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Maio de 2007
Preparado por Gilson Barbosa
Se Judas havia morrido, e Matias, seu substituto,
ainda não havia sido empossado, como Jesus poderia ter
aparecido aos doze apóstolos?
Texto-base:
“E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze” (1Co
15.5).
Analisando os eventos da aparição de Jesus após sua
ressurreição, encontramos a informação, do apóstolo
Paulo, de que Jesus apareceu aos doze apóstolos logo ao
deixar a tumba. A dúvida gerada é: se Judas havia
morrido e Matias ocupou seu lugar tempos depois, Jesus
não deveria ter aparecido somente para onze discípulos?
Por que Paulo citou doze ao escrever aos crentes de
Corinto? Isso não afeta e denigre a inspiração da Bíblia
e a crença na ressurreição de Jesus?
Primeiramente, “é um erro comum, não raramente feito
pelos cristãos, mas também pelos não cristãos, pensar
que a ressurreição de Cristo é crida pela Igreja cristã
com base na inspiração da Bíblia, colocando-se, assim,
em primeiro lugar, a crença na inspiração e, depois,
como resultado dela, a crença na ressurreição [...] A
crença na ressurreição de Cristo existia durante quase
uma geração antes de serem escritos os primeiros
documentos do Novo Testamento [...] Por ser esta a ordem
histórica, é também a ordem lógica”. Ou seja, a
ressurreição é verdadeira por si só, pelas testemunhas
oculares, pelas inúmeras provas históricas e, para os
cristãos da Igreja primitiva, isso não dependia do fato
de a Bíblia ser inspirada ou não. As Escrituras trataram
apenas de documentar esse evento.
Em segundo lugar, os opositores da Bíblia e da
ressurreição de Jesus vão dizer que são poucos e
contraditórios os argumentos cristãos que defendem esse
acontecimento sobrenatural. Mas isso não condiz com a
verdade. Devido à prolixidade do assunto, não serão
debatidas, neste espaço, as provas da ressurreição, mas
somente a aparição de Jesus “aos doze”.
Os cristãos não têm apenas parcos argumentos da
ressurreição de Cristo, como dizem os opositores. Não
são apenas dois ou três argumentos a favor, mas
inúmeros. Ao longo do tempo, todas as dúvidas postas
pelos críticos foram respondidas com muito requinte
pelos teólogos e apologistas. Basta pesquisar em bons
livros de teologia e apologética, por exemplo, que as
defesas elaboradas são muitas e totalmente convincentes.
A verdade é uma só, como sempre ocorre: as críticas são
fundamentadas em pressupostos “viciados”. Se o crítico
partir para uma análise partidária de qualquer
disciplina cristã, de forma tendenciosa, prevendo um
final que lhe interessa, tentando tão-somente
“desmascarar” os pontos imprescindíveis da fé, sua
análise não será verdadeiramente séria e, no fundo,
inclinará aos seus interesses particulares.
Em terceiro lugar, a negação da ressurreição de Cristo
coaduna melhor com os ideais filosóficos e materialistas
dos céticos. O próprio Jesus alertou sobre o fato de que
muitas pessoas preferem viver à margem da verdade ética,
moral, religiosa, porque seus hábitos não são
condizentes com os princípios estabelecidos por Ele e
pelo evangelho (Jô 3.19-24). Todavia, isso não significa
que todos os intelectuais não-cristãos são céticos
quanto à ressurreição ou que não há possibilidade de
admiti-la sob hipótese alguma.
Em quarto lugar, não há contradições nos relatos
bíblicos das aparições de Jesus aos seus apóstolos e
seguidores. A seqüência das aparições é a que segue:
Aparição de Jesus ressurrecto
|
Referências bíblicas
|
1) A Maria Madalena
|
Marcos 16.9
|
2) Às
mulheres
que retornavam da
tumba
|
Mateus 28.8-10
|
3) A Pedro,
em Jerusalém
|
Lucas 24.34
|
4) Aos
dois
discípulos
que iam
para Emaús
|
Marcos 16.12 e Lucas 24.13-32
|
5) Aos
dez discípulos
|
João 20.19-25
|
6) Aos onze
discípulos
|
João 20.26-29
|
7) Aos
sete
discípulos
junto ao
Mar da Galiléia
|
João 21
|
8) A
mais de 500 pessoas
|
1Coríntios 15.6
|
9) A Tiago
|
1Coríntios 15.7
|
10) Aos onze
discípulos
em
um
monte da Galiléia
|
Mateus 28.16
|
11) No
Monte das Oliveiras, em
Betânia
|
Lucas 24.50-53
|
12) Ao
apóstolo Paulo no
caminho
para
Damasco
|
Atos 9.3-6 e 1Coríntios 15.8
|
O apóstolo Paulo menciona poucas pessoas e situa Pedro
em primeiro lugar. Isso, no entanto, tem uma explicação:
“Paulo não deu uma lista completa, mas somente a que
tinha importância para o seu propósito. Desde que apenas
o testemunho de homens era considerado legal ou oficial
no século 1o, é compreensível que o apóstolo não tenha
listado mulheres na defesa que ele fez da ressurreição”.
Em último lugar, tanto Paulo (1Co 15.5) quanto Marcos (Mc
16.14; Jô 20.19-25) redigiram números cheios
naturalmente, pois utilizavam o termo no sentido
coletivo, tendo em mente o colegiado apostólico e não um
número definido de pessoas. “A expressão, ‘os doze’,
entretanto, era usada como termo genérico para se
referir aos apóstolos originais de Cristo, designando
seu ofício apostólico e não seu número exato”.
Afinal, o testemunho de Jesus é verdadeiro ou não?
Textos-base:
“Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é
verdadeiro” (Jo 5.31).
“Respondeu Jesus, e disse-lhes: Ainda que eu testifico
de mim mesmo, o meu testemunho é verdadeiro” (Jo 8.14).
Diante desses dois textos que aparentam contrariedade,
devemos perguntar:
• O testemunho de Jesus só pode ser validado por outro
homem?
• O testemunho a respeito de si próprio é válido?
• Por que precisava de outros testemunhos?
Para responder à primeira e à terceira pergunta, temos
de ser sinceros e aceitar que realmente alguém só
deveria ser acreditado se pudesse provar, por
testemunhas, suas reivindicações. Se alguém
testemunhasse de si mesmo às autoridades rabínicas,
diante de um tribunal, seu testemunho não seria
considerado válido. Ora, esse não é o procedimento
normal, até mesmo na sociedade contemporânea, alguém
apelar para a justiça dos homens quando seu caso é
julgado diante de um juiz? Isto é, de alguma forma,
Jesus necessitava de algum tipo de testemunho a seu
respeito para que provasse sua messianidade, por
exemplo. Jesus não precisava testemunhar de si próprio
que Ele era o Messias tão esperado pelos judeus, mas,
para que os judeus acreditassem nele, outras pessoas
deveriam dar testemunho a seu respeito. Para isso, Jesus
contava com testemunhas externas. E teve essa prova em
diversas ocasiões. Em resumo: seus milagres foram vistos
por inúmeras pessoas. João Batista deu testemunho a seu
respeito (Jo 1.7,15,19). E o próprio Deus deu testemunho
de Jesus em dois episódios: no batismo e no momento da
transfiguração (Mt 3.16,17; 17.5).
É relevante atentar para a história do povo hebreu. A
vinda de um Messias, salvador e libertador, era um
pensamento normal na cultura judaica. O povo judeu, por
diversas vezes, esteve sob jugos estrangeiros: egípcios,
babilônicos, persas, gregos, sírios, romanos, entre
outros. Na época dos juízes, ainda que as pressões
sobreviessem dos povos semitas, alguns “parentes” dos
judeus, Deus levantava juízes que, na verdade, eram
libertadores do domínio inimigo. Não foram poucos os
anos passados em terras distantes, estranhas e em
situações adversas. Por isso, o assunto sobre a vinda de
um Messias enchia de esperança o povo judeu. Chegando o
tempo proposto por Deus o Messias veio, porém, os judeus
estavam equivocados quanto às suas atribuições.
Em João 1.41, o discípulo André disse a seu irmão Simão
Pedro: “Achamos o Messias (que, traduzido, é o Cristo)”.
Filipe disse a Natanael: “Havemos achado aquele de quem
Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré,
filho de José” (Jo 1.45). Ao dialogar com Jesus, a
mulher samaritana disse: “Eu sei que o Messias (que se
chama o Cristo) vem; quando ele vier, nos anunciará
tudo” (Jo 4.25). Ao que Jesus, prontamente, respondeu:
“Eu o sou, eu que falo contigo” (Jo 4.26). Daí em
diante, a mulher passa a testemunhar de Jesus. “Deixou,
pois, a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse
àqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo
quanto tenho feito. Porventura não é este o Cristo?
Saíram, pois, da cidade, e foram ter com ele. E muitos
dos samaritanos daquela cidade creram nele, pela palavra
da mulher, que testificou: Disse-me tudo quanto tenho
feito” (Jo 4.29,30,39).
Esses exemplos provam que as pessoas têm necessidade de
testemunhar sobre Jesus. Ou seja, Ele não precisava
falar de si próprio que era o Messias prometido no
Antigo Testamento. Os testemunhos a respeito de Jesus
procederam de pessoas simples, sinceras, e eram
testemunhos verdadeiros (se bem que não de todos). A
questão do “testemunho de Jesus não ser verdadeiro” deve
ser entendida no sentido de que “palavras sem a
necessária confirmação de santidade e poder não
convencem. Os judeus, baseados nos seus preconceitos,
atribuíram maldade a Jesus. E Jesus, por sua vez,
defendendo suas reivindicações messiânicas, apela para a
regra bíblica que exigia duas testemunhas (Nm 35.30; Dt
17.6)”.
Em suma, a resposta à segunda pergunta (O testemunho a
respeito de si próprio é válido?) é afirmativa: SIM!
Jesus não era somente o Messias prometido, mas também
Deus encarnado. Sendo assim, apenas o testemunho humano
não é pleno. Ora, Jesus falava com propriedade do que já
havia experimentado na eternidade. Ao orar ao Deus Pai,
disse: “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti
mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o
mundo existisse” (Jo 17.5). Para Nicodemos, asseverou:
“Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o
Filho do homem, que está no céu” (Jo 3.13).
O texto de João 8 sugere que a discussão tinha a ver com
o perdão de Jesus outorgado à mulher pecadora. Quando
Jesus diz “quem me segue não andará em trevas, mas terá
a luz da vida”, obviamente está se referindo a algo
muito maior do que ter o messianismo endossado pelos
judeus. Fala de algo espiritual, místico, metafísico e,
neste sentido, Ele não precisa do endosso de um ser
humano. Tanto é assim que os fariseus disseram a Jesus:
“Tu testificas de ti mesmo; o teu testemunho não é
verdadeiro”. Ao que Jesus rebateu: “Ainda que eu
testifico de mim mesmo, o meu testemunho é verdadeiro,
porque sei de onde vim, e para onde vou; mas vós não
sabeis de onde venho, nem para onde vou” (Jo 8.13,14).
Pelo fato de Jesus ser o Emanuel (Deus conosco), não
necessita de provas humanas. Jesus, como todo bom judeu,
conhecia bem as normas e os regimentos prescritos aos
judeus e, logicamente, como em outros casos muito mais
complexos, não os violaria. Contudo, no caso em questão,
Cristo não falava como um simples judeu, mas, sim, como
o Soberano do Universo, por isso não precisava de
testemunhos. Até porque, os inquiridores de Jesus não
estavam aptos a testemunharem a respeito dele, e muito
menos a aceitarem seu próprio testemunho.
Norman Geisler arremata: “O testemunho de Jesus não era
verdadeiro: oficialmente, legalmente e para os judeus,
mas era verdadeiro “factualmente, pessoalmente e em si
mesmo”. Jesus tinha os testemunhos completos: das
pessoas alcançadas por Ele, de, até mesmo, alguns de
seus inimigos e dele próprio.
Participantes desta edição:
Jaqueline Costa Melo
Hudson Silva
Notas:
1 PIETERS, Albertus. Fatos e mistérios da fé cristã. São
Paulo: Editora Vida Nova, 1979, p.114.
2 GEISLER Norman & HOWE Thomas. Manual popular de
dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. São Paulo:
Editora Mundo Cristão, 1999, p 375.
3 Russel Norman Champlin Comentário de I Coríntios
15.5.. São Paulo: Editora Candeia.
4 Bíblia Vida Nova. Comentário de João 5.31. São Paulo:
Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
5 GEISLER Norman & HOWE Thomas. Manual popular de
dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. São Paulo:
Editora Mundo Cristão, 1999, p. 418.
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