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Matéria
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Um chá entre
amigos
Por Fabio Bentes
Com um nome pitoresco e um discurso de “luz, paz e
amor”, a União do Vegetal é uma comunidade fundamentada
nos poderes místicos de um chá especial. A busca pelo
sobrenatural e a propagação de ideais nobres se misturam
a contradições e rituais de alucinação grupal
Na diversidade das religiões nos tempos atuais
encontra-se de tudo, desde grandes grupos de religião
monoteísta a seitas de caráter regional. Os princípios
são os mais diversificados e as idéias se multiplicam.
Neste contexto de crenças múltiplas, voltamos nossa
atenção para a União do Vegetal.
Trata-se de uma comunidade que crê em poderes mágicos de
um chá feito a partir de duas ervas – Mariri e Chacrona
– e que, segundo os membros da seita, é capaz de
proporcionar inúmeros benefícios, revelar profundas
questões existenciais àqueles que provam de seu poder e
curar as mais diversas enfermidades.
O nome com que foi batizada a comunidade em questão vem
deste chá, chamado entre os participantes de “vegetal”.
Outro nome pelo qual o chá é chamado entre os adeptos da
seita é hoasca. Este termo está relacionado ao nome que
as tribos amazônicas utilizam para a mistura do chá.
Confiantes nos poderes sobrenaturais da hoasca, homens e
mulheres do Brasil e do mundo se reúnem para encontros
místicos organizados pela União do Vegetal.
Até você, Salomão?
A União do Vegetal atribui suas origens à corte do rei
Salomão — personagem bíblico notável na História por sua
sabedoria. A lenda afirma que um discípulo e assistente
de Salomão — Caiano — recebeu do rei o sétimo segredo da
natureza (uma mistura de ervas para o preparo do chá) e
a chave da palavra perdida. Sendo portador do segredo da
mistura para a bebida e conhecedor da palavra perdida,
Caiano era capaz de entrar em contato com a “força
superior, a suprema divindade”. Desde então, em um
processo de reencarnação, Caiano vem recriando a União
do Vegetal de tempos em tempos, sempre que encontra na
terra pessoas capazes de administrar corretamente os
segredos da hoasca e dispostas a sair das ‘trevas’ e
entrar para a “luz”.
Caiano entre nós
Em terras brasileiras, a União foi “recriada” (como o
grupo gosta de dizer) por José Gabriel da Costa, que
futuramente se tornaria o reverenciado Mestre Gabriel.
Era baiano e, ainda na juventude, deslocou-se para as
regiões amazônicas no intuito de trabalhar nos
seringais, na promissora indústria da borracha. Chegou,
finalmente, em Porto Velho, antigo território de Guaporé
(atual Rondônia) e lá se estabeleceu com sua esposa. Nas
regiões de Porto Velho e proximidades, quase na
fronteira com a Bolívia, José Gabriel teve seu primeiro
contato com a hoasca, o “vegetal”.
O chá já era utilizado pelas nações indígenas americanas
em rituais de pajelança e as ervas que davam origem à
mistura encontradas na floresta amazônica.
Experimentando as propriedades alucinógenas da hoasca, e
desejando aprofundar seu envolvimento com as questões
espirituais e místicas, José Gabriel deu início à
atividade que tomaria contornos mais sérios dali em
diante. Em 1961, com 39 anos de idade, fundou a União do
Vegetal. No início, Mestre Gabriel tinha alguns poucos
discípulos, a quem ele administrava a distribuição do
chá e recitava palavras de sabedoria. Com o tempo, o
grupo foi crescendo e as fronteiras da União,
constantemente ampliadas. No princípio da década de 70,
por questões legais, fez-se necessária uma organização
administrativa da comunidade. Nascia o Centro Espírita
Beneficente União do Vegetal.
Origens tribais
Fica evidente que a União do Vegetal tem um caráter de
neoxamanismo,1 ao consideramos os princípios de
utilização do chá para rituais religiosos, o que é
reforçado quando analisamos a presença de um “mestre”
que vai administrar a distribuição da hoasca, utilizando
seus graus elevados de espiritualidade para conduzir os
demais. Realmente, o baiano José Gabriel havia assumido
de vez os costumes e tradições tribais das
circunvizinhanças.
Alguns anos antes, Raimundo Irineu Serra iniciava um
movimento semelhante não muito longe dali. Mestre Irineu
— como era chamado pelos seguidores — teve contato com o
chá milagroso já no início do século XX, quando deixou o
Maranhão para morar no Acre, perto da fronteira com o
Peru. Segundo seu relato, recebeu uma ordem direta de
Nossa Senhora da Conceição para propagar a utilização da
hoasca em rituais de ensino. O movimento iniciado por
ele recebeu o nome de Daime, que é derivado dos pedidos
feitos durante o ritual em que a bebida é ingerida:
“Dai-me paz, dai-me amor, dai-me luz”, etc. Com isso,
também fica evidente que existem mais semelhanças do que
diferenças nos movimentos iniciados pelos dois líderes.
Vejamos. A União do Vegetal, iniciada por Mestre Gabriel
na década de 60, apelidou a hoasca de “vegetal”,
enquanto o Santo Daime, movimento iniciado por Mestre
Irineu no início do século passado, usa o homônimo para
identificar a bebida milagrosa.
Quanto às demais práticas adotadas pelas comunidades, o
paralelismo é claro: doutrinas espíritas, reencarnação
em um processo de evolução espiritual, encontro com a
divindade por ocasião da ingestão da hoasca, busca pela
paz, amor e iluminação. Tudo isso mediante o
acompanhamento de um mestre devidamente autorizado pela
ordem e com experiências sobrenaturais (leia-se
alucinações) reconhecidas.
Também é comum às seitas o interesse pela preservação do
meio ambiente. Não fica claro se esse interesse é de
caráter holístico ou se é simplesmente por medo de que
algo mais sério venha a ocorrer na mata amazônica (que é
a fonte das ervas que dão origem à hoasca).
Silenciosos e atuantes
Mestre Gabriel morreu (ou “desencarnou”, como preferem
os membros da União) em 1971. Com fortes convicções de
propagar seus princípios, antes de morrer, separou doze
homens (qualquer semelhança com outras histórias é mera
coincidência!), para que pudessem dar continuidade à sua
obra de divulgação da União. Nos anos seguintes, a União
do Vegetal já alcançava novas cidades, montava novos
centros e estabelecia novos núcleos. Hoje, a União do
Vegetal se encontra espalhada em todo o território
nacional, não marcando presença apenas em três Estados:
Rio Grande do Norte, Tocantins e Sergipe. Os filiados já
superam a casa dos 6000, mas os adeptos não têm
intenções de se tornar uma potência religiosa. Um dos
lemas da União é “discretos, mas não secretos”. Fica
claro que é secundária a prática de arrebanhar novos
membros. Quanto a isto, a União do Vegetal se mostra uma
comunidade bem peculiar. Seus filiados são pessoas de
todo e qualquer nível social, inclusive artistas e
celebridades.
Há, ainda, uma dissidência da comunidade original criada
por Mestre Gabriel. Esta segunda comunidade nasceu de
uma discórdia entre os líderes do Centro Espírita
Beneficente União do Vegetal e um mestre que desenvolvia
suas atividades em um núcleo de São Paulo. Mestre
Joaquim, que afirma ser o sucessor legítimo de Mestre
Gabriel, depois de tentar reconciliações com a
comunidade original, começou seu próprio núcleo,
desligado da sede geral que se encontra em Brasília. Ele
fez uma pequena alteração no nome e hoje é mestre e
líder supremo do Centro Espiritual Beneficente União do
Vegetal. Sua sede fica em Campinas (SP) e sua fazenda em
Mato Grosso, com plantações de Mariri e Chacrona (para
preparo da hoasca). É a maior do mundo. Dos Estados
Unidos, da Europa e do Oriente, muitas pessoas têm vindo
experimentar as diferentes sensações que a hoasca pode
proporcionar.
A droga leva a Deus
A hoasca é um alucinógeno. Por mais que se queira dar um
caráter espiritual para a ingestão do chá, trata-se de
uma droga presente na lista proibida de muitos países e
que, inclusive, já levou o próprio Mestre Gabriel para a
prisão. Atualmente, existem pessoas detidas em países
estrangeiros por tentarem transportar a hoasca em
viagens internacionais. Estas listas proibidas são
fundamentadas em pesquisas que comprovam cientificamente
as propriedades alucinógenas da droga, ou seja, quem
está sob seu efeito não está em contato total com a
realidade. Em um português bem claro, “não está em seu
melhor juízo”. A União do Vegetal diz que faz pesquisas
sobre as propriedades químicas do vegetal — hoasca —
para avaliar os riscos existentes no consumo da droga,
porém, suas pesquisas são internas e um tanto quanto
parciais. O governo brasileiro fez um pedido à
Universidade Federal de São Paulo para que fizesse tal
avaliação e os resultados mostraram que, no transcurso
do ritual, pode haver perda do controle, levando a
reações de pânico. O “vegetal” também se mostra
claramente nocivo, à medida que pode dar início a
quadros psicóticos permanentes em pessoas predispostas a
essas doenças ou desencadear novas crises em indivíduos
portadores de doenças psiquiátricas, como, por exemplo,
a esquizofrenia.
Nesta pesquisa também foram dados “nomes aos bois” e os
químicos mencionaram, uma por uma, as substâncias que
representavam riscos à saúde. Tal discussão foi
inclusive alvo de polêmica em setembro de 2000, quando
uma matéria da revista Veja questionou a intenção do
governo ao solicitar o estudo. O general Alberto
Cardoso, Secretário Nacional Antidrogas e Ministro Chefe
do Gabinete de Segurança Institucional, mandou que a
hoasca fosse temporariamente retirada da lista de drogas
proibidas, mesmo tendo a pesquisa a classificado como um
alucinógeno. Um de seus argumentos (extremamente
contestado na época) foi afirmar que ‘religião é
religião’. O repórter Ricardo Galhardo, da Veja,
levantou uma questão óbvia: seria esta argumentação
válida quando comunidades religiosas resolvessem
utilizar cocaína, crack e heroína em seus rituais?
Mistura de ervas, mistura de religiões
Em relação à sua doutrina e pensamento, a União do
Vegetal é uma comunidade com princípios basicamente
espíritas. Na verdade, fica evidente uma mescla de
princípios kardecistas e religiosidade tribal.
Em relação às semelhanças com o pensamento espírita,
estão a doutrina da reencarnação – sempre de humanos
para humanos – e a busca incessante pela iluminação.
Diz-se, inclusive, que a droga não é alucinógena, mas,
sim, “iluminógena”. Ela “ilumina” e “desperta” aqueles
que querem se livrar da ilusão que é o mundo em que
vivemos (sim, algo meio budista). A vontade de viver em
“luz, paz e amor” (o símbolo da União) deve estar
presente em cada coração e os membros devem se esforçar
para seguir estes princípios. Não fica claro como, onde
e de que forma estes princípios são vividos no
dia-a-dia, mas, durante os rituais, o mestre encarregado
da distribuição do chá e da condução da reunião recita
palavras de sabedoria para seus discípulos. Todos em
estado mental discutível.
Um ponto de grande relevância para a discussão fica por
conta da rejeição da seita a vícios como tabaco, álcool
e drogas. Isso mesmo. Drogas! A comunidade rejeita este
tipo de prática e, segundo informações fornecidas pela
liderança, o índice de abstinência quanto a estes
costumes entre os adeptos é de 100%. Também, como já
mencionado, a União é bem reservada quanto às suas
reuniões e sessões rituais. Não é algo secreto – como
ocorre na maçonaria, por exemplo – mas não faz parte da
estratégia sair pelo mundo difundindo os segredos e
benefícios da hoasca.
Surge, então, outra questão a ser levantada: não seria
bom que todas as pessoas partilhassem de algo tão bom,
saudável e benéfico?
Deuses diferentes
É inaceitável a idéia de alguém sujeitar-se a estados
mentais de alucinação para que possa encontrar Deus.
Imaginar que Deus se esconde atrás de substâncias
químicas que afetam diretamente o cérebro humano é
imaginar que Deus é um Deus vil, que não quer ser
encontrado e está sob autoridade material. Conclusões
tiradas enquanto o sistema nervoso não está em condições
seguras – inclusive com comprovação científica – é jogar
no lixo a capacidade mental do ser humano e a
suficiência de Deus em se revelar. Deus não está em
frases de efeito ou em rituais como os aqui mencionados.
Deus está disponível a todos nós pelo seu Espírito. Ele
é livre, não está condicionado a práticas, rituais ou
drogas alucinógenas. Ele entra em contato direto com o
nosso espírito (Jo 4.24). Sua ação não está
regulamentada pela atuação de substâncias químicas no
sangue. Uma conclusão que se tira a respeito do deus
encontrado pela União do Vegetal é que ele é bem
limitado. A Bíblia mostra um Deus que é Senhor dos céus
e da terra e que criou
todas as coisas (Is 40.26). Um Deus que não conhece
limites, mas apenas aqueles que Ele mesmo quer ter.
Em relação ao desinteresse que a seita mostra em revelar
ao mundo seus princípios, trata-se de um ato frio,
egoísta e desumano. Quando um semelhante encontra algo
de bom e não quer compartilhá-lo com outros, fica
evidente que o princípio do amor é uma mentira. Amor é
viver no deserto e contar a todos que você encontrou
água para que a boa notícia traga alegria e ânimo a
todos.
Quanto à aceitação da boa notícia, não há como prever as
reações, mas o dever de buscar cada vez mais pessoas – o
mais rápido possível – é óbvio e inquestionável. A
Bíblia apresenta um Deus (na pessoa de seu Filho Jesus)
que orienta seus discípulos com veemência para que
corram o mundo inteiro fazendo cada vez mais discípulos,
mostrando o caminho a todos aqueles que desejarem (Mt
28.16-20). Um deus que escolhe um grupo, em um único
país, e não orienta uma propagação rápida e imediata de
sua doutrina é um deus cruel. Tudo isso nos leva a uma
única conclusão: sob o efeito de uma droga – como
qualquer outra – o deus encontrado pela União do Vegetal
é um deus interno, que sai da profundidade do
inconsciente, é libertado mediante ação química e
representa nada mais do que pensamentos ocultos, medos
internos, sonhos frustrados, sensações diferentes e
descontrole emocional.
Tudo isso reforçado pela ação do nosso inimigo, o diabo,
que busca pessoas ansiosas por perder o controle para
que ele mesmo assuma este controle. Longe de ser um
grupo interessante, com intenções genuínas, a União do
Vegetal é uma organização com claras contradições;
centrada na perda da totalidade da consciência e na
alucinação. Levantando uma bandeira de religiosidade, a
União do Vegetal não consegue esconder a verdade: É mais
um grupo que se reúne para o consumo de ervas dizendo
que não faz nada de errado, como quem senta para tomar
um chá entre amigos...
Nota:
1 Uma espécie de novo xamanismo. O termo “xamã”
refere-se a um sacerdote ou mágico de certas religiões.
Um xamã era um médico-sacerdote, supostamente dotado de
poderes espirituais como profeta e curador. Uma
definição mais clara indica qualquer sacerdote tribal,
supostamente dotado desses poderes, que encabeça as
práticas religiosas de um grupo assim chamado
(Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia, CHAMPLIN,
R. N. & BENTES, J. M., Candeia, 1997).
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