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Ronald Boyd-MacMillan
A “Igreja
Perseguida” na Coréia do Norte
Como entender a Coréia do Norte? Em 2006, Rick Warren,
pastor evangélico norte-americano mundialmente
reconhecido, autor dos best sellers “Uma vida com
propósitos” e “Uma igreja com propósito”, foi
oficialmente convidado pelas autoridades norte-coreanas
a viajar o país. Na ocasião, a cidade de Pyongyang,
capital da nação, lançou alguns mísseis, numa outra
tentativa de ameaçar os Estados Unidos e outros países,
a fim de estabelecer seu próprio governo. Como explicar
e entender esse tipo de contradição? Pode ser difícil de
entender os motivos dessa nação secreta, quer seja
lançando mísseis no oceano ou convidando líderes
cristãos a visita-la, especialmente se lembrarmos que a
Coréia do Norte ocupa o primeiro lugar no ranking de
países perseguidores do cristianismo, segundo relatório
da Missão Portas Abertas. Ronald Boyd-MacMillan,
parceiro da referida missão, esteve na Coréia do Norte
em três ocasiões e se encontrou com Kim Jung I, líder do
país. Rob Moll, da agência de notícias Christian Post,
conversou com Ronald em sua casa na Escócia, de onde
concedeu a seguinte entrevista:
Rob Moll – O que você acha da visita de Rick Warren à
Coréia do Norte?
Ronald Boyd-MacMillan – Existe a possibilidade de alguém
viajar como personalidade religiosa, mas é propaganda.
Viajei dessa maneira e me levaram até a Federação Cristã
Coreana, também conhecida como Igreja Cristã em
Pyongyang. Mas isso é só uma fachada para os
estrangeiros. Mais tarde, um amigo meu, que não era
cristão, foi para lá. Então, disse para ele passear pela
cidade no domingo de Páscoa, para averiguar se havia
mesmo uma igreja de verdade. O local estava trancado.
De fato, existe a Federação Cristã Coreana, mas não
passa de um prédio para atrair religiosos para que eles
sejam uma ponte entre o regime e o mundo de fora, pois
os canais diplomáticos são muito difíceis de serem
utilizados. Billy Graham fez isso por muito tempo. Pode
haver uma regra para isso. Tenho certeza que Rick Warren
está consciente de que não passa de propaganda para o
governo norte-coreano mostrar que eles também possuem
uma igreja livre, o que não faz o menor sentido.
Rob Moll – Quantos aos lançamentos de mísseis, o que
você tem a dizer? O que os norte-coreanos estão tentando
fazer?
Ronald Boyd-MacMillan – É a única forma de eles se
relacionarem com o mundo de fora, já que não têm mais
nada a oferecer além disso. A única coisa é manter a
aparência de perigosos. Os Estados Unidos e alguns
outros países, em específico a China, têm participado
desse jogo com eles, com certos parâmetros.
Provavelmente, acham que se mantiverem um regime estável
os norte-coreanos nunca lançarão armas nucleares contra
o Japão ou contra a Coréia do Sul.
Rob Moll – Você teve a oportunidade de encontrar com
cristãos norte-coreanos?
Ronald Boyd-MacMillan – Não. Se você for a algum lugar
como a capital, você é mantido longe de qualquer cidadão
local, e não há cristãos conhecidos lá. Talvez, a única
maneira de conhecer cristãos seja atravessando a
fronteira em direção ao Norte e visitar algumas igrejas
domésticas, o que é bastante arriscado para um
estrangeiro.
Rob Moll – É verdade que, antes do comunismo, havia
muitos cristãos?
Ronald Boyd-MacMillan – É verdade. Eles chamavam
Pyongyang de Jerusalém do Extremo Oriente. Ruth Bell
Graham, esposa de Billy Graham, foi criada em uma
pequena escola cristã, muito conhecida por lá. Kim Il
Sung mudou todo o cenário na década de 40, obrigando a
população a adorá-lo, logo depois da Guerra da Coréia na
década seguinte.
Rob Moll – Ele conseguiu varrer quase toda a presença
cristã?
Ronald Boyd-MacMillan – Sim. Diria que foi uma das
maiores “limpezas” que já aconteceu no século 20.
Lembro-me de ter encontrado, há poucos meses, uma
refugiada da Coréia do Norte e ela comentou de como viu
sua mãe pegando um pequeno livro, colocando-o dentro de
uma agulha de tricô e enfiando no fundo do sofá em sua
casa. No dia seguinte, a garota foi à escola e os
professores fizeram um jogo em que diziam: “Seus pais
possuem algum livro que eles leiam talvez em secreto?
Vamos fazer um jogo: traga o livro e iremos dar uma
espiada”. É claro que ela entregou o livro, que era um
Novo Testamento. Ao sair deixou a escola naquele dia,
ela se deparou com dois homens que disseram: “Você nunca
mais verá seus pais novamente”. E foi o que aconteceu.
Foram levados aos campos de trabalho forçado. A menina
foi encaminhada à outra família.
Se você for à Coréia do Norte, receberá educação em uma
linguagem como a da Bíblia. Ela é mesmo bíblica, exceto
pelo fato de o deus ser Kim Il Sung. A sociedade
norte-coreana é muito religiosa. Na verdade, é daí que
vem a esperança, pois lá poderia acontecer o mesmo que
na China. Mao estabeleceu uma religião, o culto à
personalidade e, quando ele morreu, toda a população se
perguntou: “Afinal, quem é o verdadeiro Deus?”.
Rob Moll – Você disse que ainda existem algumas igrejas
domésticas por lá. Isso é tudo?
Ronald Boyd-MacMillan – A principal informação que temos
vem dos poucos idosos que estão autorizados a atravessar
a fronteira, em determinadas épocas do ano, com algumas
informações. E, também, de alguns refugiados. Essas são
as nossas duas principais fontes de informação. Por
elas, sabemos da existência de poucas igrejas domésticas
no Norte do país organizadas em linhas familiares. Ou
seja, possuem pais e avós, e só, pois mantêm as crianças
distantes, devido às brincadeiras na escola, como
mencionei antes.
Se você se torna cristão na Coréia do Norte, a primeira
pergunta que vem à sua mente é: “Fujo ou fico?”. Ficar é
sinônimo de risco de morte. Isso porque o cristão tem de
ir aos festivais saudar Kim Il Sung, fazer oferendas às
estátuas de Kim e se submeter a outras coisas. Ou seja,
fica amarrado pelo sistema. Mas, ao mesmo tempo, não
pode passar a impressão de que seu coração não está no
sistema.
Se o crente foge, o risco de morte é muito maior, pois,
caso seja pego, será morto a tiros ou levado a um campo
de trabalho escravo. Decidindo ficar, a grande questão
é: “Como esconder minha fé das pessoas que amo? Como
esconder minha fé da minha esposa? Como esconder da
minha mãe? Dos meus filhos?”. Isso porque, caso seja
descoberto, seus familiares sofrem, são presos também.
São dilemas horríveis para os que se tornam cristãos.
Rob Moll – Como alguém de fato se tornaria cristão na
Coréia do Norte? Existe alguma maneira de eles ouvirem a
respeito de Jesus?
Ronald Boyd-MacMillan – Existem alguns testemunhos
oriundos das unidades familiares. E, obviamente, há um
eixo que vem antes da guerra e que, de alguma forma, tem
mantido seu testemunho no país. Mas são testemunhos
silenciosos. A melhor estimativa que já ouvi é de cerca
de cinco mil cristãos. Mas, ao mesmo tempo, há
estimativas de meio milhão. Não há como provar. Sabemos
disso por meio de algumas pessoas que estavam presas.
Alguns cidadãos (não-cristãos) que conseguiram escapar
do campo de trabalho nos disseram das condições. Não
sabemos de nenhum cristão que escapou, pois, ao que
consta, isso ainda não aconteceu, mas existe uma mulher
que escapou de um campo. Na ocasião, não era cristã, mas
veio a se tornar uma posteriormente. E nos relatou o
tipo de vida dos cristãos lá dentro. Recebem os piores
tipos de trabalho e ainda têm de sobreviver comendo
ratos, já que as porções de alimento não são
suficientes. Trabalham da seis da manhã até as nove da
noite. São podem olhar para o céu. Esse é um dos
castigos. Não devem olhar para Deus. Devem olhar para
baixo o tempo todo.
Rob Moll – Os sul-coreanos têm condições de fazer
qualquer tipo de ministério no Norte por meio de
campanha de alimento ou qualquer outra coisa?
Ronald Boyd-MacMillan – Existem alguns, mas a maioria
das ONG’s cristãs se retirou, pois não conseguia se
certificar da ajuda chegando aos que precisavam. O
governo pegava o arroz que vinha das organizações
não-governamentais e passava para o exército, deixando a
população com fome.
Rob Moll – Quais são alguns dos desafios para tentar
ajudar a “Igreja Perseguida” em lugares como a Coréia do
Norte?
Ronald Boyd-MacMillan – É muito importante traçar um
perfil de sofrimento extremo. Mas isso não é tudo. Como
a nossa responsabilidade é ajudar toda a “Igreja
Perseguida”, se nos concentrarmos somente nas situações
extremas iremos perder o fortalecimento da maioria da
comunidade cristã que sofre perseguição.
Gostaria que os cristãos do mundo todo tentassem ver o
cenário por completo, pois é assustador. Não se trata
somente de saber como os crentes norte-coreanos
sobrevivem na prisão, em meio aos espancamentos e aos
martírios. Trata-se de como Deus constrói seu reino por
meio dessas forças perseguidas, mesmo por meio de
pessoas como Mao Tse Tung. Deus dobra o mal à sua
vontade. A grande verdade é que “todo mundo constrói o
reino, independente de conhecê-lo ou não”.
Algumas das mais eficazes construções do reino ocorrem
pelas mãos daqueles que pensam que estão destruindo.
Essa é a grande imagem que quero que as pessoas tenham.
No fim das contas, essa imagem irá ligar as pessoas à
história de todos os perseguidos e elas não se basearão
somente nos casos extremos de perseguição.
Penso que o fundamental é nos perguntarmos: “O que a
‘Igreja Perseguida’ tem a nos ensinar? O que Deus tem
feito e que precisamos escutar, já que fazemos parte do
corpo?”.
Onde quer que estejamos, passaremos por algum tipo de
perseguição, porque estamos diante de um fenômeno
espiritual e não legal. Se olharmos para o debate dos
direitos humanos, é um fenômeno legal, pois tudo é
elaborado pelos advogados. Mas a perseguição é
espiritual e o entendimento bíblico disso é que quando
você passa a ser cristão os inimigos de Cristo se tornam
seus inimigos. Você sofrerá algumas das conseqüências
por isso. Sendo assim, existe uma estrada dolorosa a ser
seguida, mas também é uma estrada gratificante. Se
esquecermos isso, paradoxalmente esqueceremos uma das
grandes fontes de alegria da vida cristã.
Tradução: Fabio Caruso Melo
Fonte: Christianity Today Magazine
Colaboração: http://www.portasabertas.org.br
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