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Evangélico,
apostólico e católico
Por Elvis Brassaroto Aleixo
É deveras curioso como é possível notar, em alguns
grupos religiosos heterodoxos, títulos copiosamente
ortodoxos. Um dos exemplos mais contundentes dessa
observação encontra-se na pseudo-igreja cristã mórmon,
cujo nome reclama sublimes conceitos bíblicos: “Igreja
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”. Uma
nomenclatura bíblica adequada a qualquer denominação
genuinamente protestante, evangélica.
Contudo, há outros exemplos dessa mesma ocorrência e
propomos fixar a nossa reflexão naquele que é
reivindicado pelo catolicismo: “Igreja Católica
Apostólica Romana”, a fim de ponderar que é possível que
assumamos a posição de evangélicos, apostólicos e
católicos. Expomos, sem pretensões acadêmicas, as
implicações dos três termos:
Evangélico (do grego euangelion)
Segundo Tyndale, “evangelho” significa “notícias boas,
alegres, felizes e jubilosas, que enchem de gozo o
coração humano, levando a pessoa a cantar, dançar e
pular de alegria”. No contexto bíblico, o termo
“evangélico” aplica-se à divulgação da obra redentora de
Cristo em prol do homem condenado pelo pecado. Logo,
“ser evangélico”, num âmbito passivo, significa abraçar
o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas não
somente isso, porque, num âmbito ativo, remete também ao
compromisso irrestrito de compartilhá-lo com ímpeto às
demais pessoas. É, portanto, amar o próximo com tal
intensidade que este sentimento chega a mobilizar o
crente a tão honrosa tarefa. Nesta linha de raciocínio,
é praticamente inconcebível admitir um evangélico
apático para com o evangelismo.
Será que podemos testemunhar que somos evangélicos nos
sentidos passivo e ativo do termo?
Apostólico (do grego apostellein: apóstolo)
O catolicismo lança mão desse conceito reportando-se à
autoridade da Igreja Romana mediante a suposta
“ininterrupta sucessão apostólica”, por meio dos papas.
Todavia, no contexto bíblico, em seu sentido mais
restrito, a palavra grega assinala a comissão ordenada
por Cristo. O apóstolo é alguém enviado com a missão
específica de pregar o evangelho e que age com plena
autoridade em favor de quem o enviou, prestando-lhe
satisfações. O adjetivo “apostólico” pode também apontar
para as doutrinas oriundas dos apóstolos. Portanto,
parafraseando o missionário Silas Tostes, numa primeira
instância, somos uma Igreja apostólica na medida em que
nos tornamos uma Igreja missionária. E, numa segunda
instância, na medida em que nos esforçamos na
permanência das práticas e doutrinas alicerçadas pelos
doze apóstolos, primando e zelando pelo ensinamento fiel
de suas exposições. Logo, ser um crente evangélico é,
necessariamente, fazer parte de uma Igreja (mística)
apostólica.
Será que podemos testemunhar que somos apostólicos nas
duas instâncias do termo?
Católico (do grego katholikos)
Esse termo tem sido empregado com variedade de sentidos
ao longo da história da Igreja. Resta-nos saber em qual
de seus sentidos os evangélicos podem se reconhecer.
No início do período patrístico, tinha o sentido de
“universal”: “Em qualquer lugar que Jesus Cristo
estiver, ali estará a Igreja universal” (Inácio).
Justino Mártir falou da “ressurreição católica”, que
explicou como sendo a ressurreição de todos os homens
(Diálogos LXXXI). A expressão ainda consta do Credo
Niceno: “Cremos na Igreja una, santa, católica e
apostólica”. E, no Credo dos apóstolos, lemos: “Creio no
Espírito Santo, na santa Igreja católica”. Nestas
citações, o adjetivo “católica”, atribuído à Igreja,
está relacionado à sua universalidade, ao mesmo tempo em
que afirma sua unidade, a despeito de sua ampla difusão.
As epístolas católicas (universais) que constam do Novo
Testamento foram classificadas, por Orígenes e Eusébio,
como sendo escritas para a edificação de todas as
igrejas cristãs.
Um outro significado emergiu a partir do século 2o, com
o surgimento das heresias. E, nesse período, “católico”
passou a ser sinônimo de “ortodoxo”, como se registrou,
posteriormente, no início e encerramento do Credo de
Atanásio: “E a fé católica é esta: que adoremos um Deus
na Trindade e a Trindade na unidade [...] Esta é a fé
católica, a qual pode salvar o homem”.
Foi somente nos tempos da Reforma Protestante que a
palavra tomou seu sentido atual, em referência aos
grupos eclesiásticos subordinados ao papado em contraste
com aqueles que se identificaram com a causa
protestante.
Por conseguinte, diante da ambivalência de significados
absorvidos pela classificação “católico”, é legítimo
assumir que, mesmo os evangélicos, são “católicos”, nos
moldes segundo os quais o termo fora empregado no início
do desenvolvimento da Igreja primitiva.
Com todas as ressalvas necessárias, somos, portanto,
evangélicos, apostólicos e católicos, somente não somos
romanos, porque entendemos não haver base bíblica para
nos submetermos ao poder eclesiástico centralizador de
Roma.
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