calor, ele perde enormes quantidades de água pela evaporação. É considerado o lago mais salgado do mundo e em seu leito são encontrados dez vezes mais sal que nos outros mares.

Estabelecidos nesse local, os essênios sobreviveram até 68 d.C., quando um outro grupo judeu, conhecido como zelotes, insurgiu-se contra o domínio romano. A resposta de Roma foi uma devastadora investida de seu exército sobre a capital judaica. O cerco liderado por Tito, em 70 d.C., causou a ruína da Judéia e a destruição total de Jerusalém, inclusive do templo que fora reconstruído por Herodes.

Se Jerusalém, que era uma cidade fortificada, caiu, Qumran, que não era nenhuma fortaleza, foi presa fácil para as legiões de César. Os essênios, então, enrolaram cuidadosamente seus manuscritos em panos de linho, colocaram em jarros de barro com tampas e esconderam-nos nas cavernas da região. Todo esse trabalho visava proteger sua grande biblioteca do ataque da Décima Legião Romana que, sob o comando de Vespasiano, aproximava-se perigosamente da comunidade, o que de fato aconteceu em junho de 68 d.C., destruindo-a completamente.


A descoberta


Na primavera de 1947, acampara no deserto da Judéia, próximo ao litoral do Mar Morto, uma tribo semibeduína de nome Taamireh. Um jovem pastor dessa tribo, chamado Muhammad edh-Dhib, de alcunha “o lobo”, com apenas quinze anos de idade, pastoreava o rebanho de seu pai quando, ao final do dia, percebeu que lhe faltava uma cabra.

Ao procurar o animal desgarrado, Muhammad escalou os rochedos situados na margem ocidental do Mar Morto. Algum tempo depois, exausto da subida, resolveu descansar um pouco à sombra da saliência de uma rocha. Ao observar a região onde estava, aquele simples criador de cabras teve sua atenção voltada para uma cavidade escura e estreita situada em um dos lados da rocha. Aproximou-se daquela cavidade e descobriu que aquilo era uma gruta. Com alguma dificuldade, conseguiu jogar uma pedra para o interior daquele lugar misterioso e escuro. Ouviu um baque surdo. Apanhou outra pedra e a jogou. O som que ouviu o encheu de surpresa e medo. Alguma coisa se quebrara lá dentro, algo que poderia ser um jarro de barro ou um cântaro. Muhammad fugiu.

Havia um motivo para o medo do jovem pastor. Bem perto dali, a cerca de um quilômetro, ficava o cemitério e as ruínas de um antigo mosteiro conhecido como Khirbet Qumran, e os supersticiosos beduínos evitavam passar sozinhos por aquele lugar misterioso. Muhammad achou que aquela gruta era a morada de Sheitan, o “espírito mau do deserto”.

Esquecendo-se da cabra perdida, Muhammad voltou para sua tenda. À noite, relatou o ocorrido e suas impressões a um amigo mais velho e mais experiente, Ahmed Muhammad, que conseguiu dissuadi-lo do medo e, no dia seguinte, ambos voltaram ao local, desta vez munidos de cordas e armas, para fazerem a exploração no interior da caverna.

Ao entrarem naquele antro, encontraram, enfileirados junto à parede, oito vasos de barro, todos com a boca lacrada. Pensando ter achado um tesouro, os dois começaram a quebrar os vasos e, no interior de um deles, encontraram um embrulho cuidadosamente envolvido em pano de linho e, dentro dele, mais dois embrulhos. Quando retiraram aquele invólucro, ficaram decepcionados ao constatarem que tinham descoberto “apenas” pergaminhos. Para quem esperava achar ouro, pedras preciosas, moedas ou jóias, os dois beduínos saíram dali com sete rolos de pergaminhos e papiro que encontraram em melhor estado de conservação.

Em sua inocência, aqueles rudes pastores jamais poderiam compreender que tinham nas mãos algo que valia mais do que moedas de ouro. Eles acabavam de descobrir os mais antigos documentos da Bíblia já encontrados nos tempos modernos. Aqueles escritos dormiam no interior daquela caverna há mais de 1800 anos!

Um dos pergaminhos encontrados era semelhante àquele que, quase dois mil anos antes, na sinagoga de Nazaré, deram a Jesus para que Ele lesse e revelasse o cumprimento de uma profecia: “E foi-lhe dado o livro do profeta Isaías...” (Lc 4.17).

Tempos depois, os dois amigos foram à cidade de Belém para vender leite e queijo e levaram os sete rolos na esperança de oferecê-los a alguém. Conseguiram fazer que alguns antiquários se interessassem por eles e, no final, por uma ninharia, venderam quatro dos sete rolos para o arcebispo metropolitano Athanasius Yeshue Samuel, do Mosteiro São Marcos, em Jerusalém. Os outros três foram comprados pelo professor Eleazer Lipa Sukenik, em nome da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Athanasius Yeeshue Samuel conseguiu levar clandestinamente os seus quatro rolos para os EUA, porém, encontrou dificuldades para revendê-los. Por isso, em 1954, publicou um pequeno anúncio no Wall Street Journal, oferecendo, para instituições educacionais ou religiosas, quatro manuscritos bíblicos encontrados no Mar Morto e datados de 200 a.C.

Após um mês dessa publicação, um homem desconhecido apareceu na sede do jornal e comprou, por 250 mil dólares, os manuscritos. Estamos falando do general Yigael Yadim, Chefe do Estado-Maior do Exército Israelense e filho do professor Eleazar Lipa Sukenik. Um ano mais tarde, no dia 13 de fevereiro de 1955, o governo israelense anunciou oficialmente a existência dos manuscritos em seu poder.

Depois da descoberta dos dois pastores, houve grandes escavações naquela região por parte de arqueólogos, pesquisadores e até dos próprios beduínos à procura de mais documentos. Passou-se, então, a numerar os sítios arqueológicos encontrados e, até 1956, haviam surgido onze grutas, todas contendo documentos e material de grande importância histórica. Eis o que foi encontrado em cada uma das cavernas:

Sete grandes pergaminhos: dois manuscritos do livro de Isaías (um incluindo o livro inteiro). Comentário do livro de Habacuque e o apócrifo de Gênesis. Regras da Comunidade, Regras de Guerra e Pergaminho de Ação de Graças.

Fragmentos de 33 pergaminhos, incluindo porções do Eclesiastes em hebraico original.

Pergaminho de cobre contendo uma lista, talhada em hebraico, descrevendo 63 tesouros de ouro e prata do Templo de Jerusalém, incluindo as vestes rituais do sumo sacerdote.

15 mil fragmentos de 600 pergaminhos diferentes, o maior depósito de fragmentos de pergaminhos encontrado em Qumran.

Restos do pergaminho da “Descrição da Nova Jerusalém”, um trabalho desconhecido escrito em aramaico, descrevendo cerimônias secretas no templo e diferentes elementos de arquitetura relacionados ao misticismo numérico.

Trinta fragmentos, escritos, a maioria, em papiros.

Quatro fragmentos em grego: Êxodo, na versão Septuaginta; Epístola de Jeremias (não incluída na versão judaica da Bíblia, apenas na Septuaginta); uma versão, em grego, do livro de Enoch; diversos fragmentos não identificados.

Fragmentos dos livros de Gênesis e Salmos; Filactérios , uma mezuzá e tiras de couro para unir os pergaminhos.

Um solitário fragmento de papiro, não identificado, consistindo de três linhas escritas em hebraico.

Nessa caverna, não foram encontrados pergaminhos, mas os escavadores descobriram uma óstraca, caco de cerâmica de um jarro com as duas primeiras letras do nome do proprietário, possivelmente Josué ou Ismael, nomes comuns no século 1o.

Rolo do Templo, medindo 8,3 metros. O mais longo pergaminho descoberto foi adquirido por Yigael Yadim, em 1967, contendo a descrição detalhada do Templo, seus sacrifícios, calendários e leis; um manuscrito de Levítico, escrito em paleo-hebraico; uma versão desconhecida dos Salmos em hebraico; e uma tradução em aramaico de Jó, mencionada na literatura rabínica.


***Os manuscritos do Mar Morto e o Novo Testamento


Com as descobertas dos manuscritos do Mar Morto, mesmo antes de seu conteúdo ser totalmente revelado, muitas pessoas começaram a fazer especulações sobre a doutrina dos essênios e o cristianismo. Acentuavam-se as semelhanças entre o ensino da comunidade de Qumran e a pregação de João Batista e de Jesus. Alguns defendiam a idéia de que os documentos trariam revelações que fariam estremecer os dogmas cristãos descortinando fatos até então desconhecidos, principalmente sobre Jesus e os primórdios do cristianismo que a Igreja supostamente ocultava há quase dois mil anos.

Na verdade, há semelhanças e diferenças entre a doutrina dos essênios e o que foi pregado por João Batista, Jesus Cristo e os apóstolos. Havia práticas nas primeiras comunidades cristãs que encontravam paralelo com o que era ensinado em Qumran.

O que podemos ressaltar é que tanto o que diz o Novo Testamento quanto o que era praticado na Igreja primitiva são doutrinas que gozam de autonomia em relação a qualquer outra, pois têm sua própria identidade.


João Batista e os essênios

“E, naqueles dias, apareceu João, o Batista, pregando no deserto da Judéia, e dizendo: arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus. Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. E este João tinha as suas vestes de pêlos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e de mel silvestre. Então ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão; e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados” (Mt 3.1-6)

É evidente a existência de características comuns entre João Batista e a comunidade de Qumran:


SEMELHANÇAS
João Batista

A pregação de João era o cumprimento da profecia descrita em Isaías 40.3.

João Batista usava o livro de Isaías para convencer Israel de que a vinda do Messias estava próxima.

João era solteiro.

João se alimentava de gafanhotos.


Comunidade essênica

Os essênios também usavam um texto parecido como regra em sua comunidade: “No deserto preparai o caminho do Senhor, endireitai no deserto a estrada para o nosso Deus”.

Os essênios faziam uso do mesmo texto para acentuar a proximidade do tempo de “visitação”.

Os essênios eram celibatários.

Os essênios também. E tinham até uma maneira correta de cozê-los.


Mas há, ainda, outras semelhanças que poderiam ser lembradas:

• Tanto João quanto os essênios exerceram suas atividades religiosas na mesma região geográfica (o deserto do Mar Morto).

• Tanto João quanto os essênios incitavam o povo ao arrependimento com vistas ao julgamento iminente.

• Tanto João quanto os essênios levavam uma vida ascética.

• João Batista começou seu ministério no mesmo “deserto” a que se refere o texto de Isaías 40.3; e onde, também, estava localizado o centro da comunidade de Qumran.

• João batizava no rio Jordão, próximo ao Mar Morto, local que ficava, aproximadamente, 16 quilômetros de Qumran.

• Conforme Lucas 1.5, Zacarias era sacerdote e Isabel, sua mulher, era uma das filhas de Arão, o que dava a João Batista linhagem sacerdotal, da mesma forma que os essênios.

Apesar de todas essas semelhanças de comportamento entre João Batista e a comunidade de Qumran, um olhar mais atento sobre a vida e a mensagem do último profeta da antiga ordem nos levará a uma conclusão diferente daquela que se poderia supor à primeira vista. Eis as razões:


DIFERENÇAS
João Batista

A mensagem de João era feita no sentido de que todos os homens se arrependessem, mesmo aqueles considerados socialmente desprezíveis, como, por exemplo, os coletores de impostos e as meretrizes.

A pregação de João Batista procurava destacar a pessoa de Cristo. João mostrava para Israel o verdadeiro Messias e que o Messias já estava entre eles.

João pregava o batismo para o arrependimento de pecados.


Comunidade essênica

Os essênios eram separatistas e se consideravam os únicos eleitos.

Os essênios aguardavam a vinda do Messias para um futuro vindouro.

Os essênios, preocupados com o asseio corporal, usavam a prática de banhos e imersões diárias.


Concluímos, portanto, que, talvez, tenhamos de admitir a possibilidade de João Batista ter sofrido alguma influência ou contato com os essênios, mas essa suposta interferência não teria sido considerável, a ponto de ditar sua pregação ou maculá-la. Se observarmos cuidadosamente o ministério do precursor de Cristo, notaremos que, em determinado momento, houve uma grande mudança em sua vida. Esse momento está descrito em Lucas 3.2,3: “Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias. E percorreu toda a terra ao redor do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para o perdão de pecados”.


Jesus Cristo e os essênios

A associação do nome de Jesus como um membro da seita dos essênios é ainda mais controversa. Não existe nenhum fato ou indício convincente de que a doutrina de Cristo tenha sofrido influência dos essênios, mas apenas relatos paralelos entre os manuscritos do Mar Morto e os evangelhos, o que não chega a demonstrar que normas essênicas tiveram o poder de produzir algum efeito positivo sobre Jesus.

Podemos, então, dividir este assunto em três partes: os argumentos daqueles que ligam Jesus à comunidade de Qumran; os pontos paralelos entre os ensinos de Jesus e o ensino dos essênios e os pontos contrastantes. Vejamos os três:


I. Os argumentos

Os evangelhos não contam o que aconteceu com Jesus entre os doze e trinta anos de sua vida, por isso alguns argumentam que, durante esse tempo, Jesus teria se submetido ao rituais de iniciação na comunidade de Qumran.

Todo judeu deveria pertencer a uma das seitas existentes na época. O fato de Jesus atacar severamente os fariseus e os saduceus e nunca mencionar os essênios, leva a crer que Ele era membro dessa comunidade.

Antes de ser tentado, Jesus Cristo passou quarenta dias no deserto (Lc 4.1); local provavelmente muito próximo da comunidade de Qumran.

Algumas das mensagens de Jesus contêm elementos doutrinários análogos aos textos dos essênios. Esses pontos semelhantes variam de importância conforme a ocasião e o fato. Muitos apresentam apenas semelhanças no vocabulário ou construções sintáticas; outros, demonstram pontos comuns nas duas doutrinas. Alguns deles:


II. Os pontos paralelos

A primeira pregação de Cristo foi uma mensagem para que o povo aceitasse o evangelho, ou seja, as boas-novas. Esta mesma mensagem era cantada de forma bem clara na comunidade de Qumran.

Jesus costumava usar a frase: “ouvistes o que foi dito”. Essa expressão também foi encontrada em textos essênicos.

Tanto Jesus quanto os essênios condenavam veementemente o adultério.

A prática da abstinência sexual foi admitida por Cristo, muito embora não a tenha exigido de ninguém (Mt 19.12). Entre os essênios, havia um grupo de celibatários que se dedicavam ao sacerdócio.

A falácia da teoria de que a doutrina de Cristo foi inspirada em preceitos essênicos, ou mesmo que Jesus seria membro desta seita judaica, começa a se desmontar quando analisamos a vida e a obra do nosso Senhor pela ótica do Novo Testamento, principalmente no que tange à observância rigorosa e distorcida da lei judaica por parte da comunidade essênica, com destaque para a guarda do sábado. Vejamos os pontos contraditórios entre as duas doutrinas:


III. Os pontos contrastantes

Em Marcos 2.27, Jesus declara que “o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado”.

A doutrina de Cristo era universalista, dirigida a todos os homens (Lc 13:29). Os essênios, ao contrário, eram separatistas.

Enquanto Jesus acentuava a misericórdia em suas pregações, os essênios exigiam sacrifícios dos membros da comunidade e eram inclementes com os que “rejeitavam” a Deus.

A morte e a ressurreição de Jesus e a salvação são doutrinas que não têm paralelo nos escritos essênios.

Como podemos notar, há sim semelhanças entre o que Jesus pregava e o que era ensinado na comunidade de Qumran. Entretanto, ao considerarmos as idéias centrais da doutrina do Nazareno, percebemos que elas se distinguem de qualquer outra justamente por seus traços particulares, por sua originalidade e singularidade.

Seu vocabulário pode até ser semelhante ao dos essênios, mas a grande verdade é que o ensino de Jesus Cristo nunca se submeteu a alguma seita ou grupo religioso daquela época.

Jesus, “o Verbo que se fez carne” (Jo 1.14), demonstrou claramente sua condição de Filho de Deus por meio de seus ensinos. Isso fica explícito quando lemos o testemunho daqueles que o ouviram em Cafarnaum: “E todos se admiraram, a ponto de perguntarem entre si, dizendo: Que é isto? Que nova doutrina é esta? Pois, com autoridade ordena aos espíritos imundos, e eles lhe obedecem!” (Mc 1.27). Ou, ainda, nas palavras dos soldados que foram interrogados pelos fariseus por não tê-lo prendido: “E os servidores foram ter com os principais dos sacerdotes e fariseus; e eles lhes perguntaram: Por que não o trouxestes? Responderam os servidores: Nunca homem algum falou assim como este homem” (Jo 7.45,46).


Conclusão


O significado da descoberta dos manuscritos do Mar Morto como um legado não só para o cristianismo, mas, também, para toda a humanidade, é tremendo. Os manuscritos fizeram recuar, em mais de mil anos, a compreensão dos textos do Antigo Testamento. Até 1947, havia muitas declarações errôneas acerca do cânon sagrado e os textos de Qumran tiveram grande impacto na visão da Bíblia, pois forneceram espantosa confirmação de sua fidelidade aos originais.

Para termos uma idéia do valor desses documentos, basta-nos relembrar que os mais antigos manuscritos em hebraico que tínhamos do Antigo Testamento datavam de 916 d.C. Apenas dois textos mais antigos que esses chegaram até nós: a.) uma cópia da tradução da Bíblia hebraica para o grego, conhecida como Septuaginta, datada de aproximadamente 250 a.C.; e a tradução da Bíblia hebraica para o idioma latino, realizada por São Jerônimo no século 4o d.C.: a Vulgata Latina.

Por esse motivo, os críticos da Bíblia procuravam corroborar seus argumentos com os seguintes dilemas: como podíamos confiar no Antigo Testamento se a cópia mais antiga que tínhamos dele fora escrita nove séculos após o tempo em que viveu Jesus Cristo?

Ou, de outra forma, como poderíamos garantir que os textos atuais do livro sagrado correspondem ao texto escrito há tantos séculos pelos profetas, já que esses escritores do Antigo Testamento viveram, no mínimo, 400 anos antes da Era Cristã?

E ainda: que garantia tínhamos de que do tempo de Jesus até o ano 900 os copistas não fizeram alterações no que estava escrito no Antigo Testamento?s

Foram justamente os manuscritos do Mar Morto que trouxeram resposta para todas essas perguntas. Deus, em sua infinita sabedoria, providenciou para que aqueles documentos fossem encontrados justamente numa época em que o mundo estava sendo dominado pelo iluminismo e pelo humanismo moderno, quando a autenticidade de sua Palavra estava sendo posta em dúvida.

Os documentos de Qumran demonstraram o zelo com que os copistas trabalharam, fazendo cópias das Escrituras a partir dos manuscritos originais ao longo de mais de mil anos! Eles foram fiéis e exatos em tudo o que Deus revelou à humanidade pela instrumentalidade dos profetas. E, por isso, podemos confiar cada vez mais no que falou Jesus: “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24.35).


Notas:

1 Hasmoneus, também chamados de Macabeus, é o nome de uma família judaica que liderou a revolta contra o domínio selêucida e fundou uma dinastia de reis da Judéia entre 140 a.C. e 37 a.C. Seu membro mais conhecido foi Judas Macabeu, assim apelidado devido à sua força e determinação. Os hasmoneus durante anos lideraram o movimento que levou à independência da Judéia e que consagrou novamente o Templo de Jerusalém, que havia sido profanado pelos gregos. Após a independência, os hasmoneus deram origem à linhagem real, que governou Israel até sua subjugação pelo domínio romano, em 63 a.C.

2 Sinédrio era o “Grande Conselho” dos notáveis de Israel, estabelecido depois do exílio para o governo da comunidade judaica. Era integrado por 71 membros anciãos, sacerdotes e escribas – e presidido pelo sumo sacerdote. Era a autoridade suprema dos problemas religiosos, assim como em alguns assuntos de ordem civil. Roma limitou seus poderes. Para a pena de morte, necessitava de confirmação do representante de Roma.

3 The Works of Flavius Josephus. Hartfor, The S.S.Scraton Co., 1904, p. 673.

4 Natural History, V, 17 apud Dupont-Sommer, p. 37.

5 Pergaminho (do grego pergaméne e do latim pergamina ou pergamena) é o nome dado a uma pele de animal, geralmente de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha, preparada para nela se escrever. Designa, ainda, o documento escrito nesse material. O seu nome deriva do nome da cidade onde se terá fabricado pela primeira vez: Pérgamo, na Grécia.

6 Foi por volta de 2200 anos antes de Cristo que os egípcios desenvolveram a técnica do papiro, um dos mais velhos antepassados do papel. Para confeccionar o papiro, corta-se o miolo esbranquiçado e poroso do talo em finas lâminas. Depois de secas, essas lâminas são mergulhadas em água com vinagre para ali permanecerem por seis dias, com o propósito de eliminar o açúcar. Outra vez secas, as lâminas são ajeitadas em fileiras horizontais e verticais, sobrepostas umas às outras. A seqüência do processo exige que as lâminas sejam colocadas entre dois pedaços de tecido de algodão, por cima e por baixo, sendo, então, mantidas prensadas por seis dias. E é com o peso da prensa que as finas lâminas se misturam homogeneamente para formar o papel amarelado, pronto para ser usado. O papel pronto era, então, enrolado a uma vareta de madeira ou marfim para criar o rolo que seria usado na escrita.

7 Tefilin (vindo da palavra hebraica tefilá, significa “prece”) ou filactérios. São duas caixinhas de couro, cada qual presa a uma tira de couro de animal e dentro das quais está contido um pergaminho com os quatro trechos da Torá em que se baseia o uso dos filactérios (Shemá Israel ,Vehaiá Im Shamoa, Cadêsh Li e Vehayá Ki Yeviachá ). O principal destes (Shemá ) diz: “Ouve, ó Israel, o Eterno nosso Deus, o Eterno é Um. Amarás ao Eterno, teu Deus, de todo teu coração, de toda tua alma e de todas tuas forças. E estas palavras que hoje te ordeno serão gravadas no teu coração [...] E as atarás à tua mão como sinal, e as colocarás diante dos teus olho” (Dt 6.4-8).

8 Mezuzá (do hebraico, significa “umbral”) é o nome de um mandamento da Torá que ordena que seja afixado no umbral das portas um pequeno rolo de pergaminho (klaf) que contém as duas passagens da Torá que ordenam este mandamento, Shemá e Vehaiá (Dt 6.4-9 e 11.13-21). A mezuzá deve ser afixada no umbral direito de cada dependência do lar, sinagoga ou estabelecimento judaico como lembrança do Criador. Deve ser posta a sete palmos de altura do chão, apontando para dentro do estabelecimento com a extremidade de cima. Os judeus costumam beijar a mezuzá toda a vez que se passa pela porta, para lembrarem das rezas que estão contidas ali dentro e dos princípios do judaísmo que elas carregam.


Referências de pesquisa:

Bíblia de Estudo de Genebra. Edição Revista e Atualizada, São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. p. 1728.

ORRÚ, Gervásio F. Os manuscritos de Qumran e o Novo Testamento. São Paulo: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1993.

LAPERROUSAZ, E. M. Os manuscritos do Mar Morto. Trad. de Maria Stela Gonçalves e Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Círculo do Livro S.A., 1961.

Pergaminhos do Mar Morto – Um legado para a humanidade, exposição. Realização Calina Projetos Culturais e Sociais, Acervo IAA-Israel Antiguities Authority.

Edição especial de Defesa da Fé – As melhores matérias dos últimos quatro anos. São Paulo: ICP – Instituto Cristão de Pesquisas, 2005.

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