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Logosofia -
Uma nova roupagem para um antigo engano
Por Eguinaldo Hélio de Souza
“E quando aos olhos de todos pareceria que a caravana da
decadência não mais haveria de deter-se, pondo em risco
a sobrevivência da espécie, surge das entranhas da
América uma nova geração de conceitos e valores, desta
vez de cunho transcendente, patrocinados por uma
superior concepção do homem e da vida, da psicologia
humana e do espírito, da redenção e do humanismo, da
evolução e das Leis Eternas, do Universo e de Deus [...]
Era o dia 11 de agosto de 1930. Inaugurava-se, na
história da educação da humanidade, a Era da Evolução
Consciente, tendo como suporte doutrinário e pedagógico
a Logosofia, a Ciência da Sabedoria, a Ciência da
Vida”.1
Como todo movimento religioso de origem recente, a
logosofia se auto-intitula “ciência”, “conhecimento”, no
intuito de obter respeito automático por parte do mundo
ocidental. Como todas as religiões, considera-se o único
meio de redenção da humanidade, rotulando todas as
outras, inclusive o próprio cristianismo, como sistemas
religiosos preconceituosos que impedem a evolução do
homem.
Nossa meta, nesta curta matéria, será apenas situar o
leitor em relação ao que apregoa a logosofia, portanto,
não nos ateremos numa refutação exagerada, mesmo porque
este movimento não requer isso, pois seus desvios são
facilmente identificados por aqueles que conhecem os
fundamentos da Palavra do Senhor. Queremos apenas
cumprir nosso papel como instituto de pesquisas
religiosas, fornecendo aos leitores o que julgamos ser o
suficiente para se avaliar e entender a logosofia.
O que é a logosofia?
“Seu nome reúne em um só vocábulo as raízes gregas
‘logos’ e ‘sofos’, que o autor adotou, dando-lhes a
significação de verbo criador e ciência original, para
designar uma nova linha de conhecimentos, uma doutrina,
um método e uma técnica que lhe são eminentemente
próprios”.2
Podemos descrevê-la como uma mistura de religião,
filosofia, psicologia e esoterismo, ensinados com um
rótulo de “Verdade” com letra maiúscula, ou seja, como
sendo “A Verdade” por excelência, que veio para
substituir todas as religiões e filosofias. O fundador,
idealizador e único autor (por enquanto) foi o argentino
Carlos Bernardo González Pecotche.
Carlos Bernardo González Pecotche — também conhecido
como RAUMSOL — nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 11
de agosto de 1901. Baseado, segundo ele diz, na
hierarquia e herança de seu próprio espírito, reagiu
muito cedo contra a rotina dos conhecimentos correntes e
sistemas usados para a formação do ser humano. Em 1930,
instituiu a Fundação Logosófica com o objetivo de
difundir “a nova ciência” que havia criado, hoje
expandida a vários países por meio de centros culturais,
onde se estuda e pratica esta nova linha de
conhecimentos transcendentes.
No Brasil, existem centros logosóficos em Belo
Horizonte, Brasília, São Paulo, Chapecó, Curitiba,
Florianópolis, Goiânia, Rio de Janeiro e Uberlândia,
além de inúmeras sedes culturais localizadas aqui e no
exterior. Além disso, existe uma escola de orientação
logosófica localizada no Rio de Janeiro (RJ), o Colégio
Logosófico González Pecotche, que já conta com cerca de
250 alunos, desde a Educação Infantil até o Estudo
Fundamental. Os métodos de ensino são orientados
conforme os conceitos logosóficos e todos os professores
são praticantes da logosofia. A escola foi assunto de
matéria na revista Nova Escola (junho de 2003).
A nova teoria da evolução
“O caminho logosófico é tão longo quanto a eternidade,
porque é o caminho determinado pela lei da evolução, que
impera sobre todos os processos que se elaboram dentro
da criação”.3
Esta é a idéia central da logosofia. Mas, ao contrário
do que ela proclama, não se trata de um pensamento
exclusivo seu. Esta filosofia é a base de todo o ensino
da Nova Era. Poderíamos chamá-la de “darwinismo
espiritual”. É a idéia corrente de que a atual fase da
existência humana é apenas um estágio do processo de
evolução, como o foi a fase de símio4. O homem está
destinado a ser algo mais do que ele é agora. Difere da
evolução espiritual pregada pelo kardecismo, pois não
ocorreria com espíritos desencarnados, mas com a
humanidade como um todo. E a logosofia e todas as
doutrinas esotéricas modernas colocam-se como
instrumentos desta evolução.
Vamos encontrar a raiz deste pensamento no filósofo
alemão Friederich Nietzsche. “Também, além apanhei no
meu caminho a palavra ‘super-homem’ e esta doutrina: o
homem é uma coisa que precisa ser superada”, disse
Zaratustra, personagem fictício do filósofo Friederich
Nietzsche.5 Neste mesmo livro ele desenvolveu outro
conceito: o da morte de Deus: “Zaratustra, porém, ao
ficar sozinho falou assim ao seu coração: ‘Será possível
que este santo ancião ainda não ouviu no seu bosque que
Deus já morreu?”.6
Nietzsche nasceu em 15 de outubro em 1844, no pequeno
vilarejo de Röcken, na Alemanha. Ele era neto e filho de
pastores protestantes e, em sua infância, ficou
conhecido como “o pequeno pastor”, pelo fato de ler a
Bíblia com tal paixão que fazia chorar seus ouvintes.
Mas, aos dezoito anos, perdeu a fé no Deus de seus pais
e passou o resto da vida procurando uma nova divindade;
pensou tê-la encontrado no super-homem.7 É difícil
estabelecer o que ele queria dizer com o seu
super-homem, ou como alcançá-lo, mesmo porque Nietzsche
enlouqueceu e permaneceu por dez anos neste estado de
demência. Mas suas concepções influenciaram todo o
movimento esotérico moderno, no sentido de defender um
tipo de “evolução espiritual” que levará o homem a se
superar.
Neste aspecto, a logosofia não se distingue das demais
religiões esotéricas surgidas no século XX, exceto pelo
fato de que usa termos únicos e proclama ser o exclusivo
caminho válido da redenção humana. De uma forma
simplificada, é a substituição da crença e da devoção
por um Deus transcendente, por uma fé no próprio homem,
como deificador de si mesmo. É a aceitação do fato de um
Deus morto de Zaratustra e uma confiança no seu
super-homem. Mas “Todo homem, por mais firme que esteja,
é pura vaidade” (Sl 39.5).
Logosofia versus evangelho
A superioridade ou originalidade da logosofia não existe
em lugar algum, a não ser na mente de seu fundador e de
seus adeptos. Seus conceitos sobre Deus, pecado,
salvação, além de baterem de frente com os ensinos das
Escrituras, em nada diferem dos conceitos professados
por outras religiões. Não passam de mais uma tentativa
do homem de auto-salvação, com um conceito vago de Deus
e uma negação de Cristo. Vejamos sucintamente cada um
deles:
Salvação
“Para que a própria redenção seja um fato, é essencial
começar por não cometer mais faltas: não acumular mais
culpas ou dívidas. Este é o primeiro passo; mas surgirá
a pergunta: Que fazer com o já consumado? Cada falta tem
seu volume e suas conseqüências inevitáveis. Não
percamos tempo em lamentações nem sejamos ingênuos
crendo que existem meios fáceis de saldá-las. As leis
não se infringem impunemente: nem cometendo faltas, nem
pretendendo livrar-se delas. Mas o homem pode, sim,
redimir gradualmente suas culpas mediante o bem que
representa para si a realização rigorosa de um processo
que o aperfeiçoe. Se esse bem é estendido aos
semelhantes — quanto mais, melhor —, assegurar-se-á a
descarga da dívida. Entretanto, isto será sob condição
de não incorrer em novas faltas, pois se cairia no mesmo
erro dos que pretendem depurar suas almas nas cômodas
posturas da superficialidade religiosa”.8 (grifo do
autor)
Em outras palavras, o homem efetua sua própria redenção.
Nada mais velho na história das religiões, nada mais de
acordo com “os rudimentos do mundo” do que isto. É
difícil para o homem, em seu orgulho, aceitar uma
salvação que lhe seja dada gratuitamente por Deus, que
não dependa do esforço humano. Já dizia Davi no Salmo
49.7,8: “Ninguém pode remir o seu irmão, ou dar a Deus o
resgate por ele (pois a redenção de sua alma é
caríssima, e seus recursos se esgotariam antes)” (ARC).
Embora possam variar os meios em que se baseiam, a
auto-salvação é característica que veste o corpo
doutrinário da maioria das seitas.
O meio de salvação da logosofia é descrito de um modo um
tanto confuso. González Pecotche o descreve como “o bem
que representa para si a realização rigorosa de um
processo que o aperfeiçoe”. E a logosofia ainda vai mais
longe, dizendo que a “descarga da dívida” será maior se
este bem for estendido a outros semelhantes. Este
conceito é infinitamente inferior à salvação pela graça
oferecida por Deus em sua Palavra. Buscamos sim um
aperfeiçoamento mediante a ação do Espírito Santo em
nossas vidas e almejamos pregar o evangelho a toda
criatura. Tudo isso, no entanto, não como meio de
alcançar a salvação, mas como um resultado por já
possuí-la.
Esta é a salvação de Deus: “Porque pela graça sois
salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de
Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Ef
2.8,9). Somente o evangelho é “o poder de Deus para a
salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16), somente ele
proclama que o “dom gratuito de Deus” é a vida eterna (Rm
6.23). Por mais complexas e desenvolvidas que sejam as
religiões antigas e novas, e por mais simples que seja a
mensagem do evangelho, eles não conseguem absorver este
conceito.
Pecado
“... é essencial começar por não cometer mais faltas:
não acumular mais culpas ou dívidas [...] Entretanto,
isto será sob condição de não incorrer em novas
faltas...”8
Não errar mais, não cometer novos pecados. É esta a
proposta da logosofia. Será isto possível ao homem? Esta
atitude simplista assumida por seu criador está muito
longe da sensata visão bíblica a respeito da condição
humana.
Embora nenhum livro exorte o homem à perfeição e à
santidade tanto quanto a Escritura, ela, no entanto, não
deixa de admitir, já no Antigo Testamento, pelos lábios
do sábio rei Salomão, que “não há homem que não peque”
(1Rs 8.46). A logosofia coloca como condição de perdão
para o homem “o não pecar mais”, “o não errar”, algo que
não passa de uma ilusão. Entretanto, a Palavra de Deus
tem um posicionamento sobre perdão que, sem ocultar a
culpabilidade do homem, revela o único meio possível de
remissão — a confissão e a purificação por meio da morte
redentora de Cristo. “Se dissermos que não temos pecado,
enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Se
confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para
nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a
injustiça. Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo
mentiroso, e a sua palavra não está em nós. Meus
filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não
pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com
o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação
pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas
também pelos de todo o mundo” (1Jo 1.8 — 2.2).
Sem negar a necessidade de perfeição, a mensagem
realista do evangelho não deixa de reconhecer a
pecaminosidade humana e de indicar o remédio contínuo
para tal.
Deus
“Proclama a existência de um Deus Universal, que une os
homens em uma só e única religião: a religião do
conhecimento; meio pelo qual se pode chegar a Ele,
compreendê-lo, senti-lo e amá-lo, o que jamais se fará
pela ignorância [...]. Esta finalidade se alcança
enriquecendo a consciência por meio do conhecimento
transcendente, pois só assim o homem pode compreender
qual é a sua missão e como está constituído seu ser
imaterial, seu próprio espírito, agente que responde ao
influxo da eterna Consciência Universal e leva consigo,
através dos tempos, o signo cósmico da existência
individual”.9 (grifo do autor)
Novamente, nada mais faz a logosofia do que retornar ao
conhecimento ou “gnose” (conhecimento em grego) como
meio de se conhecer o Deus verdadeiro. Desde os
primórdios do cristianismo, surgiram homens alegando que
este conhecimento especial, capaz de ser manifestado
apenas em alguns poucos, era o caminho que levava o
homem a Deus. Não há nada de novo nesta idéia, que tem
suas raízes no gnosticismo dos primeiros séculos da era
Cristã.
Mas, ao rejeitar o cristianismo, a logosofia rejeita a
fonte do verdadeiro conhecimento de Deus: “Errais por
não conhecer as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt
22.29). Sem Jesus não há verdadeiro conhecimento de
Deus, não há vida eterna, não há salvação: “E a vida
eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus
verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo
17.3).
Mediação
“A logosofia tem expressado reiteradamente que não há
outro intermediário entre Deus e o homem além de seu
próprio espírito, com quem deve vincular-se e a quem
deve oferecer a direção de sua vida”.1 0 (grifo do
autor)
“Porque há um só Deus, e um só mediador entre Deus e os
homens, Jesus Cristo homem” (1Tm 2.5).
“Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao
Pai, senão por mim” (Jo 14.6).
A logosofia é uma rejeição soberba aos caminhos de Deus.
“Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus, e
procurando estabelecer a sua própria justiça, não se
sujeitaram à justiça de Deus” (Rm 10.3).
Mais uma vez o esforço humano, a auto-salvação,
manifesta-se em rejeitar a mediação de Cristo para a
salvação da humanidade.
Expansão logosófica
Esta doutrina já chegou até mesmo na Europa, tendo em
Barcelona, na Espanha, seu centro divulgador. Tem estado
presente com seu stand em diversas feiras de livros por
todo o Brasil e, embora não tenha um peso numérico (em
Belo Horizonte há apenas setecentos adeptos e menos de
quinhentos na cidade de São Paulo), conta com muitos
militantes da área acadêmica. Isto era de se esperar,
devido à complexidade de seu ensino.
Mas a logosofia não passa de apenas mais uma entre as
inúmeras correntes místico-esotéricas com conceitos
estranhos que se expandem por todo o ocidente. Os
conceitos judaico-cristãos que por dois milênios
cimentaram a cultura ocidental estão agora sendo minados
em suas raízes por um espiritualismo humanista que serve
de carona para toda sorte de doutrinas contrárias à
Palavra de Deus. Espiritualidade não é sinônimo de
comunhão com Deus. Fora do Filho não há vida espiritual:
“Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de
Deus não tem a vida” (1Jo 5.12).
Referências:
1 Jornal Logosofia no Brasil, Ano VIII, nº 21.
2 www.logosofia.org.br
3 Revista de Logosofia, Ano 5, nº 6.
4 Relativo aos símios: macacos. Designação geral dos
supostos primatas atuais da subordem do antropóides.
5 Assim Falou Zaratustra, p. 154.
6 Ibid., p. 29.
7 História da filosofia, Will Durante.
8 www.logosofia.org.br
9 www.logosofia.org.br
10 www.logosofia.org.br
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