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Os valores
internos e externos da circuncisão
Por Luiz Gama
Na Bíblia, vemos que os “filhos de Israel (ou hebreus,
como eram chamados naquele tempo) entravam em aliança
com Deus por meio de três ritos: a circuncisão (berit-milá),
a imersão (tevilá) e o oferecimento de um sacrifício (corbán)”1.
Abraão foi a primeira pessoa a aceitar o chamado divino
para sair “... da tua terra, e da tua parentela, e da
casa de teu pai...” (Gn 12.1) em obediência à voz de
Deus. Esta aceitação foi selada pelo sinal da aliança:
“Este é o meu concerto, que guardareis entre mim e vós e
a tua semente depois de ti: Que todo o macho será
circuncidado. E circuncidareis a carne do vosso
prepúcio; e isto será por sinal do concerto entre mim e
vós. O filho de oito dias, pois, será circuncidado; todo
o macho nas vossas gerações, o nascido na casa e o
comprado por dinheiro a qualquer estrangeiro, que não
for da tua semente. Com efeito, será circuncidado o
nascido em tua casa e o comprado por teu dinheiro; e
estará o meu concerto na vossa carne por concerto
perpétuo. E o macho com prepúcio, cuja carne do prepúcio
não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada dos
seus povos; quebrantou o meu concerto” (Gn 17.10-14).
A circuncisão foi o primeiro mandamento observado por
Abraão cuja idade já era bem avançada: “Era Abraão da
idade de noventa e nove anos, quando lhe foi
circuncidada a carne do seu prepúcio. E Ismael, seu
filho, era da idade de treze anos, quando lhe foi
circuncidada a carne do seu prepúcio” (Gn 17.24-25).
Quando os hebreus estavam prestes a celebrar a Páscoa (Pêssach,
em hebraico), Moisés circuncidou todos os homens. Fez
isso para que pudessem ser contados como participantes
das promessas divinas e, assim, tivessem o direito de
participar do cordeiro pascal (Êx 12.48) sem nenhum
problema. “A circuncisão tornou-se um sinal de
identificação com o povo da aliança” 2.
Conforme vimos nos textos acima, a circuncisão passou a
ser praticada pelos patriarcas desde antes da
promulgação da lei mosaica. E até hoje é considerada a
mais importante cerimônia do judaísmo. Nenhuma
comemoração ou data deve impedir o menino judeu de fazer
a circuncisão, nem mesmo o sábado (Shabat) ou o Dia da
Expiação (Yom Kipúr). Somente em caso de saúde cuja
gravidade possa comprometer a vida do infante esta
cerimônia será adiada para outro dia após o oitavo dia
do nascimento. Para o judeu, “o dia mais sagrado do
calendário judaico é o sábado. A punição na Bíblia por
violar o Shabat é muito mais severa do que por violar o
Yom Kipúr3. A primeira gera morte, e a segunda,
excomunhão.
Mesmo que o oitavo dia coincidisse com o sábado a
criança era circuncidada: “Porque Moisés vos deu a
circuncisão (embora na realidade ela não venha de
Moisés, mas dos patriarcas), no sábado circuncidais um
homem. Ora, se o homem pode receber a circuncisão no
sábado, para que não se viole a lei de Moisés, por que
vos indignais contra mim por eu ter curado o homem todo
no sábado?” (Jo 7.22-23).
A circuncisão e a ciência
Quanto ao aspecto de a circuncisão ser obrigatoriamente
praticada no oitavo dia após o nascimento, um fato
interessante: a medicina constatou que é justamente
nesse período que o sangue da criança coagula mais
facilmente, proporcionando rápida cicatrização. “Este
assunto foi abordado por dois cientistas que afirmam que
o bebê tem uma sensibilidade especial para sangramentos
nos primeiros dias de vida e qualquer hemorragia, por
menor que seja, pode trazer grandes danos para a
criança, e até a morte. Isto porque a base principal
para a coagulação sanguínea, a vitamina K, só chega ao
nível ideal no sétimo dia de vida. Também outro elemento
necessário para a coagulação sanguínea, a protombina,
atinge o seu nível máximo somente no oitavo dia de vida;
chega até a estar acima do nível normal – 110%. Depois
disso decresce e estabiliza-se em 100%. Está claro,
então, que o primeiro momento mais seguro para a
realização da milá é o oitavo dia, tanto pela quantidade
de vitamina K quanto de protombina” 4. Pela perspectiva
médica, a circuncisão é aconselhável como uma medida
sanitária. Hoje, muitos hospitais nos Estados Unidos
utilizam a circuncisão como um processo rotineiro.
Originalmente, era obrigação do pai circuncidar seu
filho. O primeiro exemplo foi Abraão que circuncidou
Isaque quando ele tinha oito dias de idade (Gn 21.4).
Mas, atualmente, a circuncisão é realizada por um
profissional chamado Mohel em hebraico, pessoa treinada
e especializada para executar tal operação. O homem que
segura a criança é chamado sandec, título derivado do
grego que significa “padrinho”. Em hebraico, ele é
conhecido como baal berit, que quer dizer “chefe da
circuncisão”, pois assume posição central (de grande
responsabilidade) durante a cerimônia.
Durante todo o ritual da circuncisão, um assento é posto
ao lado da cadeira reservada para o sandec. “Esta
cadeira, que permanece vaga, é reservada para o profeta
Elias que, de acordo com a tradição, presencia cada
berit para proteger a criança do perigo”5. Todos os
presentes acompanham a cerimônia da circuncisão de pé,
em reverência à ordenança divina. Antes e depois da
circuncisão são pronunciadas as bênçãos. Em seguida, é
dado o nome da criança. “A retirada de sangue é
conhecida como hatafat dam berit, ou seja, extração de
sangue da Aliança” 6. Se o pai for capaz de realizar a
circuncisão, não é permitido a ele delegar a função a
nenhuma outra pessoa. Precisamos esclarecer que não é
por meio da cerimônia da circuncisão que o menino é
iniciado no judaísmo, isso ocorre no nascimento. A
circuncisão é o cumprimento na vida do menino judeu que
irá refletir sua fé interior no pacto que Deus selou com
seu povo. O Talmude (San’hedrin 44ª) declara: “que um
judeu permanece judeu para sempre, mesmo se ele cometer
um pecado. Como pecador, ele pode perder certos
privilégios, mas não perde seus direitos de judeu”7.
Todavia, entre os judeus não há uma definição de quem é
judeu. Existem duas maneiras de se fazer parte da
comunidade judaica:
1) Segundo o rabino Yits’chac Halevi Herzog, “somente é
judeu o nascido de mãe judia. Se a mãe não for judia e o
pai sim, o filho não é judeu. A única maneira pela qual
alguém cuja mãe não é judia pode tornar-se judeu é
convertendo-se. Para a conversão de uma mulher, é
necessária a imersão (micvá); para o homem, são
necessárias a imersão e a circuncisão. Aqueles que
nasceram judeus e os convertidos, declarou o rabino, são
judeus para sempre”8;
2) Para o primeiro-ministro de Israel David Ben Gurion
(1886-1973), “qualquer um que se declare judeu, viva
como tal e esteja interessado no bem-estar dos judeus é
considerado judeu, independente da fé professada por sua
mãe” 9.
A declaração do primeiro-ministro de Israel está de
acordo com a afirmação do apóstolo Paulo, que diz:
“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é
circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é
judeu o que o é no interior, e circuncisão, a que é do
coração, no espírito, não na letra, cujo louvor não
provém dos homens, mas de Deus” (Rm 2.28-29). O mais
importante é que a circuncisão tem um significado
espiritual de grande importância, pois demonstra que o
Eterno Deus requer de seu povo não somente uma aliança
externa na carne, mas determina pureza e compromisso
interiores, pela circuncisão do coração: “E o Senhor,
teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração de tua
semente, para amares ao Senhor, teu Deus, com todo o
coração e com toda a tua alma, para que vivas” (Dt
30.6); e ainda: “Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso
coração e não mais endureçais a vossa cerviz” (Dt
10.16). Podemos ver que a circuncisão do coração era um
requisito divino até mesmo para os israelitas que já
eram circuncisos na carne.
A verdadeira circuncisão
Uma análise mais profunda da circuncisão nos mostra que
este mandamento, dirigido a Abraão, é uma aliança eterna
com os filhos de Israel, isto é, uma aliança de
afinidade com o povo judeu, por meio da qual o Eterno se
compromete em tornar os descendentes de Abraão em uma
grande nação e em separá-los como um povo especial para
Ele (Gn 12.1-3). Assim, a circuncisão, para o judeu, não
é apenas um mandamento, mas uma identificação pessoal e
intransferível outorgada pelo Deus de Israel que o
diferencia de todas as outras nações. Não se trata
apenas de um costume, mas é o elo que mantém unido o
povo hebreu através dos séculos: “O povo judeu cumpre
com muito amor esta mitsvá (mandamento) há milhares de
anos. Só a ordem divina já nos dá motivação suficiente
para cumpri-lo” 10.
“Qual é, logo, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade
da circuncisão? Muita, em toda a maneira, porque,
primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas”
(Rm 3.1-2); e também “... a adoção de filhos, e a
glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as
promessas” (Rm 9.4). A circuncisão, como aliança, foi
dada por Deus a Abraão em um determinado tempo e espaço
com a intenção de gerar para si um povo santo: “Porque
eu sou o Senhor, que vos faço subir da terra do Egito,
para que eu seja vosso Deus, e para que sejais santos;
porque eu sou santo” (Lv 11.45). Portanto, “a
circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a
lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua
circuncisão se torna em incircuncisão” (Rm 2.25).
“Os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas
os que praticam a lei hão de ser justificados. Porque,
quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente
as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si
mesmos são lei, os quais mostram a obra da lei escrita
no seu coração, testificando juntamente a sua
consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os,
quer defendendo-os, no dia em que Deus há de julgar os
segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu
evangelho. Eis que tu, que tens por sobrenome judeu, e
repousas na lei, e te glorias em Deus; e sabes a sua
vontade, e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído
por lei; e confias que és guia dos cegos, luz dos que
estão em trevas, instruidor dos néscios, mestre de
crianças, que tens a forma da ciência e da verdade na
lei; tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti
mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas?
Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu,
que abominas os ídolos, comete sacrilégio? Tu, que te
glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da
lei? Porque, como está escrito, o nome de Deus é
blasfemado entre os gentios por causa de vós. Porque a
circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a
lei; mas, se tu és transgressor da lei, a tua
circuncisão se torna em incircuncisão. Se, pois, a
incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura, a
incircuncisão não será reputada como circuncisão? E a
incircuncisão que por natureza o é, se cumpre a lei, não
te julgará, porventura, a ti, que pela letra e
circuncisão és transgressor da lei? Porque não é judeu o
que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é
exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no
interior, e circuncisão, a que é do coração, no
espírito, não na letra, cujo louvor não provém dos
homens, mas de Deus” (Rm 2.13-29).
O apóstolo Paulo é taxativo: sem obediência, a
circuncisão se transforma em incircuncisão. “Mas agora
em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo
sangue de Cristo chegaste perto. Porque ele é a nossa
paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derribando a
parede de separação que estava no meio, na sua carne,
desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que
consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois
um novo homem, fazendo a paz, e pela cruz, reconciliar
ambos com Deus em um corpo, matando com ela as
inimizades” (Ef 2.13-16).
O mesmo apóstolo ainda afirmou que a verdadeira
“...circuncisão somos nós que servimos a Deus no
Espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não
confiamos na carne” (Fl 3.3). Esse argumento do apóstolo
Paulo gerou grande conflito, pois os judaizantes eram da
opinião de que a circuncisão era medida necessária para
salvação. Entendiam que a circuncisão fazia parte do
pacto abraâmico, e qualquer indivíduo que não fosse
circuncidado não poderia ter a esperança de ser salvo.
Logo, todos os circuncidados já estavam automaticamente
absolvidos de todo julgamento. “Entretanto, no dizer das
Escrituras, qual era o real valor da circuncisão?
a) A circuncisão era o sinal do pacto abraâmico, além de
ser um dos muitos privilégios de Israel, o que fazia
deles uma sociedade superior (Rm 9.4-5);
b) Tinha valor como preparação para melhores coisas
vindouras. Também falava sobre a santificação. Isso
teria lugar em Cristo. Falava de identificação com a
geração de Abraão, e isso, por sua vez, tipificava o que
Deus faria mediante o filho de Abraão, Jesus, o Messias;
c) Falava de um povo que seria separado para a santidade
e a salvação. Tornava os homens cônscios de que existiam
esses privilégios, e, sabendo-o, talvez os buscassem, se
ao menos fossem suficientemente sábios;
d) A circuncisão afetava o órgão gerador, e isso
simbolizava a produção de vida. A vida eterna está em
Cristo e os homens, por darem atenção à mensagem de Deus
e tomando parte em seu conceito, podem aprender acerca
da real fonte da vida;
e) Há uma real circuncisão, de ordem absoluta, isto é, a
circuncisão do coração. A santificação genuína leva os
homens à salvação (Rm 2.29);
f) A circuncisão era um mero sinal. A verdade
simbolizada era a salvação. Por igual modo, o batismo é
apenas um sinal, um símbolo, e não a substância, ou
qualquer parte da substância essencial da salvação (Cl
2.11)” 11.
Na nova aliança, o que precisa ser circuncidado é o
coração, e não a carne. Devemos cortar da nossa vida
tudo aquilo que seja desagradável e impuro aos olhos de
Deus. Muitos cristãos hoje são um testemunho vivo do
poder do Espírito Santo que transformou o seu modo de
pensar e agir (1Co 6.9-11; Gl 5.22-24; Ef 4.22-24).
O que é a circuncisão?
É a remoção da pele que cobre a glande, ou prepúcio, do
pênis. O verbo hebraico mul (circuncidar) é usado em
sentido literal e figurativo. O substantivo grego
peritomé (circuncisão) significa literalmente “cortar em
derredor” (Jo 7.22). O termo grego akrobystía é usado na
septuaginta grega para traduzir a palavra hebraica para
“prepúcio”, “incircuncisão”, e daí, “gentios” 1.
“A prática de cortar fora o prepúcio do pênis era usada
mesmo antes da época de Abraão” 2. Os egípcios
praticavam a circuncisão, e também os moabitas, os
amonitas e os edomitas. Mais tarde, os samaritanos que
aderiram aos requisitos especificados no Pentateuco
também foram circuncidados. Por outro lado, os assírios,
os babilônios (como todos os semitas orientais), os
gregos e notavelmente os filisteus não praticavam a
circuncisão. Estes últimos, especialmente, são
mencionados de modo depreciativo como “incircuncisos”, e
foi das lutas contra eles que Davi trouxe como troféu os
prepúcios (Jz 14.3; 15.18; 1Sm 14.6; 17.26; 18.25-27;
2Sm 1.20; 1Cr 10.4).
Notas:
1 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed.
Sefer. Vol 2. p. 138.
2 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed.
Sefer. Vol 2. p. 138.
3 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed.
Sefer. Vol 1. p. 257.
4 Nos Caminhos da Eternidade. Rabino Issac Dichi. pp.
146,147.
5 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed.
Sefer. Vol. 1. p.22.
6 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed.
Sefer. Vol 2. p. 141.
7 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed.
Sefer. Vol 2. p. 21.
8 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed.
Sefer. Vol 2. p. 19.
9 Livro Judaico dos Porquês. Alfred J. Kolatch. Ed.
Sefer. Vol 2. pp. 19-20.
10 Nos Caminhos da Eternidade. Rabino Issac Dichi. p.
145.
11 Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia.
R.N. Champlin / J.M. Bentes. Ed. Candeia. Vol. 1. p.
748.
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