|
|
|
Reencarnação
e justiça
Por Paulo Cristiano da Silva
É conhecida a obstinação dos espíritas em firmar sua
posição sobre a doutrina da reencarnação, justificando-a
com o argumento de que cada um faz por merecer sua
própria salvação. Allan Kardec tinha um lema que foi
colocado como epitáfio no seu túmulo na cidade de Paris,
França: naitre mourir renaitre encore et progresser sams
cesse telle est la loi, que pode ser traduzido da
seguinte maneira: “nascer, morrer e progredir sempre;
esta é a lei”.
Assim, dentro do espiritismo, Deus jamais pode perdoar
alguém porque isso atrasaria o progresso espiritual da
pessoa e a justiça de Deus seria falha em não premiar
cada pessoa pelo o que ela faz em seu favor, por meio
das obras de caridade. Um slogan bastante conhecido que
norteia este pensamento é “fora da caridade não existe
salvação”. A expressão “progredir sempre; esta é a lei”
— a que se refere Allan Kardec — é a lei do progresso
irreprimível até a perfeição mediante repetidas
reencarnações até se tornar “um espírito puro”. Este
ensino é fundamental dentro do espiritismo, que afirma
que o homem deve “alcançar a meta final por esforços
próprios. Sem tal condição, a justiça de Deus se faria
falha. A justiça de Deus exige que todas as suas
criaturas atinjam o estado final de espíritos puros,
igualando-os todos”.
A justiça de Deus
Allan Kardec pergunta aos espíritos: “Em que se funda a
lei da reencarnação?”. E responde: “Na justiça de Deus e
na revelação; incessantemente repetimos...”.
Prossegue ele, afirmando: “A doutrina da reencarnação,
que consiste em admitir para o homem muitas existências
sucessivas, é a única que corresponde à idéia da justiça
de Deus, comum respeito aos homens de condição moral
inferior, a única que pode explicar o nosso futuro e
fundamentar as nossas esperanças, pois oferece-nos o
meio de resgatarmos os nossos erros por meio de novas
provas. A razão assim nos diz, e é o que os Espíritos
nos ensinam”. 1
Como vemos, a reencarnação, segundo Kardec, se
justifica, pois “é a única que corresponde à idéia da
justiça de Deus...” E afirma ele: “é o que os Espíritos
nos ensinam”. Entretanto, vejamos uma situação em que
esta suposta justiça de Deus não pode ser consumada.
A reencarnação de pessoas e animais
Preliminarmente, apontamos que os kardecistas não
admitem o retrocesso dos espíritos ao corpo de animal.
Diz kardec: “A pluralidade das existências, segundo o
espiritismo, difere essencialmente da metempsicose, pois
não admite aquele a encarnação da alma humana nos corpos
dos animais, mesmo como castigo. Os Espíritos ensinam
que a alma não retrograde, mas progride sempre”.2
Os animais não estão distantes dos homens no campo da
inteligência. Segundo o espiritismo, é até uma ofensa
chamar um animal de burro, porque o animal tira seu
“princípio inteligente” do mesmo “elemento inteligente
universal”. É o que ensina Allan Kardec. Ele pergunta e
os espíritos respondem:
Allan Kardec: “606. Donde tira os animais o princípio
inteligente que constitui a espécie particular de alma
de que são dotados?”.
Espíritos: “Do elemento inteligente universal”.3
Allan Kardec: “597. Tendo os animais uma inteligência
que lhes faculta certa liberdade de ação, haverá neles
algum princípio independente da matéria?”.
Espíritos: “Sim, e que sobrevive ao corpo”.4
Allan Kardec: “600. Sobrevindo a morte do corpo, a alma
do animal fica errante, como a do homem?”.
Espíritos: “Fica numa espécie de erraticidade, pois não
está unida a um corpo...”.5
Allan Kardec: “601. Os animais estão sujeitos, como o
homem, a uma lei progressiva?”.
Espíritos: “Sim, e daí vem que nos mundos superiores,
onde os homens são mais adiantados, os animais também o
são, dispondo de meios mais amplos de comunicação. São
sempre, porém, inferiores ao homem, e se lhe acham
submetidos, sendo para estes servidores inteligentes”.6
Allan Kardec: “603. Nos mundos superiores, os animais
conhecem a Deus?”.
Espíritos: “Não. Para os animais, o homem é um deus,
como outrora os Espíritos eram deuses para o homem”.7
Allan Kardec: “604. Mesmo aperfeiçoados nos mundos
superiores, desde que os animais são sempre inferiores
ao homem, segue-se que Deus teria criado seres
intelectuais perpetuamente votados à inferioridade. Isto
parece em desacordo com a unidade de vistas e de
progresso que se notam em todas as Suas obras?”.
Espíritos: “Tudo se encadeia na Natureza, por elos que
ainda estais longe de perceber; as coisas aparentemente
mais disparatadas têm pontos de contato que o homem não
pode compreender no seu estado atual”.8 (grifo do
autor).
Allan Kardec: “604-a. Assim, a inteligência é uma
propriedade comum, um ponto de contato entre a alma dos
animais e do homem?”.
Espíritos: “Sim. Mas os animais apenas têm a
inteligência da vida material. No homem a inteligência
produz a vida moral”.9
Diante do exposto, perguntamos: “Como fica, então, a
‘idéia da justiça de Deus’, reclamada pelos espíritas de
igualdade entre todos os seres criados por Deus, se ela
não se dá com respeito aos animais, que serão
perpetuamente destinados à inferioridade em relação aos
homens, sendo o homem para os animais um deus?”
Os espíritas não têm resposta que satisfaça a esta
indagação e só podem admitir que “as coisas
aparentemente mais disparatadas têm pontos de contato
que o homem não pode compreender no seu estado atual”.
O ensino dos espíritos
O codificador do espiritismo ressalta que a doutrina da
reencarnação, o ensino mais importante e atraente dos
espíritas, é resultado do ensino dos espíritos por ele
recebido e exposto no Livro dos Espíritos, considerado
“a Bíblia” dos espíritas. São 1.016 perguntas formuladas
por Allan Kardec com respostas supostamente dadas pelos
espíritos. Assim, o ensino da reencarnação, segundo
Kardec, foi dado pelos espíritos.
Escreve Kardec: “Não somente por que ela nos veio dos
Espíritos, mas porque nos parece a mais lógica e a única
que resolve as questões até então insolúveis. Que ela
nos viesse de um simples mortal, a adotaríamos da mesma
maneira, não hesitando em renunciar as nossas próprias
idéias. Do mesmo modo, nós a teríamos repelido, embora
viesse dos Espíritos se nos parecesse contrária à razão,
como repelimos tantas outras”.10
O caráter essencial da doutrina espírita
Allan Kardec estabelece, como se pode identificar, uma
doutrina dada pelos espíritos. Diz ele: “O caráter
essencial desta doutrina, a condição de sua existência,
está na generalidade e concordância do ensino; donde
resulta que todo princípio que não recebeu a consagração
do assentimento da generalidade não pode ser considerado
parte integrante desta mesma doutrina, mas simples
opinião isolada, cuja responsabilidade o espiritismo não
assume”11 (grifo do autor).
Mas o grande problema para os espíritas, confessado por
Allan Kardec, é que não se pode identificar o ensino
unânime dos espíritos sobre a reencarnação. Diz ele:
“Seria o caso, talvez, de examinar-se porque todos os
Espíritos não parecem de acordo sobre este ponto”.12 E
mais: “De todas as contradições que se observam nas
comunicações dos Espíritos, uma das mais chocantes é
aquela relativa à reencarnação, como se explica que nem
todos os Espíritos a ensinam?” 3 (grifo do autor).
Espíritas versus Espíritas
Notável é que não exista identidade doutrinária entre os
espíritas anglo-saxões (os de fala inglesa,
principalmente) e os espíritas de origem latina (línguas
francesa, portuguesa, espanhola etc.). Enquanto os
espíritas de origem latina admitem a doutrina
reencarnacionista, o mesmo não acontece com os de origem
inglesa, que negam peremptoriamente esta doutrina. Dizem
que, na verdade, a doutrina da reencarnação ensinada por
Allan Kardec no Livro dos Espíritos não é dos espíritos,
mas do próprio Allan Kardec.
Em verdade, não há dúvidas a respeito desta invenção,
pois o próprio Allan Kardec foi muito claro ao declarar
que a doutrina da reencarnação seria descartada se não
pudesse aceitá-la racionalmente: “Que ela nos viesse de
um simples mortal, e a adotaríamos da mesma maneira, não
hesitando em renunciar as nossas próprias idéias. Do
mesmo modo, nós a teríamos repelido, embora viesse dos
Espíritos se nos parecesse contrária à razão, como
repelimos tantas outras”.
Isso mostra que a mais divulgada e atraente doutrina
espírita realmente não é ensino dos espíritos, mas
ensino do seu codificador, uma vez que há explícita
falta de generalidade e concordância por parte dos
espíritos.
Cai por terra, então, a doutrina mais importante do
espiritismo pelas seguintes razões:
1. A alegada justiça de Deus não existe entre todas as
criaturas, homens e animais, pois sempre persiste a
diferença entre as duas criações, sendo o homem um deus
para os animais.
2. A reencarnação, na verdade, não é de origem dos
espíritos, mas do próprio Allan Kardec.
Redenção pelo sangue de Cristo
Os espíritas se revoltam quando ouvem falar da redenção
por meio de Cristo mediante sua morte na cruz.
Repelem-na ostensivamente. O substituto de Allan Kardec
na hierarquia espírita, Leon Denis, se pronuncia
acintosamente sobre o ensino bíblico da nossa redenção
por Cristo nas seguintes palavras: “Não, a missão de
Cristo não era resgatar com o seu sangue os crimes da
humanidade. O sangue, mesmo de um Deus, não seria capaz
de resgatar ninguém. Cada qual deve resgatar-se a si
mesmo, resgatar-se da ignorância e do mal. É o que os
espíritos, aos milhares, afirmam em todos os pontos do
mundo”.14
Tal declaração blasfema não invalida o ensino bíblico da
nossa redenção por Cristo mediante sua morte na cruz.
Tenhamos presentes as palavras de Paulo sobre a
falibilidade humana ante a verdade de Deus exarada na
Bíblia:
“Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua
incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus? De
maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o
homem mentiroso; como está escrito: Para que sejas
justificado em tuas palavras, e venças quando fores
julgado” (Rm 3.3,4; grifo do autor).
A Bíblia apresenta os seguintes pontos sobre a nossa
redenção por Cristo, contrariando a posição doutrinária
espírita:
1. O evangelho verdadeiro foi resumido por Paulo nos
seguintes fatos: “Porque primeiramente vos entreguei o
que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados,
segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que
ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co
15.3,4).
Estas palavras de Paulo são a repetição da profecia de
Isaías com relação à obra redentora de Jesus:
“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas
enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o
reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas
ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e
moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que
nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras
fomos sarados” (Is 53.4,5). Está é a mensagem central
cristã.
2. Nossa redenção por Cristo é a medula do evangelho:
“Bem como o Filho do homem não veio para ser servido,
mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de
muitos” (Mt 20.28).
3. O texto de João 3.16 é considerado a Bíblia em
miniatura: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que
deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele
crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.
4. Negar a redenção por Cristo é estar sob inspiração
satânica: “Desde então começou Jesus a mostrar aos seus
discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas
coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e
dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro
dia. E Pedro, tomando-o de parte, começou a
repreendê-lo, dizendo: Senhor, tem compaixão de ti; de
modo nenhum te acontecerá isso. Ele, porém, voltando-se,
disse a Pedro: Para trás de mim, Satanás, que me serves
de escândalo; porque não compreendes as coisas que são
de Deus, mas só as que são dos homens” (Mt 16.21-23).
Seria bom que os espíritas se mostrassem mais humildes e
deixassem os ensinos errôneos que seguem (1Tm 4.1) para
aceitar o ensino bíblico da nossa redenção por Cristo.
Se Cristo pagou nossa redenção na cruz, por que a
insistência dos espíritas em querer comprar sua redenção
mediante boas obras por meio de sucessivas
reencarnações? Na cruz, Jesus bradou: “Tudo está
consumado!” (Jo 19.30).
O apóstolo Paulo foi enfático neste particular, dizendo:
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto
não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para
que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados
em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus
preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10).
Notas:
1 O livro dos espíritos. Allan Kardec – Obras Completas.
Opus Editora Ltda, p.84, 2ª ed., 1985.
2 O que é o espiritismo. Allan Kardec – Obras Completas.
Opus Editora Ltda, p.300, 2ª ed., 1985.
3 Ibid., p. 167.
4 Ibid., p. 166.
5 Ibid.
6 Ibid.
7 Ibid.
8 Ibid.
9 Ibid.
10 Ibid., p. 97.
11 A gênese. Allan Kardec – Obras Completas. Opus
Editora Ltda, p.903, 2ª ed., 1985.
12 O livro dos espíritos. Allan Kardec – Obras
Completas. Opus Editora Ltda, p.94, 2ª ed., 1985.
13 O livro dos médiuns. Allan Kardec – Obras Completas.
Opus Editora Ltda, p.496, 2ª ed., 1985.
14 Cristianismo e espiritismo, p. 85, 7ª ed.
|
|
|
|
|
Receba nossas notícias e ofertas por e-mail
|
|