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Silas Daniel da Silva
Apologética e
jornalismo
Por Elvis Brassaroto Aleixo
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Silas Daniel da Silva é ministro evangélico filiado à
Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CGADB).
Graduou-se em jornalismo pela Universidade Estácio de Sá
(RJ), onde está concluindo também o curso de Direito.
Fez teologia, mas desde a adolescência já cultivava a
reflexão teológica. Possui cinco obras publicadas. A
primeira delas é fruto de produção independente, as
demais, editadas pela CPAD. Vejamos: O filho pródigo
(1997), Reflexões sobre a alma e o tempo – uma teologia
de chronos e kairós (2001), História da Convenção Geral
das Assembléias de Deus no Brasil (2004), Habacuque – a
vitória da fé em meio ao caos (2005) e Como vencer a
frustração espiritual (2006). É um dos repórteres do
programa “Movimento Pentecostal”, levado ao ar aos
sábados, pela manhã, pela Rede TV. Já foi editor das
revistas Pentecostes (hoje extinta) e Obreiro (com
trinta anos de existência, é o periódico de reflexão
teológica da Assembléia de Deus). Há dois anos, é editor
da revista Resposta Fiel (dedicada à apologética cristã)
e, há quatro, do jornal Mensageiro da Paz (órgão oficial
das Assembléias de Deus no Brasil há 76 anos). Além
disso, ministra conferências sobre os mais diversos
assuntos, tanto no Brasil quanto no exterior.
Defesa da Fé – Podemos legitimamente dizer que existe
hoje, no Brasil, uma “imprensa evangélica”? É possível
quantificá-la?
Pr. Silas Daniel – Sim, há uma “imprensa evangélica”, e
cada vez mais em expansão. Nos últimos quinze anos,
surgiram novas produções jornalísticas, e isso é muito
bom. Só que, infelizmente, há alguns casos de
engajamento incorreto.
Defesa da Fé – Os periódicos nos quais trabalha possuem
forte inclinação doutrinária. Sob um olhar panorâmico, o
senhor julga a produção jornalística evangélica
brasileira qualitativa?
Pr. Silas Daniel – Há bons exemplos de jornalismo
evangélico de qualidade no Brasil, mas, infelizmente, há
alguns veículos que se perdem em relação ao seu
propósito como mídia evangélica. Sem contar os que ficam
no limbo: oscilam entre um jornalismo evangélico sem
propósito e um jornalismo evangélico engajado,
compromissado. Para entender melhor isso, é preciso
refletir sobre o que é “jornalismo evangélico”.
Lembro que, quando estudava jornalismo, ouvia alguns
professores idealistas dizerem: “Não há jornalismo de
esquerda, de direita, religioso, etc. Existe apenas
‘jornalismo’, que deve ser, por definição, imparcial”.
Mas sabemos que, na prática, não existe a
imparcialidade. Ela só existe no jornalismo como uma
utopia a ser perseguida e, mesmo assim, apenas no que
chamamos de grande mídia do jornalismo secular. A
contradição, porém, é que até mesmo essa grande mídia é,
muitas vezes, extremamente parcial. Muitos jornais e
revistas são defensores de determinadas filosofias ou
grupos políticos. E essa tendência à parcialidade está
crescendo. É uma tendência mundial, chamada
envelopmental journalism (“jornalismo envolvido”). O
jornalismo secular está fugindo de sua proposta original
de imparcialidade.
Sou contra essa tendência no jornalismo secular. Ser
100% imparcial é impossível, mas a grande mídia deve
tentar ser, o quanto for possível, imparcial e não
soldado de determinada visão. Se o veículo não aceita
isso, é melhor deixar de se apresentar como jornalismo
independente e se declarar, oficialmente, porta-voz de
um segmento. Assim, a parcialidade será legítima. E aqui
entra a mídia evangélica. Mídias que se propõem a ser
porta-vozes de um segmento, como a mídia evangélica, têm
todo o direito de ser parciais, engajadas no seu
segmento. Claro que quando digo “parciais” não me refiro
a uma distorção de fatos em seu próprio benefício. Isso
é imoral. Falo do direito de afirmar sua opinião clara
sobre ciência, religião, política, acontecimentos,
dentro de sua própria cosmovisão. No caso evangélico,
dentro da cosmovisão cristã. Mas, infelizmente, nem
sempre é isso que acontece com o jornalismo evangélico.
Às vezes, ele não cumpre sua vocação. Por incrível que
pareça, nem sempre a mídia evangélica é evangélica, nem
sempre se posiciona na perspectiva da cosmovisão cristã,
bíblica. Muitos veículos estão em uma espécie de “crise
existencial”. Tentam ser iguais à mídia secular e acabam
deixando de ser evangélicos. Quando são segmentados,
defendem uma cosmovisão. Não são mídias seculares.
Poucas produções evangélicas conseguem aliar qualidade,
conteúdo e engajamento. Esse engajamento deve ser uma
reflexão sobre os fatos e conjunturas à luz da
perspectiva bíblica. É o que tentamos fazer, por
exemplo, nos veículos em que trabalhamos.
Defesa da Fé – Como jornalista e ministro, em que medida
avalia a mídia evangélica (TV, rádio, jornal, revista,
web, etc.) como instrumento responsável pela formação de
opinião entre os crentes?
Pr. Silas Daniel – A importância é enorme. O problema é
que boa parte da mídia evangélica, como já disse,
relega, consciente ou inconscientemente, o seu
propósito. Alguns programas que se propõem a formar
opinião disseminam modismos, conceitos de vida cristã
absolutamente espúrios quando examinados à luz da
Bíblia. Outros não apresentam esse problema, mas não
usam o espaço que têm para evangelizar e edificar
enquanto entretêm, fazer apologética enquanto informam e
apresentar a visão cristã para os fatos do dia-a-dia e a
conjuntura (nacional ou internacional) em que estamos
vivendo. Perdem o foco.
Vou citar apenas um exemplo, entre muitos, dessa
mentalidade: a idéia de que a imprensa evangélica deve
funcionar na base do “denuncismo”, como uma
fiscalizadora constante do comportamento moral de nomes
e instituições do meio evangélico, como uma reprodução
do que a mídia secular faz com o Estado, as
instituições, etc. Não estou dizendo que erros devem ser
postos sob o tapete. Por outro lado, jornal e revista
evangélicos não devem ser usados para “se lavar roupa
suja”. Como diz o ditado, esse tipo de coisa “se lava em
casa”. Em vez de crentes indignados usarem a mídia para
bater boca e publicar os escândalos de algumas pessoas
em suas igrejas, deveriam procurar resolver o problema,
com rigor, pelas vias normais, em suas próprias
congregações. A exposição desse tipo de coisa na mídia
não acrescenta nada. Além disso, afasta as pessoas do
evangelho.
Não devemos fingir que “não há problemas entre os
crentes”. Mas, se há problemas internos, eles devem ser
tratados internamente, não publicamente. A mídia
evangélica deve ser usada nesses casos apenas quando se
trata de um fato que realmente demande uma explicação
pública. Quando o assunto “grita” por isso. Mas o
“denuncismo” só por “denuncismo”, não. Outro caso válido
é se o problema está relacionado ao campo doutrinário,
envolvendo heresias. Mídia evangélica é para
evangelizar, entreter sadiamente, edificar, fazer
apologética e promover reflexão enquanto informa. Além,
claro, de divulgar o que Deus fez e está fazendo na sua
Igreja no Brasil e no mundo.
Defesa da Fé – Vamos falar um pouco sobre apologética.
Como descreveria a contribuição editorial do
pentecostalismo para a apologética como um todo?
Pr. Silas Daniel – Ora, se analisarmos o caso da
Assembléia de Deus, maior representante do
pentecostalismo no Brasil, veremos que ela sempre se
preocupou em fazer apologética em seus periódicos.
Agora, só de uns quinze anos para cá, a tendência
apologética sofreu naturalmente um boom entre os
assembleianos, a ponto de a Assembléia de Deus ter saído
à frente na crítica a muitos modismos recentes em
edições históricas do jornal Mensageiro da Paz. Muitos
foram os livros apologéticos que surgiram nesse período
também, lançados pela CPAD. Como desdobramento, em 2001,
a Convenção Geral da Assembléia de Deus criou uma
Comissão de Apologia, presidida pelo pastor Esequias
Soares. No mesmo ano, nasceu a revista de apologética
Resposta Fiel, que se tornou um referencial.
Defesa da Fé – Não muito tempo atrás, era comum rotular
os pentecostais como crentes preocupados em “crescer na
graça”, marginalizando o conhecimento adquirido pelo
estudo sistemático de obras teológicas. Como o senhor
analisa isso hoje?
Pr. Silas Daniel – Os obreiros assembleianos sempre
amaram o ensino bíblico, só não gostavam do sistema dos
seminários, posição que só começou a mudar nos anos 70.
Por que essa posição inicial? Porque os líderes da
Assembléia de Deus foram formados no modelo de escolas
bíblicas anuais de curta duração, implantado pelos
pioneiros suecos. Hoje, porém, as escolas de curta
duração coexistem na Assembléia de Deus com os
seminários e faculdades teológicas. E há uma sede cada
vez maior entre os assembleianos pelo conhecimento
teológico. Mas não por um conhecimento de caráter
liberal. Juntamente com a busca pelo aprimoramento
teológico, há o cuidado em manter a ortodoxia bíblica.
Defesa da Fé – As primeiras iniciativas editoriais em
prol da popularização da apologética não contam com
muito mais de dez anos no Brasil, mas isso vem mudando
sensivelmente. Qual tem sido a recepção e a reação do
público pentecostal ao ministério apologético
desenvolvido pela revista Resposta Fiel?
Pr. Silas Daniel – A repercussão é muito boa. A Resposta
Fiel é um referencial na manutenção da ortodoxia bíblica
no meio pentecostal. Mas não só entre os pentecostais.
Temos recebido o reconhecimento de vários grupos
evangélicos.
Defesa da Fé – No âmbito apologético, o senhor observa
muitos traços distintivos entre os perfis dos leitores
pentecostais e tradicionais? Ou poderíamos afirmar que,
neste aspecto, as diferenças são ínfimas?
Pr. Silas Daniel – Pela experiência que temos tido com a
Resposta Fiel, as diferenças são quase nulas. Ela é
apreciada tanto por evangélicos pentecostais quanto por
tradicionais. Seminários de igrejas históricas têm
reconhecido sua relevância e assinado a revista.
Defesa da Fé – Deixe uma mensagem ao leitor de Defesa da
Fé.
Pr. Silas Daniel – A missão da igreja também é
apologética. Devemos ser atalaias na área doutrinária,
orientando os irmãos em Cristo, evangelizando com a
exposição da razão da nossa fé, identificando tendências
perniciosas e combatendo-as contundentemente e em amor.
Firmeza e amor.
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