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Matéria
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O poder das
perguntas
Por Tim Dahlstrom
Tradução: Elvis Brassaroto Aleixo
Muitos cristãos reconhecem que devem estar aptos para
responder àqueles que os questionam acerca da razão de
sua esperança (1Pe 3.15). E devem fazer isso por uma
declaração, pela exposição de um fato ou de um
argumento. Contudo, a resposta em forma de uma pergunta
pode também ser uma ferramenta empregada poderosamente e
com sucesso, após um pouco de prática. Tanto Jesus
quanto Paulo regularmente se valeram das perguntas na
prática do evangelismo, da apologética e do ensino.
O escritor do livro de Provérbios igualmente destacou o
valor das questões indagativas: “O primeiro a apresentar
a sua causa parece ter razão, até que outro venha à
frente e o questione” (Pv 18.17 – NVI). Por que as
perguntas são tão poderosas? Porque demandam respostas,
estimulam o pensamento, fornecem valiosas informações,
provocam as pessoas a se abrirem aos problemas e as
ajudam a se convencerem.
O maior valor prático do método de empregar as perguntas
reside no fato de o questionador não ter de possuir
todas as respostas. Um cristão pode se engajar numa
discussão sem necessariamente conhecer tudo sobre o
assunto em debate, desde que não esteja discursando, mas
questionando. Para aqueles que não se sentem
confortáveis diante de sua gama de conhecimento acerca
de uma disciplina, ou que não se sentem qualificados
para argumentar, o questionamento torna-se uma excelente
opção que faz grande diferença no diálogo apologético.
Um exemplo de Jesus
Mateus nos relata um formato de questão indagativa
utilizada por Jesus, recorrente nos relatos do evangelho
(Mt 6.25-34). Nesse texto, um trecho do sermão da
montanha, Jesus está ensinando os discípulos que eles
não deveriam se preocupar. Primeiramente, Jesus declara
um princípio, depois, faz uma série de perguntas, e, em
seguida, finaliza com o resumo do conceito que queria
que seus seguidores apreendessem.
As perguntas de Jesus fazem que seus ouvintes pensem e,
ao mesmo tempo, consigam convencer a si próprios de
alguma coisa. Imaginemos que os discípulos tenham,
inicialmente, rejeitado a pregação de Jesus por meio de
um diálogo interior (psicológico) sobre seus problemas,
suas tensões e pressões, e os obstáculos que enfrentavam
diariamente. A pungência das perguntas que Jesus
apresentou, contudo, demoliu tais reflexões, levando-os
a refletir sobre duas outras questões implícitas:
1) O que a preocupação pode fazer por mim?
2) Deus é fiel?
A resposta à primeira pergunta parece óbvia — a
preocupação nada pode fazer por nós. A segunda, porém,
requer que o ouvinte empenhe uma auto-avaliação, a fim
de ponderar se ele realmente faz descansar sua confiança
em Deus. Se a resposta for afirmativa, então a conclusão
segue logicamente: a preocupação não faz sentido. Se for
negativa, Jesus repete o conceito: “Não vos inquieteis,
pois, com o amanhã” (Mt 6.34).
O emprego das perguntas por Jesus foi intenso e
persuasivo. Jesus conduziu o raciocínio de seus ouvintes
por meio de perguntas certas e eficazes. E suas
indagações se tornaram catalizadoras de um caminho
lógico quase inexorável à conclusão. Sobre isso, Philip
Johnson aponta: “Se eu começar com a pergunta certa e
deixar que a resposta desta primeira pergunta sugira a
próxima, e assim por diante, então a força irresistível
da lógica me levará à conclusão correta, mesmo que a
primeira resposta pareça estar distante dela”.
O que é uma boa pergunta?
Uma boa pergunta possui três importantes
características.
Primeiro, a pergunta precisa ser simples e restrita a um
único tópico. Evite perguntas que evoquem múltiplas
respostas ou que sejam verborrágicas.
Segundo, a pergunta precisa ser clara e de fácil
entendimento. Use um vocabulário que seja familiar à
pessoa de quem você pretende obter a responda. Evite
empregar termos vagos ou ambíguos e jargões evangélicos.
O apologista cristão deve estar atento aos termos e
conceitos cristãos que sejam questionáveis em seu
próprio meio, ou seja, entre os próprios cristãos, e
também entre os cristãos e os sectários. Muitos termos e
conceitos não são bem conhecido fora dos círculos
cristãos.
Perguntar para uma pessoa se ela acredita que Jesus foi
feito a propiciação pelos seus pecados, por exemplo,
poderá, efetivamente, não ser uma boa idéia, uma vez que
poucas pessoas ouviram falar de “propiciação” fora dos
círculos cristãos. Uma estratégia prática é apresentar
tais termos por meio de outras palavras que expressem o
mesmo significado.
A escolha da palavra correta dependerá muito do contexto
da situação em que nos encontrarmos. E, mais importante
ainda, dependerá do nível intelectivo do receptor e de
seu estilo de comunicação. Usar um vocabulário
especializado pode ser mais apropriado numa aula sobre
religiões comparadas direcionada a seminaristas de nível
avançado, mas seria inadequado numa conversa com alguém
na rua. Como alguém poderá saber tudo isso? Lembre-se, é
você quem está fazendo as perguntas! As respostas para
estas perguntas nos permitem ajustar melhor a nossa
aproximação à situação e à pessoa com quem almejamos
dialogar.
Terceiro, a pergunta não pode conter um teor
amedrontador ou estar carregada de palavras
emocionalmente carregadas. Tais questões evocam uma
reação apaixonada e não uma resposta pensada. São
perguntas usualmente impróprias para quem intenta travar
um diálogo qualitativo. O termo “pecado”, por exemplo, é
extremamente carregado no âmbito emocional. Em nossos
encontros com os não-cristãos, percebemos algumas
reações interessantes quando do uso desta palavra. As
reações refletiram o conceito que as pessoas possuíam
acerca de “pecado”, mas sem necessariamente declararem
qual é este conceito implícito por trás da palavra.
A fim de despir o termo de seu teor emotivo, sugerimos
uma progressão das idéias na conversa. O “pecado” pode
ser descrito, num primeiro momento, como “ser
imperfeito”, depois, como uma “regressão aos mandamentos
de Deus” ou algo similar que igualmente comunique a
compreensão bíblica que encerra o termo.
Quando sugerimos uma expressão diferenciada para a
conceituação de um termo bíblico, não estamos querendo
dizer que o apologista deve mudar a essência da
definição. Precisamos ser cuidadosos e precisos. Cremos
que o emprego de descrições alternativas pode ser mais
bem compreendido no diálogo, assim como pode promover
respostas sem o caráter resistente que de outra forma
poderia se verificar.
Perguntas que devem ser evitadas
Deveríamos evitar alguma espécie de pergunta? A resposta
é sim. A pergunta dirigida deve ser, em geral, evitada.
Perguntas dirigidas são aquelas que sugerem ou deduzem a
resposta correta. O poder da sugestão pode balançar as
pessoas facilmente. Com tais perguntas, podemos receber
respostas convenientes em vez de informações precisas e
detalhes importantes. Essas perguntas, habitualmente,
começam com expressões indagativas, tais como: “Você não
acha que...?”, “Você não deveria...”, ou “Você não
concorda que...?”. Obviamente, tais perguntas estão
estimulando uma resposta específica.
Como perguntar?
O processo interrogativo é bastante simples, mas o
fracasso na observância de alguns passos pode
conduzir-nos a enganos e a uma comunicação ineficaz. Se
não atentarmos para este cuidado, o impacto de nossas
perguntas será reduzido.
Primeiro: devemos fazer a pergunta. Se a pergunta for
desenvolvida com as diretrizes básicas já comentadas até
aqui, ela produzirá uma resposta sensata. Se não, a
pergunta precisará ser reformulada.
Segundo: devemos receber a resposta. Para recebermos a
resposta em sua completeza, precisamos estar
predispostos a ouvi-la. Escutar com diligência quer
dizer focalizar a atenção naquilo que o respondente está
dizendo, evitando interrupções e absorvendo as mensagens
visuais e auditivas expressas por ele. A “linguagem
corporal” de uma pessoa e o seu tom de voz podem ser tão
importantes quanto o que ela está dizendo. O tempo
durante o qual estivermos ouvindo a resposta não é
apropriado para desenvolver perguntas adicionais ou
avaliar a resposta. Comumente, tais perguntas são
precipitadas e mancas, pois não consideraram a lógica
total da resposta.
Finalmente, depois de recebermos toda a resposta,
podemos, então, avaliá-la em sua inteireza lógica e
precisão efetiva, em suas suposições e consistência, com
informações conhecidas ou respostas prévias.
Se a sucessão de perguntas deverá ser da do geral para o
específico ou do específico para o geral, isso depende
do tópico em discussão. Seja qual for o caso, o ponto
central será usar a informação obtida de uma pergunta
como “alimento” para a formulação da próxima pergunta
lógica e, nessa cadência, conduzir o diálogo passo a
passo ao destino final, seja ele uma compreensão, uma
conclusão, ou mesmo uma decisão.
Mas há, ainda, outros tipos de perguntas que gostaríamos
de trazer à baila: “as abertas e as fechadas”. Perguntas
abertas são aquelas que fazem que os respondentes
forneçam respostas desestruturadas ou desorganizadas,
proporcionando o destaque de informações importantes.
Tais perguntas pedem descrição ou explicação. “Como” e
“por que” são termos freqüentemente usados aqui. A
resposta para uma pergunta aberta revelará informações
acerca das suposições, preconceitos, valores e
convicções do respondente e serão fundamentais para a
formulação das questões subseqüentes. Por outro lado, as
perguntas fechadas requerem, às vezes, respostas
predeterminadas e devem ser usadas quando o desejo for
obter do respondente uma informação particular.
As perguntas de múltipla escolha: sim ou não, verdadeiro
ou falso, são questões fechadas. Quem? O quê? Quando?
Onde? e Como? são também perguntas fechadas muitíssimo
empregadas.
Por quê? é uma pergunta particularmente eficaz porque
extrai argumentos, suposições e conhecimento, ajudando a
descobrir a visão de mundo do respondente. Mas deve ser
perguntada com sinceridade e respeito, pois, caso
contrário, pode ser interpretada como uma acusação e não
uma tentativa de entendimento.
O que segue são exemplos de diferentes tipos de
perguntas que poderíamos fazer para conduzir as
respostas ao ultimato de Jesus: “E vós, quem dizeis que
eu sou?” (Mt 16.15; Mc 8.29). Perguntas gerais que
auxiliariam nesta resposta seriam: “Qual é a
característica mais importante de Jesus?”; ou: “Como
Jesus descreveu a si próprio?”. Perguntas mais
específicas poderiam ser: “Jesus foi um personagem
histórico?”; ou: “Você acredita que Jesus é Deus?”.
Perguntas simples e inteligíveis como estas podem ajudar
a dissipar a fumaça e a verborragia racionalizada que
algumas pessoas cultivam. Elas ajudarão a desmantelar as
filosofias complexas que se instauram contra o
conhecimento da verdade (2Co 10.5). E também ajudarão o
cristão a iniciar um diálogo e ser diligente na
afirmação de sua fé.
Fonte:
Christian Research Journal, vol. 27, nº 2, 2004.
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