Defesa da Fé


A concepção católica romana de tradição


Por Ewerton B. Tokashiki

Ministro presbiteriano e professor na Faculdade Metodista de Porto Velho e no Seminário Presbiteriano Brasil CCENTRL – extensão RO


No período da patrística, mais exatamente no século 5°, Vicent de Lérins propôs que a tradição era o padrão a ser usado como critério para que fossem avaliadas e aceitas as doutrinas que surgiram naquele período até os seus dias. Vicent declara, com extrema clareza: “Por causa da quantidade e da diversidade de equívocos, existe a necessidade de que alguém estabeleça uma regra para a interpretação dos profetas e dos apóstolos, sob a orientação das normas da Igreja Católica. Na Igreja Católica, toma-se o maior cuidado com a manutenção da mesma fé que tem sido sempre manifestada, em todos os outros locais e por todas as outras pessoas (quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est). Isso é o que significa ser genuína e propriamente católica. Isso se manifesta claramente pela força da palavra e da razão, que a tudo compreende de maneira universal. Devemos buscar a 'universalidade' dessa forma, reconhecendo essa fé como única e verdadeira, a mesma fé que toda a Igreja confessa por todo o mundo. Afirmamos sua 'antiguidade' se, de modo algum, nos desviamos daquelas perspectivas claramente defendidas pelos grandes santos e por nossos pais. E seguimos em 'consenso' se seguirmos todos (ou certamente quase todos) os conceitos ensinados pelos bispos e mestres dessa tradição.

Mas, o tríplice critério da tradição: universitatem (universalidade), antiquitatem (antiguidade) e consensionem (consenso), conforme proposto por Vicent de Lérins, consegue provar a sua coerência? Em outras palavras, a tradição, desde os primórdios, possui um unânime consenso em todo o catolicismo?

A óbvia resposta é um ressonante “não”! É cegueira, ignorância ou voluntária inconsistência aceitar que, em todos os lugares, todos os teólogos creram do mesmo modo, mantendo uma unidade universal na Igreja romana quanto à sua doutrina.

O historiador David S. Schaff, após ilustrar quão falacioso é o critério de Vincent de Lérins, observa que “a regra famosa, segundo a qual uma doutrina, para ser autorizada, deve ter sido sustentada 'sempre, por todos e em toda a parte', não resiste à prova da história. Há crenças e práticas obrigatórias no sistema romano que não foram aceitas por todos, ou em toda parte, ou em todos os tempos. O mencionado sistema inclui doutrinas características que não foram referidas pelos padres de maior antiguidade ou que foram desmentidas por suas definições [...] A regra de Vicent sobre a doutrina de um consenso unânime dos padres se resume na proposição baseada naquilo que a própria Igreja romana escolheu para indicar como o dogma veio a ser lei divina, mesmo quando os padres nada sabiam a respeito daquilo, ou mesmo quando sofreram rasgada oposição”.

Como parte do movimento de Contra-Reforma, o Concílio de Trento (1545-1563) trouxe declarações dogmáticas que definiram a identidade da Igreja Católica durante os quatro séculos seguintes. F. S. Piggin observa que “até mesmo os historiadores católicos, que enfatizavam a continuidade das definições doutrinárias de Trento com a teologia católica tradicional, reconhecem que Trento não restaurou o equilíbrio medieval, mas desenvolveu um novo sistema que sintetizava a tradição católica com a situação histórica alterada. O novo sistema foi rígido e exclusivo, mas, também, rico e enérgico, porque aproveitou o reavivamento espiritual e teológico que caracterizava a Contra-Reforma”.

O concílio decretou que as tradições católicas, mesmo que não se baseando nas Escrituras, deveriam ser obedecidas com a mesma autoridade. Isso evidencia uma debilitada doutrina das Escrituras, favorecendo uma vigorosa concepção da tradição. A definição do evangelho, segundo a Igreja Católica Romana, inclui não somente o registro da revelação, isto é, o Novo Testamento, mas, também, “as tradições não escritas”.

O teólogo luterano Martin Chemnitz, analisando o uso da palavra tradição nos decretos canônicos do Concílio de Trento, concluiu que o termo “tradição” foi usado em oito acepções diferentes. Aceitando a sua classificação de significado, resumiremos apenas cinco usos do termo. Vejamos:


1. A tradição oral de Cristo e os seus apóstolos, conforme registrada pelos quatro evangelistas. Neste caso, a Escritura e a tradição possuem o mesmo sentido.

2. A tradição de se transmitir as Escrituras através dos séculos pela preservação das cópias e da instrução.

3. A tradição exegética de se expor as Escrituras. A pregação ou homilia era uma vigorosa característica do cristianismo desde o século 1°.

4. A tradição de doutrinas formuladas pelos cristãos que não se encontram explicitamente, mas somente por implicação nas Escrituras.

5. A tradição doutrinária dos apóstolos mencionada pelos pais da Igreja que não se encontram registradas nas Escrituras. A opinião concordante acerca de algum assunto moral ou doutrinário dos antigos teólogos cristalizou-se no decorrer dos séculos e tornou-se uma chave hermenêutica católica.


Os teólogos católicos defendem veementemente este último sentido da tradição. Quando a Igreja romana define alguma doutrina que não está na Escritura, declara que é tradição apostólica.

A importante contribuição do teólogo católico Johann Adam Möhler para o entendimento romanista da tradição é historicamente significativa. Em seu livro, Symbolism, publicado em 1832, ele delineou que “a tradição é a Palavra viva, perpetuada no coração dos fiéis. A essa compreensão, como visão geral, confia-se a interpretação das Sagradas Escrituras. A declaração por ela proferida a respeito de qualquer tema controvertido representa o juízo da Igreja; assim, a Igreja é quem julga as questões de fé. Em termos objetivos, a tradição representa a fé universal da Igreja ao longo dos tempos, manifestada por meio dos testemunhos históricos. Nesse sentido, a tradição é denominada a norma, o padrão de interpretação bíblica – a regra de fé”.

Deve-se atentar que o uso do termo “igreja”, por Möhler, pressupõe a ecclesia dociens, ou seja, o clero, e não a ecclesia audiens, o povo. Em momento algum, ele ensina a doutrina protestante que preconiza o “sacerdócio universal de todos os crentes”. Assim, o uso, a interpretação e a aplicação da tradição são atitudes que somente o magisterium pode estabelecer como certas. Segundo a modificação do conceito, a tradição torna-se um critério subjetivo e dinâmico do magisterium e, desse modo, ela deixa de ser um meio transmissor para tornar-se parte do conteúdo da mensagem.

Após o Concílio de Trento, já mencionado, não houve outro concílio com a mesma grandeza durante quatro séculos, até que se reuniu o Concílio Vaticano I com a finalidade de definir algumas respostas aos novos desafios dos emergentes movimentos filosóficos não cristãos, políticos e da influência do liberalismo teológico dentro do catolicismo romano.

O Concílio Vaticano I (1869-1870) reafirmou a coigualdade de autoridade entre tradição e Escritura. Mas, outra decisão, na esfera de autoridade da Igreja Católica Romana, foi a sua posição doutrinária quanto à infalibilidade papal como critério de autoridade acima da tradição e das Escrituras. Assim, a Igreja Católica estabeleceu o seu princípio de autoridade na tríade: magistério, tradição e Bíblia.

O papa Pio IX (1846-1878), que convocou o concílio e participou da aprovação do dogma da infalibilidade papal, explicitou a fragilidade da tradição e minimizou a autoridade da Escritura Sagrada ao colocar-se como autoridade sobre ela. O historiador Francis A. Ridley observa que “quando Pius IX fez a enfática observação ‘eu sou a tradição’, ele resumiu a silenciosa revolução que o decreto da infalibilidade papal estava efetivamente consumando. Desse modo, o ‘líder’ principal era dogmaticamente aceito na Igreja Católica Romana em todas as suas implicações; verdade e tradição tornaram-se a vontade do líder papal, que não é guiado pela mão morta do passado, mas pelas necessidades do presente”.

O Concílio Vaticano II (1862-1965) continuou ressaltando a necessidade do magisterium da Igreja na aplicação da tradição que vem dos apóstolos e que, supostamente, se desenvolve na Igreja com a ajuda do Espírito Santo. Na orientação desse concílio, a Escritura Sagrada é interpretada dentro do contexto da tradição e do magisterium da Igreja Católica. Os doutores da Igreja romana, individualmente ou reunidos em concílio, ao concordarem ensinar sobre determinado assunto (communi consensu), mesmo que divergente das Escrituras, endossam que tal doutrina deve ser aceita como tradição que foi passada de mão em mão, não sendo registrada até então, mas que sempre se encontrou no meio católico de modo ininterrupto pela sucessão dos apóstolos.

A tradição, segundo a Igreja Católica, é oferecida como uma fonte de conhecimento autônoma das Escrituras. Portanto, devemos protestar contra o conceito de tradição que os três últimos concílios ecumênicos católicos estabeleceram. Isto é, que a tradição é umas das fontes de autoridade da Igreja. A Igreja Católica (magisterium) declara que ela produziu as Escriturase e que o seu ensino existiu, anteriormente, como tradição. Assim, o magisterium e a tradição têm autoridade sobre as Escrituras. Entretanto, este é um raciocínio falacioso.

Mas, por que o magisterium não faz uma lista de tradições? David S. Schaff observa que “nenhuma lista autorizada de tradições jamais se confeccionou. A proposta apresentada ao Concílio de Trento, no sentido de se publicar tal lista, foi rejeitada, sob o fundamento de que, uma vez organizada, ela ataria as mãos da Igreja dali para o futuro. De tradições autorizadas, como as que se referem aos sete sacramentos, à transubstanciação, ao purgatório, ao culto de santos e relíquias, à imaculada conceição de Maria e à infalibilidade papal, no que diz respeito ao apoio do Novo Testamento, o máximo que se invoca em abono delas é que se encontram em estado latente no recesso de suas páginas”.

Assim, o magisterium, consultando a tradição, que alega ter sob sua guarda, interpreta as Escrituras e define como os católicos devem crer e viver. O uso e o conteúdo que a Igreja Católica faz da sua própria tradição é arbitrário, ou seja, as decisões dogmáticas são conforme a conveniência.


Posição católica sobre o cânon


A Igreja determina o cânon

A Igreja é mãe do cânon

A Igreja é magistrada do cânon

A Igreja regula o cânon

A Igreja é juíza do cânon

A Igreja é mestra do cânon


Posição protestante sobre o cânon


A Igreja descobre o cânon

A Igreja é filha do cânon

A Igreja é ministra do cânon

A Igreja reconhece o cânon

A Igreja é testemunha do cânon

A Igreja é serva do cânon


Notas:

1 Citado em Alister McGrath, Introdução à teologia. São Paulo, Edições Shedd, 2005, p. 226-7.

2 David S. Schaff. Nossa crença e a de nossos pais. São Paulo, Imprensa Metodista, 2ª ed., 1964, p. 152-3.

3 F.S. Piggin. Verbete: Concílio de Trento, O. In: Enciclopédia histórico-teológico da Igreja Cristã. São Paulo, Edições Vida Nova, 1993, vol. 1, p. 312-13.

4 Martin Chemnitiz. Examination of the Concil of Trent. Saint Louis, Concordia Publishing, 1971, parte 1, p. 220-307.

5 Alfredo E. Garvie. Historia de la Predicación Cristiana. Terrassa, CLIE, 1987.

6 Citado em Alister McGrath, Introdução à Teologia. São Paulo, Edições Shedd, 2005, p.227.

7 Francis A. Ridley. The Papacy and Fascism: The Crisis of the Twentieth Century. Marburg, Secker Press,1973, p.121, citado por John W. Robbins. Ecclesiastical Megalomania. Unicoi, The Trinity Foundation, 1999, p. 174.

8 Vaticano II: mensagens, discursos, documentos. São Paulo, Edições Paulinas, 2007, p.347-350.

9 David S. Schaff. Nossa crença e a de nossos pais. São Paulo, Imprensa Metodista, 2ª ed., 1964, p. 150-1.

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