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Matéria
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MATRIX - O
Budismo Virtual de Hollywood
Por Edno Luiz de Melo
Neo, Trinity, Oráculo, Morpheus, agente Smith e os
Gêmeos. Esses personagens parecem ter saltado do
universo fictício da superprodução do filme Matrix para
a nossa realidade. Eles estão em toda parte. Ocupam as
principais manchetes. Encontram-se estampados em
camisetas, bonés, outdoors, adesivos. Estão na Internet
e em diversos games. Conquistaram espaço na cenografia
da vida pós-moderna. A onda atual da indústria
cinematográfica se transformou na própria cultura
comandada por algo chamado inteligência artificial que
dita moda, valores e padrão de vida e está consumindo e
rendendo milhões de dólares ao capital hollywoodiano. A
adesão a essa grande produção cinematográfica é
impressionante.
A trilogia1 Matrix dos irmãos Larry e Andy Wachowski,
iniciada em 1999, mistura inteligência artificial,
filosofia, ciência futurista, artes marciais e
zen-budismo. O primeiro filme da série ganhou quatro
Oscars e foi o primeiro DVD a vender um milhão de
cópias. Rendeu à Warner a arrecadação recorde de 458
milhões de dólares (a maior arrecadação da Warner até
aqui). Calcula-se que os outros dois filmes da seqüência
(Reloaded e Revolutions) tenham consumido um orçamento
de trezentos milhões de dólares, cem milhões só em
efeitos especiais. O segundo filme ainda em cartaz nos
cinemas, já foi assistido por mais de quatro milhões de
pessoas no mundo inteiro. Só no Brasil já são quase um
milhão de telespectadores.
Simultaneamente, também foram lançados o desenho animado
japonês Animatrix (em DVD e VHS), com nove episódios, e
o game Enter the Matrix, que requer no mínimo 26 horas
de jogo para se chegar ao final. Trata-se de uma espécie
de interatividade progressiva que conta com sons e
imagens tirados diretamente do set2 de filmagem.
O que é Matrix?
A exemplo de outros grandes clássicos da ficção
científica, como: 2001 — Uma odisséia no espaço3, Guerra
nas estrelas4, Blade Runner — O caçador de andróides5,
Exterminador do futuro6, Vingador do futuro7 e O senhor
dos anéis8 a trilogia Matrix também abre diversas
discussões filosóficas e religiosas. O filme trata de um
futuro em que as máquinas se tornaram auto-suficientes e
venceram os homens numa grande batalha mundial. Exceto
um grupo de pessoas que escaparam e vivem miseravelmente
numa cidade subterrânea, a humanidade toda é mantida
cativa em uma espécie de “prisão mental” que simula a
realidade, denominada Matrix.
O filme começa a se desenrolar de fato quando o hacker9
Neo (personagem do ator Keanu Reeves), ajudado por
Morpheus (papel interpretado pelo ator Laurence
Fischburne), líder da rebelião que luta contra o domínio
das máquinas, descobre que está vivendo num mundo de
sonho, numa realidade virtual (ou seja, num software).
De posse da verdade de que tudo não passa de uma ilusão,
ele começa a lutar para escapar do “sistema”.
Para Morpheus, Neo é uma espécie de Bodhisattva (Buda —
o iluminado), um messias que se desperta para salvar a
humanidade.
Com uma técnica avançadíssima de captura de imagem que
transporta cenas do mundo real ao ambiente virtual,
colocando-a à disposição das instruções dos diretores, e
com doses pesadas de efeitos especiais e alta tecnologia
digital (Cerca de 95% das cenas do filme são
digitalizadas), Matrix vem sendo considerado a grande
inovação em termos de cinema da atualidade.
A era da cibercultura preocupa
Outro aspecto relevante ao analisarmos este assunto é o
modo como a interatividade10 avançou velozmente nestes
últimos anos com a chegada da cibercultura11. A produção
de Matrix dos irmãos Larry e Andy Wachowski investiu
pesado nestes recursos para dar o máximo de realismo às
cenas virtuais. Pierre Lévy, especialista em
cibercultura, mostra que o curso desta interatividade
visa a nossa imersão total, por meio dos cinco sentidos,
em “mundos” virtuais cada vez mais realistas, também
conhecidos como “universos paralelos”. Por esse
processo, o telespectador é convidado a passar para o
outro lado da tela e a interagir de forma
sensório-motora com seus ídolos-atores, provocando uma
espécie de osmose, fenômeno físico/químico produzido
quando o solvente de uma solução consegue passar para
uma membrana impermeável.
A psicóloga clínica Marlene Mayhew constatou sobre essa
cultura cibernética que só nos Estados Unidos já são
onze milhões de adolescentes on-line vivendo boa parte
do seu dia num cenário virtual como salas de bate-papo,
jogos etc. Trata-se de um ambiente que a grande maioria
das pessoas de uma geração anterior desconhece. A
psicóloga pergunta: “Não é sintomático que o computador
seja instalado justamente em seus quartos?”. O resultado
disso são crianças cada vez mais alienadas do mundo
real, com sérios problemas de relacionamentos.
De fato, após quase duas horas sentado em frente à tela,
o telespectador mistura sua realidade com a de Matrix, e
questiona se a sua vida não é realmente um jogo, se não
está sendo ingenuamente controlado por alguma “mente”
superior. É exatamente neste ponto que é semeada a
mensagem budista do samsara, que ensina que nada é real
e que tudo que vivemos não passa de um sonho projetado
pela nossa mente dominado por nossos desejos naturais.
Assim, Matrix pode ser visto como uma espécie de novo
porta-voz do budismo digitalizado de Hollywood, por meio
do qual a maioria dos seus astros professa filosofias
orientais.
Síntese histórica e a ação missionária budista
A origem do budismo é descrita por diversas tradições e
lendas. De acordo com o livro O Sentido da Vida, Dalai
Lama12, Sidarta Gautama, o Buda, “nasceu, ao que parece,
numa família real indiana por volta de 560 a.C., em
Kapilavastu, na parte noroeste da Índia, no atual Nepal.
Seu pai era o rajá (governador) de um pequeno
principado. Abandonou a vida principesca e partiu em
retiro em 524 a.C., tornando-se iluminado, segundo se
crê, em 518 a.C. Morreu em 483 a.C.”. A tradição budista
admite que, além de Sidarta Gautama, outros Budas tenham
vivido sem se darem a conhecer. Todo aquele que busca a
iluminação e depois de consegui-la dedica-se em salvar o
próximo torna-se Bodhisattva (Buda).
As duas ramificações principais do budismo são:
Therevada e Mahayana. A primeira escola, mais restrita à
Índia, afirma que a iluminação está disponível a alguns
dedicados discípulos. A segunda escola, que se tornou
popular em todo o mundo (especialmente na China e no
Japão), é mais liberal e, por isso, mais atrativa para
as outras culturas. Ela franqueia a salvação a todos
aqueles que se aproximam.
Sidarta Gautama não deixou nenhum registro escrito de
seus ensinos. Eles foram transmitidos por tradição oral.
Somente no século 1 a.C., na Ilha do Ceilão, é que foram
redigidas as primeiras escrituras budistas. Atualmente,
o budismo possui três grupos de livros sagrados
principais: o Tripitaka, organizados em três cestos: a
autodisciplina, o sermão de Buda e doutrinas. Para os
budistas, Jesus foi um Mestre budista vindo do Tibete e
da Índia, um iluminado, a mesma versão divulgada pela
Nova Era13.
Ora, se consideram Jesus um iluminado, por que não
aceitam e seguem a sua doutrina?
Mas não. Ensinam e apregoam seus próprios ensinos sob a
ótica budista que chamam de “os oito nobres caminhos”:
crença correta, sentimentos corretos, fala correta,
conduta correta, modo de vida correto, esforço correto,
memória correta, meditação correta e concentração
correta.
Hoje, o budismo vive sua terceira onda de crescimento.
Em todo o mundo há tantos budistas quanto protestantes,
algo em torno de quinhentos milhões de pessoas. Isso sem
considerar suas variações e seitas surgidas a partir dos
conceitos de Buda, tais como: Nova Era, Jodo, Jodo Shin,
Nichiren, Shingon, Tendai, Zen, entre outras.
Só no Brasil são mais de trezentos mil budistas, quase
3% da população, superando o judaísmo e o islamismo,
entre outras novas religiões orientais. Em Três Coroas
(RS) foi construído o maior monastério budista da
América Latina. Não é por menos que o maior missionário
do budismo moderno, Dalai Lama, com seu livro A arte da
felicidade, figura nas listas dos dez mais vendidos, há
três anos, mais ou menos. Dalai Lama já visitou o Brasil
duas vezes e reuniu, em suas palestras, mais de
quinhentas mil pessoas.
A conspiração silenciosa
Como visto, nosso propósito aqui não é discutir o cinema
como entretenimento, se o cristão deve ou não
freqüentá-lo, se deve ou não assistir a um filme. O que
nos preocupa é o seguinte: muitas produções
cinematográficas trazem doutrinas heréticas e
ocultistas, disseminado-as silenciosamente, como, por
exemplo, a série Harry Potter, abordada em duas edições
de Defesa da Fé. Infelizmente, muitos cristãos ainda não
possuem discernimento bíblico para agir conforme
recomenda a Palavra de Deus: “Mas o mantimento sólido é
para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os
sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o
mal”(Hb 5.14).
O renomado apologista cristão Norman Geisler comenta que
a conhecida série Guerra nas estrelas está impregnada de
uma latente e perniciosa visão cósmica, gnóstica e
oriental. Na biografia de George Lucas, produtor da
obra, consta que o seu conceito sobre a “Força” foi
fortemente influenciado pela obra Tales of Power, de
Carlos Castaneda, e pelo índio e adivinho mexicano Don
Juan, que usa este conceito “força da vida”.
Um exemplo claro de como cinema e religião eventualmente
se unem, e que idéias lançadas por certos filmes podem
formar grupos heréticos, é o caso da “Religião da Força”
ou “Religião de Jedi”, como se autodenominam os adeptos
da seita que se organizou na Austrália a partir da febre
Star Wars. Segundo um censo do governo, 0,37% da
população do país (ou seja, setenta mil pessoas)
declarou que segue os “cavaleiros de Jedi”.
Já com Matrix, os irmãos Wachowski disseram, em recente
entrevista, ser simpatizantes do budismo e quiseram
colocar elementos da doutrina na trilogia. Apesar de
explorarem símbolos e nomenclaturas cristãs: Trinity
(Trindade), Neo (Messias), Zion (Sião), Apoc
(Apocalipse), Nabucodonosor (nave pilotada pelos
rebeldes) e mitologia grega: Morpheus (deus grego do
sonho), os produtores usaram especialmente o budismo
como pano de fundo para a concepção desse projeto.
As artes marciais chinesas, coreanas e japonesas,
bastante exploradas na trilogia, têm forte influência do
zen-budismo — inclusive a primeira delas teve como
fundador o mesmo homem que fundou o zen-budismo na
China, Bodhidharma. Não surpreende, então, que as
respectivas práticas partam do mesmo princípio de
integração corpo-mente. É exatamente isso que propõe o
filme: a única coisa que coexiste entre o real e o
virtual é a mente. Os diálogos apresentam conceitos
semelhantes aos encontrados na biografia de Hui-Neng (Enô),
o Sexto Patriarca Zen da China (638-713). Exemplo: Neo
(no primeiro filme) encontra uma criança com trajes de
monge budista que entorta uma colher com a mente. “Não é
a colher que entorta”, diz a criança, “mas você”.
Esta colocação assemelha-se àquela feita por Hui-Neng a
um monge budista: “Não é o vento que move a bandeira, é
a mente de vocês”. Há, ainda, trechos semelhantes à
biografia do próprio Siddharta Gautama, o Buda. Nela,
Shunryu Suzuki ensina que na Mente Zen há diferença
entre conhecer e trilhar o caminho, e que nossa vida e
nossa mente são a mesma coisa. Esta crença está
alicerçada no panteísmo, que ensina que Deus se acha
difundido em todas as coisas e que somos parte dele. Já
o cristianismo define esta relação apontando para a
distinção existente entre o Criador e a criatura. Ora,
assim como um pintor não é a pintura, e não morre se ela
for destruída, Deus também está além da obra da criação.
A doutrina do samsara
O samsara consiste no círculo de nascimento, sofrimento,
morte e renascimentos sucessivos (reencarnações) com o
fim de desenvolver a compreensão plena (do eu e do
mundo) denominada iluminação ou despertar de Buda até
atingir o nirvana. O caminho para a transcendência é,
por fim, alcançado com a busca pessoal pela iluminação.
No caso de Matrix (o filme), o personagem Neo persegue
esse caminho.
A idéia budista do samsara baseia-se em duas crenças
antibíblicas principais: o carma e a reencarnação. No
filme, a idéia de carma e reencarnação é expressa pelo
Oráculo, que diz a Neo que ele talvez descobrisse seu
dom na “próxima vida”. A Bíblia ensina a ressurreição, e
não a reencarnação, descartando a idéia do carma.
Analisemos os seguintes pontos:
1. Segundo a Bíblia, o tempo da vida terrena é
suficiente para que nos responsabilizemos por nossas
ações (Ec 9.4; Sl 90; Hb 4.7; Lc 23.42-43). Por que o
ladrão da cruz não precisou reencarnar para evoluir e
ser salvo? Pense: Se houvesse reencarnação, para que
existiria a necessidade do perdão? O perdão tira a
condenação do pecado (1Jo 1.7,9; Rm 8.1; Lc 23.39-44).
Por que deveríamos pagar com o sofrimento num mundo
ilusório aquilo que já foi perdoado? (Mq 7.18-20, Hb
10.1). Se Deus, quando nos arrependemos, se esquece dos
nossos pecados do passado, no mínimo seria tolice pagar
por eles em reencarnações sucessivas (Is 43.25).
2. Ao homem está ordenado morrer apenas uma vez, vindo
depois disto o juízo, e só há dois lugares após a morte
(Hb 9.27, Lc 16.19- 31; Jo 3.17, 18). Quem partiu não
retorna à vida (Ec 9.4-5; 2Sm 12.22-23). Qual é o
sentido da reencarnação se o “eu” responsável pelas
ações da vida anterior foi apagado com a morte? Como o
carma pode ser verdade se a pessoa não se lembra dos
erros da suposta vida passada? Isso comprova a
impossibilidade do próprio samsara ser um meio de pagar
pelos erros. Segundo a Bíblia, Jesus é o único que pode
nos libertar do pecado (Jo 8.24, 34-36). Acaso a dor que
sentimos, as doenças, os atropelamentos, o câncer, a
AIDS, são pura ilusão? Não seria um absurdo sustentar
tal crença budista e pagar por uma coisa sem ao menos
saber do que se trata ou apenas por uma projeção da
realidade? (Ec 11.9; At 10.42).
3. A Bíblia só fala em ressurreição (1Cor 15; Jo
11.25-26). Jesus ressuscitou em corpo glorificado (Lc
24.37-39). Analise a incoerência do budismo: ensina que
na reencarnação a pessoa perde a identidade da vida
anterior. É como se a vida passada simplesmente se
desintegrasse no tempo pela necessidade de assumir novas
personalidades. A pessoa, portanto, é engolida pelo
cosmo e acaba virando nada (nirvana). Isso não faz
sentido! Que propósito teria a vida, então? Ao
contrário, Deus nos ama e leva em conta a nossa
identidade. Você é um ser único. Na ressurreição, a
nossa identidade será mantida, ou para a vida eterna ou
para a perdição eterna (Dn 12.2-3).
Outro aspecto do conceito budista expresso no filme (que
tenta passar a idéia de que a nossa vida é uma grande
ilusão montada pelos nossos próprios desejos) afirma o
seguinte: você, eu e o universo formamos um todo
indivisível (isso é monismo — Deus é tudo e tudo é Um).
Ver a nós mesmos como uma parte separada do resto é a
fonte da ilusão do “eu”, e a mesma ilusão ocorre em
relação ao mundo em redor.
Para o budismo, aquilo que percebemos do mundo é apenas
uma fração dele. Nossa mente e nossos sentidos
condicionam e limitam nosso entendimento e nossa relação
com o mundo. Cypher, personagem do primeiro filme Matrix,
diz, ao comer um bife: Eu sei que este bife não existe.
A ignorância é uma bênção. Sejamos coerentes! Na
verdade, se o mundo é realmente ilusório, como
poderíamos distinguir entre fantasia e realidade, pelo
menos conceitualmente? Lao Tse expressa bem esta
pergunta: “Se quando estava dormindo eu era um homem
sonhando que era uma borboleta, como sei que quando
estou acordado não sou uma borboleta sonhando?”.
Podemos também concluir que o budismo é autodestrutivo.
Vejamos. Segundo um dos aspectos do que significa
samsara, tudo o que vivemos não é real. Então, tudo o
que o budismo prega (sua história, seus personagens,
inclusive o samsara) também não é real. Os budistas, ao
que parece, estão caindo no mesmo erro do ceticismo,
teoria filosófica contraditória que declara que: “Não se
pode ter certeza de nada absolutamente!”. Ora, então
como podem ter certeza de que a filosofia que pregam é
certa? O mesmo dilema vivido pelo cético, de ser
condenado por sua própria alegação, poderia, neste caso,
ser aplicado aos budistas.
Quão diferentemente vive e crê o cristão! Disse o
apóstolo Paulo: “Porquanto tem determinado um dia em que
com justiça há de julgar o mundo, por meio do homem que
destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o
dentre os mortos”(At 17.31; grifo do autor).
O nirvana, a salvação e a Bíblia
Somente atingindo o nirvana (céu budista), o homem fica
livre do samsara. O nirvana é a extinção do ser, uma
auto-extinção, quando toda idéia de personalidade
individual cessa. Imagine: assim como o caldo de galinha
se dissolve na sopa, assim também o ser humano, no
final, será diluído como tempero cósmico no nada (o
nirvana). “A salvação final, na concepção budista, está
relacionada à individualidade da pessoa, e não da
própria pessoa, como acreditam os cristãos”, diz Norman
Geisler. Esse conceito é uma grande desesperança quando
comparado com a fé cristã (Ef 1.4-5).
Há três estágios no filme Matrix que reforçam a idéia do
ciclo existencial até o nirvana. O primeiro é a vida de
Neo como Thomas Anderson. O segundo é o despertar de Neo
para a vida real no casulo de Matrix. E o último é a
“morte” de Neo nos dois mundos e seu ressurgimento como
alguém capaz de reprogramar Matrix.
Um ponto muito enfatizado no zen-budismo é que a
experiência pessoal é o único jeito de atingir a
iluminação, enfocado no filme por Morpheus, quando ele
diz a Neo: Você tem de ver por si mesmo. Eu não disse
que seria fácil, Neo. Esta observação está ligada a
Shnryu Suzuki (1905-1971). O aspecto fundamental do
caminho para o nirvana é a eliminação de todo pensamento
dualista. E a raiz de tal pensamento é a lógica. Nesse
caso, é necessário quebrar as cadeias da lógica e
abordar a vida a partir de um novo ponto de vista.
Para o cristão, o seu futuro não é uma condição de união
ou absorção final por alguma essência impessoal, mas uma
continuidade pessoal e consciente no céu com Cristo:
“Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também
esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20).
Devemos sempre nos lembrar de uma coisa: assim como o
céu, o inferno também é real! (2Pe 2.4, 9; Ap 20.10,
15).
Conclusivamente, o zen-budismo é a ramificação do
budismo difundida na trilogia de Matrix. Nela, a prática
do zen-budismo tem o propósito de alcançar o mesmo
nirvana. Segundo Norman Geisler, o zen-budismo é a forma
mais influente do budismo difundida atualmente. Suas
origens são encontradas em Tão-Sheng (360-434 d.C.), um
budista mahayana, e em Bodidarma (m. 534 d.C.).
Tão-Sheng migrou da China para o Japão, onde sua forma
de budismo foi mesclada com o taoísmo, que enfatiza a
união com a natureza (panteísmo). Essa mistura eclética
é conhecida por zen (meditação).
No zen-budismo, Deus é homem e o homem é Deus
(panteísmo). Além de o homem ser Deus, tudo é Deus e
Deus é tudo. Tudo e todos são Um (monismo). Budas
(pessoas iluminadas) e seres sensitivos surgem da mente
única, e não há outra realidade além desta mente. O que
existe de fato é a Mente, o resto é ilusão. Em seu
livro, O sentido da vida, Dalai Lama defende a crença de
que cada um de nós esteve ou está no estado de
existência cíclica cármica. Essa idéia fica clara no
filme por meio de uma rede de computadores que liga as
percepções das pessoas, aprisionando-as.
A crença em Deus como energia
Por terem heranças panteístas do hinduísmo, os budistas
refutam a idéia de um Deus pessoal. Deus é apenas uma
energia. Para C. S. Lewis, “trata-se de um credo não
tanto falso como desesperadamente atrasado no tempo.
Antes da criação teria sido verdade dizer que tudo era
Deus. Mas Deus criou: Ele fez as coisas serem outras
além dele mesmo a fim de que, sendo distintas, elas
pudessem aprender a amá-lo”. “Deus é a fonte de toda a
faculdade de raciocinar: não poderíamos estar certos e
ele errado, assim como a corrente da água não pode estar
acima da nascente; é como cortar o galho onde estamos
sentados” (Sl 113.5-6; Is 40.12-31).
A Bíblia enfatiza que Deus é antes de todas as coisas:
“E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas
subsistem por ele” (Cl 1.17; Sl 90.2), e que todas as
coisas foram criadas por ele (Gn 1.1; Is 42.5). O termo
criar designa que “há um abismo intransponível entre o
criador e a criatura, e que um estará sempre oposto ao
outro numa relação que jamais será alterada. Não existe
senso maior de distância do que o que há entre as
palavras Criador e criatura” (Jo 3.16; Rm 8.15; 1Jo 3.1;
Jo 1.12; 1Jo 4; Rm 5.8; Gn 1.26,27; Ef 1.4; 2Tm 1.9; Jo
4.24).
Budismo ou cristianismo?
Sidarta Gautama, o Buda, foi uma pessoa inconstante.
Confuso, deixou a esposa e os filhos e tornou-se um
mendigo. Após desiludir-se com o hinduísmo, Gautama foi
iluminado debaixo de um pepinal, enquanto meditava.
Segundo alguns biógrafos, sua primeira tentativa de
ensinar foi um fracasso total. O próprio Dalai Lama diz
que Buda “esteve no estado de existência cíclica” devido
ao carma. Como alguém assim pode guiar outras pessoas?
(Mt 15.14).
Quando uma pessoa busca uma religião, na verdade ela
está querendo preencher o vazio que existe em seu
coração. Está buscando uma direção para sua vida.
Essencialmente, ela quer segurança e felicidade. A busca
da felicidade é vista pelos estudiosos como a maior
aspiração humana. O próprio Dalai Lama, em seu livro A
arte da felicidade, concorda com isso. O que pressupõe
que a religião na qual ele se refugiou tenha lhe
oferecido tudo isso.
Vejamos então numa simples comparação doutrinária e
teológica entre o cristianismo e o budismo em qual
dessas duas religiões tais necessidades podem ser
alcançadas:
BUDISMO
Buda era filho de um rei humano
Buda precisou ser iluminado
Buda desencarnou para tornar-se um deus
Buda buscou a verdade
Buda viveu
Buda indicou o caminho
Buda cometeu erros
Buda está morto
O homem está só no universo
O destino final do homem deve ser o nada
Reencarnar para pagar pelos erros
O corpo é um mal, um empecilho
CRISTIANISMO
Jesus é o unigênito Filho de Deus (Mc 1.1)
Jesus é a Luz do mundo (Jo 8.12)
Jesus é o Deus verdadeiro (1Jo 5.20)
Jesus é a verdade (Jo 14.6)
Jesus é a Vida (Jo 1.4)
Jesus é o Caminho (Jo 14.6)
Jesus nunca pecou (1Pe 1.19)
Jesus ressuscitou e é eterno (1Co 15.1-8; Hb 7.24)
Deus chama os homens de filhos (Rm 8.15)
O destino final do homem deve ser o céu (Jo 6.39)
Arrependimento e perdão para ser salvo (2Pe 3.9)
Corpo como templo da glória de Deus (1Co 6.20)
Alerta! Estamos diante de uma sabotagem
Como dito anteriormente, o nosso propósito aqui não é
condenar as grandes produções cinematográficas. Antes,
apontar o que Deus pensa de certos conceitos que os
autores conscientes ou inconscientemente, tem
introduzido na cultura mundial. O próprio J. R. R.
Tolkien, de O senhor dos anéis, confirma que “o autor
não consegue evitar que a obra seja afetada por sua
própria experiência”. Alem disso, é preciso alertar que,
na pos-modernidade, os veículos culturais (TV, Internet,
cinema), de acordo do Israel Belo de Azevedo, configuram
a própria cultura que precisa ser confrontada com a
Bíblia (Tg 4.4; 1Jo 2.15; Rm 12.1-2).
Para J. R. Stott, “somos diferentes de tudo no mundo que
não é cristao e esta contracultura crista é a vida do
reino de Deus”. H.R. Niebuhr defende que a Bíblia
apresenta Cristo como o transformador da cultura. A
questão aqui é o budismo, misturado ao gnosticismo,
disseminado pela cultura cinematográfica. Entendemos
biblicamente que toda da cultura de um povo é em boa e
em parte ma. É assim porque a “queda” manchou toda a
humanidade (R3.23). Por isso devemos sempre julgar todas
as atitudes humanas e prová-las pelas Escrituras.
Somente pela atuação poderosa do Espírito Santo o homem
pode ser redimido e transformado para a gloria de Deus.
Na verdade, a falta de absolutos da cultura pos-moderna
transformou-a em solo fértil para a proliferação
daninha, informatizada e virtualizada de correntes
filosóficas orientais e culturais claramente heréticas,
o que tem cooperado, e muito, para o avanço da
apostasia, sobretudo por causa do pluralismo. A historia
fictícia de Frankenstein ilustra bem o pluralismo.
Criado com pedaços de diferentes corpos, o pluralismo
ensina que a verdade é composta por vários “corpos
doutrinários”.
É bom lembrar, porem, que, na historia de Frankenstein,
a criatura se volta contra o seu criador. Esta visão
pluralista propaga que, alem do cristianismo, o budismo,
entre outras religiões, tem a verdade. Ou seja, são
apenas caminhos diferentes que levam ao mesmo fim. Ora,
quem caminhar para o sul jamais chegara ao norte. Se o
céu fica em cima, o inferno esta embaixo (Pv 15.24).
O caminho do céu é para cima. E somente Jesus pode nos
conduzir até lá.
O significado dos termos e nomes usados em Matrix
Arquiteto: Quando Buda atingiu a iluminação e se
libertou das ilusões do samsara, consta que ele teria
exclamado: “Apanhei-te, Arquiteto. Nunca mais tornarás a
construir”. De acordo com a filosofia budista, ele
estava se referindo ao ego, criador da pseudo-realidade
em que vivemos mergulhados. Os maçons, por outro lado,
referem-se a Deus como o Grande Arquiteto do Universo.
Quando você sobrepõe as duas referências, tem como
resultado uma figura com atributos divinos que cria um
mundo ilusório. Exatamente como demiurgo (Deus grego que
cria o Universo, organizando a matéria preexistente) no
gnosticismo ou o Arquiteto em The Matrix Reloaded.
Chaveiro: Na simbologia esotérica, as chaves representam
a iniciação e, conseqüentemente, a habilidade que o
iniciado possui para abrir e se deslocar por entre
diferentes níveis da realidade. É por esse motivo que
figuras como o São Pedro cristão ou o Janus da mitologia
romana são representadas como portadoras da chave. É
essencialmente esse o papel que o Chaveiro representa no
filme, já que é graças às suas chaves que Neo ganha
acesso ao coração de Matrix, onde encontra o Arquiteto.
Curiosamente, entre os ciganos, acredita-se que sonhar
com um molho de chaves, como o que o Chaveiro carrega, é
sinal de que várias oportunidades surgirão para o
sonhador, que deve escolhê-la com cuidado, da mesma
forma que Neo agiu quando se deparou com a porta que o
conduziria ao centro de Matrix e a presença do
Arquiteto.
Gêmeos: Todas as mitologias pos-suem lendas a respeito
dos gêmeos, que podem ser divinos ou demoníacos. Muitas
vezes, um dos gêmeos é benévolo e o outro, maligno, ou
um deles é mortal e o outro, imortal, como Castor e
Pólux, na mitologia grega. A grande maioria dos povos
indígenas, nas três américas, considera os gêmeos
divinos como os criadores do mundo. Em Matrix Reloaded,
eles são apresentados sob um aspecto claramente
negativo, mas (por serem auxiliares de Merovíngio, cujo
simbolismo é bem mais ambíguo), podem ocultar algumas
surpresas.
Haman, conselheiro: Apesar de o personagem ser
apresentado sob uma luz simpática e benevolente — quase
uma encarnação do Velho Sábio, cujo papel no primeiro
filme cabia a Morpheus. Na Bíblia, Haman é o grande
vilão do Livro de Ester. Grão-vizir do rei persa Xerxes,
Haman odiava os judeus (Zion é uma referência a Sião) e
tramava secretamente para exterminá-los. O plano foi
descoberto por Ester, que o denunciou ao rei. Haman foi
enforcado e o tio de Ester, Mordecai, nomeado grão-vizir
em seu lugar. Trata-se, portanto, de um traidor.
Seraph: Embora o guardião do Oráculo tenha a aparência
de um oriental, seu nome é hebraico e significa
“ardente, flamejante”. É a raiz de serafim que, na
teologia, é uma das ordens na hierarquia dos anjos. Na
Bíblia, os serafins são descritos no livro de Isaías
como criaturas dotadas de seis asas e que se postam
diante do trono de Deus, igualmente como os guardiões.
Persephone: Assim como os Mistérios de Ísis, os
Mistérios de Elêusis, na Grécia antiga, também exerceram
enorme influência no surgimento do gnosticismo.
Dedicados à deusa grega Deméter, os rituais de Elêusis
rememoravam a peregrinação dessa divindade pelo mundo em
busca da filha Perséfone, seqüestrada por Hades, o
Senhor dos Infernos, que a levou para o mundo
subterrâneo e tomou-a por esposa. Foi da filha de
Deméter que a mulher do Merovíngio emprestou seu nome, o
que faz do próprio Merovíngio um equivalente do Hades
grego. O mundo subterrâneo onde se localizava o Hades,
por sua vez, remete ao mundo subterrâneo onde se
localiza Zion, em Matrix.
Notas:
1 Conjunto de três obras ligadas entre si por um tema
comum
2 Ambiente criado para gravação dos filmes
3 2001 - A Space Odyssey, de Stanley Kubrick, 1968
4 Star Wars, de George Lucas, 1977
5 Blade Runner, de Ridley Scott, 1982
6 Terminator 1, de James Cameron, 1984
7 Total Recall, de Paul Verhoeven, 1990
8 The Lord of the Rings, de J.R.R.Tolkien, 2001
9 Profissional altamente especializado em computação
10 Capacidade de sistema de comunicação ou de computação
de interagir com pessoas
11 Fenômeno surgido com a era digital, constituída por
entidades e ações puramente virtuais, em que seres
humanos, máquinas e programas computacionais interagem
12 Editora Martins Fontes,
13 V. matéria “Jesus dos doze aos trinta anos”, Defesa
da Fé, ed. 56, maio/2003
ANDRÉ, M. Laços da Nova Era. BH, Betânia.
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Revista Veja, 23 de junho de 1999.
Revista Veja 14 de maio de 2003.
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