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Matéria
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Os estigmas
de Cristo, fato ou mitologia religiosa?
Por João Flávio Martinez
A Igreja Católica Romana quase mandou o renomado
cientista Italiano Galileu Galilei (Século XVI) para a
fogueira, arvorando que o heliocentrismo1 era uma
heresia contra os desígnios divinos e que o
geocentrismo2 não deveria ser questionado. Bem da
verdade, não foi esse o grande motivo de quererem mandar
Galileu para a fogueira da inquisição, mas suas
conclusões científicas de que a teoria da
transubstanciação era impossível e improvável. Esse mito
da transubstanciação, criado na Idade Média, ainda vive
hoje como um dos pilares doutrinários da fé católica
(Ler matéria de capa). A Idade Média ou Idade das Trevas
foi uma ótima oficina para que mentes alucinadas
criassem e desenvolvessem doutrinas extremamente
exóticas e totalmente anticristãs, entre elas, iremos
questionar nesta matéria os estigmas de Cristo.
O que é a doutrina dos estigmas de Cristo?
Estigmas: do grego stigmata, significa “picada
dolorosa”. Trata-se de feridas que, supostamente,
aparecem em várias partes determinantes do corpo do
devoto católico: na cabeça, devido à coroa de espinhos;
nas costas, devido às chibatadas; nas mãos e nos pés,
devido aos cravos; e na parte lateral do corpo, devido
ao corte da lança do soldado romano.
Portanto, ser estigmatizado é receber no próprio corpo
as chagas ou os ferimentos de Cristo, e isso
literalmente. Além disso, parece que o estigmatizado
passa a sofrer terríveis perseguições espirituais,
tornando-se uma pessoa afligida.
Na maioria das vezes, os estigmatizados estão em
profundo transe quando “agraciados” com esse fenômeno.
Alguns param de comer e outros ainda passam a ter
freqüentes alucinações.
A Igreja Católica Romana entende que a paixão de Cristo
está sempre viva entre os cristãos, sendo mesmo causa de
conversões, e que, através dos séculos, Cristo quis
reproduzir, em pessoas privilegiadas, as marcas ou
estigmas de sua paixão.
O primeiro estigmatizado
Conforme os parâmetros católicos, o primeiro
estigmatizado da história foi São Francisco de Assis, no
ano de 1224. A “estigmatização” de São Francisco fez
aparecer-lhe nas mãos, pés e costas chagas semelhantes
às de Cristo na cruz.
Essa íntima comunhão de Deus para com o estigmatizado,
segundo a Igreja Católica, levaria o indivíduo a um
processo de santificação e de certa contribuição para a
salvação do mundo. Devido a isso, São Francisco foi
canonizado em 1232 e é festejado no dia quatro de
outubro.
No livro Milagres, de Scott Rogo3, são relacionados
aproximadamente 312 estigmatizados até o final do século
XIX, isso levando em consideração os estigmatizados sem
as chagas, ou seja, aqueles que sentiram as dores, mas
não manifestaram as feridas. O livro informa também que,
até agora, somente uns sessenta estigmatizados foram
beatificados e canonizados. Depois de São Francisco, os
mais famosos foram a alemã Therese Neumann (1898-1962) e
o italiano Francesco Forgione (1887-1968), mais
conhecido como Frei de Pietralcina ou Padre Pio. Outras
figuras reconhecidas como estigmatizadas: Catarina de
Sena (1347-1380), Verônica Giuliana (1660-1727), Gema
Galgani (1878-1903), entre outras.
Segundo o Dicionário do cético, de Robert Todd Carroll4,
traduzido por Antônio Inglês e Ronaldo Cordeiro, um dos
estigmatizados mais recentes é o frade James Bruce “que
não só afirmou ter as feridas de Cristo, como também que
estátuas religiosas choravam em sua presença”. De acordo
com o dicionário, este fato ocorreu em 1992, em um
subúrbio de Washington, D.C., “onde coisas estranhas são
comuns. Nem é preciso dizer que ele (James Bruce) lotou
os bancos da igreja. Atualmente, administra uma paróquia
na região rural da Virgínia, onde os milagres cessaram”.
O porquê dos estigmas
Segundo o padre Tito Paolo Zecca, um dos maiores
especialistas do assunto, professor de teologia pastoral
e espiritualidade na Universidade Pontifícia do Latrão,
e o Ateneu Pontifício Antoniano de Roma, os estigmas são
“um sinal do que Cristo sofreu durante a Paixão [...]
Este fenômeno mostra a eficácia da salvação de Cristo na
cruz, e permanece de modo especial no sinal dos
estigmas, tornando-se um fato distintivo da eficácia
redentora e salvadora da fé”. Padre Zecca ainda conclui
que “é uma experiência de alegria e dor [...] estas
chagas podem ser purulentas e nunca se curar, mas podem
ajudar a curar os outros”. Apesar do sofrimento que as
chagas podem vir a causar nos santos “privilegiados”, o
padre acredita piamente que tais ocorrências são sinais
de graças benditas: “os recipientes dos estigmas
consideram isso uma imensa graça”.
A Idade Média e os estigmas
Durante quase toda a Idade Média a Europa esteve
mergulhada em um profundo misticismo que geraram muitas
coisas vãs. Tais coisas, para as pessoas, tinham grande
valor espiritual. Havia, por exemplo, uma pena da asa do
anjo Gabriel, um bocado da arca de Noé, a camisa da
bendita virgem, os dentes de Santa Apolônia (segundo as
pessoas, isso proporcionava cura infalível para as dores
de dentes) e muitas outras relíquias sagradas e
milagrosas! Além disso, era generalizada a crença
absurda de que o arcanjo Miguel celebrava a missa na
corte do céu todas as segundas-feiras. A este período
pertence a instituição do rosário e da coroa da virgem
Maria, da invenção da doutrina da transubstanciação e de
muitas outras mitologias católicas. É nesse contexto
sociológico que surge a doutrina dos estigmas.
É interessante notar que não se conhece nenhum caso de
estigmas que tenha acontecido antes do século XIII,
quando “Jesus crucificado” se tornou um símbolo do
cristianismo no Ocidente. Para alguns, isso indica que
os estigmas provavelmente foram feitos pelos próprios
estigmatizados, e ainda há aqueles que acreditam que
tais fenômenos vieram a ocorrer de maneira
psicossomática, devido à veneração extremada de
católicos devotos à cruz.
Opinião médica sobre os estigmas
Atualmente, fica difícil coletar opiniões médicas sobre
o polêmico assunto, pois há muitos anos não se tem
notícia de qualquer pessoa que tenha sobre si essas
marcas. Também não se tem notícia de qualquer
estigmatizado no Brasil. Não haveria, pois, como
submetê-las a exame científico conclusivo, usando-se de
técnicas modernas e aplicando o conhecimento atual, seja
médico ou psicológico.
Um especialista em estigmas, Herbert Thurston, argumenta
cinco pontos contra a natureza desses fenômenos:
1. Os estigmas eram desconhecidos do cristianismo até o
século XIII, quando São Francisco de Assis os exibiu
pela primeira vez. Todos os casos ocorridos a partir
dessa data devem, por isso mesmo, ser imitados em sua
natureza, eis a razão por não serem autênticos.
2. As feridas dos estigmas não aparecem em local,
tamanho e forma consistentes. Tal fato sugeriria que não
passam de efeito auto-sugestivo.
3. Os estigmas surgem em conexão com a histeria.5
4. Em geral, as feridas só surgem depois que o indivíduo
teve várias doenças purgativas que parecem ser
distúrbios do sistema nervoso central.
5. Embora os supostamente estigmatizados sejam pessoas
visionárias6 , uma comparação de suas visões mostra
pouca consistência. A maior parte delas não deixa de ser
“reencenações” de histórias tradicionais da paixão, não
apresentando nenhuma evidência de sua natureza divina.7
O Dicionário do cético ainda afirma: “os ferimentos
auto-infligidos são comuns entre pessoas com certos
tipos de distúrbios mentais, mas afirmar que as feridas
são milagrosas é raro, e se deve mais provavelmente à
religiosidade excessiva do que a um cérebro doente,
embora ambos possam estar atuando em alguns casos”. A
explicação preferida é de que estas feridas tenham sido
auto-infligidas, uma vez que nenhum estigmático
manifesta seus ferimentos do princípio ao fim na
presença dos outros, só começando a sangrar quando não
estão sendo observados.
A questão teológica sobre os estigmas de Cristo
Não nos deteremos no mérito se tais manifestações são
possíveis ou não, mas se são teologicamente corretas.
Mas, pelo que já lemos acima e temos constatado em nossa
pesquisa sobre o assunto, essa doutrina não aparenta ser
nem um pouco bíblica.
O apóstolo Paulo relata: “... porque eu trago no meu
corpo as marcas [do grego stigmata] de Jesus” (Gl 6.17).
Então, segundo o texto bíblico, Paulo traz em seu corpo
as marcas ou os estigmas de Cristo.
No contexto geral da epístola de Gálatas, Paulo está
refutando os defensores da circuncisão. Esses
pseudo-apóstolos arvoravam que todos os cristãos
deveriam ter o estigma ou a marca da circuncisão
judaica. Paulo usa sua autoridade eclesiástica para
declarar que tal doutrina não era vinda da parte de Deus
e devia ser considerada como anátema (Gl 1.9). Ele
queria que os crentes de Gálatas tomassem conhecimento
da eficácia de seu apostolado, já que esse apostolado
estava alicerçado no evangelho da graça. Para o
apóstolo, o evangelho vivido não é notado com estigmas
(leia-se marcas) externos, mas no coração: “Todos os que
querem mostrar boa aparência na carne, esses vos obrigam
a circuncidar-vos, somente para não serem perseguidos
por causa da cruz de Cristo [...] As quais têm, na
verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção
voluntária, humildade fingida, e em disciplina do corpo,
mas não é de valor algum senão para a satisfação da
carne” (Gl 6.12; Cl 2.23).
A palavra grega stigmata traduz perfeitamente o que
ocorria com os escravos marcados ou estigmatizados a
ferro com os nomes de seus senhores. Possivelmente, era
o que Paulo queria transmitir, isto é, que ele já estava
marcado pelo sofrimento da obra de Cristo, que pertencia
ao seu Salvador e não precisava ser circuncidado para
tornar-se fiel a Deus. Além disso, estava assinalado
pelo selo do Espírito Santo (Ef 1.13) e comprado pelo
preço do sangue de Jesus (1Co 6.20). É bom notarmos
também que a Bíblia não fala que Paulo tinha furos nas
mãos ou nos pés, nem que seus estigmas eram literalmente
idênticos aos de Jesus na cruz, tudo é dito de maneira
ilustrativa e não literal.
O estigma do cristão não é feito do que é externo, mas,
sim, por meio de uma vida reta e santa diante de Deus:
“Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do
Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se
manifeste também nos nossos corpos; e assim nós, que
vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor de
Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também na
nossa carne mortal [...] Já estou crucificado com
Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a
vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de
Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim”
(2Co 4.10,11; Gl 2.20).
“Manifestações diabólicas e satânicas”
O sofrimento de Jesus na cruz foi único e singular.
Somente as chagas de Cristo têm o poder de abrir as
portas da salvação para o homem: “Tendo, pois, irmãos,
ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus,
pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo
véu, isto é, da sua carne” (Hb 10.19,20). O prazer do
Senhor é que sejamos felizes e livres de toda a dor:
“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas
enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o
reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas
ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e
moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que
nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras
fomos sarados” (Is 53.4,5).
Essa doutrina católica parece mais um malfazejo, pois os
estigmatizados sofrem terríveis flagelos e padecem de
tormentos espirituais, contrariamente à vontade de Deus
revelada em sua Palavra. A própria Igreja Católica, em
alguns casos de estigmas, declarou que tais
manifestações eram diabólicas e satânicas!
Podemos afirmar categoricamente que não há precedentes
bíblicos para corroborar com a doutrina da “estigmatização”.
Nunca houve um caso na época apostólica ou mesmo depois,
pois, como vimos, tais ocorrências só começaram a se
manifestar em uma época em que o misticismo imperava na
mente das pessoas.
Verdadeiramente, não é da vontade de Deus que vivamos
essa terrível experiência, esse cálice só o Senhor
poderia beber e suportar (Mt 26.42)!
“Stigmata, o filme” - sinopse
“Stigmata” conta a história em que Frankie Paige
(Patrícia Arquette), uma mulher sem nenhum tipo de
crença religiosa, começa a sofrer os “Estigmas, as cinco
chagas que Cristo sofreu antes de morrer. Baseado nos
manuscritos do evangelho apócrifo de Tome, encontrados
em 1945. O caso chega aos conhecimentos do Padre Kierman
(Gabriel Byrne), um investigador do Vaticano,
responsável por investigar casos como a veracidade e de
supostos santos.
O filme começa numa fictícia cidade brasileira chamada
“Belo Quinto” que, supostamente, ficaria no Sudoeste do
Brasil, onde todos os habitantes se parecem com índios
peruanos ou andinos, em geral, e onde todos falam uma
mistura do português de Portugal com uma língua nativa
qualquer, que torna tal idioma completamente
indecifrável.
Como muitas outras produções de Hollyood, o filme é
chocante pelas cenas de extrema violência, blasfêmias a
Deus, exorcismos e provocações a fé cristã. No entanto,
é um material de pesquisa interessante, por levantar
questões como a existência de manuscritos, a formação do
cânon bíblico, o comportamento da Igreja Católica sobre
temas de fé e misticismo.
Diferente de um filme que vale tudo, na vida real nenhum
estigmatizado apresentou as feridas do inicio ao fim na
presença de terceiros, apenas sangram quando não são
observados.
Bibliografia e sites pesquisados:
Kinigth & Anglin, História do cristianismo, 2.ed., CPAD;
Nascimento, Luiz A., Carta aos gálatas, CPAD;
Mather & Nichols, Dicionário de ocultismo, Editora Vida;
Rodo, Scott; Milagres, 1994, Editora Ibrasa, São Paulo.
http://www.hipnologia.hpg.ig.com.br/Artigos/estigma.html
Notas:
1 A hipótese heliocêntrica sobre o sistema solar
sustentava ser o sol o centro do universo, girando a
terra e os demais planetas ao seu redor.
2 Teoria que afirma que a terra está no centro do
sistema solar e que os demais corpos giram ao redor
dela. Pressupõe que a terra é imóvel e que o sol se
desloca em círculos em torno dela, dando origem aos dias
e às noites.
3 Médico considerado um dos mais renomados especialistas
em parapsicologia e autor do maior número de livros
sobre o assunto já publicados no mundo, documenta e
examina centenas de exemplos impressionantes de
levitação, Estigmas que sangram, imagens e visões
milagrosas, imagens que choram, e vários outros casos
menos conhecidos, mas igualmente notáveis.
4 Professor de Filosofia do Sacramento City College e
autor do Dicionário do cético (Skeptic’s Dictionary),
obra que traz definições, argumentos e ensaios
relacionados ao sobrenatural, oculto, paranormal e
pseudocientífico.
5 Psicopatia cujos sintomas se baseiam em conversão. É
caracterizada por falta de controle sobre atos e
emoções, ansiedade, sentido mórbido de autoconsciência,
exagero do efeito de impressões sensoriais e por
simulação de diversas doenças.
6 Relativo a visões. Que tem idéias extravagantes,
excêntrico. Aquele que tem visões ou acredita em
fantasmas.
7Adaptado do livro Milagres, Scott Rogo, Editora Ibrasa,
994, p.111-2.
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