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O Homem
“Que espécie de ser é esse que Deus criou?”
Por Clério Ximenes
O que é pecado? De acordo com a definição do
dicionarista Aurélio, a palavra pecado vem do latim
peccatu e significa “transgressão de preceito religioso.
Falta, erro; culpa, vício”. E complementa: “Pecado
original – o pecado de Adão e Eva, transmitido a todos
os seus descendentes, que nascem em estado de culpa”.
Segundo o Breve Catecismo de Westminster, “Pecado é
qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, ou
qualquer transgressão desta lei”. Outro Catecismo
importante, o de Heidelberg, traz como 3a. pergunta:
“Como você conhece sua miséria?”. E responde: “Pela lei
de Deus”. Em 1 João 3.4 temos: “(...) pecado é
transgressão da lei”.
No grego, os termos bíblicos usados para pecado são:
hamartia, que significa “ato pecaminoso, pecaminosidade”
(At 3.19); paraptoma, “transgressão, pecado, passo em
falso (Ef 2.1); anomia, “ilegalidade, transgressão,
pecado como estado mental, ato ilegal” (Mt 13.41); e
adikia, “injustiça, erro, impiedade, iniqüidade” (Rm
6.13).
No hebraico encontramos as seguintes palavras para
pecado: chata, que quer dizer “errar o alvo” (Êx 20.20);
aven, “agir com perversidade” (Is 53.6); pesha,
“revoltado” (Is 1.2); maal, “agir traiçoeiramente” (Js
7.1); marah, “rebelar, amargurar a Deus” (1Sm 12.13); e
marad, “ser desobediente” (Ne 9.26).
Conhecendo o homem
Mas o que é propriamente o pecado adâmico? Para
responder a essa indagação, faz-se necessário pesquisar
a história do próprio homem ou, mais acertadamente, da
humanidade.
O registro literário da origem do céu e da terra no
primeiro capítulo de Gênesis nos remete à criação do
homem. Segundo o texto, há um tipo de conselho especial
de Deus que precede a criação do homem segundo à sua
imagem e semelhança.
O que fazer para conhecer a história do homem? É certo
que esse conhecimento ocorre pela maneira com a criatura
responde às atividades de Deus. Observa-se no relato
bíblico que a criação do homem é acompanhada de uma
narrativa sobre a atitude desse homem no Paraíso. A ação
de Deus sempre foi um desafio para a decisão e o
cometimento, e a resposta do homem o retrato de sua
íntima condição.
Outra pergunta que deve ser levantada é: Que espécie de
ser é esse que Deus criou, entrando em diálogo e
convivendo diretamente com ele? Vê-se que a resposta
surge a partir da memória, do registro, do arquivo e do
documento do que o homem tem feito. A dignidade que ele
possui nasce do fato de haver Deus tomado a decisão de
ter comunhão com ele, de ter dignificado as obras de
suas mãos, de o haver chamado para a obediência e de o
ter zelado graciosamente para dirigir a sua própria
história.
É importante ressaltar que Deus não criou apenas um
homem, mas os homens, à sua imagem e semelhança. Na
conclusão de Gênesis 1.27, eles são designados como
macho e fêmea. Não foi apenas o homem, nem apenas a
mulher, mas os dois, em sua interdependência, que foram
criados à imagem de Deus, em comunhão com Deus e com
eles mesmos. E, de acordo com a bênção outorgada (Gn
1.28), eles são portadores dessa imagem não somente em e
para si mesmos, mas também em sua posteridade. A raça
humana, em cada uma de suas partes e em seu conjunto, é
organicamente criada à imagem e semelhança de Deus. A
Bíblia nunca fez pausa para uma reflexão sistemática
sobre o significado desta semelhança ou imagem divinas
no homem. Apenas o apresenta como uma inferência da
atividade criadora de Deus e em seguida, cala-se.
O primeiro homem
Originariamente, o primeiro homem foi chamado
simplesmente de “o homem” (ha-adam). É somente em
Gênesis 4.25, ou seja, depois da queda, que o nome Adão
aparece sem o artigo definido. O nome geral tinha se
tornado um nome pessoal. Da mesma forma, o nome Eva só é
registrado a partir de Gênesis 3.20, no contexto
imediatamente posterior à queda. Isso indica que o
primeiro homem (macho e fêmea), é a origem de toda a
raça humana. Segundo o texto bíblico, o homem foi
formado do pó da terra, mas recebeu de Deus o fôlego de
vida. Ele é um ser físico, mas também é um ser
espiritual, racional e moral. Da mesma forma a mulher
participa dessa natureza, pois foi criada não
simplesmente ao lado de Adão, mas a partir do homem,
tornando-se um ser vivo independente dele. Ela veio
depois de Adão e foi feita a partir dele, mas deve sua
existência exclusivamente a Deus. Ela é uma ajudadora,
uma auxiliadora, não uma amante ou muito menos uma
escrava, mas um ser livre, pensante, independente e
individual, que recebeu sua existência não do homem, mas
de Deus, possuindo, destarte, os mesmos direitos e as
mesmas obrigações que o homem - leia-se, que o macho.
Assim, a literatura bíblica registra a origem do homem,
tanto do macho quanto da fêmea.
A idéia da origem do homem está relacionada muito de
perto com a idéia da essência do homem. Muitos, em
nossos dias, dizem que o homem e o mundo, independente
de qual tenha sido sua origem e seu desenvolvimento no
passado, são o que são e continuarão sendo sempre assim.
A realidade permanece a mesma, independente de formarmos
uma idéia verdadeira ou falsa sobre ela. E o mesmo pode
ser dito sobre a origem de todas as coisas. O mundo
surgiu da forma que surgiu, e não da forma que
gostaríamos que ele tivesse surgido ou da forma que
supomos que ele tenha surgido. E a idéia que temos a
respeito da origem de todas as coisas está diretamente
relacionada com a idéia que temos a respeito da essência
de todas as coisas.
A narrativa de Gênesis mostra Deus criando todas as
coisas, inclusive o homem (macho e fêmea), colocando-o
em um jardim. O Senhor Deus lhe dá o direito de comer
livremente de todos os frutos das árvores do jardim,
exceto o de uma, o fruto da árvore do conhecimento do
bem e do mal. Mas o homem (macho e fêmea) toma do fruto
da árvore da exceção e come.
Queda dos anjos, queda do homem
Então, finalmente, chegamos ao que podemos chamar de
pecado adâmico? Não é bem assim. Primeiramente, tem-se
de descobrir a origem do mal (ou do pecado), pois certo
está que o pecado não surgiu pela primeira vez na terra,
mas no céu, na presença imediata de Deus, junto ao seu
trono. A literatura bíblica não dá um registro detalhado
sobre a criação e a queda dos anjos; ela nos diz somente
o que precisamos saber para que tenhamos algum
entendimento do homem e de sua queda. Ela não faz
considerações posteriores e não faz qualquer esforço no
sentido de satisfazer nossa curiosidade. Mas sabe-se que
os anjos existem, que um grande número deles “caiu” e
que essa queda aconteceu no começo do mundo e que
precedeu a queda do homem. O pensamento, o desejo, a
vontade de resistir a Deus surgiu primeiramente no
coração dos anjos. Além do mais, o homem não pecou
contra Deus exclusivamente por si mesmo, mas foi também
movido por algo de fora de si mesmo – pela “serpente”.
Não cabe aqui um estudo mais profundo sobre quem, o que
era ou o que representava essa “serpente”. Pode-se, no
entanto, traçar um íntimo paralelo entre ela e o que é
trazido depois pela literatura neotestamentária como
sendo Satanás. Desse Satanás veio a tentação ao homem.
Ela veio na forma de um ataque ao mandamento que Deus
dera de não comer do fruto da árvore do conhecimento do
bem e do mal. É certo que a tentação não vem de Deus,
pois Ele está acima da tentação. Quanto a esse assunto,
Tiago se expressa da seguinte maneira: “Deus a ninguém
tenta” (Tg 1.13).
Mas assim como Deus faz o bem, Satanás faz o mal.
Satanás exagerou o mandamento probatório e transformou-o
em uma tentação, um ataque secreto à obediência do
primeiro homem. Por meio dessa tentação sua intenção era
claramente fazer que o homem pecasse. Primeiro, o
mandamento que Deus tinha dado é representado como um
fardo arbitrariamente colocado sobre o homem, como uma
limitação infundada da liberdade humana. Assim, Satanás
lança no homem a dúvida sobre a justiça desse mandamento
e sua origem divina. Depois, a dúvida se desenvolve em
incredulidade, por meio do pensamento de que Deus deu
esse mandamento para impedir que o homem se tornasse
como Ele, conhecedor do bem e do mal. Essa incredulidade
é colocada a serviço da imaginação e faz que a
transgressão pareça ser, não um caminho para a morte,
mas um caminho para a vida, para a igualdade com Deus. A
imaginação, dessa forma, faz sua obra na inclinação e no
esforço do homem. Então o fruto da árvore proibida passa
a ter outra aparência. O desejo, sendo concebido dessa
forma, expulsa a vontade e carrega consigo o ato
pecaminoso.
Homem versus Lei
As Escrituras não nos oferecem nenhum tratamento
filosófico a respeito da depravação humana. É o homem
totalmente ou parcialmente depravado? Deve a sua
condição miserável à corrupção moral inata e à tendência
para o mal ou ao mau uso da escolha livre, seguindo o
exemplo de Adão? (Agostinho versus Pelágio). O homem
está predestinado à salvação ou à destruição? É o homem
recipiente ou não-recipiente da graça irresistível ou
tem ele a capacidade dentro de si para aceitar ou
rejeitar a eleição e a graça? (calvinismo versus
arminianismo). A Bíblia não nos dá resposta clara,
distinta e incontrovertível a esse respeito, porque
essas questões não passam de cogitação intelectual sobre
o homem como “substantivo” e desviam o foco de atenção
da narrativa flexível, tocante, que é o espelho da vida
humana, para uma dogmática elaborada em proposições e
formando um sistema. Assim, o movimento dinâmico que
caracteriza a narrativa bíblica é transformado em um
paradoxo racional que a mente, sem dúvida, tenta
resolver tomando uma ou outra dimensão.
Além disso, a teologia cristã tem-se inclinado a pensar
que o homem adquire o conhecimento do pecado por meio do
confronto com a lei que o leva a perceber-se sob a
perspectiva daquilo que ele deveria ser. Conforme
mencionado no início deste artigo, o Breve Catecismo de
Westminster afirma que “pecado é toda carência de
conformidade à lei de Deus e a violação dela”. O próprio
Melanchton definiu o pecado como “a afeição depravada, a
moção corrompida do coração contra a lei de Deus”.
Todavia, o perigo de tal ênfase exclusiva é sempre uma
visão forense (leia-se legal) do pecado que obscurece o
que a narrativa bíblica torna claro e evidente, isto é,
que todo pecado é contra Deus e não contra um postulado
formal e legal. Da mesma forma que toda a adoração no
sentido bíblico é definida ou como idólatra ou como
dedicada totalmente a Deus, e nunca a nenhum outro ser,
assim também o pecado é fundamentalmente uma violação da
relação pessoal com Deus. É certo que os reformadores
perceberam esse ponto e o realçaram com especial clareza
em contraste com os ensinos da Igreja medieval. Mesmo
assim, o perigo de simplificar em demasia a Bíblia por
meio de proposições abstratas ainda permaneceu e está
especialmente evidente no período pós-Reforma, chegando
com um grau acentuado até os nossos dias. As raízes e as
ocasiões do pecado na acepção bíblica são tão variadas
quanto a vida e a história. Muito mais está envolvido do
que simplesmente a lei.
Assim, é duvidoso afirmar que é possível aclarar o
conhecimento humano do pecado somente pela lei, em vista
da narrativa bíblica. Pois a história retrata os atos de
Deus e as ações humanas como resposta, e outra vez a
obra de Deus em réplica ao que o homem faz, e assim por
diante. É um movimento no contexto dos eventos, e o
homem, via de regra, não está consciente do seu pecado
enquanto não se confrontar com a ação subseqüente de
Deus como julgamento. Por isso, não é somente a lei que
traz ao homem a noção do pecado, embora, por certo, a
lei tenha sido interpretada como a expressão da vontade
de Deus no plano da História. São especialmente os atos
de graça e juízo de Deus que descobrem a verdadeira
natureza do comportamento humano, bem como seus motivos
ocultos. Definir o pecado como fundamentalmente uma
violação da lei redunda em intelectualizar e formalizar
sua natureza de tal maneira que o movimento pessoal e
ativo da história bíblica se desloca para o fundo
obscuro, fora de foco, mesmo se não for ignorado.
Compreendendo a História
Então, como tratar o material bíblico referente ao
homem? Voltamos à velha pergunta. Pode-se fazer
considerações, observando apenas o que o homem faz na
imensa variedade de situações que ele enfrenta na
História e os efeitos sobre suas atividades, deixando de
lado qualquer indagação abstrata do que o homem é em sua
essência.
No entanto, o prefácio bíblico (Gn 1-11) mostra que
precisamos começar com certos pressupostos concernentes
ao homem no mundo que, por vez, são inferências
derivadas da reflexão sobre a história da atividade
divino-humana como um todo. A natureza reta e justa de
Deus como se revela, no que a Teologia Bíblica
convencionou chamar de kerygma, indica que não é
permissível sustentar uma concepção pessimista de que o
mundo é mau. A criação de Deus é boa porque Deus é bom.
No entanto, a vida humana, na medida em que a percebemos
na História, não é absolutamente boa. A Bíblia se
caracteriza por não procurar explicar essa condição
humana. O que ela faz, no máximo, é tentar descrevê-la
em forma narrativa.
Que existe o pecado e a miséria é algo que todos nós
sabemos, não apenas por causa do registro das
Escrituras; isso é algo que nos é ensinado diariamente e
em todos os momentos por uma natureza que “geme com
gemidos inexprimíveis”. Todo o mundo está marcado pela
queda (animal - racional ou irracional, vegetal e
mineral). E se o mundo ao nosso redor não nos
proclamasse essa verdade, mesmo assim seríamos lembrados
a todo o momento disso pela voz da consciência, que
continuamente nos acusa, e pela miséria do coração, que
dá testemunho de uma tristeza inominável.
Tudo na vida do homem constitui uma antítese à intenção
de Deus para com o homem, de acordo com o que se revelou
no Jardim do Éden. Ora, a existência humana é uma
contínua batalha com a tentação - a serpente (Gn 3.15)
por um lado e, por outro, a luta com a terra para a sua
sobrevivência. A dor e a luta pelas quais passamos
devem-se à maldição que Deus lançou, não sobre nós como
criaturas viventes, mas sobre a natureza com que
pelejamos e na qual fomos colocados (Gn 3.19ss). Até
mesmo a árvore da vida está afastada do homem, embora
não fosse declarada com precisão se era ou não intenção
de Deus que o homem comesse do fruto no Jardim. Assim,
não é muito evidente se o autor pretendia inferir no
fato de que o homem fora criado para viver sem a morte.
Seu pensamento está mais focalizado na situação atual da
vida do homem do que nas possibilidades originais do
homem. A Teologia posterior supôs, e naturalmente não há
nenhum erro nisso, a relação direta do pecado com a
morte física; por exemplo: 1Co 15.21s.
Assim, a razão pela qual Deus sentenciou a vida humana
está descrita com simplicidade no capitulo 3 de Gênesis.
É a auto-asserção de que o homem fez o que Deus lhe
havia proibido fazer. Nesse ato deliberado de
desobediência, o homem chegou a atingir o conhecimento
do bem e do mal. Na desobediência ativa, o homem
torna-se cônscio do mau uso a que o bem pode ser
submetido. Em seu ato desobediente, o homem fez uso de
sua mente para racionalizar o que estava fazendo, para
que o ato não lhe aparentasse um mal. Sua natureza
verdadeira tornou-se evidente somente quando ele foi
confrontado com o juízo de Deus. Nesse confronto, não
conseguiu êxito e teve de culpar o tentador, fugindo,
assim, à aceitação da responsabilidade.
Por que o homem foi criado para agir desse modo
característico? A história não nos dá uma resposta. O
que ela nos diz é que este é simplesmente o modo como o
homem é. Não é a intenção de Deus que ele seja desse
modo. Porém, o homem usa sua vontade e mente para agir
contra Deus e, por causa do orgulho, ele não pode expor
sua culpa diante de Deus e reabilitar-se em confissão e
arrependimento sinceros. Conforme essa história, o
pecado fundamental da humanidade, ora chamado de Pecado
Adâmico, é a desobediência voluntária e propositada
contra Deus, a qual, quando confrontada com a
penalidade, é composta de medo e orgulho. Em
conseqüência, existe uma alienação entre o homem e Deus.
Ação de Deus
Imediatamente depois da queda, Deus veio ao homem. O
homem tinha pecado e estava coberto de vergonha e temor.
Ele foge de seu Criador e se esconde por entre a densa
folhagem do jardim. Mas Deus não se esquece dele. Ele
não o abandona, mas tem misericórdia dele, vai ao seu
encontro, fala com ele e chama-o de volta para ter
comunhão com ele (Gn 3.7-15).
A Teologia cristã tem-se mostrado propensa a limitar-se,
em grande parte, à frase do autor sacerdotal “à imagem
de Deus” (Gn 1.26s) e ao quadro da queda do homem (Gn
3), na perspectiva do autor, por um lado, e por outro, à
redenção realizada por Deus em Jesus Cristo, o último
Adão e doador da vida. Assim, o esboço antropológico é
inspirado principalmente em Gn 1-3 e nas cartas
paulinas, e consta do seguinte:
1 - a natureza do homem como Deus o criou;
2 - a natureza do homem na perspectiva da queda, isto é,
como criatura “decaída”, herdando de Adão a capacidade
para pecar;
3 - a doutrina da expiação em Cristo.
É impossível, naturalmente, tratar tanto a primeira como
a segunda à parte de Cristo. Todas as doutrinas cristãs
têm o centro e fundamento em Jesus Cristo. Por isso,
qualquer consideração do homem feito à imagem de Deus
terá de ter como centro e base a apresentação
neotestamentária do Cristo como verdadeiro homem de Deus
(2 Co 4.4; Cl 1.15). A vinculação entre o Filho do Homem
e o Pai retrata o homem sob a perspectiva do que ele
deve ser e da intenção de Deus. E, ao mesmo tempo, o
modo como Cristo foi recebido, tratado e crucificado
revela, mais vividamente do que qualquer expressão
imaginável, a natureza “decaída” e rebelde do homem, ao
passo que a expiação é a obra de Deus para perdoar,
redimir e recriar a raça humana. O pecado e a morte de
Adão criaram uma barreira entre o homem e Deus. Cristo a
removeu, na qualidade de único mediador. Nesse ponto, o
Dogma da Imaculada Conceição de Maria e,
conseqüentemente, o atributo de intercessora junto a
Deus pelos homens é carecedor de verdade, e deveria ser
revisto à luz das Escrituras. É o ato da graça de Deus,
em Cristo, que restaura toda a criação original (animal
- racional e irracional; vegetal e mineral), como, por
exemplo, expresso em Romanos 8.29, Colossenses 3.10 e 1
Coríntios 15.49. Portanto, a cruz é o único símbolo
apropriado da fé bíblica, porque nela a retidão de Deus
é apresentada com toda a verdade nas suas dimensões do
juízo e da salvação por um lado e, por outro, do pecado
e da redenção do homem.
Membros de um mesmo corpo
Se por um lado o pecado traz a individualização
(indivíduo Adão, indivíduo Eva), o eu individual, por
outro, a obra da redenção e recriação proporcionada por
Cristo nos torna membros de um mesmo corpo, vivenciando
uma comunhão com Deus e com o próximo, como no início
das eras, não havendo distinção entre judeu e grego,
escravo e liberto, homem e mulher. Em Cristo todos somos
um! (Gl 3.28). A comunhão ganha outra perspectiva e é
novamente vivenciada como antes da queda.
O que aconteceu imediatamente depois da queda continua
acontecendo na história de geração em geração. Vemos a
mesma coisa acontecendo sempre. Em toda a obra de
redenção é Deus e somente Deus que se manifesta como
aquele que procura e chama, como aquele que fala e age.
É Ele quem coloca Sete no lugar de Abel (Gn 4.25), que
concede sua graça a Noé (Gn 6.8) e que o preserva do
julgamento do dilúvio (Gn 6.12ss), que chama Abraão e
estabelece uma Aliança com ele (Gn 12.1; 17.1), que, por
sua graça, escolhe o povo de Israel como seu herdeiro (Dt.
4.20; 7.6 ss), que na plenitude dos tempos envia seu
Filho unigênito ao mundo (Gl 4.4) e que, agora, nesta
dispensação de toda a raça humana reúne uma Igreja que
Ele elegeu para a vida eterna e que preserva para a
herança celestial (Ef 1.10; 1 Pe 1.5). Assim como na
obra da criação e na obra da providência, na obra da
redenção e recriação Deus também é o Alfa e o Ômega, o
princípio e o fim (Is 44.6; Ap 22.13). E não pode mesmo
ser outra coisa, pois Ele é Deus. Dele, por Ele e para
Ele são todas as coisas. “Glória, pois, a ele
eternamente. Amém” (Rm 11.36).
Bibliografia:
BAVINCK, H. Teologia Sistemática. São Paulo: SOCEP, 2001
Bíblia de Estudo de Genebra. São Paulo e Barueri:
Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Paulus, 1973
Bíblia - Tradução Ecumênica - TEB, São Paulo: Loyola,
1994.
BRUEGGEMANN, W. & WOLFF, H. W. O Dinamismo das Tradições
do Antigo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1984.
The Creative Word. Canon as a Model for Biblical
Education. Philadelphia: Fortress Press, 1982.
Confissão de Fé e Catecismo Maior da Igreja
Presbiteriana do Brasil. 7a. São Paulo: Casa Editora
Presbiteriana, 1980.
Confissão de Fé e Catecismo de Heidelberg. São Paulo:
Editora Cultura Cristã, 1999.
FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário do Século XXI: o
dicionário da língua portuguesa. 3a. ed. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1999.
HASEL, G. F. Teologia do Antigo Testamento. Questões
fundamentais no debate atual. Rio de Janeiro,: JUERP,
1987.
RAD, G. von. Teologia do Antigo Testamento. Teologia das
tradições históricas de Israel. São Paulo: ASTE, 1986.
WESTERMANN, C. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo:
Edições Paulinas, 1987.
WRIGHT, G. E. O Deus que age. São Paulo: ASTE, 1967.
*Clério Ximenes é advogado, músico, membro da Igreja
Presbiteriana de Vila Mariana (SP) e acadêmico de
teologia da Escola Superior de Teologia da Universidade
Presbiteriana Mackenzie.
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