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A Invasão do
Oriente
Por Eguinaldo Helio
“... porque se encherem dos costumes do Oriente...” (Is
2.6)
O que seria de Portugal e da arte de navegação sem a
bússola? Talvez estivesse ainda nas primeiras remadas e
o mundo muito menos explorado e desenvolvido que hoje.
O que seria da arte e da escrita sem o papel? Talvez
profunda, em termos de conteúdo, mas restrita em sua
divulgação.
O que seria das guerras sem a pólvora? Difícil dizer.
Todas estas invenções, no entanto, viajaram do Oriente
ao Ocidente, e vice-versa, e transformaram o mundo.
Todavia, o Oriente sempre foi avesso a intercâmbios com
outros povos. É fácil notar isso na forma reservada com
que os imigrantes japoneses, chineses e coreanos se
relacionam com as outras pessoas aqui no Brasil.
Mas, de uns tempos para cá, este quadro vem mudando
radicalmente. Não só o Ocidente parece querer absorver,
com avidez e sem qualquer critério, tudo o que vem do
extremo leste, como também os próprios orientais
divulgam suas filosofias e conceitos religiosos com uma
dedicação quase missionária.
Em 1935, o historiador Will Durant já havia detectado
este fenômeno: “Em nossos tempos, a Europa recorre cada
vez mais à filosofia do Oriente (alguns exemplos são:
Bergson, Keyserling, Ciência Cristã, Teosofia). Por
outro lado, o Oriente recorre cada vez mais à ciência do
Ocidente. Uma Segunda Guerra Mundial pode deixar a
Europa aberta ao influxo da fé e filosofias
orientais...”.1 E, de fato, isto aconteceu.
Aspectos filosóficos e religiosos
O Ocidente tem sido invadido maciçamente por idéias
filosóficas e religiosas importadas do Extremo Oriente,
lembrando que, ali, a linha divisória entre filosofia e
religião é muito tênue. Mesmo quando negam a
religiosidade de suas práticas, os mestres da ioga e da
meditação oriental, entre outras, não conseguem esconder
o elemento religioso por trás delas.
Shotaro Shimada, professor de ioga há quase 50 anos,
afirmou: “Ioga não é exercício, não é religião nem
psicologia, porém, ao mesmo tempo, abrange tudo isto”.
Depois prossegue em uma afirmação contraditória: “Ioga é
a transformação da maneira de ser para o indivíduo
entrar em sintonia com a natureza e com Deus”. Em nosso
conceito, isto é religião. O difícil é saber o que ele
quer dizer com Deus, se é o Pai do Jesus Cristo pregado
pelo cristianismo ou um deus impessoal do Oriente.
A medicina é um claro exemplo. Algumas medicinas
alternativas, por exemplo, têm sido aceitas até mesmo
por certas entidades médicas, embora os conceitos por
trás delas apresentem elementos totalmente estranhos à
ciência ocidental. Fundamenta-se em conceitos que não
podem ser constatados empiricamente, pois derivam de
noções místicas e não científicas.
Também o Feng Shui, uma antiga arte chinesa de criar
ambientes harmoniosos, oferecendo, dessa forma, um
sistema completo ligado intimamente à natureza e ao
Cósmico, vem sendo cada vez mais procurado, tanto para
aplicações domésticas como para aplicações empresariais.
Originou-se há cerca de 5000 anos, nas planícies
agrícolas da China Antiga. A tradução literal do termo
Feng Shui é “vento-água”. Mas, para os chineses,
significa muito mais que isso. Acreditam que essa arte é
como o vento, que não se pode entender, e como a água,
que não se pode agarrar. Vemos, assim, a estranha
aliança entre o pensa-mento ocidental, sempre tão lógico
e objetivo, com o oriental, que, neste caso, se
apresenta místico e subjetivo.
Outra vertente em que estes elementos podem ser
destacados é a prática de esportes. Algumas artes
marciais difundidas hoje adquirem contornos particulares
aqui, diferenciando-se de seus conceitos místicos
originais, porém, convém lembrar que nem mesmo as
atividades físicas praticadas no Oriente eram
dissociadas de sua visão da vida.
Não existe esta clara distinção entre vida secular e
religiosa. Sem generalizar, estas práticas esportivas
envolvem, mu-tas vezes, ritos e crenças.
Chacras, krishna, do-in, medição transcedental,
incensos, saris, ioga, ofurô, yin e yang, mantra, avatar,
etc. Estas são algumas palavras que, pouco a pouco,
passam a fazer parte do cotidiano do Ocidente e
caracterizam a influência espiritual que países como a
Índia, China, Japão, etc, têm exercido sobre a nossa
cultura. Muitas práticas orientais não se constituem em
uma religião propriamente dita, mas envolvem conceitos
religiosos. “Ser um com o Universo”, por exemplo, nada
tem a ver com “nossa comunhão com o Pai e com o seu
Filho, Jesus Cristo” (1Jo 1.3). A primeira admite um
universo monista, no qual Deus é tudo e tudo é Deus,
ressaltando que Deus, para um chinês, por exemplo, não é
o mesmo que Deus para um judeu.
As religiões orientais e a nova era
Os elementos cristãos nos ensinos correntes da Nova Era
nada mais são do que uma forma de maquiar seus
verdadeiros fundamentos, para que ser tornem mais
aceitáveis ao pensamento ocidental. Uma espiritualidade
que não inclua Jesus Cris-to, não inclua a fé ou os
evangelhos, de algum modo será automaticamente olhada
com desconfiança.
Mas estes conceitos são enfraquecidos por noções
estranhas. Os adeptos da Nova Era afirmam que Jesus
esteve, dos doze aos trinta anos, entre os sábios da
Índia e do Tibete. Com isso, transformam Jesus em um
guru oriental, ao invés de um Messias judaico. A fé é
apenas fé, mas não uma fé em Cristo ou nos evangelhos.
Não é uma fé objetiva, ligada aos fatos, porque a
religião oriental é bastante relativista e intimista; ou
seja, está mais ligada ao que cada um pode perceber do
que aos fatos propriamente ditos. A revelação cristã,
contida em suas Escrituras, é colocada em pé de
igualdade com os livros sagrados das demais religiões.
Se há alguma dose de cristianismo na Nova Era,
certamente trata-se de um cristianismo segundo a visão
oriental.
Os verdadeiros fundamentos deste movimento estão
relacionados à religião oriental. Os verdadeiros
critérios que regem sua espiritualidade e concepção do
mundo e da vida se encontram no hinduísmo, no budismo e
no taoísmo. A reencarnação, a doutrina do carma, o yin e
o yang, a vinda de Maytréia, a meditação ao estilo
hinduísta, etc., são elementos religiosos orientais.
Embora outros elementos se acrescentem à Nova Era, como,
por exemplo, a crença em discos voadores ou em figuras
da mitologia nórdica ou animista, as principais bases
são exatamente estas que acabamos de referir.
Não se pode dizer que esteja sendo realizada uma fusão
entre o cristianismo e as religiões orientais. Na fusão
não ocorre perda de valores e de conceitos. Podem ser
agregadas certas noções, mas os fundamentos não se
alteram. O cristianismo fez uma fusão com a filosofia
grega em certos aspectos, mas continuou com os seus
fundamentos. Tudo o que não se harmonizava com o
cristianismo foi rejeitado.
É impossível haver uma fusão entre o cristianismo e as
religiões orientais porque ambos são auto-excludentes. O
Deus do cristianismo é transcendente à sua criação; ou
seja, está além dela. Nas religiões orientais, Deus e
natureza, criação e Criador se confundem, sendo um só. A
salvação no cristianismo é um evento único, realizado de
uma única vez, por meio da posse das promessas da graça
pela fé. No Oriente, a salvação é um processo longo, que
pode levar milhares de anos, realizado pelo
auto-esforço. O cristianismo prega a ressurreição, que
fundamenta uma única existência para cada ser. No
hinduísmo, a reencarnação estabelece múltiplas
existências da alma em diferentes corpos.
Devido a isso, nenhuma fusão é possível, e também não
foi levada a efeito. Os elementos cristãos permanecem à
margem dos fundamentos gerais e, mesmo assim, são
distorcidos, para que possam ser adaptados às noções
hindus e budistas.
Ainda deve ser levado em conta que a síntese é cultural
e não religiosa em seus aspectos. Claro que,
culturalmente, o cristianismo assume certos aspectos
locais, quando floresce no seio de nações orientais. No
norte da Índia, ou na China, ou mesmo na Coréia do Sul,
o cristianismo evangélico floresce e apresenta contornos
de acordo com sua localização, mas continua mantendo os
mesmos fundamentos do cristianismo em geral, de modo que
pode ser identificado e comparado com o cristianismo
evangélico de qualquer outra parte do mundo. Não é o
caso do cristianismo da Nova Era, que não passa de uma
mistura do budismo, do taoísmo e do hinduísmo, mas de
forma disfarçada.
O caráter exclusivista do cristianismo
O cristianismo bíblico é exclusivista em sua natureza, o
que significa que não aceita sincretismos e misturas.
Quando isso acontece, perde sua essência e deixa de ser
cristianismo. Veja que o catolicismo apresenta, tanto na
América do Sul como na Central, alto grau de sincretismo
com as religiões pré-colombianas e africanas. A maioria
dos elementos dessas religiões foi adaptada ao
cristianismo.
No caso do protestantismo, houve aculturação ou síntese
cultural, mas não sincretismo. A fundamentação bíblica
do cristianismo evangélico impede que elementos
não-cristãos venham se sobrepor aos conceitos revelados
nas Escrituras Sagradas. Por isso, jamais as religiões
orientais poderão reformular o cristianismo.
Podem até distorcê-lo, mas, neste caso, deixará de ser
cristianismo.
A seguir, alguns fatores que atestam o caráter
exclusivista do cristianismo:
Jesus é único
Primeiramente, Jesus é a pedra angular e o alicerce do
edifício cristão. Isto significa que é impossível um
cristianismo verdadeiro sem um Cristo verdadeiro. E um
Cris-to verdadeiro só pode ser extraído dos documentos
do Novo Testamento.
• “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo
do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo
qual devamos ser salvos” (At 4.12).
• “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem
ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6).
• “... mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque
ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está
posto, o qual é Jesus Cris-to” (1Co 3.10,11).
A fé cristã se fundamenta em fatos
Em segundo lugar, a fé cristã se apóia em fatos. É uma
fé histórica. Não está fundamentada em experiências
particulares e subjetivas. As religiões orientais, ao
contrário, fundamentam-se na experiência individual.
Cremos que a nossa salvação se fez efetiva porque Jesus
Cristo, o Filho de Deus, tornou-se homem, viveu neste
mundo, morreu pelos nossos pecados na cruz, ressuscitou
ao terceiro dia e subiu aos céus. Estes são os
principais eventos nos quais se apóiam a nossa fé e a
nossa esperança.
• “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a
narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo
nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o
princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me
também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente
Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado
minuciosamente de tudo desde o princípio” (Lc 1.1-3).
• “E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa
pregação, e também é vã a vossa fé” (1Co 15.14).
• “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de
nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas
artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua
majestade” (2Pe 1.16).
As religiões orientais não fazem distinção entre fatos e
lendas. Rama e Krishna, deuses importantes do panteão
hindu, tiveram suas vidas narradas entre os homens,
embora não haja nenhuma fundamentação histórica para
isso. E, dentro do conceito hindu sobre verdade
religiosa, isso não faz nenhuma diferença. O mesmo se dá
com as lendas em torno da pessoa de Sidarta Gautama, o
Buda. História e lenda se misturam sem que isso faça
qualquer diferença para os conceitos budistas. Da mesma
forma, o taoísmo introduziu diversas lendas populares no
seu desenvolvimento histórico sem qualquer
constrangimento. Essa gritante diferença de visão de
mundo, da história e dos objetos da fé torna
impraticável qualquer associação entre as religiões
orientais e o cristianismo.
A Bíblia é única
O último ponto que desejamos ressaltar é a singularidade
da Bíblia Sagrada. Ela é taxativa em defender sua
inspiração e em recusar alterações posteriores.
Coloca-se como único instrumento de revelação escrita à
humanidade.
• “Toda a Palavra de Deus é pura; escudo é para os que
confiam nele. Nadaacrescentes às suas palavras, para que
não te repreenda e sejas achado menti-roso” (Pv 30.5,6).
• “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo
esta palavra, é porque não há luz neles” (Is 8.20).
• “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de
Deus” (Mt 22.29).
• “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de
muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós
falou-nos nestes últimos dias pelo Filho” (Hb 1.1).
• “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as
palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes
acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as
pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém
tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus
tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa,
e das coisas que estão escritas neste livro” (Ap
22.18,19).
Não existe lugar no cristianismo para concordância com
os diversos livros sagrados das mais variadas religiões
e seitas. Duas afirmações contraditórias não podem estar
certas, ao mesmo tempo. As proposições bíblicas se
chocam com as proposições dos livros sagrados das
religiões orientais. Se para as religiões de origem
oriental isso não faz diferença, para o pensamento
cristão sim. A Bíblia, por sua inspiração, é o único
livro que merece ser considerado a Palavra de Deus!
Separando o joio do trigo
Claro que não podemos nos tornar xenófobos2, temendo e
discriminando tudo o que vem do Oriente. O intercâmbio
entre o Leste e o Oeste é útil, inevitável e necessário.
Mas temos de ser total-mente conscientes do conteúdo
daquilo com o que estamos travando contato. É como um
filme ou um livro. Teremos de assisti-lo ou lê-lo, mas
cabe entender como o seu conteúdo está atingindo nossa
maneira de ver e de pensar. A melhor solução não é o
ascetismo, o isola-mento, mas o discernimento que vem
com o conhecimento e a reflexão: “Examinai tudo. Retende
o bem” (1Ts 5.21).
Nem tudo o que é do Oriente é mau, assim como nem tudo o
que é do Ocidente é bom. Mas tudo o que vem da Palavra é
bom e ela deve ser a nossa “peneira”, com a qual
distinguiremos a verdade da mentira. A tolerância é
sempre uma faca de dois gumes. Quando ausente, leva o
homem a conflitos desnecessários. Quando excessiva,
leva-o a perder a identidade. E perder a identidade é
algo que a Igreja de Jesus Cristo não se pode permitir,
de forma alguma.
Notas:
1 História da civilização,nossa herança Oriental , Will
Durant,Record,1935/63,p.373.
2 Aversão a pessoas e coisas estrangeiras.
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