Defesa da Fé


Sobre a encarnação do Verbo


Atanásio de Alexandria (296-373 d.C.)

Um dos pais da Igreja primitiva, a quem se atribui o Credo Atanasiano


As conveniências da encarnação


Esta grande obra realmente convinha, sob todos os aspectos, à bondade de Deus. Se um rei construiu uma casa ou vila, e esta, por negligência dos moradores, vem a ser assaltada por ladrões, ele não a abandona: defende-a e protege-a como coisa própria, considerando, não o descaso dos locatários, mas o que lhe convém. Com maior razão, o Verbo divino do boníssimo Pai, vendo o gênero humano, sua criatura, desandar para a corrupção, não o abandonou; mas, pela oferta de seu próprio corpo, extinguiu a morte que se associara aos homens, corrigiu, por seu ensinamento, as negligências deles, e restaurou, por seu poder, a raça humana. Podemos confirmar isso consultando os teólogos enviados por Deus e lendo seus escritos, onde se tem que: “O amor de Cristo nos impele a este pensamento, o de que se um só morreu por todos, todos morreram; ora, ele morreu por todos, a fim de que não vivêssemos mais para nós, mas para aquele que por nós morreu e ressuscitou, nosso Senhor Jesus Cristo” (2Co 5.14,15). Lemos, ainda: “Vemos aquele que foi posto um pouco abaixo dos anjos, Jesus, coroado de glória e honra por causa dos sofrimentos de sua morte, a fim de que assim, pela graça de Deus, sua morte se aproveite para todos os homens” (Hb 2.9).

A seguir, a Escritura indica porque nenhum outro, senão o Verbo de Deus, deveria encarnar: “Convinha que aquele, para quem tudo é e por quem tudo é, desejando levar um grande número de filhos à glória, aperfeiçoasse pelo sofrimento o autor da salvação deles” (Hb 2.10). Por aí se indica não caber a outro, mas ao Verbo de Deus, que tinha feito no princípio os homens, reerguê-los da corrupção que os atingira. Se o Verbo assumiu um corpo, foi para oferecê-lo em sacrifício em prol dos corpos semelhantes ao seu — o que também ensinam as Escrituras: “Como os filhos participam da carne e do sangue, ele participou dessas mesmas coisas, a fim de destruir por sua morte o demônio, que tinha o império da morte” (Hb 2.14). Pois, pelo sacrifício de seu corpo, Ele acabou com a lei que pesava sobre nós, renovou para nós o princípio da vida, dando-nos a esperança da ressurreição.

Antes, foi por causa dos homens que a morte dominou sobre os homens. Agora, pela encarnação do Verbo de Deus, ela foi destruída, pois ressurgiu a vida, como diz o apóstolo, portador de Cristo: “Por um homem veio a morte, e por um homem a ressurreição dos mortos; da mesma forma que todos morrem em Adão, em Cristo todos serão vivificados” (1Co 15.21,22). Já não mais morremos como condenados, mas, sim, como os que irão despertar; aguardamos a ressurreição universal que, a seu tempo, nos mostrará o Senhor Deus, aquele que a criou e no-la concede. Eis a primeira razão da encarnação do Salvador.


A recriação do homem


Dado que os homens tinham-se pervertido na irracionalidade e que a impostura dos falsos deuses propagava, por toda parte, sua sombra, eclipsando o conhecimento do verdadeiro Deus, que haveria de fazer o Senhor? Guardar silêncio frente à situação e deixar os homens iludidos, ignorando seu Deus? Mas, então, para que houvera criado o homem à sua imagem? Ocorria simplesmente tê-lo criado sem razão; ou, do contrário, não o deixaria viver a vida dos irracionais. Para que lhes havia, também, comunicado, desde o início, a noção de Deus, se agora não se mostravam dignos de recebê-la? Melhor fora não tê-la conferido no princípio. Pois, que glória advém ao Criador se os homens, suas criaturas, não o adoram e até pensam ser feitos por algum outro? Tê-los-ia criado para outros?

Um rei, mesmo humano, não permite que suas cidades se entreguem a estranhos e se submetam a eles. Adverte os súditos, envia-lhes mensageiros e, se necessário, vai, em pessoa, tentar comovê-los: unicamente para evitar que sirvam a senhor alheio e se inutilize a sua obra. Com mais razão, Deus não se apiedaria da criatura a fim de evitar que errasse longe dele e fosse servir a fantasmas inexistentes? Tanto mais que tal erro seria causa de ruína para o ser que um dia participou da imagem de Deus!

Que haveria, pois, de fazer o Senhor, a não ser renovar o que era nos homens a divina imagem, a fim de, por ela, chegarem ao seu conhecimento? Mas, como se realizaria isso de outro modo que não pela presença da própria imagem de Deus, nosso Salvador Jesus Cristo?

Sim, a coisa não seria realizável jamais por homens, pois, também, foram criados segundo a imagem. Nem por anjos, que não são, em si mesmos, imagens. Veio, pois, o próprio Verbo de Deus, imagem do Pai, a fim de recriar o homem segundo a divina imagem. E, se esta obra não podia ser feita sem destruição, sem a corrupção da morte, convinha que Ele assumisse um corpo mortal, para nele destruir a morte e renovar os homens segundo a divina imagem. Com vistas a tal obra, nenhum outro se credenciava mais que a própria imagem do Pai.

Se aos poucos se apagou uma efígie impressa na madeira, pelo acúmulo da pátina exterior, pode acontecer que sua renovação só se torne possível, ali no mesmo material, pela presença do modelo, cujos traços se desfiguraram. Não se pode recusar o material em que figura fora antes impressa, mas se procurará compor nova imagem. Da mesma forma, o Filho santíssimo do Pai celeste, sendo a imagem do Pai, veio até a nossa região, visando renovar o homem criado segundo seu modelo, visando remir os pecados daquele que estava perdido, a fim de reencontrá-lo, conforme as palavras da Escritura: “Eu vim para encontrar e salvar o que estava perdido” (Lc 19.10). Assim, dirá também Ele aos judeus: “Se alguém não renascer, não poderá ver o reino de Deus” (Jo 3.3), aludindo, não a um renascimento a partir da mulher, como pensaram os judeus, mas ao renascimento que é a recriação da alma segundo a imagem divina.

Um bom mestre se interessa pelos alunos, procura descer, com ensinamentos mais simples, aos que não entendem as lições mais difíceis. Assim também faz o Verbo de Deus, conforme Paulo: “Já que o mundo, com sua sabedoria, não chegou a conhecer a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura de sua mensagem” (1Co 1.21). Estando os homens desviados da contemplação divina e mergulhados em profundo abismo, com os olhos voltados para baixo, a procurarem Deus na criatura e nas coisas sensíveis, fabricando para si mesmos deuses, de homens mortais e de demônios, eis que o Verbo divino, “filantropo” e salvador, assume um corpo e vem viver como homem entre os homens, atrai para si a percepção dos sentidos — para que pudessem conhecer a verdade e chegar ao Pai os mesmos que situavam Deus entre os seres corpóreos.

Sendo homens e tudo pensando humanamente, eis que eles, agora, onde quer que se deixassem levar pela percepção sensorial, encontravam o ensinamento da verdade. Em sua fascinação pelas coisas criadas, viam, agora, que elas confessavam o Cristo Senhor. Em sua admiração pelos homens — que os levava a deificá-los — viam, agora, as obras do Salvador e percebiam que só Ele, entre os humanos, é Filho de Deus, não havendo, em parte alguma, obras comparáveis às do Verbo divino. Aqueles que tinham sido seduzidos pelos demônios, eis que, agora, podiam vê-los sendo expulsos pelo Senhor. E, também por isso, reconheciam o Senhor como a única Palavra divina, confessando não serem deuses os demônios. Aqueles que tinham sido obcecados pelo pensamento nos mortos, a ponto de renderem culto aos heróis, divinizados pelos poetas, eis que, agora, podiam ver a ressurreição do Salvador e reconheciam a precedente ilusão, passando a atestar que o único e verdadeiro Senhor é o Verbo de Deus, dominador da morte.

Foi para a obtenção desse resultado que o Verbo apareceu como homem, e morreu, e ressuscitou. Por meio de suas obras, fez empalidecerem as obras de quaisquer outros homens, podendo, assim, atrair todos ao seu verdadeiro Pai, de acordo com o seguinte texto bíblico: “Eu vim salvar e encontrar o que estava perdido” (Lc 19.10).

Uma vez que o espírito humano caíra no sensível, o Verbo se abaixou a ponto de se tornar visível corporalmente para chamar para si os homens, atrair para si os sentidos deles. O Verbo veio em forma humana, mas foi autor de obras superiores às humanas, pelo que os homens foram persuadidos de que Jesus era o próprio Deus, o Verbo e a Sabedoria do verdadeiro Deus. Vejamos o que disse o apóstolo Paulo a esse respeito: “Enraizados e fundados na caridade, possais compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura e a profundidade; conhecer enfim a caridade de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento; a fim de vos tornardes cheios da plenitude de Deus” (Ef 3.19).

O Verbo se manifesta em toda parte, em cima e embaixo, na profundidade e na extensão, na altitude da criação e na humildade da encarnação, na profundeza dos limbos, na largura do mundo. Tudo está cheio do conhecimento de Deus. E, por isso mesmo, Ele não ofereceu, desde o primeiro momento de seu advento, seu sacrifício por nós, entregando o corpo à morte e ressuscitando-o. Assim, Ele teria se tornado logo invisível! Mostrou-se visível, permaneceu longo tempo corporalmente, realizando obras e sinais que o fizessem conhecido não só como um homem, mas, também, como o Verbo de Deus. Sob um e outro aspecto, mostrava sua filantropia na encarnação: fazia desaparecer a morte e nos renovava, revelando, ao mesmo tempo, pelas mesmas obras, sua invisibilidade, levando-nos ao reconhecimento de que é o Verbo do Pai, o Dominador e Rei do Universo.

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