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Uma resposta
cristã ao islamismo sobre o Alcorão
Por Joseph P. Gudel
O islamismo e o cristianismo são as duas religiões de
maior porte e mais missionárias do mundo. Suas crenças
são semelhantes em muitos aspectos. Ambas são
monoteístas, foram fundados por um indivíduo específico
em um contexto definido e historicamente verificável.
São universais e crêem na existência de anjos, do céu,
do inferno e de uma ressurreição futura. E mais: que
Deus se fez conhecer ao homem por meio de uma revelação.
Entretanto, existem também diferenças óbvias entre elas,
particularmente em relação à pessoa de Jesus, ao caminho
de salvação e à escritura ou escrituras de fé. Essas
diferenças abarcam as doutrinas mais fundamentais de
cada religião. Assim, mesmo que o islamismo e o
cristianismo tenham alguns pontos em comum, não podem
haver duas verdades quando uma não concorda com a outra.
O islamismo, assim como o cristianismo, acredita que a
fé de uma pessoa deve ser razoável tanto quanto
subjetiva, uma vez que devemos adorar a Deus com a mente
e o coração. Ao compartilharmos dessa mesma base com os
muçulmanos, podemos examinar por que eles crêem no que
crêem. Nossa tarefa é analisar a apologética de cada
religião ou a defesa de sua fé para ver se as
declarações de cada uma delas são verificáveis. Daremos
uma atenção especial à escritura ou escrituras de cada
fé. A razão para isso deve ser evidente por si mesma: é
muito fácil alguém fazer declarações a respeito de si
mesmo, mas prová-las é um assunto totalmente diferente.
A escritura sagrada do islamismo: o Alcorão
A fonte de autoridade mais respeitada do islamismo é o
Alcorão. Para os muçulmanos, esta é a palavra pura de
Deus, sem nenhuma mistura de pensamento ou teor humano.
De fato, muitos muçulmanos possuem um zelo tão intenso
pelo Alcorão que ficam ressentidos profundamente se um
não-muçulmano não o possui. O termo “corão” vem de “uma
palavra árabe que significa ‘leitura’ ou ‘recitação’” 1.
Os muçulmanos afirmam que o Alcorão foi dado a Maomé em
língua árabe, parte por parte, durante um espaço de
tempo de 23 anos até a sua morte (Suras 17.106; 43.3;
44.58). A apologética muçulmana do Alcorão cobre quatro
áreas principais: sua preservação, eloqüência, profecias
alegadas e compatibilidade com a ciência
moderna.Verificaremos uma por uma.
1. A afirmação islâmica da preservação do Alcorão
Referindo-se à autenticidade presente do Alcorão, Maulvi
Muhammad Ali faz a grandiosa declaração: “No que tange à
autenticidade do Alcorão, eu não preciso deter o leitor
por muito tempo. De um extremo do mundo ao outro, da
China no Extremo Oriente a Marrocos e Argélia no
Ocidente, das ilhas dispersar do Oceano Pacífico ao
grande deserto da África, o Alcorão é um, e nenhuma
cópia que difira sequer num ponto diacrítico pode ser
encontrada em posse de um dos 400 milhões de muçulmanos”
2. “Há, e sempre houve, seitas rivais, mas o mesmo
Alcorão é a posse de um e de todos... Um manuscrito com
a mais leve variação no texto é desconhecida” 3.
Assim, os muçulmanos não apenas acreditam que o Alcorão
seja a Palavra de Deus, mas também estão seguros de que
nenhum erro, alteração ou variação tocou-o desde seu
começo. Logo, esta é uma de suas “provas” de que o
Alcorão é um milagre de Deus.
Resposta cristã à preservação do Alcorão
Mohammad Marmaduke Pickthall, em “The Meaning of The
Glorious Koran”, diz-nos que na época da morte de Maomé
as suratas (ou capítulos) do Alcorão ainda não haviam
sido compiladas. Isto foi completado apenas durante o
califado de Abu Bakr 1. O segundo Califa, Omar,
“subseqüentemente fez um único volume (mus-haf) que ele
preservou e deu na ocasião de sua morte à sua filha
Hafsa, a viúva do Profeta”2. Finalmente, sob o califado
de Uthman, ordenou-se que todas as cópias do Alcorão
fossem trazidas e qualquer uma que divergisse do texto
de Otman foi queimada.
Não discutimos a posição islâmica de que desde a revisão
de Otman o Alcorão permaneceu intacto. Entretanto, por
causa da destruição de todas as cópias discordantes
ninguém pode saber com certeza se o Alcorão como temos é
exatamente o mesmo que Maomé os entregou. O islamismo
ensina que a única razão pela qual Otman queimou todas
as outras coletâneas do Alcorão era porque haviam
variações dialéticas de somenos importância nos
diferentes textos. Entretanto, há algumas evidências que
tendem a refutar isto.
Em primeiro lugar, é muito significativo que os “Qurra”,
os muçulmanos que memorizaram o Alcorão completo, foram
contrariados veementemente pela revisão. Em segundo, os
xiitas, segunda maior seita no mundo islâmico, declaram
que o Califa Otman eliminou intencionalmente muitas
passagens do Alcorão que se relacionavam a Ali e à
sucessão da liderança que ocorreria depois da morte de
Maomé.
L. Bevan Jones, em sua obra “The People of the Mosque”,
responde sucintamente o argumento muçulmano para a
suposta preservação miraculosa do Alcorão: “Mas
conquanto possa ser verdade que nenhuma outra obra tenha
permanecido por doze séculos com um texto tão puro, é
igualmente provável verdade que nenhum outro tenha
sofrido tamanho expurgo” 3.
Uma segunda asserção que fazem para provar a origem
sobrenatural do Alcorão encontra-se na Sura (capítulo)
17.88, que diz: “ainda que os homens e os djins (gênios)
se reúnam para produzir um Alcorão, jamais o
conseguirão, nem mesmo ajudando-se uns aos outros”.
Usando este texto dizem que a sua beleza e eloqüência
são provas auto-suficientes de que seu autor é Deus. Em
uma nota de rodapé na sua tradução do Alcorão, Yusuf Ali
declara: “nenhuma composição humana poderia conter a
beleza, poder e discernimento espiritual do Alcorão” 4.
Entretanto, os muçulmanos não acreditam que o Alcorão
seja um milagre somente por causa de sua eloqüência e
beleza, mas também porque a sura 7.157 refere-se a Maomé
como “o profeta iletrado”. Acreditando que ele era
analfabeto, eles perguntam como tal homem poderia
produzir o Alcorão.
Uma declaração final a respeito da realização literária
do Alcorão é que ele é tão coerente do começo ao fim que
nenhum homem poderia tê-lo arquitetado. Suzanne Haneef
pergunta: “Como o Alcorão inteiro poderia ser tão
completamente coerente” se não se originou de Deus” 5.
Resposta cristã à eloqüência do Alcorão
A respeito da beleza, estilo e eloqüência do Alcorão,
qualquer leitor imparcial teria de admitir que
certamente isso é verdade na maior parte dele.
Entretanto, a eloqüência por si mesma é dificilmente um
teste lógico para a inspiração. Se esse fosse o critério
utilizado para julgar uma obra, então teríamos de dizer
que os autores de muitas das grandes obras da
antiguidade foram inspirados por Deus. Homero teria de
haver sido um profeta para produzir a magnífica Ilíada e
a Odisséia. Na língua inglesa, Shakespeare é ímpar como
dramaturgo. Mas seria um absurdo que por causa disso
disséssemos que suas tragédias tiveram inspiração
divina. O mesmo poderia ser dito em relação à eloqüência
do Alcorão.
Mas, e a respeito da coerência do Alcorão? Pode ser
utilizada para demonstrar que esta escritura muçulmana
foi inspirada? Para começar, pode-se mostrar que o
Alcorão não é totalmente coerente, mas ao contrário,
possui contradições de vulto nele 6. E ainda que
consentíssemos com a tese de que o Alcorão é totalmente
concorde, isto ainda não provaria coisa nenhuma. Em um
ensaio intitulado “How Muslims Do Apologetics”, o dr.
John Warwick Montgomery demonstra isto para nós: “Esta
apologética é também de pouco efeito porque a coerência
de um escrito não prova que seja uma revelação divina. A
geometria de Euclides, por exemplo, não se contraria a
si mesma em nenhum ponto, mas ninguém afirma que por
isso essa é uma obra divinamente inspirada em algum
sentido excepcional” 7
E, por fim, o que dizer a respeito do suposto
analfabetismo de Maomé? Antes de qualquer coisa, há
bastante evidência contra isso. Mas ainda que
aceitássemos o fato de que Maomé não podia ler nem
escrever, isso não faria o Alcorão miraculoso. Por quê?
Porque todos os muçulmanos sabem que ele deveria ter
pelo menos vários amanuenses ou escribas e, portanto,
ele poderia facilmente ter composto o Alcorão dessa
forma, o que não seria excepcional, pois há precedentes
para isso. Um exemplo que seria familiar à maioria das
pessoas diz respeito a Homero. Ele era cego e, com toda
probabilidade, não podia escrever. Ainda assim ele foi o
autor da Ilíada e da Odisséia, os dois maiores épicos do
mundo antigo. Da mesma maneira, se Maomé era ou não
realmente analfabeto não tem relação com o caso em
questão.
3. A afirmação islâmica sobre as profecias do Alcorão
O Alcorão fala muito pouco profeticamente, se de fato
ele profetiza. Daí, poucos apologistas muçulmanos
utilizarem a “profecia cumprida” como prova de sua fé.
Entretanto, há uma série de versículos no Alcorão que
prometem que os muçulmanos serão vitoriosos tanto em seu
próprio país como no exterior8. Maulana Muhammad Ali
discute estas profecias detalhadamente em sua obra “The
Religon of Islam”: “... nós encontramos profecia após
profecia publicada nos termos mais seguros e certos no
sentido de que as grandes forças de oposição seriam
arruinadas... que o islamismo se espalharia para os
cantos mais longínquos da terra e que seria finalmente
triunfante sobre todas as religiões do mundo”9.
Resposta cristã às profecias do Alcorão
Podemos dizer que a vasta expansão do islamismo, predita
por Maomé, é o cumprimento de alguma profecia? Se
pensarmos nisto por um momento creio que podemos
facilmente responder não. Para começar, um líder
prometendo uma vitória às suas tropas ou seguidores no
mínimo não é nem um pouco excepcional. Todo comandante
ou general o faz a fim de inspirar seu exército e
levantar o seu ânimo. Se, então, eles, os seguidores,
são vitoriosos, ele, o líder, é vindicado; se os
seguidores perdem, então deixamos de ouvir as promessas
do líder, porque elas, junto com o movimento, são
esquecidas. Além disso, os muçulmanos tinham vários
incentivos importantes para considerar enquanto lutavam
para promover a causa do islamismo. Se morressem, seriam
admitidos no paraíso: “Os que crêem e praticam o bem,
conduzi-los-emos para jardins onde correm os rios, e lá
permanecerão para todo o sempre, e lá terão esposas
imaculadas, e lá desfrutarão de uma sombra densa” (Sura
4.57). E ainda: “naquele dia os moradores do Paraíso em
nada pensarão a não ser na sua felicidade. Junto com
suas esposas, reclinar-se-ão sob arvoredos sombreados em
sofás macios” (Sura 36.55,56). Além disso, se
continuassem vivos e fossem vitoriosos na batalha, os
soldados muçulmanos poderiam dividir quatro quintos do
despojo.
Há outra razão para que o islamismo se expandisse tão
rapidamente no início. Se olharmos para algumas das
imposições do Alcorão a respeito do que os incrédulos
poderiam esperar das mãos dos muçulmanos, fica fácil
entender porque tantos “submeteram-se”, como encontramos
na Surata 5.33: “O castigo dos que fazem a guerra a Deus
e a Seu Mensageiro e semeiam corrupção na terra é serem
mortos ou crucificados ou terem as mãos e os pés
decepados, alternadamente, ou serem exilados do país:
uma desonra neste mundo e um suplício Além” 10. Os
politeístas tinham duas escolhas: submissão ou morte. Os
cristãos e os judeus tinham uma terceira alternativa:
pagar pesados tributos (Sura 9.5,29).
Um último ponto a ser considerado: se o crescimento
rápido e amplo de um movimento indicasse o favor divino,
então o que diríamos de conquistadores como Genghis Khan?
Ele consolidou as tribos mongóis e, em um espaço de
tempo mais curto do que o do islamismo antigo,
conquistou uma área geográfica muito maior. Seu sucesso
militar evidenciaria que ele era dirigido por Deus? E o
que dizer a respeito do próprio crescimento do
islamismo, freado no Ocidente por Carlos Martel
(a.D.732) e no Oriente, por Leão III (a.D.740)?
Significaria que eles haviam perdido o favor de Alá. E
sobre a história posterior de muitas nações islâmicas
que sofreram o ultraje de se tornarem colônias das então
potências mundiais? Não, não podemos encontrar nada
misterioso ou sobrenatural sobre o surpreendente
crescimento primitivo do islamismo e sua subseqüente
queda.
4. A afirmação islâmica sobre a ciência e o Alcorão
Finalmente, existe uma obra, “A Bíblia, o Alcorão e a
Ciência”, escrita por um cirurgião francês chamado
Maurice Bucaille que tenta demonstrar a origem divina do
Alcorão ao revelar sua supostamente notável afinidade
com a ciência moderna. Depois de citar alguns exemplos,
Bucaille conclui que: “...levarão a julgar inconcebível
que um homem, vivendo no século VII da era cristã,
pudesse, sobre os assuntos mais diversos, emitir no
Alcorão idéias que não são só de sua época, e que
concordarão com o que se demonstrará séculos mais tarde.
Para mim, não existe explicação humana para o Alcorão”
11.
Resposta cristã à ciência e ao Alcorão
Ao responder Bucaille devemos primeiro salientar que a
maior parte do livro não trata do Alcorão e da ciência.
Em contrário, sua maior parte é uma tentativa
(utilizando-se das técnicas de autocrítica) de
desacreditar a Bíblia. As porções de seu livro que
tentam mostrar que o Alcorão está em concordância
surpreendente com o conhecimento científico são muito
vagas. Mas, e se nós concordássemos com sua tese de que
as afirmações do Alcorão estão em total harmonia com a
ciência moderna? Bucaille declara que se isto fosse
verdade então “esta última constatação torna inaceitável
a hipótese daqueles que vêem em Mohammad o autor do
Alcorão” 12.
Concordo com sua conclusão e suponho que sua tese seja
verdadeira. Se o Alcorão contém afirmações científicas
detalhadas, descobertas recentemente como sendo
verdadeiras, e se foram escritas no sétimo século a.D.,
então poderia não ser simplesmente produção de Maomé.
Mas isto não indica a fonte de informação, apenas
demonstra que nenhum ser humano poderia tê-lo escrito
sem a ajuda sobre-humana.
Se de fato o Alcorão teve uma origem sobrenatural, ainda
somos deixados com a tarefa de encontrar quem foi essa
fonte. Bucaille presume que foi Deus. Por quê? Se
pararmos e pensarmos um momento, perceberemos que há
outros seres sobrenaturais além de Deus. Um destes seres
é conhecido na Bíblia como Satanás, assim como no
Alcorão. A Bíblia nos diz que ele está na terra há tanto
tempo quanto o homem, tem poder e inteligência muito
superiores aos nossos e é o “pai da mentira” (Jo 8.44).
Sussurrar alguns fatos científicos nos ouvidos de alguém
não seria uma grande proeza para ele. Para dizer a
verdade, a Bíblia diz que ele aparece aos homens de
tempos em tempos: “porque o próprio Satanás se
transforma em anjo de luz” (2Co 11.14).
É interessante que este tenha sido exatamente o temor
inicial que Maomé sentiu a primeira vez em que a voz lhe
falou.
Notas:
1 What Everyone Should Knou Islam and Muslims. Suzanne
Haneef. Chicago: Kazi Publications. 1979. Pág. 18.
2 Esta era a população islâmica aproximada quando este
livro foi publicado em 1921. Hoje a população muçulmana
está estimada entre um bilhão e duzentos milhões.
3 Muhammad and Christ. Maulvi Muhammad Ali. Lahore,
Índia: The Ahmadiyya Anjuman-i-Ishaat-i-Islam, 1921.
Pág. 7.
1 The Meaning of the Glorious Koran. Mohammed Marmaduke
Pickthall. New York: New American Library, 1963. Pág.
xxviii.
2 A Bíblia, Alcorão e a Ciência. Maurice Bucaille. Ed.
Revista e adaptada Samir El Hayek (S.Bernardo do Campo,
Junta de Assistência Social Islâmica Brasileira). Pág.
130.
3 The People of the Mosque. L. Bevan Jones. London:
Student Christian Movement Press, 1932. Pág. 62.
4 THE HOLY QUR-AN: Text, Translation and Commentary.
Abdullah Yusuf Ali. Qatar: Qatar National Printing Press,
1946. Pág. 401.
5 What Everyone Should Knou Islam and Muslims. Suzanne
Haneef. Chicago: Kazi Publications, 1979. Pág. 30.
6 Devido à falta de espaço este argumento não pode ser
prosseguido aqui. O leitor poderá escrever para o autor
aos cuidados do ICP nos EUA para maiores informações
sobre este assunto.
7 Faith Founded on Fact. John Warwick Montgomery.
Nashville: Thomas Nelson Publishers, 1978. Pág. 94.
8 Alcorão 3.12; 41.53; 14.13-14.
9 The Religion of Islam. Maulana Muhammad Ali. Lahore,
Pakistan: The Ahmadiyyah Anjuman Isha’at Islam, 1950.
Pág. 249.
10 Também de acordo com o Alcorão 4.47.
11 Maurice Bucaille A Bíblia, Alcorão e a ciência, Ed.
Revista e adaptada Samir El Hayek (S.Bernardo do Campo,
Junta de Assistência Social Islâmica Brasileira). Pág.
152.
12 Maurice Bucaille A Bíblia, Alcorão e a ciência, Ed.
Revista e adaptada Samir El Hayek (S.Bernardo do Campo,
Junta de Assistência Social Islâmica Brasileira). Pág.
151.
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