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Entrevista
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Gabriele Greggersen
C. S. Lewis,
teologia, filosofia e fantasia
Por Jamierson Oliveira
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Maior especialista no Brasil em C. S. Lewis, famoso
pensador cristão, Gabriele Greggersen é filha de
missionários alemães da Igreja Evangélica Livre e mora,
atualmente, em Londrina, PR, onde dá aulas na FTSA —
Faculdade Teológica Sul-America.
Graduada em bacharel em Pedagogia, mestre e doutora em
Filosofia e História da Educação e pós-doutora em
História das Mentalidades, já dirigiu o departamento de
Filosofia e Ética e Cidadania da Faculdade de Filosofia,
Educação e Letras da Universidade Presbiteriana
Mackenzie, em São Paulo, SP, capital onde também
lecionou, por quase seis anos, no Centro de
Pós-Graduação Andrew Jumper.
Entre seus muitos trabalhos escritos, destacam-se as
seguintes obras: Antropologia filosófica de C. S. Lewis
(publicado pela Editora Mackenzie, agora Editora Vida),
O senhor dos anéis: da fantasia à ética e O evangelho de
Nárnia (lançado pela Editora Vida Nova). Seu site: www.cslewisbrasil.org,
o primeiro no Brasil dedicado a C. S. Lewis, é digno de
destaque. E foi por conta da exibição do filme “As
crônicas de Nárnia: o leão, a feiticeira e o
guarda-roupas”, baseado na obra homônima do pensador,
que Defesa da Fé resolveu conversar com Gabriele
Greggersen, via MSN. O resultado é a entrevista que
segue.
Defesa da Fé – Como poderíamos, de maneira equilibrada,
situar C. S. Lewis na história cristã, filosófica e
literária?
Gabriele Greggersen – É preciso dividir seu legado em
diversos aspectos, por causa de suas várias facetas.
Para a história cristã, Lewis foi o maior apologeta do
século 20, comparável apenas ao grande jornalista G. K.
Chesterton, que muito o inspirou. Entre os profissionais
da FTSA, há um consenso de que Lewis foi o maior
teólogo, precisamente por não ter sido “teólogo” de
carteirinha.
Do ponto de vista filosófico, além de essa ter sido uma
das primeiras cadeiras assumidas por Lewis como
professor-assistente em Oxford, a filosofia sempre fez
parte da sua vida, desde as aulas particulares com o
professor Kirkpatrick (por isso, provavelmente, tenha se
inspirado para a figura do professor de “O leão, a
feiticeira e o guarda-roupa”), com quem aprendeu,
principalmente, lógica e filosofia clássica. Embora não
fosse reconhecido no meio filosófico, sua contribuição
mais significativa, a meu ver, está na sua ética e
antropologia filosófica, à qual dediquei a minha tese.
Em sua época, seus escritos não despertaram apenas o
interesse de críticos literários, mas também de
filósofos, e até de B.H. Skinner, que faz uma crítica ao
seu texto “A abolição do homem” em “Para além da
liberdade”. Dizem as más línguas que um dos únicos
debates que Lewis perdeu foi para uma filósofa, em uma
disputa pública. Lewis fundou, entre outros, um clube
chamado Socratic Club, aberto a qualquer pessoa que
quisesse discutir filosofia ou teologia. Depois disso,
se desencantou um pouco com os filósofos.
Finalmente, em termos literários, sua contribuição é
inegável e amplamente reconhecida, já que a sua área de
especialização era crítica literária e literatura
britânica medieval e renascentista. Qualquer biblioteca
de Letras traz em seus acervos inúmeros trabalhos
acadêmicos de Lewis e qualquer enciclopédia sobre esse
assunto inclui o seu nome, sem falar na sua popularidade
como autor de ficção.
Não é para menos que Lewis é indicado pela maioria dos
Estados americanos como leitura obrigatória para as
escolas.
Defesa da Fé – Por que, então, Lewis é tão desconhecido
no Brasil, embora tenhamos uma forte influência
protestante americana e européia?
Gabriele – Esse é um dos mistérios que também gostaria
de desvendar um dia! Mas pela reação de algumas pessoas
às minhas palestras e escritos, temo que se trate, em
parte, de ignorância, pois os livros de Lewis só
voltaram a circular agora no Brasil, e, em parte, por
preconceito. Infelizmente, nós, brasileiros, temos muito
disso, principalmente quando se trata de literatura
imaginativa, figuras mitológicas, bruxas ou contos de
fada. Os protestantes, principalmente, acham que esse
tipo de literatura pode ter, por exemplo, alguma
influência maligna sobre os seus filhos. Então, “joga-se
fora o bebê com a água do banho”, só por via das
dúvidas.
Defesa da Fé – Será que isso começará a mudar com a
versão para o cinema da obra “As crônicas de Nárnia: o
leão, a feiticeira e o guarda-roupa”? Qual é a sua
opinião sobre esse filme?
Gabriele – Creio que já está mudando! Mal sabia, anos
atrás, quando comecei a me aprofundar em sua obra, que
isso fosse possível algum dia. Mas sempre tive
esperança, caso contrário, não teria insistido tanto
nessa tecla. É claro que vejo, antes de tudo, a atuação
divina por trás disso. Gostei bastante do filme e
perdoei as pequenas diferenças em relação ao livro que,
às vezes, serviram para “amarrar” melhor algumas cenas.
Afinal, um diretor também é um escritor, não é? Em todos
os casos, é uma excelente oportunidade para fazer
contato com aquelas pessoas que, assim como Lewis, antes
de sua conversão, jamais colocariam os pés em uma
igreja. A turma “do contra” devia atentar melhor para
essa chance, que pode ser a única em um mundo surdo para
as coisas de Deus, mas geralmente aberto para a
linguagem imaginativa. “Quem tem ouvidos para ouvir
ouça”.
Defesa da Fé – De todo o conjunto da obra de Lewis,
quais as mais teológicas, especificamente falando? E
quais as obras desse autor podem ser encontradas em
língua portuguesa?
Gabriele – A editora Martins Fontes, que comprou,
praticamente, todos os direitos autorais, começou, de
modo surpreendente, com dois livros teológicos:
Cristianismo puro e simples — um grande clássico, que
deve ser lido junto com sua autobiografia, Surpreendido
pela alegria (Mundo Cristão) — e O leão, a feiticeira e
o guarda-roupa, uma das Sete crônicas de Nárnia, e os
Quatro amores. Segundo consta, a Editora Vida vai
reeditar O problema do sofrimento e O grande abismo
(Ficção).
O resto só pode ser encontrado em sebos e tem muita
coisa ainda não traduzida. Mas, a rigor, não se pode
dizer que algum livro de Lewis seja absolutamente
“não-teológico”. Coloquei a lista toda no meu site
http://cslewisbrasil.org.
Defesa da Fé – Li, em um de seus artigos, que J. R. R.
Tolkien convenceu Lewis de que, em Cristo, acontece,
historicamente, aquilo que na mitologia e em outras
religiões é apenas fabuloso. Explique melhor?
Gabriele – É praticamente o que d. Richardson chamou de
“fator Melquissedeque”. Ou seja, até antropólogos e
sociólogos como Lévy Strauss e Durkheim,
respectivamente, e psicanalistas como Jung concordam que
existem certos arquétipos comuns a toda e qualquer
cultura. A história de um deus que desce do céu para
resgatar a humanidade é um desses arquétipos. E Tolkien
só completou a idéia, acrescentando que essa não é
nenhuma coincidência, ou ilusão da mente individual ou
coletiva, mas manifestações de marcas impressas no nosso
imaginário de uma realidade que haveria de vir ou já
aconteceu no nosso caso. Então, em Cristo encarnado
houve um casamento do mito com o fato.
Defesa da Fé – Ainda dentro desse tema, o que podemos
aprender com a trilogia “O senhor dos anéis”? Qual é a
participação de Lewis nessa obra?
Gabriele – Este é o assunto do meu livro O senhor dos
anéis: da fantasia à ética (Editora Ultimato). Mas, só
para adiantar: além de tantas lições sobre
relacionamento e amizade, coragem e perseverança, a
mensagem central da obra é o que o próprio Tolkien
chamou de evangelium (“boa-nova”), ou seja, apesar de o
mal existir e ser horroroso, há esperança para a
humanidade. Tolkien também chamou isso de eucatástrofe:
a desgraça que acaba conduzindo à verdadeira felicidade.
Defesa da Fé – O que há de Deus na literatura
brasileira?
Gabriele – Meu trabalho mais recente é baseado em
Monteiro Lobato, que se dizia agnóstico, mas chegou a
traduzir um comentário da Bíblia. E se referia ao céu e
a valores que não dão para negar a sua origem cristã.
Defesa da Fé – Quando a fantasia é má? É o caso da série
Harry Potter?
Gabriele – Não se pode falar assim em termos de
preto-e-branco quando se trata da fantasia. Seria o
mesmo que perguntar se a inteligência é boa ou má. A
maioria das pessoas, hoje em dia, diria que sim, mas
todo mundo já viu gente inteligente e, ainda sim, má.
Como em todas as coisas que são meio e não fim em si
mesmas, tudo depende do uso. O mesmo vale para Harry
Potter: há aspectos positivos e negativos. O bom é que
esse tipo de literatura nos convida a ler mais e a
exercer um dom muito raro hoje em dia: o discernimento
e/ou sabedoria.
Defesa da Fé – Voltando a Lewis, há alguma contribuição
dele para a missiologia?
Gabriele – Pergunta interessante. E você não é o
primeiro a fazê-la. Tudo depende do que entendemos por
missão: se é ser enviado para levar o evangelho a toda
criatura, até mesmo a intelectuais ranzinzas, então,
sim, Lewis, na prática, contribuiu muito como
missionário nesse meio. E, quanto ao estudo de missões,
contribuiu com precisas ferramentas de apologética,
fundamentos da fé cristã e antropologia filosófica
cristã.
Defesa da Fé – Existe algum caso pitoresco da vida de
Lewis que poderia nos contar?
Gabriele – Só para citar um, que foi mencionado em uma
revista secular de grande circulação. Vejamos. Lewis
morou com uma senhora e a sustentou por toda a vida
dela. E fez isso para cumprir uma promessa feita a um
colega morto na guerra. Agora, se viveram
“maritalmente”, acho bem difícil, já que ela não tinha
praticamente nada em comum com ele, antes, era chata (de
acordo com o irmão de Lewis, que também morava sob o
mesmo teto) e tinha idade para ser sua mãe. Com a
conversão de Lewis, seria um absurdo achar que ele
pudesse confundir a saudade que sentia por sua mãe com
amores pela venerável senhora.
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