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Quem é Alá
O que os muçulmanos pensam sobre o Deus da Bíblia e
dos cristãos
Por Silas Tostes
Qual seria nossa reação ao ouvir um muçulmano afirmar
que o Alá do Alcorão é o Deus da Bíblia? Apesar do pouco
conhecimento que muitos possuem acerca do islamismo, não
é difícil identificar as imensas diferenças que esta
religião possui em relação ao cristianismo. Apesar deste
abismo doutrinário que nos separa, esta é a crença
islâmica: o Alá do Alcorão é o Deus da Bíblia! Nosso
propósito, ao longo desta matéria, é demonstrar que isso
é impossível, uma vez que o islamismo se opõe ao
entendimento cristão de que há um único triúno Deus.
Ressaltamos que não temos a intenção de denegrir o
islamismo, mas somente expor seu entendimento sobre
Deus. Ratificamos a necessidade desta abordagem em
Defesa da Fé pelos seguintes fatores:
1. Há um avanço numérico islâmico. Tem sido noticiado
pela imprensa que o islamismo possui muitos seguidores.
Segundo Jaime Klintowitz, jornalista, o islamismo tem
hoje 1,2 bilhões de adeptos.1 Isto representa um quinto
da população mundial. O mesmo artigo informa que o
islamismo governa cinqüenta países do mundo.2
2. Há um ardor missionário islâmico em ação e um ataque
do islamismo contra as doutrinas cristãs. Sabemos que o
islamismo esforça-se por difundir sua doutrina em todo o
mundo livre. Isto é facilmente visto pelas mesquitas
construídas e inúmeros livros escritos e publicados ao
redor do mundo. Há nas últimas páginas do livro
Islamismo Mandamentos Fundamentais, de Mohammad Ahmad
Abou Fares, 25 fotos de mesquitas construídas no Brasil.
Tem sido observado por nós que onde há uma mesquita há
também um esforço de proselitização, o qual se dá por
meio de distribuições de livros religiosos islâmicos e
doações do Alcorão. Neste contexto, o islamismo se opõe
às doutrinas cristãs por meio de regulares publicações.3
Uma precaução necessária
Para não criarmos problemas de comunicação, é importante
esclarecer em que sentido usaremos a palavra Alá ou Alah,
termo usado para Deus na língua árabe, tanto no Alcorão
quanto na Bíblia. Se fôssemos ler em árabe o famoso
versículo do evangelho de João: “Deus amou o mundo de
tal maneira”, seria: “Alá amou o mundo de tal maneira” (Jo
3.16). Nosso problema não está no uso da palavra Alá,
mas em entendermos se o Alá do Alcorão é o Alá da
Bíblia.
Se faz necessário uma breve definição do que queremos
dizer por Deus, como uma unidade absoluta no islamismo e
como uma unidade composta no cristianismo. Sem isto, o
entendimento do texto, para quem não está familiarizado
com a doutrina da Trindade, ficará difícil. Por ora,
basta afirmar que, segundo autores islâmicos e o
Alcorão, Deus, no islamismo, é uma unidade absoluta, ou
seja, há um único ser divino, em uma única essência
divina. Por outro lado, Deus, no cristianismo, é uma
unidade composta, ou seja, há só um Deus, mas três
pessoas distintas, Pai, Filho e Espírito Santo, em uma
única essência divina. Neste caso, as Pessoas são
inseparáveis e indivisíveis, por isso que há um único
triúno Deus.
Passemos, então, à explanação de como o islamismo crê
que Deus é.
Alá seria o mesmo Deus da Bíblia?
Se o Alá do Alcorão é o mesmo da Bíblia, ficamos, então,
com o dilema de como pode um Deus triúno (unidade
composta) ser o mesmo Deus que não é triúno (unidade
absoluta). Os muçulmanos resolvem este problema negando
a autenticidade da Bíblia e se apoiando nas instruções
do Alcorão.
No verso 46 do Sura 29, lemos o seguinte: “E não
disputeis com os adeptos do Livro4, senão da melhor
forma [...] Dizei-lhes: Cremos no que nos foi revelado,
assim como no que vos foi revelado antes; nosso Deus e o
vosso são Um e a Ele nos submetemos” (grifo do autor).
Como podemos ver, não é incomum os muçulmanos pensarem
que a Bíblia testifica do mesmo Deus que o Alcorão, pois
este conceito fica claro nesse verso, por meio da
expressão: Nosso Deus e o vosso são Um e a Ele nos
submetemos.
Além disso, crêem que os personagens bíblicos Abraão,
Ismael, Isaque, Jacó, Moisés, Jesus, entre outros, eram
muçulmanos (Sura 2:136).
O professor Samir El Hayek, responsável pela versão do
Alcorão em português, a qual é utilizada nesta matéria,
expressa a mesma idéia: “Abraão, Ismael, Isaac, Jacó e
as tribos (destes, Abraão tinha aparentemente um livro —
versículo 19 da 87ª Surata — e outros seguiam sua
tradição), Moisés e Jesus, deixando cada um deles uma
escritura... Não fazemos distinção entre qualquer um
desses (profetas). Sua mensagem (no essencial) foi uma
só (ou seja, Abraão, Ismael, Isaac, Jacó, Moisés e Jesus
pregaram uma única mensagem, que era a islâmica), e isso
constitui a base do Islam” (último parênteses do
autor).5 Sendo assim, teriam pregado o conceito islâmico
de Deus.
Outro destacado pensador islâmico, Mohamad Ahmad Abou
Fares, ao mencionar um trecho do Alcorão (Sura
4:150-152), confirma esta mesma idéia: “Estes versículos
e muitos outros contidos no Alcorão nos ensinam a grande
religião: a religião de Deus é uma só... desde de o
início da criação até hoje... e até o fim!”6 (grifo do
autor). A idéia que Fares procura provar é a de que
cristãos e muçulmanos servem o mesmo Deus, e isto desde
o princípio.
Ahmed Deedat, outra autoridade islâmica, também tenta
provar que o Alcorão está certo quanto ao seu Alá ser o
mesmo Deus da Bíblia. Faz isso citando uma nota de
rodapé da Bíblia The New Scofield Reference Bible.
Publicou a primeira página da The New Scofield Reference
Bible, na qual se encontra a nota de rodapé nº 1, que
diz: “Eloim (às vezes El ou Elah), na forma inglesa Deus
(God), o primeiro dos três nomes primários da divindade,
é um substantivo uniplural formado por El =forte e Alah
= jurar, se obrigar por voto, implicando em fidelidade.
Esta unipluralidade implícita no nome é diretamente
afirmada em Gênesis 1.26 (pluralidade), e no verso 27
(unidade). Veja também Gênesis 3.22. Assim, a Trindade é
latente em Eloim”.7
Deedat usa essa nota de rodapé como um argumento para
sustentar o que se encontra em diversos textos do
Alcorão (Suras 2:136, 138-140; 4:150-152; 29:46), ou
seja, cristãos e muçulmanos adoram o mesmo Deus. Faz
isso porque a palavra Alah foi mencionada na nota.
Reconhecemos que a nota da Bíblia The New Scofield
Reference Bible faz bem ao mencionar a palavra Alah,
pois Elohim é o plural de Eloah, do verbo alá em
hebraico, que significa ser adorado, ser excelente,
temido e reverenciado. No entanto, destacamos que se
Eloim, plural de Eloah, que vem do verbo alá, é uma
evidência de que cristãos e muçulmanos servem ao mesmo
Deus, segundo Deedat, então o Deus alcorânico deveria
ser uma unidade composta, como indica a palavra Eloim,
plural de Eloah, e como explicou Scofield em sua nota de
rodapé: “El =forte e Alah = jurar, se obrigar por voto,
implicando em fidelidade. Esta unipluralidade implícita
no nome é diretamente afirmada em Gênesis 1.26
(pluralidade), e no verso 27 (unidade). Veja também
Gênesis 3.22. Assim, a Trindade é latente em Eloim.”
Contudo, ele usa de seletividade para com a citação e
ignora o fato de que a nota claramente ensina que o Deus
verdadeiro é uma unidade composta, o que, por sinal, é
bem antiislâmico.
Diante da enfática exposição desses testemunhos que
concordam que o Alá do Alcorão é o Deus da Bíblia, e
considerando muitos outros que foram aqui omitidos,
ratificamos a necessidade de conhecermos qual é o
entendimento islâmico sobre Deus, e como, neste
contexto, os muçulmanos negam as doutrinas basilares da
fé cristã. Entretanto, antes de fazê-lo, é importante
entender o que levou Maomé a pregar o monoteísmo
absoluto islâmico, rechaçando a doutrina da Trindade.
Para tanto, precisamos saber o que significa shirk,
conhecimento que nos dará base para entendermos o
contexto no qual surgiu a crença islâmica de Deus.
Passemos a defini-lo.
Como shirk é definido
Shirk é atribuir associado ou parceiro a Alá, ou seja,
considerar algo ou alguém que não tem natureza divina
como Deus e adorá-lo como tal. Este é o único pecado no
islamismo que não tem perdão: “o homem se tornou culpado
de shirk, adorador de ídolos”.8 Em outras palavras,
adoração a ídolos (politeísmo) é shirk, pois é o mesmo
que associar ou atribuir um parceiro a Alá,
considerando-o Deus, quando esse não o é.
No Alcorão está claro que shirk é imperdoável, conforme
vemos autenticado: “Deus jamais perdoará a quem lhe
atribuir parceiros (associados); porém, fora disso,
perdoa a quem lhe apraz. Quem atribuir parceiros a Deus
comete um pecado ignominioso” (Sura 4:48; grifo do
autor). Tal como este, outros textos participam da mesma
concepção (Sura 4:116; 5:172).
John Gilchrist, pesquisador do islamismo, entende que a
maior barreira entre os cristãos e os muçulmanos é o
fato de que para o islamismo os cristãos cometem shirk
ao adorarem Jesus, pois no entendimento islâmico, Jesus
é apenas um profeta, e não Deus encarnado. Neste caso,
isto seria associar alguém, uma criatura de Alá, a Alá,
adorando-o como Deus, quando essa criatura ou alguém não
seria Deus.
Gilchrist explica que a raiz da palavra parceiro é a
mesma da palavra shirk, a saber yushraku.9 Segundo ele,
os cristãos cometem shirk numa perspectiva islâmica,
pois o Alcorão condena o entendimento cristão de que
Jesus é o Filho de Deus (Sura 10:68). Os muçulmanos
pensam que os cristãos associaram ou atribuíram Jesus a
Alá, quando aquele (Jesus) era um mero mensageiro deste
(Alá). Na verdade, sabemos que Jesus é eterno e nunca
foi associado a Alá. Deus é triúno de eternidade a
eternidade.
Os árabes pré-islâmicos eram idólatras
Os árabes pré-islâmicos criam que Alá tinha filhos e
filhas. Estes eram deuses e deusas, ou gênios e gênias,
que descendiam de Alá. Como seus descendentes possuíam
natureza divina, por isso eram adorados como divindades
por eles. Contudo, numa perspectiva islâmica, isto era o
mesmo que associar ou atribuir parceiros a Alá. Temos
suficiente informação no Alcorão sobre os árabes
pré-islâmicos nesses termos, ou seja, eram idólatras e
cometiam shirk.
No Sura 53:19-23, temos a menção de três deusas adoradas
no período pré-islâmico: Al- Lát, Al-Uzza e Manata.
Pensavam que estas eram filhas de Alá: “Considerai
Al-Lát e Al-Uzza. E a outra, a terceira deusa, Manata.
Porventura, pertence-vos o sexo masculino e a Ele o
feminino? Tal, então, seria uma partilha injusta. Tais
(divindades) não são mais do que nomes, com que as
denominastes, vós e vossos antepassados [...] Não seguem
senão as suas próprias conjecturas e as luxúrias das
suas almas, não obstante ter-lhes chegado a orientação
do seu Senhor!” (Maomé teria, então, trazido a
orientação do seu Senhor contra o entendimento errado da
idolatria); parênteses do autor.
O entendimento islâmico presume que Deus não tem nenhum
Filho, porque Alá não faz sexo. Veja o Sura 6:100-102:
“Mesmo assim atribuem como parceiros a Deus, os gênios,
embora fosse Ele quem os criasse; e, nesciamente,
inventarem-lhe filhos e filhas [...] Originador dos céus
e da terra! Como poderia ter prole, quando nunca teve
uma esposa, e foi Ele quem criou tudo o que existe, e é
Onisciente? Tal é o vosso Deus, vosso Senhor! Não há
mais divindade além dele, Criador de tudo! Adorai-o,
pois, porque é o guardião de todas as coisas” (grifo do
autor).
Na prática, segundo esse texto, os seres (gênios) seriam
deuses parceiros de Alá, aos quais os pré-islamicos
atribuíram como parceiros a Deus, por serem seus
descendentes e, por isso, foram condenados por Maomé
como idólatras.
Como, então, o entendimento pré-islâmico pensava em Deus
como alguém que tinha filhos e filhas conforme Maomé
anunciava o monoteísmo, esses islâmicos achavam que ele
(Maomé) tivesse sugerindo que todos os deuses formassem
um só, como se fosse possível somá-los em um (Sura
38:5). Contudo, Maomé anunciava-lhes que havia somente
um Deus e, neste sentido, o islamismo é semelhante ao
cristianismo, pois prega a existência de um único Deus e
condena a idolatria, mas, apesar dessa semelhança, Maomé
ensinou que Deus não é triúno e, por isso, existe uma
grande tensão entre o islamismo e o cristianismo.
Munidos desse contexto, passemos agora a considerar
alguns fatores que evidenciam que o Alá do Alcorão não é
o Deus da Bíblia.
O Alá do Alcorão não teve filho
Começamos pelo Sura 112: “Dize: Ele é Deus, o Único.
Deus! O Absoluto! Jamais gerou ou foi gerado! E ninguém
é comparável a Ele!”. Hayek diz o seguinte sobre esta
passagem alcorânica: “A natureza de Deus é nos aqui,
indicada em poucas palavras, de maneira que possamos
entender [...] Ele é Uno e Único, o Uno e Único, a quem
devemos adorar; todas as outras coisas ou entidades em
que ou em quem pudermos pensar são as suas criaturas, de
maneira nenhuma comparáveis a Ele [...] Ainda mais, não
devemos pensar que Ele teve um filho ou um pai,
porquanto isso seria querer imputar-lhe qualidades
materiais, ao formarmos um juízo dele”.10
Ainda nesse contexto, o Sura 19:35 diz o seguinte: “É
inadmissível que Deus tenha tido um filho. Glorificado
seja! Quando decide uma coisa, basta-lhe dizer: Seja!, e
é”. Hayek, ao comentar este verso, mais uma vez explica
que Deus não pode ter um filho, porque não faz sexo:
“Gerar um filho é um ato fisiológico que depende das
necessidades da natureza animal do homem. Deus, o
Altíssimo, é independente de todas as necessidades, e é
derrogatório atribuir-lhe tal ato”.11
Percebemos que esse entendimento é fruto do
desconhecimento da doutrina cristã. Perguntamos: quem
afirmou que Jesus é Filho de Deus em termos carnais? É
abominação e blasfêmia também para os cristãos imaginar
que Jesus é Filho de Deus nessa condição. Não deveria
haver tal barreira entre o cristianismo e o islamismo,
pois este não é o ensino cristão sobre a filiação de
Jesus. De fato, os cristãos não ensinam que Deus precisa
fazer sexo para ter um filho, assim como não precisa de
mãos para segurar, de pés para andar ou de pulmão para
respirar e viver.
Mas como, então, os muçulmanos enfrentam as afirmações
bíblicas que legitimam a filiação de Jesus? Ahmed Deedat
alista algumas passagens, tais como Gênesis 6.2,4 (os
filhos de Deus casaram-se com as filhas dos homens),
Êxodo 4.22 (Israel é filho de Deus), Salmo 2.7 (Davi
como filho de Deus) e Romanos 8.14 (os filhos de Deus
são guiados pelo Espírito Santo), por meio das quais
afirma que Jesus era Filho de Deus de uma maneira
metafórica, como Israel, Davi e outros na Bíblia.12
Assamad interpreta as mesmas passagens concluindo que
Jesus era Filho de Deus no sentido que era próximo de
Deus pelo amor, assim como qualquer homem pode ser filho
de Deus.13
Como podemos ver, as duas argumentações só provam que há
mais de um uso para a expressão filho de Deus na Bíblia
sem considerarem as passagens que definem Jesus como
Filho de forma especial e única, nas quais Jesus é
revelado como tendo a mesma natureza do Pai, assim como
igualdade. Logo se percebe que tanto Assamad como Deedat
não compreendem os vários significados bíblicos da
expressão Filho Deus.
A idéia de que Jesus era um mero homem, um mensageiro
(profeta), um ser criado, não divino, também é vista na
citação, por parte de Ahmed Deedat, dos Suras 3:47 e
3:59. Fez isso para embasar sua opinião, como muçulmano,
de que Jesus fora criado: “Este é o conceito islâmico do
nascimento de Jesus. Pois para Deus criar um Jesus, sem
um pai, basta simplesmente desejar. Se ele quiser criar
um milhão de Jesus, sem pais, basta Alá desejar”.14
Deedat parece estar convencido de que Jesus não é Deus,
pois entende que Ele nunca se declarou como tal. Procura
provar sua opinião citando João 10.23-36 para explicar
que Jesus é um com o Pai (v. 30), mas, segundo seu
entendimento, somente em propósito. Jesus não seria
Filho de Deus de uma maneira especial, como se fosse
Deus, ou tivesse reivindicado sê-lo.15 No entanto,
Deedat cai em contradição quando reconhece que o
entendimento dos cristãos e dos judeus, quanto ao
episódio da passagem, é claro. Ou seja, Jesus
reivindicou ser Deus ao dizer que era um com o Pai, com
a diferença de que os judeus não aceitaram isto, mas os
cristãos, sim: “Os cristãos concordam com os judeus,
Jesus realmente fez tal reivindicação (ser Deus); mas
diferem nisto, não era blasfêmia para os cristãos,
porque crêem que Ele é Deus”.16 A contradição de Deedat
demonstra que no fundo ele sabe que Jesus realmente se
declarou Deus! Ora, se Jesus nunca se declarou Deus,
como judeus e cristãos entenderam isso? Como vieram a
discordar desse ponto, se não houve reivindicação por
parte de Jesus?
Assamad igualmente parece convencido de que Jesus não é
Deus, pois Ele orava a Deus Pai e, nesse sentido, era
como qualquer outro homem, como qualquer criatura de
Deus, por isso conclui que Jesus não podia ser Deus
encarnado: “Ele falava de Deus como meu Pai e vosso Pai,
e meu Deus e vosso Deus (Jo 22.17). Essas palavras de
Jesus relatadas na Bíblia demonstram que Jesus tinha a
mesma relação com Deus que qualquer outro homem. Ele era
uma criatura de Deus [...] Em sua agonia na cruz, Jesus
exclamou: ‘Eloi, Eloi, lamma sabachthani?’. Que quer
dizer: ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’ (Mc
15.34)”.
Segundo Assamad, jamais tais palavras, proferidas na
cruz por Jesus, poderiam ser pronunciadas por Deus, por
isso diz: “O que temos aí é o grito de um homem indefeso
e agonizante dirigido ao seu Criador e Senhor”.17 Cita
então diversas passagens bíblicas em que Jesus orava,
concluindo que Ele não podia ser Deus e que nada sabia
sobre a Trindade pelo fato de ter sido sua prática a
oração (Mc 1.35; Lc 5.16; Jo 17.3).
O aparente problema apontado por Assamad, por meio do
qual tenta provar que Jesus não era divino, pois orava a
Deus Pai, de fato não o é, pois havendo três pessoas na
Divindade, uma fala com a outra, não só durante a
encarnação, mas também antes e depois da mesma. Na
realidade, podemos verificar grande semelhança entre o
seu argumento e os das testemunhas-de-jeová, as quais,
tal como Assamad, procuram intensificar a questão
atacando a divindade de Jesus à luz das limitações
decorrentes de sua encarnação.
Declaram que Jesus, pelo fato de ter sido homem, não
podia ser Deus encarnado. É Claro que um ser humano se
alimenta e passa por todas as vicissitudes decorrentes
de sua natureza. Como homem, Jesus era tão humano como
qualquer outro ser humano. Todavia, isso não consiste em
prova de que não podia ser uma das pessoas da Divindade
que se encarnou. Fez isso por um certo tempo, para que,
assim, se cumprisse toda a Escritura e pudesse haver
salvação para o homem. Não obstante, possuía natureza
divina, mesmo que, voluntariamente, tivesse se limitado
na manifestação de seus atributos divinos. Não há, no
genuíno entendimento cristão, conflito no fato de Jesus,
sendo Deus, ter-se tornado homem, mesmo que para isso
tivesse se limitado, por um certo tempo, na manifestação
plena dos atributos divinos.
O Alá do Alcorão não é triúno
Uma vez que Alá no Alcorão é uma unidade absoluta, é de
se esperar que a doutrina da Trindade fosse claramente
condenada no Alcorão. Há passagens no Alcorão que
claramente se opõem à Trindade.
Hayek, ao comentar o Sura 2:135 (“Disseram: Sede judeus
ou cristãos, que estareis bem iluminados. Responde-lhes:
Qual! Seguimos o credo de Abraão, o monoteísta, que
jamais se contou entre os idólatras”), disse o seguinte
sobre a Trindade: “Os judeus, embora orientados quanto à
Unicidade, procuraram falsos deuses, e os cristãos
inventaram a Trindade ou a copiaram da idolatria”.18
Podemos ver, pelo comentário de Hayek, que o islamismo
condena a Trindade, pensando ser ela o mesmo que
idolatria. Percebemos que os posicionamentos islâmicos
são profundamente antagônicos ao cristianismo.
Vejamos o que diz o Sura 5:73: “São blasfemos aqueles
que dizem: Deus é o um da Trindade! Porquanto não existe
divindade além do Deus Único...” (grifo do autor). Veja
também o Sura 4:171. Ressaltamos, porém, que os cristãos
não crêem que Deus seja o um de uma Trindade, como se
duas outras Pessoas tivessem sido associadas a Deus, mas
ao contrário, crêem que o Pai, o Filho e o Espírito
Santo são um e somente um Deus, pois há somente uma
essência divina; cada uma das Pessoas é Deus e possui a
totalidade da essência divina; as Pessoas são
eternamente inseparáveis e eternamente unidas nessa
única essência divina; cada uma das Pessoas possui a
mesma dignidade das outras duas, e, portanto,
conseqüentemente cada uma das Pessoas são idênticas em
essência, vontade, propósito, poder, eternidade e nos
demais atributos. Sendo assim, a Surata 5:73 não faz
referência ao entendimento bíblico e cristão de Deus.
Além desse erro de interpretação da Trindade por parte
dos muçulmanos, existe a possibilidade de Maomé ter
confundido o ensino cristão da Trindade com o triteísmo
do Pai, Maria e Jesus. Se isto ocorreu, há a
possibilidade de Maomé ter condenado a Trindade por
causa de um entendimento errôneo, pois até mesmo os
cristãos condenariam veementemente a Trindade nesses
termos. Como teria ocorrido isso? Há dois versos que
indicam que Maomé pensava que Maria também tinha
natureza divina.
Citamos aqui o Sura 5:116, no qual se lê que: “E
recorda-te de que quando Deus disse: Ó Jesus, filho de
Maria! Fosse tu quem disseste aos homens: Tomai a mim e
minha mãe por duas divindades, em vez de Deus?” (grifo
do autor). Veja também o Sura 5:75. Aqui, constatamos,
havia a crença ou o entendimento de que os cristãos
adoravam Jesus e Maria como pessoas da Trindade.
Há duas possibilidades de como Maomé se convenceu de que
a crença da divindade de Maria era aceita por cristãos.
Talvez obteve este conhecimento por meio de uma obscura
seita cristã chamada Collyridians, cujos adeptos
adoravam Maria e lhe ofereciam um bolo em devoção
chamado Collyris.19 Ou simplesmente o obteve por meio do
que pensou ser verdade, segundo as aparências, pois
alguns cristãos veneravam Maria em suas expressões
populares de fé de tal maneira que poderia ter-lhes
parecido que a divindade de Maria era uma doutrina
cristã, o que é contrário ao ensino bíblico sobre ela.20
De qualquer maneira, o entendimento islâmico inicial
quanto à Trindade, segundo antigos comentaristas
islâmicos, supunha que essa fosse composta de Deus,
Maria e Jesus: “Estes versos (Sura 5:75 e 5:116) são
explicados pelo comentarista Jalalu’din e Yahya como
sendo a resposta de Maomé à declaração que ouviu de
certos cristãos de que há três deuses, a saber: o Pai,
Maria e Jesus (Tisdall, The Original sources of the Qur’an)”.21
Outro grande comentador, Zamakhshari, também concorda
que o Alcorão ensina a suposta crença cristã de que
Deus, Cristo e Maria são três deuses, e que Cristo é o
filho de Deus por Maria.
Assim, segundo Jalalu’din, Yahya e Zamakhshari, era isso
que Maomé condenava, e não a doutrina como a conhecemos.
O fato de Deus ser uma unidade composta não faz dele
três deuses.22 Se pudéssemos remover esses
mal-entendidos, então o islamismo veria que o
cristianismo também prega o monoteísmo. Agora,
passaremos a expor, brevemente, essas discordâncias
doutrinárias.
Equívocos islâmicos na interpretação da Bíblia
1. Imaginar que a Trindade foi retirada da idolatria ou
inventada pelo homem. De fato, a doutrina da Trindade é
revelada implicitamente no Velho Testamento e
explicitamente no Novo Testamento. A Bíblia e os
cristãos que a seguem se opõem à idolatria, totalmente.
As evidências bíblicas das Escrituras quanto à divindade
do Pai, do Filho e do Espírito Santo são tantas que não
podemos dizer que a doutrina da Trindade foi inventada
pelos homens, ou copiada da idolatria. Temos também as
evidências de que Deus é uma unidade composta nas
Escrituras. Como, então, a doutrina teria sido retirada
da idolatria ou inventada pelo homem? Será que isso não
é uma tentativa para justificar o Alcorão? Aparentemente
sim.
2. Imaginar que Jesus foi associado a Alá. Não é verdade
que os cristãos crêem em Deus como o um de uma Trindade.
Não é assim que a Bíblia revela Deus. Ele é sim uma
unidade trina, composta de três Pessoas, que é eterna.
Jesus, por isso, nunca foi associado a Deus. Ele é
eternamente Deus. Nunca, no entanto, houve um momento em
que Jesus deixasse de ser Deus para depois passar a ser
associado a Deus. Os cristãos nunca cometeram shirk.
Jesus é eternamente Deus.
3. Atacar a divindade de Jesus, tendo como base sua
encarnação. Se a Bíblia revela que o Messias seria Deus
em carne, quem somos nós para negar isto? Quem somos nós
para limitar Deus naquilo que Ele quer e pode fazer?
Certamente que para o Deus do impossível é possível
voluntariamente se limitar em um corpo humano, se assim
o desejar. A encarnação de Jesus não prova que Jesus não
é Deus, e não nos dá base para rejeitarmos a Trindade.
Ela simplesmente mostra que Deus, voluntariamente, se
limitou em um corpo humano para morrer pelo homem que se
havia perdido. Contudo, após sua exaltação, não possui
limitações de um corpo humano. Somente assim Jesus
poderia dizer que estaria onde dois ou três estivessem
reunidos em seu nome. Ele está agora no pleno exercício
da manifestação de seus atributos.
4. Ignorar todos os sentidos da expressão Filho de Deus
na Bíblia. Por causa disso crêem que Jesus não é o Filho
de Deus, pois Deus não faz sexo. Não é isso que os
cristãos ensinam. Sabemos que a expressão Filho de Deus
tem um sentido natalício, messiânico, assim como retrata
um relacionamento filial entre Jesus e o Pai. Todavia,
um de seus sentidos evidencia que Jesus se autodeclarava
Deus, quando aplica a expressão para si, reivindicando
igualdade e unidade com o Pai (Jo. 5:18-28; 8:28, cf. Jo
8.24,52-58). Há muitas passagens para fundamentarmos
esse ponto em termos bíblicos. Certamente que nunca foi
ensinado pelo cristianismo que Deus fez sexo com Maria,
querendo, com isso, justificar o uso da expressão Filho
de Deus. De onde será que o islamismo tirou tal idéia?
Por que ainda a propaga? Certamente que esse não é o
ensino cristão a respeito da expressão Filho de Deus.
5. Confundir a doutrina da Trindade com o triteísmo do
Pai, do Filho e do Espírito Santo. Afirmam que a
doutrina da Trindade divide a deidade em três Pessoas
divinas, separadas e distintas — Deus o Pai, Deus o
Filho e Deus o Espírito Santo. Isso seria triteísmo:
três Pessoas distintas e separadas em três essências.
Nós, cristãos, porém, não cremos assim, antes, que Jesus
ensinou a unidade das Pessoas em uma única essência
divina, ou seja, em uma unidade trina. De tal maneira
que as pessoas são inseparáveis, mesmo internamente, na
única natureza divina existente. Veja os seguintes
textos bíblicos para a divindade de Jesus e sua unidade
com o Pai em uma mesma essência: João 1.1,14,18;
5.18-28; 8.24,28,52-58; 10.30-38; 14.7-11. Como disse
Jesus: se não pudessem crer no que Ele dizia, que
cressem por causa das obras que Ele realizava: João
10.30-38; 14.11, entre suas realizações, sua
ressurreição: João 2.18-22; 8.28, por meio da qual
ficaria evidente que Ele era (e ainda é) auto-existente,
eterno, com poder sobre a morte e, de fato, podia
oferecer vida eterna ao que nele cresse: João 8.51.
6. Imaginar que a Trindade pudesse ser composta do Pai,
de Maria e do Espírito Santo. Nunca passou pela cabeça
de nenhum erudito cristão essa possibilidade. A doutrina
da Trindade é baseada nas Escrituras, e estas não
ensinam a Trindade dessa maneira. Vemos pelas Escrituras
que Maria foi uma mulher escolhida por Deus, mas, como
todas as criaturas, era apenas um ser humano.
O Alá do Alcorão não é o Deus da Bíblia!
À luz da revelação bíblica e alcorânica, afirmamos que:
Alá não é o mesmo Deus da Bíblia. O Deus da Bíblia é
triúno, o do Alcorão não. Alá se define como uma unidade
absoluta, mas o Deus da Bíblia como uma trina unidade
composta. Alá não possui um filho, o Deus da Bíblia sim.
Alá ataca, por meio do Alcorão, a doutrina cristã de
Deus e a Divindade e a Filiação de Jesus, porém, estas
foram reveladas, ao longo da história, por Deus nas
Escrituras Sagradas, a Bíblia, por meio de suas muitas
evidências.
Respeitamos as convicções islâmicas num contexto de
liberdade religiosa, mas lamentamos que sua doutrina de
Deus, tal como se apresenta no Alcorão, ataca a cristã.
Percebemos que os muçulmanos não assimilaram, como
convém, a doutrina bíblica de Deus. Atacam-na, mas não a
compreendem. Não conseguem perceber que Deus se revelou
ao homem como triúno. É lamentável que imaginem que Deus
só pode ter um filho se fizer sexo. Não é nesse sentido
que Jesus é Filho de Deus, como já afirmamos.
Costumo dizer que podemos passar uma eternidade
discutindo doutrina, provavelmente não chegaremos a
nenhum lugar. Contudo, nosso desejo é que os muçulmanos
possam ter um encontro vivo e real com Jesus. Isto é
possível, pois Ele ressuscitou, venceu a morte,
portanto, pode se manifestar a todo aquele que crê. Só
Ele pode perdoar pecados e salvar, pois para isto morreu
pelo homem. Contudo, o homem, criado por Deus, precisa
crer e clamar, pois sem fé é impossível agradar a Deus (Hb
11.6). Não é preciso palavras quando há um encontro com
o Jesus ressurreto, pois Ele ainda tem o mesmo poder
transformador manifesto durante sua encarnação terrena.
Fazer um texto abordando as diferenças doutrinárias
entre os cristãos e os muçulmanos não significa que não
amamos os seguidores do Islã. Ao contrário. Nós os
amamos e sabemos que o Senhor é poderoso para se revelar
a eles.
Oremos pelos muçulmanos, e não nos deixemos levar pelos
nossos preconceitos.
Notas:
1 Klintowitz, J. Islã: a derrota do fanatismo, revista
Veja, São Paulo: Editora Abril, 1º de março de 2000, p.
46.
2 Ibid., p. 46.
3 Dr. Maurice Bucaille, A Bíblia, o Alcorão e a ciência.
Abul Hassam Annaduy, O Islam e o mundo. Ulfat Aziz
Assamada, Islam e cristianismo. Mohamad Ahmad Abou Fares,
Islamismo Mandamentos Fundamentais.
4 Nesse momento, vale a pena esclarecer o que significa
adeptos do Livro, pois esta expressão aparece com certa
freqüência no Alcorão. Esta se refere a judeus e
cristãos, como explica Ahmed Deedat: “Adeptos do Livro é
um título muito respeitável pelo qual judeus e cristãos
são tratados no Santo Alcorão. Em outras palavras, Alá
está dizendo – “Ó pessoas instruídas!” “Pessoas com uma
Escritura”, (Deedat, A. Christ in Islam. RSA, Islamic
Propagation Centre, 1983, p. 32).
5 Hayek, S. El. O Significado dos Versículos do Alcorão
Sagrado. Brasil, MarsaM Editora Jornalística, 1994, p.
21.
6 Fares, M. A. Islamismo Mandamentos Fundamentais.
Brasil, Editora Gráfica e Editora Monte Santo, p. 152.
7 Deedat, A. What Is His Name. RSA, Islamic Propagation
Centre International, 1997, p. 28.
8 Maududi, A. A. Para Compreender o Islamismo. Brasil,
Centro de Divulgação do Islã Para América Latina, 1989,
p. 96.
9 Gilchrist, J. The Christian Witness To The Muslim.
RSA, Roodepoort Mission Press, 1988, p. 326-327.
10 Hayek, S. El. O Significado dos Versículos do Alcorão
Sagrado. Brasil, MarsaM Editora Jornalística, 1994,
p.757.
11 Ibid., p. 351.
12 Deedat, A. Christ in Islam, RSA, Islamic Propagation
Centre International, 1983, p. 28-29.
13 Assamad, U. A. O Islam e o Cristianismo. Brasil,
Editora Makka, 1991, p. 44-45.
14 Deedat, A. Christ in Islam, RSA, Islamic Propagation
Centre International, 1983, p. 24-25.
15 Deedat, A. Christ in Islam, RSA, Islamic Propagation
Centre International, 1983, p. 37.
16 Ibid., p. 38.
17 Assamad, U. A. O Islam e o Cristianismo. Brasil,
Editora Makka, 1991, p 39.
18 Hayek, S. El. O Significado dos Versículos do Alcorão
Sagrado. Brasil, MarsaM Editora Jornalística, 1994,
p.20.
19 Gilchrist, J. The Christian Witness To The Muslim.
RSA, Roodepoort Mission Press, 1988, p. 318.
20 Ibid., p. 319.
21 Ibid., p. 318.
22 Ibid., p. 318
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