|

Enquete
|
Breve novas enquetes.
Aguarde!
Clique aqui
para conferir as enquetes anteriores.
|
|
|
Boletim
|
Receba nossas notícias e ofertas por e-mail
|
|
Matéria
|
Brinquedos –
Será que temos razões para suspeitar de algo tão
inofensivo?
Por Édino Luiz de Melo
Talvez nunca tenhamos parado para considerar esta
questão. Mas, como constataremos, a nossa resposta será
importantíssima para a promoção de uma educação
equilibrada aos nossos filhos, especialmente nos dias de
hoje. É fato que os brinquedos (pelo menos a maioria
deles) que fizeram parte da infância dos pais atuais
foram substituídos por outros tão diferentes e avançados
que nem mesmo os pais conseguem entendê-los. Hoje, os
brinquedos antigos são considerados ultrapassados e isso
tem-se tornado um obstáculo para que alguns pais
consigam obter certos parâmetros e, dessa forma, possam
julgar a questão que levantamos. Por isso sugerimos uma
reflexão mais atenta sobre o assunto, ou seja, o “mundo
dos brinquedos infantis”.
Traremos à tona ponderações sobre os interesses
capitalistas que sustentam este mercado, as ideologias
que sorrateiramente podem ser veiculadas por meio dos
brinquedos, seus aspectos pedagógico, lúdico e cultural.
Esperamos, com isso, poder, pelo menos, propiciar
fundamentos para que possamos argumentar se temos ou não
razões para suspeitar de algo tão inofensivo.
O brinquedo como promotor de lucro e ideologia
Surpreendentemente, segundo divulgou a revista Veja1, a
indústria do entretenimento está crescendo mais do que a
economia global. A consultoria internacional
PricewaterhouseCoopers (PwC) indica que, de 2004 a 2008,
essa indústria deverá crescer, ao redor do mundo, a uma
taxa média de 6,3% ao ano — mais do que a economia
global como um todo, cuja expansão será de 5,7% ao ano.
Estima-se que a cultura movimente cerca de 1,3 trilhão
de dólares em 2004 e 1,6 trilhão em 2008. O segmento que
mais deve aumentar no mundo está ligado aos brinquedos.
A taxa de expansão dos videogames tem tudo para ser
impressionante: 20% ao ano. Só os Estados Unidos deverão
movimentar, este ano, cerca de 550 bilhões de dólares em
mídia e entretenimento, representando, sozinhos, 42% da
economia cultural do mundo.
Contudo, uma coisa preocupa. Há certos brinquedos que
podem estar sendo usados para recrutamento no terrorismo
internacional. Na verdade, organizações do Oriente Médio
e alguns grupos da Europa, da América Latina e da Ásia
transformaram a rede mundial num dos mecanismos mais
eficientes para disseminar suas ideologias, recrutar e
treinar militantes. O videogame Special Force é um
exemplo. Trata-se da simulação de um ataque às forças
israelenses. “É um jogo muito rastreado, pois incita o
ódio aos judeus e foi criado especialmente para seduzir
crianças e jovens”, disse Brian Jenkins, especialista em
terror do centro de estudos Rand Corporation, sediado em
Washington. O objetivo do jogo, com a explosão de um
ataque em Israel seguido de imagens de bandeiras daquele
país em chamas, é liquidar o maior número de israelenses
possível e matar o primeiro-ministro Ariel Sharon. Quem
atinge a testa de Sharon com um tiro obtém a pontuação
máxima. A recompensa é a frase: “A vitória vem por meio
de Alá, de mais ninguém”. O
Special Force pode ser jogado em rede, com a
participação simultânea de pessoas de diversos países. O
professor e pesquisador russo Lev S. Vygotsky
(1968–1934) confirma que “a criança captura os conceitos
transmitidos pelo brinquedo e os internaliza para, em
seguida, personalizá-los. O seu imaginário realmente
funciona como uma incubadora de idéias [...] Uma
operação que representa atividade externa é reconstruída
e começa a ocorrer internamente e um processo
interpessoal é transformado num processo intrapessoal”.2
Conclusão: o brinquedo pode ser usado numa espécie de
operação “Cavalo de Tróia”, uma forma sutil de sabotagem
ideológica. Vejamos um pouco mais sobre esta questão.
O que os brinquedos contemporâneos podem incutir na
mente das crianças?
Como o brinquedo é uma representação que a sociedade tem
da criança, documentos da Unesco e do Unicef advertem
que conteúdos nocivos ao desenvolvimento da
personalidade infantil, reproduzidos em certos
brinquedos, podem colocar em risco sua característica
inocência. Assim, a Convenção da ONU sobre os Direitos
da Criança, adotada em 1989, no artigo 17, “encoraja o
desenvolvimento de orientações apropriadas para proteger
a criança de informações e materiais prejudiciais ao seu
bem-estar”.3
Philippe Ariès, em sua obra A história social da criança
e da família, publicada em 1981, cita que “em torno dos
divertimentos mais naturais, com significado projetivo,
como utilização de brinquedos, bonecas, soldadinhos,
armas, rodas, que apareciam e desapareciam no decorrer
das épocas, estavam representados os valores e
concepções que desejavam passar e incutir nas crianças e
adolescentes. Se por um lado as nações mais célebres,
por seus artistas, artesãos, idealistas, propiciavam às
crianças muitos brinquedos e divertimentos sadios,
educativos, formadores; por outro, havia, porém, os
brinquedos que não deixavam de ser os piores ‘lixos’ que
poderiam ser oferecidos. Esta constatação também é feita
por Cristina Von e pelo historiador Henri d’Allemagne.
Concordam que os brinquedos aparecem como testemunhos
modestos dos gostos, das realizações e das guerras de
cada época.4 Infelizmente, os brinquedos atuais variam
entre brados de guerra, morte, combate, prazer, consumo
utilizado pelas crianças, passando pelos
jogos eletrônicos utilizados pelos adolescentes e
atingindo brinquedos eróticos e jogos nas estrelas
utilizados pelos adultos. Em todos eles, está imbuído o
desejo de destruir, alienar e consumir”.
A valorização do brinquedo, como fenômeno significativo
e de amplo alcance na formação das mentes infantis e
juvenis, bem como dentro da vida cultural das
sociedades, é conquista recente. Assim como o livro
infantil, diz a Dra. Nelly N. Coelho, da USP, o
brinquedo é entendido como uma mensagem (comunicação)
entre o autor/adulto (o que possui a experiência do
real) e o leitor/criança (o que deve adquirir tal
experiência). O que preocupa é qual tem sido o conteúdo
dessa mensagem e como ele afeta a formação da criança,
sua visão das coisas e sua relação com Deus (1Ts 5.21).5
A seguir, consideraremos alguns aspectos que envolvem os
brinquedos e que poderão nos auxiliar a entender melhor
a questão:
O aspecto pedagógico do brinquedo
Nascido na Alemanha, em 21 de abril de 1782, e filho de
família evangélica, Frederico A. G. Fröbel foi o
primeiro a colocar o brinquedo no centro do processo
pedagógico ao elevar a criança à imagem de Deus. Para
ele, a relação da criança com o brinquedo é que antecipa
o que ela será mais tarde.6 Paulo S. Oliveira reafirma
este aspecto dizendo que o brinquedo possui uma mensagem
fechada, preparada pelo adulto para que a criança
reitere e reproduza funções, gestos e modos de ser
socialmente predominante. Afirma que “cada brinquedo
esconde uma relação educativa”.7 Gerard Jones defende
como muitos que o brinquedo não afeta a criança.8
Segundo ele, é a criança que atribui valor ao objeto.
Contudo, a respeitada pesquisa feita por S. Lebovici e
R. Diatkine, sobre o significado e a função do brinquedo
na vida da criança, prova o contrário. Constata que “o
brinquedo é uma parte contributiva importante no
fenômeno de transmissão cultural,”9 por ser um tipo de
relação que a criança tem com o mundo do adulto e por
ajudá-la em sua organização psíquica.
O aspecto lúdico do brinquedo
Devido ao seu aspecto lúdico, o interesse pelo brinquedo
aparece nos escritos de Horácio e Quintiliano, Erasmo,
Rabelais, Tomás de Aquino, Montaigne, Vygostsky e
Piaget, entre outros. O lúdico é a qualidade estética
que dá sentido ao brinquedo. Por isso, por exemplo, é
que os bonecos ganham vida e afetividade. A ludicidade,
tida como ciência, “é um instrumento poderoso de
apropriação da cultura”, e pode ser usada com fins
positivos ou negativos. Para Vygotsky, o lúdico possui
“enorme influência no desenvolvimento da criança”. E é
abordado por Johan Huizinga como algo vital para a
sociedade, devido ao sentido que encerra, sua
significação, seu valor expressivo, suas associações,
espirituais e sociais, em resumo, como função cultural.
É preciso ficar alerta: “Sede sóbrios; vigiai; porque o
diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como
leão, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8). S. Marli
Pires dos Santos e Tzuko Morchida Kishimoto, com amplo
material sobre o brinquedo e o lúdico, concluem que o
brinquedo contém, em forma condensada, todas as
dimensões do desenvolvimento socioafetivo, cognitivo e
psicomotor da criança.10
O aspecto cultural do brinquedo
Gilles Brougère afirma que o brinquedo merece ser
estudado por si mesmo, por ser o suporte de uma
representação que age como espelho cultural da
sociedade. Trata-se de um pedaço de cultura colocado ao
alcance da criança. Ele declara: “O brinquedo é um
elemento de profunda riqueza. À sua sombra, a sociedade
se mostra duplamente: naquilo que é, mas, sobretudo
naquilo que se dá a conhecer às crianças. Assim sendo,
mostra as suas imagens que faz da infância. É um dos
reveladores de nossa cultura. O brinquedo incorpora
nossos conhecimentos sobre a criança, ou ao menos, as
representações largamente difundidas, que circulam, as
imagens que nossa sociedade é capaz de segregar”
(1992).11
Roland Barthes diz que o brinquedo atual é a reprodução
em miniatura de objetos para a criança como se ela fosse
apenas um homem pequeno. Diz que o brinquedo
industrializado é inteiramente socializado, constituído
pelas coisas da vida adulta. Ele fornece um catálogo
velhaco do que é parte do adulto, incluindo o “lixo
tóxico” de valores antibíblicos. A criança é vista só
como um consumidor. Pense: a mente de uma criança
conceberia seres monstruosos, cruéis e assustadores com
caricaturas “demonizadas”, sádicas, cheias de pavor e
vingança? De onde ela tiraria a idéia de equipá-los com
machados, punhais e porretes? Os bonecos, tazos, cards,
eletrônicos e os games foram subvertidos. Quem faria um
monstro mitológico de brinquedo? Aquela coisinha com
chifres, garras afiadas, dentes vampirescos, olhos
famintos e sinistros com aquela expressão diabólica,
sendo levado de um lado para o outro pela criança! Esses
brinquedos, vulgares, usando a expressão de Roland
Barthes, são essencialmente um microcosmo adulto.12 Se
fossem feitos pela criança, seriam a expressão do
imaginário infantil e não um atentado a ele. E aqui está
o problema. O brinquedo não é neutro. Ele carrega traços
da imaginação de um projetista, que, mesmo sendo
brilhante, corre o risco de ser diabólica. A Bíblia
alerta que “este tipo de sabedoria não vem dos céus, mas
é terrena; não é espiritual, mas é demoníaca” (Tg 3.15 –
NVI).
Conclusão: se a violência, o erotismo, o ocultismo, a
feitiçaria ou o anarquismo e o grotesco são parte de uma
cultura reproduzida de forma inadequada em brinquedos,
podem constituir-se, de fato, num risco real à formação
da criança (Dt 18.9-11).
A emancipação e a contaminação do brinquedo
Walter Benjamin coloca que, no início, o brinquedo era
uma peça do processo de produção que ligava pais e
filhos. Mas com a industrialização, o brinquedo
emancipou-se e foi tirado do controle da família.
Tornou-se cada vez mais estranho não só às crianças, mas
também aos pais. Transformou-se num negócio, nada
mais.13 O brinquedo deixou de ser feito artesanalmente
para ser parte de um grupo que constitui a indústria
cultural. Este grupo utiliza o brinquedo para traduzir
idéias e conhecimentos. Assim, a criança pode ser
influenciada por ensinos (códigos culturais) originados
num sistema contrário a Deus, ser manipulada pela
imaginação dos projetistas e criar vínculos espirituais
com os poderes malignos deste mundo tenebroso (Jo 12.31;
Ef 2.1,2; 6.10,11; 1Jo 5.19).
C. S. Lewis observa que “o prazer e a matéria são campos
exclusivos de Deus, tudo o que está ao alcance do mal é
a distorção dos canais naturais previstos por Deus para
a realização do prazer”.14 O que é bom, como o
brinquedo, é subvertido e pode, inclusive, ser usado
como uma camuflagem maligna.
O perigo do paganismo e do ocultismo
O que você acha de uma criança brincar com um boneco que
caricatura um “demônio”, beijá-lo ou dormir com ele? Não
é este o caso do estranho super-herói Hellboy,
personagem lançado recentemente no cinema. Segundo as
histórias em quadrinhos, ele veio direto das profundezas
do “inferno”? Por que alguns bonecos estão sendo usados
para retratar o ocultismo, a feitiçaria, a violência e o
grotesco de forma tão banal? (1Tm 4.1). Não seria um
jeito camuflado e sorrateiro de interiorizar na criança
conceitos e valores antibíblicos, já que o brinquedo é
um veículo de identidade cultural? Qual seria a melhor
forma de o inimigo driblar nossas defesas? Você
suspeitaria de algo tão inofensivo? (2Co 11.3,14). Os
brinquedos podem incorporar, conforme Tzuko M. Kishimoto,
“um imaginário preexistente criado pelos desenhos
animados, seriados televisivos, mundo da ficção
científica com motores e robôs, mundo encantado dos
contos de fadas, histórias de piratas, índios e
bandidos. Ao representar realidades imaginárias, os
brinquedos expressam, preferencialmente, personagens sob
formas de bonecos, como manequins articulados ou
super-heróis, misto de homens, animais, máquinas,
monstros”,15 e acrescentamos, até entidades religiosas.
O boneco é a materialização do personagem originado na
imaginação ou na vida real. Por meio dele, este
personagem, bom ou ruim, passa a existir num plano,
elevação e perfil. O boneco traz o imaginário à
existência, com peso, volume, medida e cheiro, com forma
no tempo e no espaço. Assim, personagens como o Superman,
o Batman, o Homem-aranha, Hellboy, Hulk e outros
super-heróis clássicos podem ser encontrados nas mãos
das crianças em todo o lugar. Naturalmente, nem todos os
bonecos possuem uma conotação negativa. Contudo, o tipo
de valores que ele comunicar, conclusivamente,
influenciará a formação da criança. Para Umberto Eco, as
imagens míticas (super-heróis), reproduzidas em
brinquedos, são criadas e difundidas pelos chamados
persuasores ocultos com o objetivo de enraizá-las na
sensibilidade da pessoa. Há “uma persuasão oculta
motivada por fins econômicos determinados”.16 O boneco é
um cristalizador dessa cultura.
Larry McClain afirma que certas criaturas, retratadas em
alguns bonecos, que aparecem na arqueologia e na
mitologia, não são apenas fruto da imaginação carnal (Sl
38.12, 64.6; Pv 16.30, 23.7; Mq 2.1; At 17.29). Ao
contrário, eram, literalmente, entidades demoníacas que
surgiram nas civilizações do passado. Esses tipos
obscuros, ou esses seres demoníacos, eram representados
como parte homem e parte animal em suas características,
como o pássaro-homem dos assírios, por exemplo. Os seres
retratados são sinistros, com faces contorcidas e
caretas demoníacas.17
Se você encontrar garras ou chifres, cauda flechada ou
tridente em algum dos seus bonecos, sem dúvida o fogo
lhes faria muito bem, já que o inferno é o lugar de
origem deles, apesar de ponderarmos que estes traços
estéticos sejam frutos do imaginário popular ao longo
dos séculos, nas diversas culturas, pois não temos base
bíblica para detalharmos a exata forma e peculiaridades
dos anjos caídos.
• Bonecos pagãos
Se uma criança brincar com a réplica da imagem de uma
entidade religiosa, o objeto deixará de ser condenado
por Deus? A simples existência da imagem em forma de
figuras foi rejeitada por Deus (Dt 7.26). Além disso,
houve casos em que figuras e pinturas foram rejeitadas
pelo fato de suas representações serem uma afronta a
Deus (Ez 8.9,10). Se a Bíblia condena a mera existência
da imagem, o que fazer quando um boneco é a
representação de um deus pagão? Larry McClain comenta
que muitos bonecos vistos nas prateleiras das lojas são
réplicas de deuses antigos: “Eles podem ser criaturas
parte cavalo e parte homem, peixe e homem, como o deus
Dagom, dos filisteus, parte jaguar e parte homem, com a
língua pendente sobre o queixo, que é o símbolo
universal da possessão demoníaca. Uma das combinações é
a do homem-serpente”. Como podemos ver, não é difícil
concluir quem é o mentor de tudo isso!
• Cards pagãos
Não há nenhum problema nos bonecos como forma de arte. É
bom lembrar, apenas, como defende Francis Schaeffer, que
mesmo a arte foi profundamente afetada pelo pecado na
queda.18 Portanto, encontra-se deformada. No caso dos
cards, jogos de interpretação, há portas para
personagens e enredos claramente danosos à infância e à
juventude. Diversos personagens são transmissores de
conteúdos heréticos. Alguns, aliados aos bonecos,
comunicam ensinos do odinismo (divindades bárbaras como
Odin e Thor), helenismo (Zeus e Hércules), deuses
egípcios (Yu-Gi-Oh!), religiões cananéias (Astaroth) e
demonismo.
Pense. Por que diversos brinquedos estão estranhamente
impregnados desses conceitos religiosos se o seu
propósito deveria ser apenas divertir a criança? Se os
brinquedos, segundo Guilles Brougère, são suportes de
representações, por que idéias sutis do xintoísmo (mangás),
do zen-budismo (Matrix) e da Nova Era (Star Wars) são
usadas para inspirar heróis e confeccioná-los? Não seria
uma estratégia de incutir estas crenças na mente das
crianças (2Co 11.14)? Nicolas Montigneaux defende que o
personagem funciona como um espelho que envia à criança
uma imagem dupla: a da própria criança e a desejável,
com a qual a criança quererá se parecer ou da qual
sonhará em se aproximar. O personagem assume, portanto,
o lugar de modelo de aspiração porque constitui uma
ponte entre o presente da criança e o seu futuro
adulto.19
• Super-heróis suspeitos
Bruno Bettelhein diz que o herói corresponde ao
questionamento profundo da criança, que procura
encontrar no herói sua identidade. Já o imaginário
representa um campo de jogo onde o personagem conduzirá
a criança e servirá de pretexto à encenação dos
valores.20 Gabriele Greggersen constata que “em muitos
livros de ficção infantis e desenhos animados de hoje (Pokémon,
Transformers, Cavaleiros do Zodíaco, etc.), super-heróis
que inspiram brinquedos, sem falar nos jogos
eletrônicos, ou em Magic, o bem e o mal se opõem
diametralmente ou, então, se misturam, chegando quase a
ponto de inverter sua polaridade”.21 Isso pode abrir a
porta para uma visão ingênua das forças malignas e,
assim, criar uma precedência sutil para uma amizade
perigosa com o mal. Veja o que diz a Dra. Nelly N.
Coelho, especialista em literatura infantil (USP): “As
personagens podem ser reais (humanas) ou simbólicas
(bichos, plantas), mas sempre com traços de caráter ou
comportamento bem nítidos. Isto é, com limites precisos
entre bons e maus, fortes e fracos, belos e feios, etc.
Mais tarde, a ambigüidade das realidades será descoberta
[...] Mas nesse momento, já terão assimilado parâmetros
para julgamento”.22
Gabriele Greggersen afirma que “o bem é muitas vezes
visto como algo ingênuo, inofensivo e afeminado. Eis por
que o mal, o bruxo e o feiticeiro acabam sendo mais
atraentes”. “O sobrenaturalismo típico dos programas
infantis promove o relativismo, uma força ou poder
neutro que pode ser usado para o bem ou para o mal”.
Essa indefinição pode abrir uma porta para o lado escuro
do sobrenatural. Bob G. Passantino afirma que “eles
diferem do sobrenatural dos contos de fada clássicos,
nos quais o bem e o mal podem ser distinguidos, a
integridade é recompensada e o mal finalmente é vencido
pelo bem” (Rm 12.17,21). Segundo C. S. Lewis, “a teoria
íntegra do valor [...] exige que o bem seja original e o
mal, mera perversão; que o bem seja a árvore, e o mal
seja a hera; que o bem seja capaz de perceber o mal
(como quando homens sãos percebem a loucura), enquanto o
mal não pode fazer o mesmo...”. Ele acrescenta, por meio
do personagem Screwtape, em sua obra Cartas do diabo ao
seu aprendiz, que “um santo estragado [...] propicia
mais diversão ao inferno do que um simples tirano ou um
libertino”. Se ele não consegue destruir, argumenta,
então é melhor tentar corrompê-lo (2Co 2.11; 11.3).23
Os games e as imagens grotescas
Não é novidade que diversos jogos estão coalhados de
satanismo, barbarismo, ocultismo e violência extrema.
Conforme estudos promovidos pela Universidade de
Missouri, Columbia, EUA, um universo de imagens com
grande carga emocional, como o encontrado nesses games,
pode levar a um comportamento anti-social, à
agressividade e a um mau desempenho escolar (Ef 5.11; Fp
4.8). A ONU revela que tais imagens causam fortes
impressões. Umberto Eco confirma que “a imagem está
revestida de uma função demasiado importante para o
equilíbrio psíquico do indivíduo”. Isso complica quando
a criança, acrescenta N. Montigneaux, “raciocina
espontaneamente de maneira analógica. As imagens
integram a estruturação não só do pensamento como também
da sua vida emocional”. Por isso a ONU encoraja a
proteção da criança contra tais conteúdos (Sl 119.37; Mt
6.22,23).
Crianças em perigo
O que acontecerá, então, com a criança que está em
contato permanente com essas mensagens enganosas? Que
risco ela corre se absorver, de forma acrítica, essas
idéias alienígenas à infância? Elas podem afetar a visão
que a criança terá das coisas? Lev .S. Vygotsky declara
que “como o foco de uma lente de aumento, o brinquedo
contém todas as tendências do desenvolvimento sob forma
condensada, sendo ele mesmo uma grande fonte de
desenvolvimento”. Se a criança internaliza valores e
crenças por meio do brinquedo, certamente o conteúdo que
ele abriga tomará parte na formação da sua lente
cultural, tornando-se híbrida com ela. Isso se dará
porque o seu conhecimento ainda está em construção. A
criança poderá, deste modo, ser presa fácil das trevas,
já que ela terá dificuldade de ver o que é maligno. É
preciso livrar a criança da aparência do mal: “Examinai
tudo. Retende o bem. Abstende-vos de toda a aparência do
mal. E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e
todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente
conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso SENHOR
Jesus Cristo”. (1Ts 5.21-23).
É preciso proteger a criança de conteúdos danosos à sua
infância: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o
teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Pv
4.23. V. tb. Sl 119.37). É preciso discipular a criança
com valores centrados nos ensinos de Jesus (Mt
28.18-20), e ensiná-la no caminho que deve seguir: “E
estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu
coração; e as ensinarás a teus filhos e delas falarás
assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e
deitando-te e levantando-te (Dt 6.6,7. V. tb. Pv 29.15;
22.6; Sl 127.3).
Dicas para escolher brinquedos e proteger nossas
crianças
Passo 1: Leia as instruções que acompanham o brinquedo.
Você ficará surpreso com o que vai encontrar! Procure
identificar associações com conteúdos que podem ser
prejudiciais à criança.
Passo 2: Tente conhecer o personagem representado no
brinquedo. O brinquedo é apenas o seu suporte físico.
Que tipo de acessórios possui? São heróis, vilões,
deuses? O que podem transmitir à criança?
Passo 3: Não veja demônios em tudo, use a Bíblia e o bom
senso. A Bíblia é a bússola para auxiliá-lo na avaliação
do conteúdo cultural nocivo:
Para C. S. Lewis, há dois erros acerca do inimigo: o
primeiro é não acreditar em sua existência. O segundo é
acreditar e nutrir um interesse excessivo e doentio nele
(1Pe 5.8). Não devemos descartar a ação dos espíritos
malignos, mas também não devemos ver demônios em tudo.
Este estudo apenas alerta sobre os conteúdos
inadequados, sem excluir o brinquedo, que pode ser
santificado como fonte de lazer (1Ts 5.21-22). O pacto
de Lausane defende que o evangelho nunca é hóspede de
qualquer cultura; sempre é seu juiz e redentor. O
evangelho avalia o conteúdo cultural, inclusive o que
está embutido no brinquedo, de acordo com seus próprios
critérios de verdade e justiça, e insiste nos absolutos
morais em cada cultura.
A confissão de Westminster orienta que “todo o conselho
de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a
glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é
expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica
e claramente deduzido dela”.
Textos bíblicos que podem ajudar na avaliação de
conteúdos ocultos em alguns brinquedos
Bruxaria – Lv 19.31; Is 8.19-22; Ez 13.18-21; 21.21-24;
Ap 18.23.
Demônios – Mc 1.34; 5.5; Lc 10.17; At 16.16-18; 2Co
11.13,14; Ef 6.12.
Deuses ou seres mitológicos – Êx 10.2-6; 32.4-10; Dt
4.23,24; 5.6,7; Is 42.8.
Imagens grotescas – Sl 101.2-7; Ez 8.9-10; Mt 6.22,23;
Fp 4.8.
O mal – Jó 4.8; Sl 19.13; 26.5; Rm 1.24-28; Gl 5.16,17;
Ef 4.22; 6.12.
Objetos ligados ao ocultismo – Ez 13.18-23; At 19.19; Dt
7.26,27.
Ocultismo – Dt 4.8; Ez 13.18-23; 21.21-24; Is 65.3,4; At
13.8-10; 19.19.
Poder – Ec 9.11; Pv 21.31; Zc 4.6; Mt 5.1-12; Rm 12.19;
1Jo 2.6.
Violência – Sl 37.17; 75.10; 140.11; Pv 3.31; 16.29;
21.7; Is 13.11.
Notas:
1 Veja. 21 de julho, 2004. p. 111.
2Citado por SOUZA, Solange e Jobim. Infância e
linguagem, Bankhtin, Vygotsky e Benjamim.Campinas:
Papirus, 1994, p. 125-6.
3 FEILITZEN, Cecília Von e CARLSON, Ulla. A criança e a
violência na mídia. São Paulo: Cortez e UNESCO, 2002, p.
11-3.
4 VON, Cristina. A história do brinquedo. São Paulo,
Alegro, 2001.
5 COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo:
Ed. Moderna, 2000, p. 30-1.
6 GUILLES, Brougère. In: Études et Documents, n. 2:
1989-1990. Paris: Université, Paris-Nord\Département des
Sciences du Jeu, p. 9.
7 OLIVEIRA, Paulo de Salles. O que é brinquedo. São
Paulo: Brasiliense, 1984, p. 42-3.
8 JONES, Gerard. Brincando de Matar Monstros. São Paulo:
Conrad, 2004, p. 298.
9 LEBOVIC, S. Lebovici e DIATKINE, R. Significado e
função do brinquedo. Porto Alegre: Artmed, p. 63.
10 Consulte as seguintes obras:
SANTOS, Santa Marli P. Org. A ludicidade como ciência.
Petrópolis: Vozes, 2001, p. 226.
SANTOS, Santa Marli P. Brinquedoteca, o lúdico em
diferentes contextos. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 141.
SANTOS, Santa Marli P. Org. A ludicidade como ciência.
Petrópolis: Vozes, 2001, p. 226.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Org. Jogo, Brinquedo,
Brincadeira e a educação. São Paulo: Cortez, 2002, p.
183.
ALVES, Rubem. O enigma da religião. Campinas, Papirus,
1984, p. 120.
VYGOTSKY. S. A Formação da Mente. São Paulo: Martins
Fontes, 1998, p.126.
HUIZINGA, Johan. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva,
2004, p. 3,4.
11 GUILLES, Brougère. Cit., p. 7 . GUILLES, Brougère.
In: Études et Documents, n. 2: 1989-1990. Paris:
Université, Paris-Nord\Département des Sciences du Jeu,
p. 9.
12 BARTHES, Roland. Mitologias. Rio de Janeiro: Difel,
2003, p.59-60.
13 BENJAMIN, Walter. Reflexões Sobre a Criança, o
Brinquedo e a Educação. São Paulo: Duas Cidades, Ed 34,
2002, p. 91-2.
14 LEWIS, C. S. Cartas do diabo ao seu aprendiz.
Petrópolis, Vozes.
15 SANTOS, Santa Marli Pires dos. Brinquedo e infância.
Petrópolis: Vozes, 1999.
16 Consulte as seguintes obras:
KISHIMOTO, T. M. Citado em O brincar e suas teorias. São
Paulo: Pioneira, 2002, p.28.
ECO, HUMBERTO. Apocalípticos e integrados. São Paulo:
Perspectiva, 2002, p. 243-6.
17 JEREMIAH, David e CARLSON, C.C. A invasão de deuses
estranhos. São Paulo: Quadrangular, 1995, p. 95-6.
18 SCHAEFFER, Francis A. O Deus que intervém. Refúgio
ed. 1985.
19 MONTIGNEAUX, N. Público-alvo: crianças. Rio de
Janeiro: Ed. Negócio, 2003.
20 BETTELHEIM, Bruno. Uma vida para seu filho. São
Paulo: Ed. Campus, p. 184.
21 GREGGERSEN, Gabriele. O Senhor dos anéis. Viçosa,
ULTIMATO, 2003, p. 76.
22 COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil. São Paulo,
Moderna, 2000, p. 35.
23 LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo:
ABU, 1985, p. 49. e Op. Cit. p. 99.
|
|
|
|
|