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Matéria
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Os santos de
cada dia
Por Márcio Souza
Em tempos de crise, cresce a devoção a santos com fama
de conceder graças rapidamente. Muitos bairros nas
grandes metrópoles transformam-se em típicas cidades do
interior. Festanças católicas nos moldes tradicionais
marcam os feriados. Há procissões, shows, missas e
quermesses.
Com o agravamento da situação econômica, a fé, que antes
não costumava existir, agora não pode falhar. Tem de ser
rápida, expedita. “Os santos que vêm sendo mais
cultuados são aqueles diretamente ligados à questão
econômica. Pode-se dizer que os quatro preferidos são os
que atendem às urgências do povo: Santo Expedito, Santa
Edwiges, São Judas Tadeu e Santa Rita de Cássia”,
confessou um padre, vigário da Arquidiocese da São
Paulo. Além desses, Nossa Senhora Aparecida compõe o
quinteto que monopoliza a devoção dos fiéis.
Com base nas histórias relatadas pela tradição, faz-se
uma mensagem direta, ligada à vida cotidiana. Por
exemplo: Santo Expedito é aquele das causas urgentes,
que não pode perder tempo para resolver alguma
pendência. Santa Edwiges é a santa dos endividados. São
Judas Tadeu e Santa Rita de Cássia ajudam,
respectivamente, nos casos desesperadores ou perdidos –
um guarda-chuva amplo que pode abrigar tanto os
desempregados quanto os com problemas de desavença
familiar.
Tendo supostamente as pessoas recebido a graça tão
desejada, aparecem nas ruas, nos postes e nos muros
dezenas de mensagens de agradecimento ao santo
solicitado. Geralmente, encontramos muitas páginas nos
periódicos (jornais e revistas) dedicadas aos santos e
patrocinadas pelos fiéis ‘satisfeitos’ pelas preces
‘ouvidas’. Todavia, vai aqui uma palavra de cautela: os
agradecimentos devem ser divididos por sete e, em alguns
casos, até mesmo por noventa! Isso mesmo! O motivo dessa
discrepância deve-se ao fato de o suplicante ser
obrigado a repetir, ou mesmo multiplicar, seus recados
de agradecimento. Geralmente, quando um fiel receita a
reza a determinado santo, indica quantas vezes o próximo
suplicante terá de divulgar o agradecimento pela graça
recebida. Parece que os ‘santos’ já aprenderam que a
propaganda é o melhor negócio.
Enquanto alguns santos são conhecidos devido à sua
projeção bíblica, outros, no entanto, são comuns apenas
na tradição católica. O número desses é surpreendente! A
Editora Paulus editou um anuário contendo santos para
todos os dias do ano, e em alguns casos dois ou três são
adicionados.
Que objetivo tem o lançamento de um anuário contendo
inúmeros santos? Inicialmente, vê-se o ideal cristão:
“observemos os santos, mas não fiquemos apenas na
contemplação deles; procuremos, isto sim, contemplar com
eles Aquele que preencheu suas vidas”, afirma o padre
Charles Foucauld. “Passar um ano em companhia dos santos
que tiveram virtudes e podem nos abençoar com seu
exemplo parece interessante, mas outras coisas estão
envolvidas!”, conclui.
Superstição e lenda
Nem todos os santos venerados são realmente considerados
históricos por teólogos católicos. Um exemplo típico é o
Santo Expedito, que aparece em primeiro lugar nos postes
e muros da cidade, bem como galardoado com faixas.
Contudo, tem sua história questionada por teólogos
católicos. Conta-se que ele era comandante de uma legião
de soldados romanos e foi sacrificado em 19 de abril de
303, por ordem do imperador Diocleciano, ao lado dos
companheiros Caio, Gálatas, Hermógenes, Aristonico e
Rufo. Isso porque teria aderido à fé cristã. Segundo a
tradição, no momento de sua conversão apareceu um corvo
que lhe disse crás (amanhã, em latim). Imediatamente, o
soldado esmagou o corvo com o pé e gritou hodie (hoje),
razão pela qual se tornou aquele a quem se recorre
quando não se pode deixar nada para amanhã. O mesmo
padre comentado acima afirmou: “a mensagem dele
esmagando o corvo não me parece muito cristã. E, para
mim, ele é lendário, não existiu de fato... mas se você
disser que ele não existiu, o pessoal que o procura pode
ficar bravo”. Santo Expedito, para o desconforto de seus
fiéis, não aparece no anuário da editora Paulus.
Currículo milagroso
É muito comum os santos “engrossarem” seus currículos
com milagres. Primeiro um milagre corriqueiro, comum,
como um analgésico para dor de cabeça. Depois, o próprio
tumor na cabeça é curado. O tempo parece ser fundamento
para o exercício dos ‘milagres’ por parte dos santos.
Além disso, os santos têm-se especializado em milagres
específicos. É necessário ‘descobrir’ o seu santo.
Contam que o bondoso São Cristóvão atravessava um rio
carregando pessoas nas costas. E, não por acaso, ele é
considerado padroeiro dos motoristas. Mais recentemente,
São Camilo de Lellis dedicava a vida aos doentes,
tornando-se, assim, o protetor dos enfermeiros. Esses
são alguns dos casos mais conhecidos. O catolicismo
contém santos para quase todas as profissões. Uma lista
elaborada pelo Vicariato da Comunicação da Arquidiocese
de São Paulo os relaciona com vários ofícios, incluindo
até santos não mais reconhecidos pelo catolicismo, como
São Jorge, por exemplo.
Embora considerado apócrifo pelo Decreto Gelasiano do
século 6, a influência que exerce sobre seus
admiradores, porém, não foi apagada. Conforme reza a
lenda, difundida na Idade Média, São Jorge é aquele
cavaleiro que luta contra o dragão. Tal lenda diz que um
horrível dragão saía de vez em quando das profundezas de
um lago e se atirava contra os muros da cidade,
espalhando morte com o seu mortífero hálito. Para
afastar tamanho flagelo, as pessoas ofereciam ao
“monstro” jovens vítimas, escolhidas por sorteio. Um dia
coube à filha do rei ser oferecida para servir de
alimento ao dragão. O monarca, que nada pôde fazer para
evitar esse horrível destino de sua tenra filhinha,
acompanhou-a com lágrimas até as margens do lago. A
princesa parecia irremediavelmente destinada a um fim
atroz quando, de repente, apareceu um corajoso cavaleiro
vindo da Capadócia. Era São Jorge.
O valente guerreiro desembainhou a espada e, em pouco
tempo, reduziu o terrível dragão num manso cordeirinho,
que a jovem princesa levou preso numa corrente até
dentro dos muros da cidade diante da admiração de todos
os habitantes que antes se fechavam em casa, cheios de
pavor. O misterioso cavaleiro lhes assegurou,
gritando-lhes que tinha vindo, em nome de Cristo, para
vencer o dragão. Eles deviam, então, converter-se e ser
batizados.
Por conta dessa lenda, quadros e mais quadros foram
pintados com São Jorge vencendo o dragão. E podemos
encontrá-los nas casas de alguns fiéis. E não só isso.
Há muito tempo ouvimos falar da figura de São Jorge e o
dragão estampada na lua. São histórias cheias de drama e
martírio, que vão desde os tempos em que São Gabriel
Arcanjo anunciou a gravidez de Maria – o que o tornou
padroeiro dos carteiros! – até a segunda guerra mundial,
quando São Maximiliano Kolbe, protetor dos presos
políticos, se ofereceu para morrer no lugar de um
condenado em um campo de concentração nazista.
Creio que você já entendeu, querido leitor, o processo
que habilita o santo a ser um protetor especialista em
determinado ramo ou ofício. Basta-lhe apenas comparar
como foi a vida do tal santo, ou o que lhe aconteceu,
segundo a tradição, e, baseado no padrão trágico de seus
supostos martírios aplicar o que lhe seja mais
conveniente.
Devoção grandiosa
A devoção à Nossa Senhora Aparecida é expressa em
números grandiosos. As ‘igrejas’ consagradas a essa
santa ultrapassam radicalmente às dedicadas a Jesus
Cristo. Considerado o maior santuário do mundo, a
Basílica Nacional de Aparecida, no Vale do Paraíba, é
visitada anualmente por cerca de oito milhões de
romeiros (um número sempre crescente), vindos de todos
os Estados. Por ano, são distribuídas cerca de três
milhões de comunhões, ouvidas cerca de 260 mil
confissões e realizados quase quatro mil batizados. Tudo
sob as bênçãos da padroeira do Brasil, cuja imagem, com
35 centímetros de altura, repousa num altar a três
metros do solo, protegido por vidros à prova de bala e
um sistema de segurança eletrônico – providenciados
depois que, em 16 de maio de 1978, a estátua foi atirada
ao chão por um doente mental e reduzida a 200 pedaços,
aproximadamente.
Os fiéis recorrem a essa santinha de 35 centímetros em
busca de milagres e soluções. A história dessa devoção
começou com os pescadores Domingos Garcia, Filipe
Pedroso e João Alves, em outubro de 1717. Encarregados
de suprir a mesa do Conde de Assumar, de passagem pela
então vila de Guaratinguetá, eles jogaram a rede no rio
Paraíba, próximo ao porto de Itaguaçu, e trouxeram à
superfície o corpo da pequena imagem – apanhando a
cabeça da estátua na segunda tentativa. Até então, os
peixes andavam raros, mas, a partir daquele momento,
houve, para espanto dos três homens, uma repentina
abundância. Foi, segundo a tradição, o primeiro milagre
operado pela Aparecida.
Por alguns anos, a santinha ficou na casa de Pedroso.
Mas logo a sua casa tornou-se pequena para abrigar o
grande número de devotos. Esse foi motivo da construção,
em 1734, da primeira capela da santa. Cento e quarenta
anos mais tarde, foram iniciadas as obras da Basílica
Velha, que ficou em segundo plano, após a inauguração,
em 1954, da Nova, ainda não concluída. Percorrer o
interior desse templo corresponde a um mergulho na alma
da maior parcela da população brasileira – seja na
Capela das Velas, onde são queimados mais de 20 mil
quilos de cera por mês, seja na Sala das Promessas, no
subsolo da catedral, que exibe milhares de ex-votos.
A importância de Maria no culto popular tem alcançado
refrões que distorcem o que a Bíblia ensina sobre a
soberania de Deus. Um exemplo muito conhecido é: “Tudo o
que você pede à mãe, o filho faz”. A grandiosa devoção à
Aparecida não é questionada pelos mentores católicos,
antes parece que a ponderação do clero católico tem sido
a mesma do padre mencionado no início deste artigo: “mas
se você disser que ele não existiu, o pessoal que o
procura pode ficar bravo”.
Os argumentos bíblicos
Encontramos nas Escrituras apoio à veneração de santos?
Se fosse apropriada, teríamos no livro de Hebreus,
principalmente no capítulo 11, uma grande oportunidade
para o escritor sagrado incentivar essa prática. Mas não
é isso que acontece. Não encontramos nenhum vestígio de
proteção mística a certas profissões ou classes sociais.
A superstição e o misticismo são contestados pelas
Escrituras, como, por exemplo, fazer preces aos mortos
ou prestar-lhes culto: “Quando vos disserem: Consultai
os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram,
acaso, não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos
vivos se consultarão os mortos?” (Is 8.19).
Outro aspecto da veneração aos santos está relacionado à
intercessão e à divindade. As Escrituras são bem claras
ao dizer que há somente um Deus, e somente Deus atua
sobre sua criação. Toda criatura está sujeita e é
dependente de Deus. Somente um homem pôde ocupar o lugar
de intercessor, devido à sua divindade: Jesus Cristo.
Lemos em Romano 8.34: “Quem os condenará? É Cristo Jesus
quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à
direita de Deus e também intercede por nós”. E mais
ninguém!
Galeria dos santos
São Bartolomeu (24 de agosto) – um dos 12 apóstolos,
nascido na Galiléia, sofreu um suplício por divulgar o
evangelho na Armênia, onde despertou a ira dos
sacerdotes locais por conseguir várias conversões. Os
sacerdotes então fizeram a cabeça do rei Polímio para
que São Bartolomeu fosse torturado de maneira bárbara:
teve toda a sua pele arrancada, ficando em carne viva,
antes de ser decapitado – santo protetor dos
açougueiros.
Santo Ivo nasceu na Bretanha, em 1253. Estudou
filosofia, teologia, direito civil e canônico. Ordenado
sacerdote em seguida, era chamado advogado dos pobres,
pois sempre os defendia nos julgamentos. Sem se importar
com a perseguição dos poderosos, ia aos castelos buscar
os pertences do povo, confiscados a título de impostos
não pagos. É o santo protetor dos advogados.
São Dimas. É chamado de bom ladrão. Conta a lenda que
ele conheceu a família de Jesus, dando abrigo ao menino
Jesus. Converteu-se após a crucificação e pediu perdão
pelo seu passado pouco antes da morte. É o protetor dos
agentes funerários.
São Bernardo era natural de Piemonte, Itália, no século
18, e cuidava dos viajantes e peregrinos que precisavam
atravessar as montanhas dos Alpes. Os cães são bernardos
levam carinhosamente o seu nome. É considerado protetor
dos alpinistas.
São Tomé. Ficou conhecido no imaginário popular como
aquele que precisa ver para crer. Santo protetor dos
arquitetos, não basta projetar, é preciso realizar.
São Lourenço. Tinha função importante como assistente do
papa, cuidando de toda parte burocrática e listando
todos os pertences. Interrogado sobre os bens da Igreja,
pediu prazo e, em seguida, apresentou o nome dos
doentes, dos velhos e das crianças a quem ajudava. É o
santo protetor dos arquivistas.
Santa Clara de Assis. Fundou uma ordem conhecida como
Clarissas. Uma vez perguntaram-lhe se era melhor a vida
contemplativa ou a pregação, e ela respondeu: “Cristo
revelou que sua vontade é que caminhes pelo mundo a
pregar”. É a protetora dos artistas de televisão, pois
entendia o valor da comunicação.
Nossa Senhora de Loreto. Diz a história que o santuário
de Loreto guarda a casa em que morou Nossa Senhora, em
Nazaré. A lenda afirma, ainda, que, em 1291, durante as
Cruzadas, a casa foi transportada para lá por anjos. Na
verdade, a família De Angelis salvou a casa da
destruição e a transportou para Loreto. É a santa
protetora dos aviadores.
Santa Bárbara. Era uma jovem belíssima e seu pai
Dióscoro a encarcerou numa torre, com ciúmes dos seus
pretendentes. Um dia ela fugiu, mas acabou presa. Morta
pelo próprio pai, que em seguida foi fulminado por um
raio, é a santa protetora dos bombeiros.
São Brás. Útil, segundo a lenda, para duas áreas.
Resolve problemas com a garganta e engasgos. Quem não
conhece a atitude de tapinha nas costas seguido da
famosa frase: “são Brás, pra frente e pra trás!”? Em seu
martírio, teve os cabelos cortados e o couro cabeludo
espetado por pentes de ferro. É o santo protetor dos
cabeleireiros.
São Gabriel Arcanjo. Independentemente da notícia que o
carteiro carregue, ele é supostamente protegido pelo
anjo Gabriel, pois este anunciou a Maria o nascimento de
Jesus, portanto foi portador de boa notícia. É o santo
protetor dos carteiros.
São João Bosco. Sua intensa preocupação com novas formas
de conhecimento o identificou com a sétima arte.
Ordenado padre aos 26 anos, fundou escolas, revistas e
editoras, além de oratórios festivos que reuniam filhos
de operários. É o santo protetor dos cineastas.
São Martinho de Tours. Húngaro, seu pai era oficial do
exército romano e o obrigou a alistar-se. Um dia, porém,
ao ver um mendigo tremendo de frio, cortou sua manta ao
meio e ofereceu a metade para ele. À noite, sonhou com
Jesus, que disse: “Martinho, ainda não batizado me
ofereceu esse vestuário”. No dia seguinte, ele se
converteu. É o protetor dos comissários de bordo.
São Vito. Mártir siciliano do segundo século, é invocado
durante uma doença nervosa chamada dança de São Vito.
Sua vida foi bem aventureira, sofrendo perseguições por
conta de sua fé. Em Roma, foi condenado a ser jogado às
feras no Coliseu. É o santo protetor dos dançarinos.
Santa Apolônia. Viveu no século três. Preferiu ser
queimada viva a renunciar a fé. Teve todos os dentes
arrancados por seus algozes, mas morreu pedindo perdão
para aqueles que a torturavam.
São Francisco. Nasceu em Assis, Itália, em 1182. Aos 24
anos abandonou tudo e passou a andar errante e
maltrapilho em protesto contra a sociedade burguesa. Seu
testemunho de fé também incluía o amor à natureza e aos
animais, acolhendo qualquer bicho e chamando o sol e a
lua de irmãos. É o protetor dos ecologistas.
Santo Agostinho. Africano da Tunísia, nascido em 354.
Escreveu muitas obras de cunho filosófico. Teve uma
ativa vida aflitiva – usou a si mesmo como ilustração
das dificuldades humanas. Considerado doutor, é protetor
dos editores.
Santa Zita. Todas às sextas-feiras, dava esmolas na
cidade, dividindo o pouco que possuía. Numa dessas
ocasiões, viu que o avental que vestia se transformou em
flores. É protetora das empregadas domésticas.
São João Evangelista. Um dos 12 apóstolos, era um dos
mais chegados a Jesus Cristo e testemunhou vários
milagres. Escreveu o quarto evangelho, as epístolas de
João e o Apocalipse. É o protetor dos escritores.
Santo Isidoro. Muito culto, era dicionarista, escritor
considerado à frente de seu tempo. É o santo protetor
dos internautas.
Santa Luzia. Diz a lenda que preferiu arrancar os olhos
e oferecê-los numa bandeja ao seu torturador a renunciar
a fé. É a santa protetora dos oculistas.
São Raimundo Nonato. Foi chamado de nonato (não nascido)
por ter sido retirado das entranhas de sua mãe já morta.
É o santo protetor das parteiras.
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