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Maio de 2007
As festas do
Senhor
Por Gilson Barbosa
Quem não gosta de festa? As festas nos proporcionam
momentos felizes de comemoração. Mas comemoração de quê?
No Ocidente, não há uma preocupação com o caráter e a
natureza inerentes às festas e, quase sempre, elas se
tornam um fim em si mesmas. É a festa pela festa.
Contudo, isso não se dá com a cultura oriental, em que
as festas assumem um significado histórico em momentos
que oscilam entre a alegria e a tristeza.
Neste artigo, e nas próximas edições de Defesa da Fé,
referenciaremos as festas observadas na cultura judaica
bíblica. Entender a natureza dessas festas é salutar aos
cristãos hodiernos para que conheçam melhor alguns fatos
bíblicos.
“As festas judaicas tinham diversos propósitos. Algumas,
não passavam de mais uma espécie de culto ou adoração a
Deus. Nessas ocasiões, o povo, arrependido de seus
pecados, buscava o perdão e a bênção de Deus. Era o
momento de purificar a alma e de marcar um novo começo.
Outras festas eram, também, ocasiões de adoração, mas se
manifestavam em alegres ações de graças. Sempre que as
colheitas eram abundantes e os rebanhos se multiplicavam
bem, o povo expressava grande aptidão a Deus, e faziam
isso dançando pelas ruas. Cantavam e tocavam
instrumentos musicais em louvor ao Deus que tanto os
abençoara. Em algumas festas, havia instantes de oração
e meditação. Contudo, sua forma de adoração mais comum
era o regozijo, com muita música, alegria e banquetes”.
As festas
As festas imprescindíveis à nossa análise são: Festa da
Páscoa (Pessach), Festa do Pentecostes (Shavuot, ou
Festa das Semanas), Festa das Trombetas (Rosh Hashaná),
Festa da Expiação (Iom Kipur) e Festa dos Tabernáculos (Sucót,
ou Festa das Cabanas). Além dessas festas, consideradas
grandes, há outras festas “menores”, como, por exemplo,
as comemorações Chanucá e Purim, que surgiram depois de
lei. E por falar nisso, todas as festas do Senhor foram
instituídas sob a lei dada por Moisés e possuem caráter
comemorativo, pois retratam a maneira como Deus lidava
como o povo de Israel durante sua jornada pelo deserto e
o comportamento que os israelitas deveriam ter para com
o Eterno, entre outros fatores que são conseqüências
históricas importantíssimas para a nação judaica.
Iniciaremos a nossa análise sobre as festas judaicas com
a Páscoa que, sem dúvida, é uma festa de extrema
importância e com grandes significados. Na cultura
israelense, há três grandes festas conhecidas como as
“Festas da Peregrinação”. “Quando o templo ainda estava
de pé, os judeus faziam uma peregrinação a Jerusalém
para entregar suas ofertas durante três festas: Pessach,
Shavuot e Sucot. Os que viviam fora de Israel, tinham de
vender parte de sua colheita e enviar o dinheiro para
comprar oferendas e ajudar a cuidar do templo e dos
sacerdotes. Pessach, a páscoa judaica, é a festa que
celebra o êxodo do Egito [...] Agora que não há mais o
templo, os judeus celebram essas festas em casa e na
Sinagoga”.
Os cristãos, em geral, não comemoram literalmente essas
festas — pelo menos não nos moldes judaicos —, mas
reconhecem e respeitam a cultura judaica, que, de certa
forma, é um legado bíblico. Também não ignoram que as
festas judaicas, em grande parte, têm em Jesus Cristo o
seu antítipo.
Etimologia
O Dicionário Internacional de Teologia do Antigo
Testamento nos informa que “o vocábulo ‘páscoa’ deriva
de pesah, que significa, segundo alguns estudiosos,
‘passar’ (por cima/por alto)”. A anuência a este
dicionário, para a etimologia sugerida, pode ser
confirmada pelo Novo Dicionário da Bíblia, que completa:
“Páscoa, em hebraico, pesah, vem de um verbo que
significa ‘passar por cima’, no sentido de ‘poupar’”.
Estas explicações podem ser verificadas nas Escrituras
Sagradas, mais precisamente no livro de Êxodo
(12.12,13).
A data da comemoração
A celebração da Páscoa acontecia na tarde do 14º dia do
mês de Nisan (março/abril no nosso calendário) e,
simultaneamente, era conjugada com a Festa dos Pães
Asmos, como bem descreve Levítico: “No mês primeiro, aos
catorze do mês, pela tarde, é a páscoa do Senhor. E aos
quinze dias deste mês é a festa dos pães ázimos do
Senhor; sete dias comereis pães ázimos” (23.5,6). As
duas festas eram comemoradas juntas, como bem mostra um
texto do Novo Testamento que comenta o planejamento para
a prisão de Jesus: “E dali a dois dias era a páscoa, e a
festa dos pães ázimos; e os principais dos sacerdotes e
os escribas buscavam como o prenderiam [Jesus], com
dolo, e o matariam” (Mc 14.1).
Raízes históricas
A renitência de Faraó em não libertar o povo hebreu lhe
custou caro por via da décima e última praga (Êx
11.4,5). Contudo, como o Senhor é justo, prescreveu aos
judeus qual atitude tomar para que não fossem atingidos
pelo mesmo agente que desferiria o golpe sobre todos os
primogênitos que habitavam naquele lugar. Ordenou Deus
que cada família se provesse de um cordeiro sem mácula,
macho, de um ano, e o sacrificasse (Êx 12.6).
Imolado o cordeiro, Deus continua em sua prescrição: “E
tomarão do sangue, e pô-lo-ão em ambas as ombreiras, e
na verga da porta, nas casas em que o comerem” (Êx
12.7). Os judeus deveriam passar sangue nas vergas das
portas de suas residências para que fossem poupados da
praga de mortandade (Êx 12.12,13). Era uma espécie de
contrato procedimental estabelecido entre Deus e seu
povo. Por isso, a Páscoa instituída no Êxodo celebrava
(e ainda celebra) o fato de Deus ter poupado, protegido
e libertado os israelitas quando os primogênitos do
Egito foram mortos.
Jesus e a festa da Páscoa
Como varão israelita, Jesus estava obrigado, pela lei a,
anualmente, comparecer a Jerusalém para as três grandes
festas: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos (Dt 16.16).
A exigência da lei é muito clara. Todos os varões
israelitas tinham de estar presentes em Jerusalém
durante essas festas. “A larga propagação do povo
israelita tornou isso impossível. Os palestinos mais
piedosos procuravam, ao menos estar, em Jerusalém
durante a Páscoa” .
Sabendo-se que Jesus cumpriu toda a lei, pode-se
afirmar, com absoluta certeza, que Ele, a partir dos
doze anos (idade em que os meninos israelitas passavam a
ser conhecidos como “filhos da lei”), compareceu,
anualmente, em Jerusalém, nas três grandes festas de
Israel, em obediência à lei, à qual, como varão
israelita, estava sujeito (Gl 4.4). O Novo Testamento,
entretanto, registra apenas três ocorrências da presença
de Jesus em Jerusalém durante a Festa da Páscoa (Na sua
infância: Lc 2.40-42. No início de sua vida pública. E
na sua morte: Jo 2.23; Mt 26.2; Jo 11.55-57;
12.1,12-23).
O sangue do cordeiro pascal tipifica o sangue de Jesus,
derramado na cruz do Calvário, para a nossa redenção. O
hissopo (um arbusto, ou subarbusto, que produz uma
espécie de pendão com flores espiraladas), por conta da
facilidade com que era encontrado, sempre ao alcance da
mão, representa a fé (que “está junto de ti, na tua boca
e no teu coração” – Rm 10.8), que é o instrumento pelo
qual os méritos de Jesus são aplicados à verga e aos
umbrais do coração do pecador. Todos aqueles cujo
coração estiver marcado com o sangue do Cordeiro de Deus
são saltados pelo destruidor.
Nenhum osso do cordeiro pascal seria quebrado (Êx
12.46). Isso também tipifica Jesus: “Foram, pois, os
soldados, e, na verdade, quebraram as pernas ao
primeiro, e ao outro que como Ele fora crucificado; mas,
vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as
pernas. Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma
lança, e logo saiu sangue e água. E aquele que o viu
testificou, e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que
é verdade o que diz, para que também vós o creiais.
Porque isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura,
que diz: Nenhum dos seus ossos será quebrado” (Jo
19.32-36).
Jesus é, pois, o nosso perfeito cordeiro pascal, aquele
que foi crucificado de uma vez por todas, que se
entregou em sacrifício único e nos arrebatou das trevas.
Logo, não faltam aos cristãos verdadeiros motivos para a
celebração da Páscoa.
A Páscoa e o calendário
Como o calendário judeu é baseado na Lua, a Páscoa
cristã passa a ser móvel no calendário cristão, assim
como as demais datas referentes à Páscoa, tanto na
Igreja Católica como nas Igrejas Protestantes e Igrejas
Ortodoxas. Todavia, o Vaticano tem autoridade para
indicar outras datas.
As datas móveis do calendário que dependem da Páscoa:
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Terça-feira de Carnaval
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47 dias antes da Páscoa
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Quaresma
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Inicia na Quarta-feira de Cinzas e termina no Domingo de
Ramos (uma semana antes da Páscoa)
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Sexta-feira Santa
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A sexta-feira imediatamente anterior
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Sábado da Solene Vigília Pascal
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O sábado de véspera
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Pentecostes
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O oitavo domingo após a Páscoa
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Corpus Christi
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A quinta-feira imediatamente após o Pentecostes.
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Obs.: A partir de 2008, a “Ascensão do Senhor” também
será feriado, com data fixada em 29 de maio.
Notas:
1 COLEMAN, William L. Manual dos tempos e costumes
bíblicos, Editora Betânia, p.263.
2 FINE, Doorin. O que sabemos sobre judaísmo?, Callis
Editora, 1997, p.28.
3 CHAMPLIN, Russel Norman. O Novo Testamento
Interpretado Versículo por Versículo, p. 36, Lc 2.41.
4 NETO, José Barbosa de Sena. A páscoa (artigo não
publicado até o momento), 2002.
5 http//:pt.wikipedia.org/wiki/Páscoa.
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