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Mudança de
paradigma - Cristocentrismo versus mariocentrismo na
renovação carismática
Por José Gonçalves Gomes
“Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já
está posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11)
A expressão “mudança de paradigma” é freqüentemente
usada pelos historiadores da filosofia. Na Grécia
antiga, os filósofos pré-socráticos, também denominados
de “naturalistas”, preocupavam-se em dar explicações
sobre o “arché”, ou princípio de todas as coisas. Para
Tales de Mileto, que viveu no século 7º a.C, esse
princípio, do qual todas as coisas derivaram, era a
“água”. Por outro lado, para Anaximandro, que viveu
entre os séculos 7º e 6º a.C., o “apeiron”, ou o
ilimitado, explicaria a origem de todas as coisas. Já
Anaxímenes afirmava que o “ar”, não a água, era o
“arché” de todas as coisas. Até aqui esses pensadores
estavam preocupados em dar explicações sobre o “cosmo”.
A grande mudança no pensamento grego, como afirmam os
historiadores da filosofia, veio com os “sofistas” (os
sábios). Com a escola sofística, “o homem”, não “o
cosmo”, passou a ser o centro do Universo. Protágoras de
Abdera, que viveu entre 491 e 481 a.C, afirmou ser “o
homem a medida de todas as coisas”. Nesta frase de
Protágoras está revelada a grande mudança de paradigma
na história do pensamento Ocidental; a visão de mundo
deixou de ser cosmocêntrica para se tornar
antropocêntrica. O homem agora passava a ser o centro
das atenções na filosofia ocidental.
Quanto mais observo o movimento de renovação católica,
mais convencido fico a respeito dessa “mudança de
paradigma” no pensamento carismático cristocêntrico no
passado e mariocêntrico no presente. A diferença entre a
mudança de paradigma do pensamento grego para o
carismático é que aquele foi uma mudança que provocou um
progresso na civilização, enquanto este promoveu um
retrocesso dentro da renovação.
Ainda muito cedo em sua história, a renovação
carismática demonstrava ser incompatível com o
catolicismo tradicional. Seus traços doutrinários, que
lembravam os pentecostais clássicos, incomodavam o clero
romano. Por isso, “em 1974 o movimento abandonou o termo
pentecostal por outro mais neutro: carismático, para não
ser confundido com os pentecostais mais antigos”.1
Quando examinamos o Novo Testamento, observamos que a
diferença entre esses termos, imposta pela renovação
carismática, não tem fundamento, uma vez que as palavras
pentecostal e carismático, podem ser encontradas nas
páginas sagradas como sinônimas, suas diferenças são
puramente didáticas. A palavra pentecostal, aplicada no
início da vinda do Espírito Santo, conforme registrada
no livro de Atos 2.4, posteriormente tornou-se sinônimo
dos carismas desse mesmo Espírito.
A propósito, observa a Enciclopédia Judaica: “O termo
‘pentecostal’, derivado de ‘pentecostes’, é uma tradução
grega para a palavra hebraica shavuot (semanas), uma das
mais importantes festas do judaísmo antigo. Os judeus
helenistas [...] que só utilizavam o idioma grego,
chamavam o shavuot de ‘pentecostes’ (do grego, Pente
Kostus, que significa ‘qüinquagésimo’) porque era
festejado cinqüenta dias após a oferenda do molho de
cevada que se fazia no Templo de Jerusalém, no segundo
dia de Pessach (páscoa)”.2
Como o derramamento do Espírito Santo (At 2.1-4)
aconteceu nesse dia, o termo “pentecostal” ficou
associado às manifestações do Espírito de Deus. É
precisamente isso o que diz o expositor bíblico J. D. G.
Dunn, ao falar sobre A significância do pentecostes para
os cristãos primitivos: “O Pentecostes significa,
primeiramente, o derramamento do Espírito que Deus
prometeu para os tempos do fim. As manifestações
carismáticas e estáticas que se atribuíam ao Espírito de
Deus eram um aspecto distintivo e importante do
cristianismo palestino mais primitivo, bem como do
cristianismo helenístico posterior [...]. Atos 20.16
pode até indicar que a igreja em Jerusalém observava o
Pentecostes como aniversário do derramamento do
Espírito”.3
Por outro lado, o termo carismático, que vem do grego
charismatón (derivado de charizomai – “dom”, “graça”),
aparece na primeira carta aos Coríntios (12.4), quando
Paulo usa o termo para também se referir às
manifestações do Espírito Santo na Igreja. Archibald
Thomas Robertson, erudito em língua grega, comenta em
The Word’s New Testament Pictures, que essa palavra
“significa um favor [...] concedido ou recebido sem um
mérito”.4 O charismaton passou a ser um termo também
usado para os dons do Espírito Santo.
Querer fazer uma diferença abismal entre esses termos,
como pretende a renovação, é revelar claramente a
ideologia desse movimento, que tenta dar-lhe uma
identidade mais católica. Em seu livro Carismáticos e
pentecostais – adesão na esfera familiar, a socióloga
Maria das Dores C. Machado mostra que a ingerência na
Renovação Carismática, principalmente pelo papado, tem a
nítida intenção de controlá-la. A doutora Machado
afirma: “De maneira geral, revelam um esforço da
hierarquia da igreja, sobretudo do papado, em controlar
o movimento, evitando possíveis cismas e, ao mesmo
tempo, canalizar a militância evangelizadora em favor da
religião católica. A devoção à Virgem Maria foi
estimulada para demarcar as fronteiras entre o
catolicismo e o pentecostalismo e, em certa medida,
reforçar a identidade religiosa dos carismáticos”.5
Não há, pois, como negar que a renovação católica
moderna perdeu aquela identidade pentecostal que
caracterizou o início de seu movimento, para se tornar
uma caixa de ressonância do catolicismo tradicional.
Reavivamento mariano
Doutrinas que tiveram suas origens na Idade Média, a
conhecida Idade das Trevas, começaram a ser incorporadas
à Renovação: “Uma das características bem peculiar da
Igreja Católica é a sua flexibilidade para assimilar
novas tendências, sem dividir. Isto aconteceu com o
movimento carismático católico que alcançou seu ápice na
década de 70, mas, com o tempo, a hierarquia católica
começou a dar algumas diretrizes ao movimento para que
se tornasse mais católico. Entre essas diretrizes estava
uma ênfase maior na participação da missa, na eucaristia
e na veneração a Maria”.6
Até aqui já é possível percebermos que de fato houve uma
mudança de paradigma no pensamento da Renovação
Carismática, outrora cristocêntrico, agora centralizado
na Virgem Maria. É precisamente isso o que diz Paulo
Romeiro, quando põe em destaque esse enfoque mariano por
parte da renovação carismática: “O movimento carismático
não se afasta da idolatria. Ao mesmo tempo em que fala
do Senhor, fala da senhora [...] os líderes do movimento
carismático confirmam, na mídia, que o objetivo deles é
exaltar nossa senhora. Dizem que precisam ‘restaurar o
espaço de Maria’”.7
Ficamos perplexos quando vemos importantes líderes
carismáticos renovando o marianismo, uma doutrina
estranha às Escrituras Sagradas. O marianismo se tornou
a pedra fundamental no atual movimento de renovação
carismática. Vemos isso, por exemplo, quando lemos as
palavras do padre mexicano, o carismático Salvador
Carrillo Alday, que, ao comentar sobre os “frutos do
Espírito”, coloca a devoção a Maria como sendo um deles.
Veja:
• Verdadeira conversão a Deus e renovação interior
bastante profunda.
• Experiência de nova relação de intimidade com Cristo.
• Forte consciência de que a comunidade religiosa só
pode ser criação do Espírito Santo, que derrama em
nossos corações o amor de Deus.
• A fome da Palavra de Deus (Am 8.11).
• A volta para uma devoção séria e centralizada na
Santíssima Virgem”.8
Como prova desse “fruto do Espírito”, Carrillo apresenta
testemunhos de carismáticos que, na busca de seu
“pentecostes” ou na própria experiência do “batismo no
Espírito Santo”, põem em relevo a pessoa de Maria. Lemos
o testemunho de um desses batizados: “Recebi o batismo
no Espírito e devo dizer que o Senhor agiu
maravilhosamente comigo e estou muito satisfeito [...]
verifiquei claramente a presença singular da Virgem
Maria na ação carismática do Espírito nas almas”. Um
outro testemunho diz: “Cresci no amor de Maria, e com
grande alegria aproximo-me mais do Pai [...] o Senhor e
a Virgem Santíssima eram meus grandes confidentes; neles
encontrei força para continuar”; e mais: “a Virgem Maria
estava muito próxima de mim como mãe”.9
Ainda na mesma obra, o autor, ao falar sobre a Oração na
renovação carismática, responde à pergunta: “E o que
dizer da Virgem Maria, Mãe de Jesus?”. Resposta: “Sempre
está presente em todo o grupo de oração. E é normal e
devido, pois, assim como participou tão intimamente do
mistério de Jesus, da encarnação do Filho de Deus
durante sua vida na terra, ao pé da cruz e da efusão do
Espírito Santo no dia de pentecostes, assim também, cada
vez que se procura construir o corpo de Cristo, a Igreja
reconhece sua presença de mãe e sente sua poderosa
intercessão a favor de todos os filhos seus. Ela é
verdadeiramente a Mãe da comunidade orante”.10
Para o carismático Isac Valle, entre os muitos efeitos
produzidos pela renovação carismática, um deles é “um
grande apreço pela devoção a Maria Santíssima”.11 As
palavras: “devoção” e “intercessão”, ligadas à pessoa de
Maria, são freqüentemente citadas nas obras de autores
da renovação carismática. O também carismático padre
italiano S. Falvo afirma em sua obra O Espírito Santo
nos revela Jesus, que é Maria quem revelará Jesus nas
páginas do seu livro. Ele declara: “E será Maria, a
criatura que a Cristo mais se assemelha e que conheceu a
Jesus mais e melhor do que todos os homens, quem no-lo
revelará”.12 Em palavras mais simples, para Falvo, é
Maria e não o Espírito Santo o agente da revelação
divina.
É bem verdade que esse ranço mariano na RCC já aparecia
entre alguns dos primeiros carismáticos, todavia, não de
forma tão acentuada, nem nas proporções em que se
encontra hoje, pois, como já falamos, a grande maioria
dos primeiros carismáticos era cristocêntrica.
Em seu livro, Católicos pentecostais, Kevin Ranaghan
relata algumas experiências de supostos “batismos no
Espírito Santo” no início desse movimento, que nos
permitem enxergar claramente isso. Lemos: “Descobri uma
profunda devoção a Maria, e posso agora louvar a
Deus”.13 Ranaghan continua citando mais testemunhos:
“Como muitos dos nossos amigos já descobriram, o
Espírito Santo renovou nosso amor pela igreja. Onde
antes havia apenas o verniz institucional para nós,
descobrimos agora vida, poder e calor. As devoções
naturais, como a de Maria, por exemplo, tornaram mais
significativas”.14
Tudo o que temos afirmado até aqui não se trata de
frases soltas nem descontextualizadas. Importantes vozes
dentro da renovação há muito empunharam a bandeira do
marianismo. O cardeal Suenens, respeitada autoridade
dentro da renovação carismática, fala de uma “comunhão
do Espírito Santo em Maria”. E diz mais: “A união vivida
com Maria é da mesma ordem: respirar Maria é respirar o
Espírito Santo”.15
Atento a toda essa nova ênfase dada à pessoa da Virgem
Maria por parte da renovação carismática católica em
solo americano, a obra The New International Dictionary
of Pentecostal and Charimastic Movements, traz uma
importante observação sobre o assunto. Após analisar
cinco das principais diferenças entre os pentecostais
clássicos e a renovação carismática católica, esta
conceituada obra conclui: “A abençoada virgem Maria,
embora simbolicamente não ocupe o foco da reunião da
renovação carismática católica (americana), é, todavia,
esperada estar presente e algumas vezes é invocada em
hinos ou orações. Participantes da renovação católica
carismática que têm achado o seu caminho dentro do
movimento mariano, tendo crescido acostumado a agir como
canal de mensagens do céu, podem não hesitar em
expressar profecias que crêem ter recebido da parte de
Maria ou de outros santos por meio de sonhos, visões ou
“locuções interiores”.16
Em sua defesa, teólogos caris-máticos fazem um
verdadeiro malabarismo exegético, no sentido de
justificar essas crenças antibíblicas, em especial o
culto à pessoa de Maria. Muitos deles, seguindo Tomás de
Aquino,17 tentam, de forma perspicaz, fazer uma
diferença, que logicamente não existe, entre “venerar” e
“adorar” ou entre “latria” e “dulia”, enquanto outros
afirmam que somente “no catolicismo popular” as pessoas
confundem esses termos.
Renovação carismática versus catolicismo tradicional
Façamos uma breve reflexão sobre as afirmações feitas
até aqui, tanto por parte da renovação carismática como
também por parte do catolicismo tradicional, no que
concerne ao destaque dado à “devoção” a Maria e seu
papel de “intercessora” e até mesmo como aquela que
“revela” a pessoa de Cristo.
No mínimo, essas afirmações são problemáticas, pois
contrariam o ensino das Sagradas Escrituras.
Primeiramente, a Bíblia diz: “Ao Senhor teu Deus
adorarás, e só a ele servirás” (Mt 4.10). Em segundo
lugar, a Escritura afirma que só existe um mediador
entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo: “Porquanto
há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens,
Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Em terceiro, a Bíblia
diz que o agente da revelação divina é o Espírito Santo.
É Ele quem nos revela a pessoa de Jesus: “Mas, quando
vier aquele, o Espírito de verdade, Ele vos guiará em
toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá
tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de
vir” (Jo 16.13). Em quarto e último lugar, a Escritura é
taxativa em afirmar: “...e a nossa comunhão é com o Pai,
e com seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1.3).
Todos esses problemas teológicos insuperáveis dentro da
atual renovação carismática, com uma teologia medieval
enxertada em seu seio e que a leva a se autocontradizer,
nos mostram que essa crise pela qual passa a atual
renovação católica é estrutural. Em palavras mais
simples, o problema é mais sério do que comumente se tem
pensado, uma vez que se encontra nos alicerces sobre os
quais a renovação foi edificada.
Notas:
1 Defesa da Fé, março/abril de 1999. Instituto Cristão
de Pesquisas (ICP), São Paulo. p.14.
2 KOOGAN, A. Enciclopédia judaica, vol. 6, p. 777, Rio
de Janeiro, 1990.
3 DUNN, J.D.G. in Dicionário Internacional de Teologia
do Novo Testamento. Vol. III. Edições Vida Nova, São
Paulo, SP, 1984.
4 ROBERTSON, A.T. Robertson’s The Words New Testament
Pictures. Sociedade Bíblica do Brasil. 1999.
5 MACHADO, M.ª da Dores Campos, Carismáticos e
pentecostais, p.48.
6 Defesa da Fé, op. cit.
7 Vinde, julho de 1996. Visão Nacional de Evangelização,
Niterói, Rio de Janeiro.
8 ALDAY, Salvador Carrillo. A Renovação Carismática e as
comunidades religiosas. Ed. Ave Maria. São Paulo, 1999.
9 ALDAY, Salvador Carrillo, p.55, 58, 63, 67.
10 Ibid., p. 37-8.
11 VALLE, Isac Isaías. A Renovação Carismática: rumo ao
terceiro milênio cristão. Ed. Loyola, São Paulo.
12 FALVO, S. O Espírito Santo nos revela Jesus. Edições
Paulinas, São Paulo, p.33, 1983.
13 RANAGHAN, Kevin. Católicos pentecostais. Orlando S.
Boyer, Pindamonhangaba, São Paulo, p.92, 1972.
14 Ibid. p.114.
15 SUENENS, Léo – Joseph. A Renovação Carismática – um
novo pentecostes? – Paulus, Apelação, Portugal, 1999.
16 BURGESS, Stanley M. & MAAS, Eduard M Van Der. The New
International Dictionary of Pentecostal and Charismatic
Movements. Zondervan, Grand Rapids, Michigan, U.S.A,
2002.
17 AQUINO, Tomás. Suma Teológica. Edição bilíngüe:
latim/português. Escola Superior de Teologia, São
Lourenço de Brinde, Rio Grande do Sul, 1980.
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