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 Contexto

 

O melhor pedaço!

Serapião era um mendigo que perambulava pelas ruas da cidade. Ao seu lado, o fiel escudeiro, um vira-lata, cujo nome era Malhado.

Serapião não pedia dinheiro. Aceitava sempre as sobras de comida dos mais abastados. Não ingeria bebida alcóolica e estava sempre tranqüilo, mesmo quando não havia recebido nem um pouco de comida. Dizia sempre que Deus lhe daria um pouco na hora certa e era o que sempre acontecia.

Aquela figura me deixava pensativo, pois eu não entendia sua filosofia de vida, sem progresso e sem um futuro promissor.

Certo dia, fui bater um papo com o velho Serapião.

Iniciei a conversa falando do Malhado. Perguntei pela idade dele, o que Serapião não sabia. Dizia não ter idéia, pois se encontraram ocasionalmente, quando ambos andavam pelas ruas.

— Nossa amizade começou com um pedaço de pão. Ele parecia estar faminto e eu lhe ofereci um pouco do meu almoço. Ele agradeceu abanando o rabo, e, daí, não me largou mais. Malhado me ajuda muito e eu retribuo esta ajuda sempre que posso, explicou Serapião.

Curioso, perguntei:

— Como vocês se ajudam?

— Ele me vigia enquanto durmo e não permite que ninguém se aproxime de mim. Também quando ele dorme, eu o vigio para que nenhum cachorro o incomode.

Continuei a conversa perguntando se ele possuía algum desejo na vida.

— Sim, respondeu ele, tenho vontade de comer um cachorro-quente.

— Só isso, indaguei.

— É, no momento é só isso que eu desejo.

— Pois bem, satisfarei agora mesmo este grande desejo.

Saí e comprei um cachorro-quente para o mendigo. Ele arregalou os olhos, deu um sorriso, agradeceu a dádiva e, em seguida, tirou a salsicha e deu para o Malhado, e comeu o pão apenas com os temperos.

Não entendi aquele gesto, pois imaginava ser a salsicha o melhor pedaço. Por isso não me contive e perguntei, intrigado:

— Por que você deu para o Malhado logo a salsicha?

Ele, com a boca cheia, respondeu:

— Para o melhor amigo, o melhor pedaço! E continuou comendo alegre e satisfeito. Despedi-me do Serapião, passei a mão na cabeça do Malhado e sai pensando:

“Aprendi como é bom ter amigos. Pessoas em quem possamos confiar. É bom ser amigo de alguém e ter a satisfação de ser reconhecido como tal. Jamais esquecerei a sabedoria daquele eremita: ‘Para o melhor amigo, o melhor pedaço’”.

“O homem de muitos amigos deve mostrar-se amigável, mas há um amigo mais chegado do que um irmão” (Pv 18.24).

 

 

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