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A renúncia do papa Bento XVI

Por Roberto do Amaral Silva

O papa Bento XVI renuncia a um dos seus nove habituais títulos: o de “patriarca do Ocidente”. Ao abrir mão dessa honra, o líder da Igreja Católica tenta estreitar os laços com as igrejas ortodoxas, que surgiram do cisma de 1054. Mas é sabido que essas igrejas apresentam uma resistência muito forte, porque, à semelhança dos evangélicos, não aceitam a autoridade do papa.

Além disso, os ortodoxos divergem de outras práticas da igreja romana. Seus padres se casam e constituem família. As comunidades locais gozam de relativa autonomia, pois não possuem um sistema hierárquico semelhante ao papado romano. Isso significa que a autoridade não é restrita aos bispos, mas abrange a comunidade de todos os fiéis. Não veneram imagens de esculturas, usam somente os ícones, que são pinturas de “santos” ou anjos, o que não deixa de ser idolatria.

Há quem diga que, ao renunciar ao título em referência, o papa deseja, na verdade, se apresentar como “patriarca universal”.

É uma pena que o papa tomou essa decisão, de renunciar a um título, movido mais pela diplomacia no seu esforço ecumênico do que pela orientação das Escrituras. Por que o chefe da Igreja não abriu mão de ser chamado “vigário de Cristo”? Para começar, é bom recordar que “vigário” significa “substituto”.

Utilizado por todos os bispos do Ocidente europeu até o século 12, o título “vigário de Cristo” passou, depois desse período, a ser usado apenas pelos papas, indicando, dessa forma, a plenitude do poder papal. Indo mais longe ainda, o papa Inocêncio IV (1243–54), na Idade Média, chegou a intitular-se “vigário de Deus”. Conforme Hans Küng, um dos antecessores, Inocêncio III (1179-80) preferia o título de “vigário de Cristo” ao de “representante de Pedro [...] e, como papa, via-se colocado entre Deus e a humanidade”.

Já no limiar do século 20, o papa Leão XIII (1878-1903), declarou o seguinte, na Constituição Cristã dos Estados: “A divina autoridade da Igreja é suprema em sua própria esfera porque a Igreja é o lugar-tenente de Deus na terra”. Ora, ser o lugar-tenente é ser o substituto de outrem. Logo, o que Leão XIII quis dizer é que a Igreja Católica está no lugar de Deus no mundo e o papa, como Pontífice Máximo, é como se fosse Deus em forma humana. Ou seja, é o substituto de Cristo no mundo.

Isso significa ter autoridade para revelar novas verdades. Daí o dogma católico da infalibilidade papal, definido em 1870, no Concílio Vaticano I e referendado no Concílio Vaticano II e no Catecismo da Igreja Católica, publicado pelo papa João Paulo II, em 1993. Nesse catecismo, lemos: “O papa, bispo de Roma e sucessor de S. Pedro, é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos bispos quer da multidão de fiéis. Com efeito, o romano pontífice, em virtude do seu múnus de vigário de Cristo e de pastor de toda a Igreja, possui poder supremo e universal. Ele pode sempre livremente exercer este seu poder”.

Se o papa é o fundamento da unidade, substituto de Cristo na terra e possui poder supremo e universal, conclui-se logo que toda a autoridade espiritual foi dada ao papa no céu e na terra.

Citando o documento Constituição Dogmática Lúmen Gentium, o catecismo ainda declara: “Quando, pelo magistério supremo, a Igreja propõe alguma coisa ‘a crer como sendo revelada por Deus’ e como ensinamento de Cristo, ‘é preciso aderir à obediência da fé tais definições’. Esta infalibilidade tem a mesma extensão que o próprio depósito da Revelação divina”.

Em outras palavras, se o magistério supremo está enfeixado nas mãos do papa, tudo o que é declarado por ele, na qualidade de “pastor e doutor”, aos fiéis é nova revelação e tem caráter doutrinário, pois o pontífice romano é infalível e o conteúdo desse ensino é entendido como revelação de Deus.

É redundante dizer que a denominação “vigário de Cristo” dada a qualquer líder eclesiástico não tem apoio bíblico. Jesus Cristo já alertara os discípulos do perigo da ostentação de certos títulos: “Mas vocês não devem ser chamados ‘rabis’; um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos. A ninguém na terra chamem ‘pai’, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus. Tampouco vocês devem ser chamados ‘chefes’, porquanto vocês têm um só Chefe, o Cristo” (Mt 23.8-10, NVI).

Quanto ao título “vigário de Cristo”, só é cabível ao Espírito Santo, como declarou o Senhor Jesus: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco” (Jo 14.16). Só o Espírito Santo é o substituto de Cristo. Nós, cristãos evangélicos, não estamos sozinhos nem órfãos da presença do Senhor Jesus, que declarou que estaria conosco — na pessoa do Espírito Santo — todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28.20).

Nota:

1 KUNG, Hans. A Igreja Católica: história essencial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p.121.

 

 

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