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Contexto
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O luto
judaico
Por Gilson Barbosa
Há quatro momentos de extrema importância na existência
de um judeu: nascimento, início da vida adulta,
casamento e morte. Entre esses momentos, falaremos sobre
o último. Qual é o procedimento do judeu quando morre um
de seus patrícios?
Aproveitando o tema norteado pelo Dia de Finados,
pretendemos inserir o leitor no contexto do luto judaico
tal como se apresenta nas Sagradas Escrituras. Não
obstante haver vários significados, podemos definir
“luto” como uma “observância de formas de comportamento
costumeiras e convencionais que expressam a desolação e
o desespero por parte dos parentes do morto no período
que se segue ao seu falecimento”.
Hábitos culturais dos enlutados
Na cultura judaica, o morto é tratado com reverência e
respeito, por isso, para o judeu, os mínimos detalhes
que envolvem o luto não são somente importantes, mas
também necessários. Entre vários pormenores, destacamos
os seguintes:
Keriá
É representado pelo ato de se rasgar as vestes. Na
Bíblia, há relatos diversos sobre esse comportamento. O
patriarca Jó, ao saber que seus filhos haviam morrido,
“... se levantou, rasgou o seu manto...” (Jó 1.20). Jacó
se desesperou ao ser comunicado, por seus filhos, que um
animal tinha despedaçado José. Então, diante dessa
notícia, sua atitude foi imediata: “... rasgou as suas
vestes...” (Gn 37.34). Da mesma maneira, depois de ser
informado sobre a morte do rei Saul, “apanhou Davi as
suas vestes, e as rasgou...” (2Sm 1.11).
Nesse procedimento, alguns detalhes são importantes.
Atualmente, para que não aconteça haver desperdício de
roupas, os judeus adotaram o hábito de usar um lenço ou
uma fita que substitui as vestes e mantém a simbologia
da keriá sem onerar o enlutado.
A posição para que a keriá seja realizada deve ser em
pé. Noivos não são obrigados a rasgar as vestes, em
período nupcial, caso coincida com a morte de um
parente, visto que o casamento é um ato considerado
extremamente sagrado para os judeus e não deve sofrer
interferência de nenhum motivo de força maior.
Shivá
Há alguns períodos de tempo determinados para que um
judeu, vítima da perda de um ente querido, recupere-se
de suas tristezas, consiga controlar e adaptar suas
emoções à nova fase de sua vida. Os filhos que perderam
seus pais observavam o período de um ano completo.
Para outros casos de luto, os mestres judaicos, fazendo
uma analogia com as festas da páscoa e do tabernáculo,
que duravam sete dias, acharam por bem normalizar a
etapa primária de maior intensidade e enquadrá-la dentro
dos sete primeiros dias, período conhecido como shivá,
que em hebraico significa “sete”.
São duas as passagens bíblicas que os judeus costumam
lembrar nessa ocasião: Gênesis 50.10: “Chegando eles,
pois, à eira de Atade, que está além do Jordão, fizeram
um grande e dolorido pranto; e fez [José e família] a
seu pai uma grande lamentação por sete dias”, e Amós
9;10: “E tornarei as vossas festas [duração de sete
dias] em luto...”.
Quando o sofrimento da perda era muito intenso,
concedia-se, além dos sete dias, mais três semanas de
recuperação do luto sofrido. Tudo isso visava liberar o
enlutado para que pudesse viver suas lamentações e
sofrimentos sem importunações.
Nos sete dias (shivá) ,o enlutado deve sentar no chão e
evitar conversas em excesso, como fez Jó e seus amigos:
“E assentaram-se com ele na terra, sete dias e sete
noites; e nenhum lhe dizia palavra alguma, porque viam
que a dor era muito grande” (Jó 2.13). É importante que
o enlutado receba uma visita logo na primeira semana de
sofrimento, para que a sua dor da perda seja atenuada. O
hábito de se sentar no chão foi substituído pelo hábito
de se sentar sobre uma almofada ou sobre um assento bem
próximo ao solo.
Cadish
É a oração do enlutado. A pessoa enlutada, ao participar
dos serviços de culto nas sinagogas, recita o cadish. Ao
pronunciar essa oração, o enlutado, na verdade,
manifesta sua fé em Deus em meio à adversidade e, assim,
confirma que, independente da situação pela qual está
passando, ainda crê em Deus. É uma atitude similar à de
Jô, que disse: “Ainda que ele me mate, nele esperarei;
contudo os meus caminhos defenderei diante dele” (Jó
13.15).
O objetivo dessa oração é engrandecer e reconhecer a
soberania de Deus, apesar dos infortúnios advindos das
fatalidades. A oração tem início com a seguinte
expressão: “Exaltado e santificado seja o seu grande
nome”. Se o falecido não tiver filhos ou parentes, o
responsável pela citação do cadish é o encarregado da
sinagoga. Ao longo do tempo, adquiriu-se o hábito, por
influência do rabi Jacob Israel Emden (1697-1776), de
todos os presentes recitarem o cadish juntamente com a
pessoa que está de luto.
Lápide sobre a sepultura
Segundo a cultura judaica, as lápides não podem ser
ostentosas, feitas com pedras caras. Baseiam-se, para
isso, no texto de Salomão, que diz: “O rico e o pobre se
encontram; a todos o Senhor os fez” (Pv 22.2), cujo
conteúdo remete à igualdade social diante da morte.
O hábito de construir lápides nos túmulos remonta aos
dias dos patriarcas hebreus, quando Jacó erigiu uma
lápide à sua mulher, Raquel: “E Jacó pôs uma coluna
sobre a sua sepultura; esta é a coluna da sepultura de
Raquel até o dia de hoje” (Gn 35.20).
A construção de uma lápide é importante, pois simboliza
o respeito pelo morto. Tinha a função de evitar que o
sacerdote, involuntariamente, mantivesse contato, ainda
que por meio do túmulo, com o morto, visto que ao
sacerdote era proibido tocá-lo. Além disso, serviria
para identificar o local, facilitando sua visualização
aos visitantes. Contudo, a decisão de construí-la é
livre.
Há, também, o costume de se colocar uma pedra sobre o
túmulo do falecido. Sobre esse hábito, é interessante
lembrar que o filme A lista de Schindler mostra, em suas
cenas finais, vários sobreviventes judeus, salvos
durante o holocausto, colocando pedras sobre a lápide de
Oscar Schindler. Esse ato demonstra, simbolicamente, o
apreço que as pessoas mantêm pelo falecido, o que
significa que a sua memória será cuidadosamente
lembrada.
Iartseit
É o aniversário da morte. Esta observação anual,
geralmente, está atrelada à data de falecimento do ente
e não de seu enterro, pois são distintas. Apoiando-se em
Provérbios 20.27, o judeu acende uma vela nesse dia,
entendendo que a luz e a chama representam a essência
humana: “O espírito do homem é a lâmpada do Senhor, que
esquadrinha todo o interior até o mais íntimo do
ventre”. As velas devem permanecer acesas por um período
de 24 horas.
Consideração pelos mortos
Ainda que esses hábitos nos pareçam estranhos, o leitor
pôde perceber a consideração e o respeito que os judeus
têm para com o falecido. Esperamos que, na próxima
oportunidade em que o leitor for comentar alguma
passagem bíblica que envolva a morte de algum
personagem, recorde-se e considere esses itens
culturais, que o ajudarão a se contextualizar ao fato.
Quanto ao nosso comportamento, caso não tenhamos tais
procedimentos como questões culturais, devemos, pelo
menos, considerá-los curiosos e interessantes e
respeitá-los!
Obra de referência:
KOLATCH, Alfred J. Livro judaico dos porquês. São Paulo:
Sefer, 2001, p.53-91.
Notas:
1 Dicionário Eletrônico Houaiss, verbete: “luto”.
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