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Matéria
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Quando o
Estado se torna um deus
Por Eguinaldo Hélio de Souza
“E ele diz-lhes: De quem é esta efígie e esta inscrição?
Dizem-lhe eles: De César. Então ele lhes disse: Dai pois
a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt
22.20,21).
A religião do Estado
Há uma falsa forma de culto que surge aqui e acolá, no
mundo e na história, que nem sempre é devidamente
analisada, mas que se choca abertamente contra o
cristianismo. É o que poderíamos classificar como
religião do Estado. Adquire formas diferentes em vários
tempos e lugares, desde o culto ao representante do
Estado até um totalitarismo que obriga o indivíduo a
sujeitar até mesmo sua crença religiosa à intervenção
estatal.
Esta “adoração do Estado” foi feita, às vezes, de
maneira sutil, em meio às práticas politeístas. Outras
vezes, acobertou-se sob doutrinas políticas e
filosóficas, mas nem por isto deixou de ser um culto.
Não se tratou de mera política populista, mas de
atitudes tomadas diante do Estado ou de seu governante,
que só poderiam ser tomadas com respeito a Deus.
Não nos cabe entrar nos méritos dos sistemas políticos.
Não é nosso alvo discuti-los. Queremos apenas analisar
biblicamente o erro de conferir ao governo um valor
divinizador não encontrado nas Escrituras. Não poucas
vezes, o nacionalismo extremado tornou-se uma religião
em si mesmo.
Origem e finalidade do Estado
Alguns vêem em Gênesis 9.6 a origem do Estado. Isto
porque, ao dizer: “Aquele que derramar o sangue do
homem, pelo homem o seu sangue será derramado”, Deus
estava colocando nas mãos do próprio homem o direito de
exercer a justiça e de julgar suas causas. Entretanto, é
na passagem de Romanos 13.1-6 que encontramos uma
espécie de minitratado sobre o valor do Estado. As
autoridades governantes, sejam elas executivas,
legislativas ou judiciárias, têm o aval de Deus para
agir. Foi idéia de Deus dispensar autoridade aos homens
para que pudessem conduzir os negócios terrenos.
Devemos, todavia, distinguir algo importante. As
posições de autoridades foram instituídas por Deus e,
como tais, devem ser respeitadas. Mas isto não significa
que Deus aprove tudo aquilo que os governantes fazem.
Pelo contrário, suas ações podem até mesmo ser contra
Deus e seu reino.
Durante o período nazista, na Alemanha, muitas igrejas
evangélicas apoiaram incondicionalmente os atos de
Hitler, justificando-se na passagem de Romanos. Isto é
ser unilateral na interpretação bíblica, é recusar-se a
tomar toda a Bíblia como regra de fé e prática.
Respeitar o Estado no sentido bíblico não é prestar-lhe
obediência incondicional. Em aspectos de crença e ética,
as Escrituras colocam-se acima de qualquer outro padrão.
Não existe na Palavra de Deus argumento que justifique o
cristianismo concordar com culto ao governante ou com
atitudes contrárias à Palavra por parte daquele. Isto
também é uma heresia.
Temos, no livro de Daniel, um exemplo claro de pessoas
que tiveram de se defrontar com a religião do Estado. O
caso dos amigos de Daniel é um exemplo claro de como o
respeito a um determinado governo não significa
obediência irrestrita a este, principalmente no que
concerne a questões espirituais. Eles tinham de escolher
entre a proibição bíblica da idolatria e a adoração a
uma imagem ordenada pelo rei. Embora eles tivessem um
mandamento de respeitar as autoridades (Êx 22.28; At
23.5) e tivessem também aceitado a instrução divina de
Jeremias em se sujeitar ao rei da Babilônia (Jr
27.4-11), mesmo assim se recusaram definitivamente a
prestar quaisquer outros cultos, senão ao único Deus
verdadeiro, conforme a lei de Moisés (Êx 20.1-6). Foram
capazes de manifestar uma doutrina de relação com seus
governantes que era baseada nas Escrituras como um todo,
e não em uma menção isolada da mesma.
Manifestações da religião do Estado
Faraó era tido como o próprio deus em pessoa. Assim
também era o Inca, título do chefe do povo inca na
América pré-colombiana. E a antropologia está repleta de
exemplos de chefes tribais tidos como deuses. Alexandre,
o Grande, acreditava ser filho de sua mãe com um deus e
estranhou o dia em que viu sair sangue de sua perna.
Dos povos que mais expressaram uma religião do Estado,
sem dúvida, os romanos se destacaram. “Eles
administraram a arte de divinização [do imperador], como
um conveniente instrumento da política”, escreveu Edward
Gibbon, em seu livro Declínio e queda do Império
Romano.1 Em certos períodos, acender incenso à imagem do
imperador, tornou-se uma obrigação civil, cuja
desobediência era passível de punição. Muitos soldados
cristãos foram martirizados por se recusarem a fazê-lo.
Segundo narra Josefo, o historiador judeu, o imperador
Calígula ordenou que em todos os lugares ele fosse
adorado como um Deus.2
A Revolução Francesa e o culto à razão
Em 14 de Julho de 1889, a Bastilha, prisão-símbolo do
poder monárquico absolutista francês, foi tomada. Os
historiadores identificaram este acontecimento como o
início da Revolução Francesa e um dos marcos divisores
da História. Começava a Idade Contemporânea. Os
princípios desta revolução foram baseados nos filósofos
iluministas e na exaltação da razão como instrumento de
regeneração do homem e da sociedade. Entretanto, em sua
base, também era anticlerical, ou seja, opunha-se à
religião oficial: o catolicismo. Em seu objetivo de
implantar a razão como fator supremo, chegaram a
enfeitar e a endeusar uma bailarina e a proclamar pelas
ruas de Paris que ela devia ser adorada. Foi feita uma
proposta de substituir o culto a Deus pelo culto ao
Estado. Uma religião do Estado foi estabelecida e o
Estado, então, passou a ser a razão de ser do indivíduo.
Observemos o que relata o judeu Myer Pearlman sobre o
assunto:
“A Revolução Francesa oferece outro exemplo dessa
política. Deus e Cristo foram lançados fora e um deus,
ou deusa, se fez da Pátria (o Estado). Assim disse um
dos líderes: ‘O Estado é supremo em todas as coisas.
Quando o Estado se pronuncia, a Igreja não tem nada a
dizer. Lealdade ao Estado, elevou-se à posição de
religião. A assembléia nacional decretou que em todas as
vilas fossem levantados altares com a seguinte
inscrição: O cidadão nasce, vive e morre pela Pátria’.
Preparou-se um ritual para batismos, casamentos e
enterros civis. A religião do Estado possuía seus hinos
e orações, seus jejuns e festas”.3
A adoração ao imperador japonês
É incrível como nem toda a tecnologia japonesa foi capaz
de libertar seu povo da idolatria ao imperador. Até
1945, no término da 2ª Guerra Mundial, os imperadores
eram considerados descendentes diretos de
Amaterasu-Omikami, a deusa do sol, a mais importante
divindade da religião pagã japonesa. E não estamos
falando de um povo primitivo e bárbaro, mas de uma
refinada cultura do extremo oriente. Este culto tem
raízes no xintoísmo, que defendia o culto ao imperador
como a um deus, nem mesmo a influência do mundo
ocidental alterou este conceito.
Por muito tempo, a filosofia xintoísta não levava esse
nome. Na realidade, esse nome foi criado em oposição à
introdução do budismo e do cristianismo no país que, até
então, não possuía outras vertentes religiosas
significantes. O termo xinto significa “caminho dos
deuses”. Surgiu, provavelmente, em oposição ao budismo
que entrou no Japão no século VI da nossa era. Nesse
tempo, a religião dos japoneses era muito simples, sem
livros nem mandamentos nem sacerdotes. Acreditavam que o
sol, a lua, a floresta e os rios tinham um espírito que
podia fazer mal ou bem. O rio tinha de ser adorado. Além
de adorarem a natureza, adoravam o Mikado (o imperador).
“Em 1889, o xintoísmo foi declarado religião do Estado e
transformado numa instituição governamental, cujo
objetivo era manter, entre o povo, a devoção ao
imperador. Depois da segunda guerra mundial, e da
terrível derrota sofrida pelo Japão por parte dos
americanos, o imperador Hiroito declarou falsa esta
crença e, desde então, o xintoísmo entrou numa crise, e
seu êxito é incerto”.4
O período nazista
Quem julga que este assunto não deva ser discutido,
devido ao fato de fazer parte do passado, deve
considerar algumas coisas. O século XX apresentou várias
manifestações de culto ao Estado e ao seu representante,
e isto até mesmo dentro de culturas cristãs, por certo
visando a destruição destas culturas.
Em um primeiro momento, é impossível não falar de
Hitler. Não podemos esquecer que estamos nos referindo a
uma nação intelectualmente desenvolvida, com uma
tradição cristã antiga, berço da Reforma Protestante.
Induzir o povo a adorar Hitler não foi mera questão
política, mas religiosa.
Hitler foi adorado. João Ribeiro Jr., em seu livro O que
é o nazismo, consegue captar facetas do nazismo como
poucos: “Na realidade, Hitler era meio dirigente, meio
sacerdote, deificado durante a vida e, graças à mística
nazista, só se referiam a ele em termos de adoração
bajuladora, do qual era sacrilégio duvidar”.5
Ocultismo ou não, o que não se pode negar é que Hitler
foi um dos poucos homens contemporâneos (talvez o único)
que ainda em vida transformou-se em um mito, uma lenda,
um semideus, com aquele carisma de divindade que os
japoneses atribuíam ao seu imperador.6
Quem julga ser isto um exagero, devia conhecer o tipo de
oração que era ensinado às crianças nas escolas durante
aquele período, como segue:
“Führer, meu führer que Deus me deu. Protege e conserva
por muito tempo a minha vida. Tu salvaste a Alemanha dos
abismos da miséria. É a ti que devo o pão de cada dia.
Conserva-te muito tempo junto de mim, não me abandones.
Führer, meu führer, minha fé, minha luz. Salve meu
Führer!”.
O culto a Lênin na URSS
O sentimento religioso é inerente ao ser humano. Romanos
1.19 diz que Deus manifestou no homem seu poder e sua
divindade. Por este motivo, a religiosidade, a busca por
algo superior e a reverência ao grandioso fazem parte de
sua natureza. Nos países pertencentes à cortina de ferro
e liderados pela URSS, tentou-se suprimir tais
manifestações, considerando-as anormais.
Em contrapartida, o Estado foi colocado no lugar de Deus
e a filosofia marxista tornou-se um credo. Os escritos
de Lênin e Karl Marx eram tratados com tal reverência
que muitos os comparavam ao zelo com o qual os teólogos
pesquisavam as Escrituras. O corpo de Lênin não foi
enterrado, mas permaneceu embalsamado até o final do
século e as pessoas que visitavam seu mausoléu tinham
pelo seu cadáver uma reverência quase religiosa.
Cristianismo e Estado
Convém fugir dos extremos com relação aos governos,
porque a Bíblia não é extremista. Quando analisamos as
doutrinas mais antigas das Testemunhas de Jeová com
relação ao Estado, percebemos uma grande distorção das
Escrituras neste ponto. Se biblicamente o cristianismo
não é parte do Estado como acontecia no judaísmo, ele
também não é inimigo do Estado.
A Sociedade Torre de Vigia foi caracterizada, durante
muito tempo, por sua inimizade aos governos
constituídos, descrevendo-os como agentes de Satanás.
Eram intransigentes com relação ao voto, ao serviço
militar, ao juramento à bandeira e a outras coisas deste
tipo. Embora sua interpretação de Romanos 13.1-7 tenha
mudado várias vezes ao longo dos anos e tenham, em
certos pontos, se tornado mais flexíveis, é possível
verificar sua distorção das normas bíblicas:
“Quem são pois as ‘autoridades superiores’ (Rm 13.1
TNM)? Jeová Deus é supremo e Cristo Jesus o seu oficial
principal, a quem conferiu todo poder e autoridade para
efetuar seu propósito; e portanto as autoridades
superiores são Jeová Deus e Cristo Jesus” (Mt 28.18).7
“Todavia, as ‘autoridades superiores’ mencionadas são os
principais regentes da congregação de Deus, a saber, o
corpo governante invisível do reino de Deus”.8
O outro extremo é uma concordância irrestrita com as
forças dirigentes, sem levar em conta as afirmações
éticas e doutrinárias da Bíblia, como no já referido
caso do Nazismo, ou na cooperação com o governo
comunista para identificar e perseguir os cristãos. Em
Atos 5.29, os discípulos tinham um mandamento do Senhor
e um mandamento dos governantes da nação. Obedecer a
Deus seria sempre a prioridade, e assim fizeram os
apóstolos.
Perigos permanentes
Como podemos perceber, o culto ao Estado varia em forma,
origem e conteúdo. Embora faça parte da tradição de
alguns povos, nem sempre está ligado à cultura desses
mesmos povos. Pode surgir de repente, provocado por um
nacionalismo extremado ou por uma ideologia que coloque
o Estado acima do indivíduo em todos os aspectos.
É preciso aprender com o passado, à luz das Escrituras,
não se deixando jamais enredar por laços como este.
Honrar o Estado tem seus limites, bem como se sujeitar a
ele. Sem uma visão equilibrada de toda a Bíblia, neste e
em qualquer outro ponto, qualquer grupo cristão pode
tornar-se vítima de idolatria ou de rebeldia sutil.
Kremlin ignora aniversário bolchevique
Dezenas de milhares de comunistas da velha guarda
marcharam na Praça Vermelha de Moscou, numa demonstração
de lealdade a Vladimir Illich Lênin no 74º aniversário
da revolução bolchevique por ele chefiada.
“Levante-se, Illich”, diziam cartazes levados pelos
manifestantes, que exigiam julgamento para o presidente
Mikhail Gorbachov.
“Não toquem em Lênin”, gritou a multidão, calculada em
40 mil pessoas pela agência UPI, ao passar em frente ao
mausoléu onde repousa o corpo embalsamado de Lênin, cuja
remoção é exigida por uma corrente reformista.
Fonte: http://www11.estadao.com.br/ext/diariodopassado/out/000030904.htm.
Um mito embalsamado
A múmia mais famosa do mundo moderno está guardada em um
mausoléu na Praça Vermelha, em Moscou. O corpo do líder
comunista Vladimir Lênin, morto em 1924, foi preservado
por uma equipe de embalsamadores que trabalharam durante
cinco meses para criar a ilusão de que ele estava apenas
dormindo. Seu rosto e mãos ainda estão à mostra, mas o
resto do corpo está coberto por uma roupa preta, que
impede a visão da decomposição. Ocasionalmente, o corpo
mumificado é lavado com um líquido especial para manter
a aparência impressionante.
Encarregados de preservar o corpo e, portanto, de manter
o culto a Lênin, os embalsamadores selaram as cicatrizes
da cabeça do líder após o cérebro ser removido para
estudos. O objetivo era descobrir o segredo do gênio que
o regime soviético atribuía a Lênin. O cérebro ainda
está guardado em um laboratório de Moscou...
Fonte: http://galileu.globo.com/edic/124/rep_mumia.htm
Notas:
1 Declínio e queda do Império Romano. Edward Gibbon. Vol
I, cap.2, p. 12.
2 Relato de Filo, cap. 6.
3 Conhecendo as doutrinas da Bíblia. Myer Pearlman, p.
248.
4 http://www.infohouse.com.br/usuarios/zhilton/Xintoismo.html.
5 P. 66-7.
6 Ibid., p. 76.
7 Livro salvação, 1940, p. 227.
8 Seja Deus verdadeiro, 1955, p. 241-2.m/edic/124/rep_mumia.htm.
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