Maio de 2007

A hermenêutica de Westminster

O que a Confissão de Fé de Westminster diz sobre a interpretação das Escrituras

Por Augustus Nicodemus Lopes

O neoliberalismo

Não poucos estudiosos e teólogos modernos concordam que o antigo liberalismo, como movimento histórico do século passado, está agonizando. Entretanto, muitos dos seus pressupostos quanto à interpretação das Escrituras têm sobrevivido e encontrado expressão em várias correntes teológicas e hermenêuticas que, historicamente, pertencem ao período pós-moderno.

O rótulo “neoliberalismo” tem sido aplicado ao movimento teológico-hermenêutico que preserva alguns pressupostos racionalistas do antigo liberalismo e se utiliza de conceitos da filosofia, da hermenêutica, da lingüística e da teologia pós-modernas. Particularmente, é o sistema de interpretação das Escrituras do neoliberalismo que se constitui um desafio urgente à doutrina reformada.

A hermenêutica neoliberal

De acordo com a hermenêutica neoliberal, é impossível alcançar o sentido original do texto bíblico. Por outro lado, é possível explorar uma pretensa “reserva de sentidos” que há no texto da Bíblia, extraindo “sentidos” que dependerão das circunstâncias em que estivermos. Conseqüentemente, a hermenêutica neoliberal coloca a verdade apenas como um ideal a ser perseguido, mas um ideal que jamais será alcançado com segurança nesta vida, o que significa, também, que jamais poderemos ter certeza absoluta de que conhecemos a verdade. O máximo que poderemos fazer é afirmar, com convicção, um dos muitos sentidos que poderíamos encontrar no texto.

Partindo de algumas teorias modernas de lingüística, essa hermenêutica sugere que os autores bíblicos poderiam ter escrito algo que não correspondesse à sua intenção original. Com isso, exagera a distância entre o autor e o texto, a ponto de não podermos encontrar a intenção do autor nos textos.

Ainda postulam que a Bíblia nada mais é que uma interpretação da vida e do mundo feita por seus autores, ou seja, basearam-se em sua maneira de interpretar a realidade. O texto bíblico é reduzido ao resultado da busca de sentido na realidade e na história dos seus próprios autores. Esse ensino fere frontalmente o conceito reformado de que a Bíblia, mesmo tendo sido escrita por homens situados no tempo e no espaço, é a revelação autoritária de Deus, por isso o homem faz de tudo para tentar compreender a realidade.

Tais teorias afirmam, ainda, que não se pode ter conhecimento do sentido pleno e verdadeiro das Escrituras, já que o texto não tem um único sentido (pleno e verdadeiro), mas, sim, sentidos múltiplos. O pluralismo religioso do pós-modernismo, em verdade, rejeita o conceito de verdade proposicional (ou seja, de que uma idéia possa ser verdadeira), por isso prega a impossibilidade de se alcançar a interpretação correta de uma passagem bíblica.

Desafios à teologia reformada

Essa abordagem interpretativa tem servido de ferramenta para o surgimento das teologias ideológicas, teologias feministas, teologias de libertação, entre outras, já que transfere o sentido do autor e do texto para o leitor.

Tradicionalmente, a hermenêutica reformada reconhece a necessidade de aplicarmos o texto bíblico às diversas situações em que nos encontramos, mas vê essas aplicações não como “sentidos” novos e múltiplos de um mesmo texto, mas como a significação do sentido único de um texto para as diversas situações da vida.

As implicações da hermenêutica neoliberal acabam transformando a mensagem das Escrituras inacessível à Igreja. De acordo com essa abordagem, acabamos sem Escritura, sem revelação, sem verdade e sem pregação, podendo, no máximo, pregarmos apenas uma interpretação nossa do texto, mas nunca a verdade divina.

Se não podemos alcançar o sentido das Escrituras, não nos resta qualquer base para a doutrina e a prática da igreja, para decisões teológicas, para o ensino doutrinário, para a ordem eclesiástica. Assim, instala-se o caos, por meio do qual cada um pode interpretar, como quiser, as Escrituras, as decisões da Igreja e seus símbolos de fé.

Os princípios de interpretação de Westminster

Devemos ter em mente as coisas que os puritanos escreveram sobre esse assunto na Confissão de Fé de Westminster. Os tópicos da capítulo I da Confissão tratam das Escrituras, por meio dos quais os puritanos expressaram suas convicções quanto à correta interpretação das Escrituras. Vejamos, ainda que em resumo, esses pontos:

1. Para evitar que sua vontade e a verdade se perdessem pela corrupção dos homens e a malícia de Satanás, Deus fê-la escrever nas Escrituras Sagradas. A inspiração das Escrituras resulta no fato de que elas expressam fielmente a vontade de Deus, a verdade divina.

Confissão de Westminster: “Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e da sua vontade necessário para a salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e a malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isto torna indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar Deus a sua vontade ao seu povo” (CFW, I.1).

Referências bíblicas: Sl 19.1-4; Rm 1.32; 2.1; 1.19,20; 2.14,15; 1Co 1.21, 2.13,14; Hb 1.1,2; Lc 1.3,4; Rm 15.4; Mt 4.4,7, 10; Is 8.20; 1Tm 3.15; 2Pe 1.19.

2. Temos a possibilidade de conhecer o sentido das Escrituras, conforme pretendido por Deus, mediante o autor humano.

Confissão de Westminster: “Todo o conselho de Deus, concernente a todas as coisas necessárias para a sua própria glória e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (CFW, I.6)

Referências bíblicas: 2Tm 3.15-17; Gl 1.8; 2Ts 2.2; Jo 6.45; 1Co 2.9, 10, l2; 1Co 11.13,14.

3. O Espírito Santo garante a compreensão salvadora das coisas reveladas na Palavra de Deus, as Escrituras.

Confissão de Westminster: “À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens. Reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na Palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da Palavra, que sempre devem ser observadas” (CFW, I.6. Cf. Catecismo maior, pergunta 4).

Referências bíblicas: 2Tm 3.15-17; Gl 1.8; 2Ts 2.2; Jo 6.45; 1Co 2.9,10,l2; 1Co 11.13,14.

4. O sentido das Escrituras é tão claramente exposto e explicado que a suficiente compreensão das mesmas pode ser alcançada pelos meios ordinários (pregação, leitura e oração).

Confissão de Westminster: “Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo modo evidentes a todos; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura, são tão claramente expostas e explicadas que não só os doutos, mas também os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas” (CFW, I.7).

Referências bíblicas: 2Pe 3.16; Sl 119.105, 130; At 17.11.

5. Há somente um sentido verdadeiro e pleno em cada texto da Escritura e não múltiplos sentidos, e esse sentido pode ser alcançado e compreendido pela Igreja.

Confissão de Westminster: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente” (CFW, I.9).

Referências bíblicas: At 15.15; Jo 5.46; 2Pe 1.20,21.

6. É exatamente porque as Escrituras não têm sentidos múltiplos que são o supremo tribunal em controvérsias religiosas, às quais a Igreja sempre deve apelar.

Confissão de Westminster: “O Antigo Testamento em hebraico (língua vulgar do antigo povo de Deus) e o Novo Testamento em grego (a língua mais geralmente conhecida entre as nações no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus e pelo seu singular cuidado e providência, conservados puros em todos os séculos, são por isso autênticos e, assim, em todas as controvérsias religiosas, a Igreja deve apelar para eles como para um supremo tribunal” (CFW, I.8. Cf., como exemplo, XXIX.6).

Referências bíblicas: Mt 5.18; Is 8.20; 2Tm 3.14,15; 1Co 14.6,9,11,12,24, 27,28; Cl 3.16; Rm 15.4.

7. A vontade de Deus está claramente expressa nas Escrituras e ao alcance da Igreja, de forma que a mesma pode distinguir entre o culto aceitável a Deus e aquele que não é.

Confissão de Westminster: “A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás, e muito menos sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras” (CFW, XXI,1).

Referências bíblicas: Rm 1.20; Sl 119.68; 31.33; At 14.17; Dt 12.32; Mt 15.9; 4.9,10; Jo 4.3, 24; Êx 20.4-6.

8. Apesar de os salvos serem humanos e pecadores, recebem de Deus o que é necessário para que possam compreender as coisas de Deus para a salvação.

Confissão de Westminster: “Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é servido, no tempo por Ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua Palavra e pelo seu Espírito, tirando-os, por meio de Jesus Cristo, daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isso Ele o faz, iluminando o seu entendimento espiritualmente, a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, arrancando deles seus corações de pedra e dando-lhes corações de carne, renovando as suas vontades e as determinando pela sua onipotência para aquilo que é bom, além de atraí-los eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça” (CFW X,1. V. tb. o Catecismo maior, pergunta 157).

Referências bíblicas: Jo 15.16; At 13.48; Rm 8.28-30; 11.7; Ef 1.5,10; 1Tes 5.9; 2Ts 2.13,14; 2Co 3.3,6; Tg 1.18; 1Co 2.12; Rm 5.2; 2Tm 1.9,10; At 26.18; 1Co 2.10,12; Ef 1.17,18; 2Co 4.6; Ez 36.26; 11.19; Dt 30.6; Jo 3.5; Gl 6.15; Tt 3.5; 1Pe 1.23; Jo 6.44,45; Sl 90.3; Jo 9.3; Jo 6.37; Mt 11.28; Ap 22.17.

Considerações finais

Esse pequeno resumo dos princípios de interpretação bíblica, que se encontram na Confissão de Fé de Westminster, serve para mostrar que os puritanos, seguindo a linha de interpretação dos reformadores, entenderam que a única maneira de interpretar as Escrituras, sem violar sua integridade, propósito e escopo, era procurar compreender o sentido que os autores humanos pretenderam transmitir. Os autores reconheciam que essa nem sempre era uma tarefa fácil, mas confiavam que, com a ajuda da ação iluminadora do Espírito, do conhecimento das línguas originais e do contexto histórico, poderiam alcançar esse sentido. A teologia que temos na Confissão de Fé de Westminster é o resultado do emprego sistemático dessa hermenêutica.

 



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