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Matéria
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Maio de 2007
Celibato
bíblico x celibato humano
Por Eguinaldo Hélio de Souza
O Novo Dicionário Aurélio apresenta uma definição
superficial sobre o termo “celibato”. Diz apenas que é
“o estado de uma pessoa que se mantém solteira”.
Em uma visão bíblica e religiosa, porém, é muito mais do
que isso. Celibato é a ausência de atividade sexual na
vida de um indivíduo. Ocorre geralmente por motivos
religiosos, embora qualquer pessoa possa exercê-lo. O
celibato pode (e às vezes até deve) ser exercido por
apenas um período. Os solteiros devem, com certeza,
praticá-lo, bem como os viúvos e separados. Mas também
pode ser praticado temporariamente por motivos
espirituais (1Co 7.5). Nosso enfoque, aqui, não é o
estado de celibato temporário, mas sua prática
permanente.
Claro que a Bíblia fala em celibato, mas nem tudo o que
leva este nome é bíblico. Distorcido ao longo dos anos
por influências gnósticas e estranhas, esta prática se
tornou, por imposição humana, um “preceito de homens” e
“doutrina de demônios” (1Tm 4.1), distante dos critérios
de Deus. A Enciclopédia Britânica assim se expressou
sobre o assunto: “A ligação entre o cristianismo e o
judaísmo e a aceitação do Antigo Testamento pela Igreja
cristã, tendia a perpetuar na Igreja primitiva a estima
que os hebreus tinham por casar e ter numerosos filhos”.
Logo, se o estado celibatário se tornou sinônimo de um
estado espiritual, isso não ocorreu como produto da
pregação apostólica. Outras influências fora da cultura
hebraica e do contexto bíblico levaram a prática a
extremismos danosos.
Quando o celibato é bíblico?
Dizer que o celibato nunca é bíblico, não é verdade.
Podemos encontrar base para ele tanto nos sinópticos
quanto nos escritos paulinos. A história, sacralizada
como tradição no catolicismo, não é normativa. Há
exemplos e afirmações neotestamentárias que devem ser
levadas em conta. Ignorá-los tem gerado pesados e
amargos frutos.
Quando é uma decisão pessoal
Quando Jesus falou sobre pessoas que se decidiram por
viver uma vida celibatária por amor ao reino de Deus,
foi bem explícito em apresentar isso como uma decisão
puramente pessoal. Não é uma adesão a algum regulamento
fixo da lei mosaica ou a qualquer outro ponto das
Escrituras, mas uma escolha deliberada e própria.
“Porque há eunucos que nasceram assim; outros foram
feitos eunucos pelos homens; e há eunucos que se fizeram
eunucos por causa do reino dos céus” (Mt 19.12; grifo do
autor).
Em Israel, não havia uma classe instituída de eunucos
como havia em outras nações. Aliás, os castrados eram
proibidos de entrar na congregação do Senhor (Dt 23.1).
Quando a Bíblia faz referência aos eunucos, geralmente
eles pertencem a outras nações. Eram guardas de harém (Et
2.3,14,15), ou serviam os reis e rainhas em diversos
cargos (Jr 38.7; At 8.27). Conforme o Dicionário da
Bíblia John D. Davis, não é muito certo que o termo
eunuco tenha o mesmo significado em todas as passagens
das Escrituras, pois há casos em que falam de eunucos
casados, como, por exemplo, Potifar, que era casado (Gn
37-39).
Também se faz, ocasionalmente, menção de eunucos entre o
povo de Israel ou mesmo em Judá (2Rs 24.15; 25.19; Jr
29.2;). John D. Davis afirma que “os eunucos existentes
no reino de Judá eram, pela maior parte, senão em sua
totalidade, estrangeiros”, como vemos em Jeremias 38.7.
Lembrando ainda que Jesus fala de eunucos de nascença e
de eunucos castrados pelos homens.
De qualquer maneira, não havia algo como uma instituição
de “eunucado” como se isso tivesse alguma virtude em si.
A cultura judaica valorizava o casamento, a procriação e
a varonilidade. O conceito de renúncia ao casamento por
amor ao reino de Deus é um elemento novo dentro da fé
escriturística, com um caráter estritamente pessoal.
Quando o celibatário recebeu o dom para “aceitar
isto”
Há um segundo ponto importante no celibato bíblico. Além
da decisão individual, o celibatário deve possuir
aptidão para permanecer em tal estado. Jesus terminou
sua sentença com a frase: “Quem puder aceitar isto,
aceite-o” (Mt 19.12), mostrando que nem todos estavam
aptos a receber tal preceito. Jesus disse ainda que nem
todos poderiam receber esta palavra, mas somente aqueles
a quem foi concedido recebê-la (v.11).
Paulo, o apóstolo celibatário, afirma a questão de
vocação ainda com mais veemência ao responder às
perguntas dos coríntios sobre o casamento. “Porque
quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas
cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de uma
maneira, e outro de outra” (1Co 7.7). Pela revelação
bíblica, não basta alguém desejar ser celibatário para
sê-lo. É necessária uma capacitação especial de Deus.
Quando o celibato leva a uma maior santificação a
Deus
O motivo do celibato bíblico é só um: maior
disponibilidade para Deus e o seu reino (Mt 19.12). O
fato de um cristão não querer se casar pode ser
ocasionado por motivos que não um chamado para servir a
Deus integralmente. Pode haver motivos de ordem social,
física ou psicológica. O celibatário vocacionado o fará
com pleno prazer, não se sentirá oprimido pela ausência
de um marido ou esposa, mas utilizará sua vida
completamente a serviço de Deus.
Paulo coloca o celibato neste foco, mostrando que os que
são casados têm de cuidar de coisas relativas a esta
vida para agradar seu cônjuge, enquanto que os solteiros
cuidam das coisas do Senhor apenas, tendo maior
consagração, tanto no seu corpo quanto no seu espírito
(1Co 7.32-34).
Não é a mera abstinência sexual que constitui o valor de
um celibato voluntário, mas o resultado desta abstenção
no serviço divino. Este ponto é importante, pois não é a
ausência do ato sexual que torna o celibatário mais
consagrado, mas uma vida desligada das coisas deste
mundo, voltada somente para Deus e seu reino.
Quando o celibato não é bíblico?
Embora o celibato clerical católico seja o mais
conhecido, houve e há outros grupos que entendem o
celibato como sendo necessário e obrigatório, pelo menos
para algumas classes especiais dentro do grupo, criando
uma espécie de casta de eunucos espirituais. Grupos
menores, na História passada e em nossos dias, exigem o
celibato como um estado automático de maior santidade e
por isso o impõe como exigência para adesão ao grupo.
Quando é imposto por outros
Uma coisa é incentivar o celibato. Outra é exigi-lo. Uma
coisa é crer que uma vida de solteiro, voltada só para
as coisas divinas, é melhor. Outra coisa é estabelecer
que só possa ser dessa forma. Dizer que alguém é
obrigado ao celibato se deseja ser um ministro da Igreja
de Cristo é uma ordenança humana e um ensino antibíblico:
“Mas o Espírito expressamente diz que, nos últimos
tempos, apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a
espíritos enganadores e a doutrinas de demônios, pela
hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo
cauterizada a sua própria consciência, proibindo o
casamento...” (1Tm 4.1-3; grifo do autor).
Não existe qualquer lugar nas Escrituras que estabeleça
um estado de solteiro obrigatório para quem quiser tomar
sobre si o encargo da obra de Deus. O celibato
obrigatório teve uma evolução histórica, por influências
não-apostólicas e não-bíblicas. Ainda lemos na
Britânica: “O celibato de clérigos não parece ter sido
obrigatório durante os primeiros séculos cristãos. A
opinião formalmente sustentada por alguns de que o
celibatário teve origem apostólica tem sido largamente
abandonada. A liberdade de escolha era a norma [...] No
Ocidente, o Concílio de Elvira na Espanha (306 d.C.)
decretou o celibato nas seguintes palavras: ‘é
inteiramente proibido a bispos, sacerdotes, diáconos e
todos os clérigos colocados no ministério viver com suas
esposas e filhos gerados. Quem o fizer será destituído
de sua posição de clérigo’”.
Quando o celibatário não consegue se conter
Paulo foi taxativo ao dizer que se alguém não pode se
conter, que então se case, pois é melhor casar do que
viver abrasado (1Co 7.9). Isso quer dizer que somente
alguém que é celibatário por dom e vocação deve insistir
em permanecer nessa condição. Os demais estão
desobrigados pela Palavra a tal esforço.
Quando entende o sexo como inerentemente mal
A imposição celibatária nasceu da falta da distinção
entre a perversão sexual e o ato sexual propriamente
dito. A perversão sexual é completamente condenada nas
Escrituras. Já o ato sexual faz parte dos planos de Deus
desde a criação do homem, pois, ao criá-lo, disse:
“Crescei e multiplicai-vos” (Gn 1.28). “E viu Deus que
também isto era muito bom” (v.31).
Outras influências não-bíblicas foram responsáveis por
esse desvio. Essa visão, provavelmente, tem raízes
gnósticas. O gnosticismo classificava a matéria como
algo inerentemente mal, sendo produto não de um Deus bom
e sábio, mas de outra entidade inferior. Eusébio, em sua
História eclesiástica, tece comentário sobre uma seita
denominada “encratitas”, originada de dois hereges
gnósticos: Saturnino e Marcião. Eusébio escreve o
seguinte, citando Irineu: “Aqueles que brotaram de
Saturnino e de Marcião, chamados encratitas, proclamavam
abstinência do casamento, deixando de lado o propósito
original de Deus e censurando tacitamente quem os fez
macho e fêmea para a propagação da raça humana”.
Ainda prossegue Eusébio, no mesmo capítulo, citando
Irineu e repreendendo a posição desses gnósticos com
respeito ao matrimônio: “Também o casamento, declarava
[um certo Taciano] juntamente com Marcião e Saturnino,
era apenas corrupção e fornicação”.
“Os gnósticos, que identificavam a matéria com o mal,
procuravam uma forma de criar um sistema filosófico em
que Deus, como espírito, seria livre da influência do
mal e no qual o homem seria identificado, no lado
espiritual de sua natureza, com a divindade [...] Em seu
sistema, não havia lugar para a ressurreição da carne
[...] Também os maniqueus, outra seita gnóstica,
popularizou o celibato. O maniqueísmo provocou tal
exaltação da vida ascética a ponto de ver o instinto
sexual como mal e enfatizar a superioridade do estado
civil do solteiro”.
Muitos líderes do século 2o tinham uma visão do
casamento influenciada pelo gnosticismo. Chegavam a
interpretar o casamento como uma conseqüência da queda
de Adão e não como algo anterior a ele, o que não é
certo. Ficavam com uma visão conflitante do casamento,
como sendo necessário e desaconselhável ao mesmo tempo:
“A hesitação dos ortodoxos casuístas sobre este
interessante assunto trai a perplexidade de homens
relutantes em aprovar uma instituição que eles eram
compelidos a tolerar. Alguns gnósticos foram mais
consistentes. Eles proibiram o uso do casamento”.
Quando o faz por “proibição demoníaca”
O apóstolo Paulo foi celibatário por plena
voluntariedade. Mas ele não encarava tal fato como uma
obrigação ministerial. Muito pelo contrário. Questionou
os coríntios em sua primeira epístola: “Não temos nós o
direito de levar conosco uma esposa crente, como fazem
os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor e Cefas?”
(1Co 9.5).
Logo, o celibato obrigatório não era instituição
apostólica. Uma nota da Bíblia de Jerusalém sobre esta
passagem, diz: “Como quer que seja, em vista dos
problemas materiais, os apóstolos casados, como Cefas
(Pedro), geralmente levavam a esposa em missão”.
É difícil traçar uma genealogia histórica para o
celibato clerical. Com certeza, não foi apostólico tanto
quanto não é bíblico. Nunca foi geral no cristianismo e,
mesmo quando foi imposto aos clérigos, não era praticado
uniformemente: “Por exemplo, a igreja oriental sempre
permitiu que seus sacerdotes casassem. O celibato
clerical é exigido somente dos monges. Os bispos
ortodoxos orientais são tradicionalmente escolhidos
entre os monges, portanto, celibatários. O sacerdote
simples da paróquia, no entanto, tem permissão para se
casar antes de ser ordenado. Se for solteiro por ocasião
de sua ordenação, deve permanecer assim. A tradição
católica romana desenvolveu paulatinamente a prática do
celibato clerical universal, de tal modo que todos os
sacerdotes da Igreja devem permanecer solteiros e
castos”.
A argumentação do catolicismo sobre o celibato clerical
é de que não há imposição. Quem faz o voto sacerdotal o
acata voluntariamente. Isso, todavia, constitui uma
imposição humana e não divina. As pessoas não deviam ter
de escolher entre ser ministro cristão e ter uma
família. As duas alternativas não são incompatíveis.
Dizer que alguém só pode ser ministro se for celibatário
é proibir o casamento para o clérigo.
Quando, porém, lemos a Palavra de Deus, vemos que esta
posição está absolutamente em conflito com ela. Veja o
que Paulo escreveu sobre algumas das características dos
ministros: “Esta é uma palavra fiel: Se alguém deseja o
episcopado, excelente obra deseja. Convém, pois, que o
bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher [...]
tendo seus filhos em sujeição [...] se alguém não sabe
governar a sua própria casa [família], terá cuidado da
igreja de Deus?” (1Tm 3.1-5; grifos do autor). E ainda:
“Por esta causa te deixei em Creta, para que [...] de
cidade em cidade, estabelecesse presbíteros, como já te
mandei: aquele que for irrepreensível, marido de uma
mulher, que tenha filhos fiéis [...] (Tt 1.5,6; grifos
do autor).
Quando leva a desvios sexuais
Não faz muito tempo, a mídia mundial ficou repleta de
denúncias de práticas homossexuais e pedófilas por parte
do clero católico. Isso sem falar no Movimento dos
Padres Casados, que é uma dissidência católica e um
protesto aberto contra o celibato obrigatório.
Não é de se espantar coisas desse tipo. Quando os
impulsos sexuais não são refreados por um dom da graça
de Deus, serão extravasados de uma forma ou de outra.
Assim escreveu o apóstolo em sua epístola aos Romanos:
“E semelhantemente, também os varões, deixando o uso
natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns
para com os outros, varão com varão, cometendo torpeza”
(1.27; grifos do autor). A torpeza foi o resultado de
deixar “uso natural da mulher”.
Deus criou o homem como um ser sexuado e estabeleceu
princípios pelos quais essa necessidade seria
legitimamente atendida. Isso está claro na Bíblia:
“Macho e fêmea os criou” (Gn 1.27); “Não é bom que o
homem esteja só” (Gn 2.18); e, por fim, “Deixará o homem
seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e serão os
dois uma só carne” (Gn 2.24). E ainda o apóstolo Paulo
arremata: “Todavia, para evitar a fornicação, cada homem
tenha a sua mulher e cada mulher tenha o seu marido”
(1Co 7.2 – Bíblia de Jerusalém).
A insistência na obrigatoriedade do celibato clerical,
tanto na prática quanto na matéria teológica, é plena
demonstração de uma “consciência cauterizada” ou, como
traduz a Bíblia de Jerusalém, “hipocrisia dos
mentirosos, que têm a própria consciência como que
marcada com ferro quente” (1Tm 4.2).
Considerações finais
Se alguém deseja ser celibatário, sente que tem um
chamado de Deus para isto, sente-se capacitado por Deus
para assumir essa posição, então que seja. Mas,
definitivamente, não há qualquer grau de pecaminosidade
no casamento e, especificamente, no ato sexual praticado
pelo marido e a mulher. “Mas, se te casares, não pecas;
e, se a virgem se casar, não peca” (1Co 7.28).
Para terminar, vale a observação do dr. Otto Borchert
sobre Jesus e o casamento:
“Não podemos duvidar, nem por um momento, que Jesus via
grandes benefícios no casamento. Em algumas de suas
parábolas, Ele retratou a alegria do casamento como a
maior de todas, chegando a se comparar com o noivo. Ele
mesmo tomou parte em um casamento e experimentou o maior
prazer com os ramos de oliveira (filhos) que são o
resultado de tal união. Além disso, invocou a lei da
criação (Deus os fez macho e fêmea) contra Moisés,
revelando o pleno significado intrínseco e a seriedade
desta lei (Mt 19.4). Aqueles dentre nós que o conhecem,
reconhecem que Jesus nunca foi partidário das pessoas
que proíbem o casamento (1Tm 4.3), da mesma forma,
jamais podemos crer que seja possível que Ele [Jesus]
tenha dado o conselho oferecido pelo seu apóstolo de que
é melhor não se casar”.
Notas:
1 Enciclopédia Britânica, 1969, vol 5.
2 CESARÉIA, EUSÈBIO de. História eclesiástica (Livro 4,
XXIX). São Paulo: Fonte editorial, 2005, p. 146.
3 Ibid.
4 CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos.
São Paulo: Edições Vida Nova, p. 81.
5 Declínio e queda do império romano, Cap 15, p.192.
Coleção grandes livros do Ocidente, Enciclopédia
Britânica.
6 Ibid.Cap XV, 92.
7 OLSON, Roger. História da teologia cristã. São Paulo:
Editora Vida, 1999, p. 309.
8 BORCHERT, Otto. O Jesus histórico. São Paulo: Edições
Vida Nova, 1985, p. 245.
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