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Fantasias
Boas e Fantasias más
Por Gene Edward Veith
Tradução Gordon Chown
Os livros Harry Potter talvez sejam o maior sucesso até
hoje na história da literatura infantil. Essa série,
escrita por uma autora britânica chamada J. K. Rowling,
foi traduzida em 35 idiomas e lida em 220 países1.
Chegou ao topo dos campeões de venda em todo o mundo com
a marca de quarenta e um milhões de exemplares
distribuídos2. No Brasil, os livros da série Potter
ocupam os três primeiros lugares de venda3. Os dois
primeiros volumes, por exemplo, atingiram a casa dos 200
mil exemplares vendidos. É a primeira vez que um só
autor consegue conquistar tal posição.
Os maiores compradores desses livros campeões de venda
são, obviamente, as crianças. Muitas delas, segundo
consta, ao comprarem um exemplar dessa série, estão
lendo pela primeira vez um livro na vida. Pais e mestres
afirmam que a série Harry Potter está levando milhares e
milhares de jovens aos prazeres da leitura. Os meninos,
em especial, que usualmente são mais resistentes à
leitura que as meninas, estão desligando a TV e os
videogames para dedicar tempo ao suposto bom livro. Os
jovens que antes eram condicionados a passar horas e
horas em frente à televisão estão se dedicando
intensamente à leitura de uma série com nada menos que
700 páginas.
Quem vê isso pensa logo em boas notícias. Mas não é bem
assim. Um dos aspectos das histórias de Harry Potter faz
com que os pais cristãos se sintam mal. A série fala de
uma escola para bruxas. Harry é um pré-adolescente bobo
e totalmente infeliz, criado por padrastos que o
desprezam. Por fim, ele vai para a Academia Hogwarts
(Verrugas de Javali), um internato mágico. Lá aprende a
lançar sortilégios e transforma-se num superatleta ao
participar, voando, de uma corrida de vassouras, além de
desfrutar de aventuras fabulosas.
Nestes tempos, quando a verdadeira bruxaria está em
voga, com as convenções de Wicca (bruxaria) reconhecidas
nos campus universitários da Europa e da América do
Norte como mais um ministério legítimo entre os
estudantes, essas narrações passam a idéia de que a
feitiçaria é algo atraente. É verdade que as bruxas e os
bruxos que voam montados em vassouras não deixam de ser
uma ilustração dos personagens das histórias infantis.
Não se tratam, logicamente, das deusas neopagãs e dos
adoradores da Natureza da Wicca. Mas não é por isso que
os pais cristãos devem deixar de se preocupar com os
seus filhos adolescentes: a leitura da série Harry
Potter está a um pequeno passo entre o fascínio pelo
personagem desses livros e o envolvimento aberto com o
ocultismo.
Harry Potter é só um exemplo de como a juventude de hoje
está nadando na fantasia. Os videogames, apesar de sua
alta tecnologia, freqüentemente retratam âmbitos
arcaicos de espadas e feitiçaria. Na TV, envolvem-se com
Xena, a princesa guerreira; Buffy, a caça vampiros e
Sabrina, a bruxa adolescente, além de programas e
novelas que evocam o ocultismo. Os filmes de grande
popularidade entre as crianças, os adolescentes e os
jovens são freqüentemente fantasias com toques de ficção
científica, como, por exemplo, a série Guerra nas
estrelas.
Na realidade, a fantasia sempre teve participação
fundamental no entretenimento infantil, seja de modo
maléfico ou sadio. Hoje em dia, portanto, destaca-se
mais o seu lado maléfico, infelizmente. A fantasia é um
recurso que, se não for bem usado, prejudica, e muito.
Se por um lado algumas histórias infantis estão eivadas
de insinuações feministas, por outro, muitos autores
procuram transmitir valores honestos, demasiadamente
tradicionais.
Alguns dos melhores escritores cristãos, de João Bunyan
a C. S. Lewis, têm empregado e defendido o gênero
literário da fantasia. O Peregrino, de João Bunyan
(Editora Mundo Cristão), e as Crônicas de Nárnia, de
Lewis, têm ajudado milhares de crianças e seus pais a
compreender o evangelho.
O problema não está na fantasia, que nada mais é do que
um simples exercício da imaginação. Uma obra que lança
mão desse recurso pode moldar a criatividade imaginária
do público, tanto para o bem quanto para o mal. O
desafio é saber discernir a diferença entre a fantasia
boa e a fantasia má, e reconhecer não somente o seu
conteúdo, mas também o seu efeito sobre o leitor.
O que torna uma fantasia diferente da outra? Como o
leitor ou seus pais podem perceber essa diferença?
Julgando o seu conteúdo. E isso envolve perspicácia para
entender como funciona a fantasia e discernimento para
reconhecer seus efeitos5.
Fantasia e a realidade
A solução não é simplesmente repudiar as obras de
fantasia e favorecer as realistas. Poderíamos argumentar
que livros realistas atuais para crianças são mais
negativos em seus efeitos do que as fantasias da série
Harry Potter. Livros como Heather tem duas mamães, de
Leslea Newman e Diana Souza, e O companheiro de quarto
do papai, de Michael Willhoite, são tentativas realistas
de legitimar a prática homosexual entre crianças de
quatro a oito anos.
Outras obras desse gênero literário lidam com divórcio,
abuso de crianças e sexo. Títulos populares escritos
para adolescentes incluem tratamento favorável ao abuso
das drogas, fuga de casa, suicídio e relação sexual
extraconjugal em todas as suas formas6. O mundo realista
de hoje é constituído de pais cruéis, rebelião moral e
autocomiseração dos adolescentes. A moda do realismo nos
livros infantis não passa de um pretexto à doutrinação
politicamente correta, à invectiva antifamília e à
narrativa eivada de problemas de angústia.
O psicólogo cristão William Kirk Kilpatrick demonstra
como as histórias infantis podem ajudar as crianças em
sua educação moral. Elas aprendem que a virtude é
atraente e a iniqüidade, repulsiva. Não assimilam isso
pelos preceitos abstratos das histórias, e muito menos
pelos exercícios de clarificação de valores ensinados
nas escolas, mas ao torcerem por seus heróis virtuosos e
imitarem o comportamento deles.
Parece que a proposição inversa também é verdadeira. Se
algumas histórias tornam a virtude atraente, outras, no
entanto, elevam, de igual forma, o vício. Assim como
qualquer ferramenta, a literatura também pode ser usada
para o bem ou para o mal. Se o propósito é ensinar a
criança a não mentir, nada melhor do que o livro O
menino que gritava lobo!, e outras fábulas de Esopo que,
apesar de seus animais falantes, transmitem noções
certas do trabalho esforçado (A formiga e a cigarra) e
da persistência (A tartaruga e o coelho).
Não seria errado dizer que os cristãos primitivos
inventaram a fantasia, ou a ficção, por meio de suas
atitudes com os mitos. Para eles, os mitos não eram
verdadeiros, e os mantinham em seu currículo educacional
como meras histórias.
Conforme observa Werner Jaeger, foram os cristãos que,
finalmente, ensinaram aos homens a avaliar a poesia por
um padrão puramente estético, padrão este que os
capacitou a rejeitar a maioria dos ensinos morais e
religiosos dos poetas clássicos como falsos e ímpios,
mas sem deixar de aceitar os elementos formais da sua
obra como sendo instrutivos e esteticamente agradáveis8.
Os pagãos não acreditavam que as sagas dos seus deuses
não passavam de mitos, mas achavam-nas verdadeiras. Aos
cristãos, no entanto, seria idolatria acreditar que
Ícaro realmente voou tão alto em asas confeccionadas de
cera, derretidas, depois, pela carruagem do deus-sol.
Uma vez que fique claro que o deus-sol não existe e que
essa história nunca aconteceu, ela pode ser apreciada de
modo diferente, como uma ilustração do que pode
acontecer com a soberba humana.
As crianças com forte senso ficcional e sabedoria para
distinguir a diferença entre a fantasia e o mundo real
estão inoculadas contra a maioria dos efeitos nocivos
desse tipo de enredo. Quando, porém, a criança passa a
considerar o mundo real como fantasia, aí sim surgem os
problemas. Mas se ela compreender a diferença entre
ficção e realidade, então as histórias de todos os tipos
tornam-se objeto de ensino e recreação.
Os dois tipos de escape: o bom e o mau
A fantasia é acusada de muitas coisas, e uma delas é de
ser mero escapismo. No âmbito intelectual e cultural,
que reconhece apenas aquilo que pode ser visto, tocado e
medido, talvez a fantasia seja um toque necessário e
especial. Isto porque será um instrumento que despertará
a imaginação das pessoas para a saudade, a beleza, o
heroísmo moral e os ideais transcendentes. Ao agir na
consciência dessa maneira talvez o ser humano seja
acordado para a existência de alguma coisa a mais nesta
vida do que apenas um universo estreitamente material de
átomos zunindo.
Na verdade, as histórias infantis não são tão-somente
meros preceitos abstratos; pelo contrário, são atitudes
e percepções que penetram profundamente na imaginação e
ajudam a formar o caráter.
O psicólogo infantil Bruno Bettelheim relata como
descobriu a utilidade das histórias infantis no
tratamento de crianças marcadas por traumas e abusos.
Ele sustenta que as partes assustadoras dessas narrações
prevêem os temores que as crianças têm na realidade
(como no caso de João e Maria, cujos pais não podiam
sustentá-los. As crianças realmente se preocupam com
esse tipo de situação!) Em seguida, o autor mostra que,
a despeito das provações (perder-se no bosque) e das
tentações (não comer a casa feita de doces!), as
crianças descobriram, por meio do coração e da ação
virtuosa (a bruxa é vencida pela esperteza deles), que
poderiam viver felizes para sempre.
Embora boa parte da literatura infantil contemporânea
procure projetar um mundo doméstico seguro, e insista
que as historinhas sejam depuradas de suas partes
assustadoras e de seus castigos severos, Bettelheim
adota uma posição diferente: Os adultos acham
freqüentemente que o castigo cruel de uma pessoa maligna
numa história infantil perturba e assusta
desnecessariamente as crianças. A verdade é bem
contrária a esse conceito e semelhante retribuição deixa
a criança sentir confiança de que cada crime receberá
seu devido castigo. Muitas vezes, a criança se sente
injustiçada pelos adultos e pelo mundo em geral, e
parece-lhe que nada é feito para remediar a situação.
Baseando-se exclusivamente nessas experiências, deseja
que aqueles que a trapaceiam e degradam sejam castigados
com a máxima severidade. Caso contrário, a criança acha
que ninguém leva a sério a idéia de protegê-la; mas
quanto mais severo o castigo aplicado àquelas pessoas
más, tanto mais segura a criança se sente10.
O mundo das histórias infantis é um âmbito de ordem
moral rigorosa. Quando usadas corretamente, as fantasias
podem ajudar a instilar a ordem moral na personalidade
da criança.
Fantasiando o mal
Posto que as fantasias podem ter um efeito benéfico ao
estimular a imaginação de modo construtivo, não podemos
nos esquecer que seus efeitos também podem ser
negativos. Se certos contos passam a idéia de que o
heroísmo moral é algo atraente, outros, porém, podem
levar as pessoas a conceber pensamentos malignos.
Alguns pais levantam objeções contra o livro de C. S.
Lewis, O leão, a bruxa e o guarda-roupa, simplesmente
porque ele contém uma feiticeira. Não levam em
consideração o fato de que tal personagem é descrita
como uma vilã repulsiva, um símbolo do diabo e suas
tentações. Esquecem-se de que o livro é uma poderosa
alegoria do evangelho. Acreditam que a obra (por causa
da existência de uma bruxa) e seus leitores sejam
defensores e participantes do ocultismo. Será que para
tais pessoas um panfleto falando contra a bruxaria é uma
obra do ocultismo só porque menciona essa palavra:
bruxaria?
O mesmo acontece com as histórias que contêm violência.
Pode haver uma trama sem algum tipo de conflito? Não
existe história em que todos vivem felizes para sempre.
Forçosamente, tem de haver algum tipo de problema, algum
obstáculo a ser vencido, algum embate, quer seja externo
(os bons contra os maus), quer seja interno (uma decisão
do personagem), ou os dois. As fantasias tendem a
exteriorizar os estados interiores e/ou a simbolizar as
idéias de forma concreta.
Assim, o conflito é sempre apresentado como algo externo
nas histórias infantis. Ou seja, ele é manifestado
através das lutas contra monstros, nas batalhas e duelos
de cavaleiros com armaduras. Tudo isso, portanto, pode
ser caracterizado como violência. Mas, sem conflitos, só
podem haver descrições insignificantes. Os conflitos
imaginativos das histórias ensinam a moralidade e
edificam o caráter.
Atualmente, são os humanistas liberais que negam a
diferença real entre o certo e o errado, e o conflito
entre eles. E por isso levantam as objeções mais
vociferantes contra a violência nas histórias infantis.
Matar um dragão viola os direitos dos animais; o
salvamento de uma princesa nada mais é do que interesse
sexual.
As fantasias, juntamente com todas as demais formas de
literatura, devem ser avaliadas segundo seu significado
e efeito. Que tipo de relevância a violência possui? Ela
dramatiza o conflito entre o bem e o mal ou glorifica o
papel dos fortes que aterrorizam os fracos?
Que efeito a violência tem sobre o leitor? Deixa-o menos
propenso a lesar as pessoas na vida real? Ou, pelo
contrário, desperta os prazeres da crueldade ou do
sadismo?
O ponto de vista do personagem principal da história é
digno de uma análise apurada. As histórias tradicionais
quase sempre representam o ponto de vista do mocinho, do
homem bom. (Nas histórias realistas mais complexas, com
algum conflito interno, o personagem talvez não seja tão
singelo, e o enredo pode fixar-se apenas em luta moral.
As tragédias retratam um personagem nobre cuja derrocada
foi provocada por uma falha moral; mas, nas fantasias,
os personagens normalmente são mais simples). As
histórias contemporâneas dificilmente prendem o leitor
ao ponto de vista de um personagem maligno.
Nos videogames modernos, destaca-se o jogo do Atirador
na Primeira Pessoa. Esse tipo de jogo interativo
apresenta a ação através dos olhos de um personagem da
história, que é justamente o jogador. O vídeo procura
retratar aquilo que o personagem estaria vendo. O
jogador é um atirador porque é colocado no papel de um
assassino em série que anda a passos largos por uma
paisagem virtual, levantando sua arma e alvejando suas
vítimas, detonando-as.
Alguns desses jogos se acham nos salões de tiro com alta
tecnologia, visando alvos humanos. Ao participar desse
jogo, o atirador sente a sensação imaginária de ser um
assassino em série. Aliás, conforme já foi bastante
noticiado, os assassinos columbinos gostavam de jogos
desse tipo e, posteriormente, encenaram esses jogos na
vida real.
Dizem que o número de jogadores que literalmente encena
esses jogos na vida real é minúsculo. Os cristãos,
entretanto, sabem que não são apenas as ações, mas
também os pensamentos e imaginações do coração que
corrompem moralmente. O próprio Jesus enfatizava que
Deus julga os pensamentos da mesma forma que julga as
ações. O adultério cometido no coração viola o
mandamento de Deus, ainda que jamais seja posto em
prática. Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás;
mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos
digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra
seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a
seu irmão: Raça, será réu do sinédrio; e qualquer que
lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno (Mt
5.21-22 - ACF). Ouviste que foi dito aos antigos: Não
cometereis adultério. Eu, porém, vos digo, que qualquer
que atentar numa mulher para a cobiçar, já em seu
coração cometeu adultério com ela (Mt 5.27-28 - ACF).
As nossas fantasias pessoais, tais como as literárias,
são de suma importância espiritual. As fantasias
pornográficas e as imaginações sobre como machucar as
pessoas são extremamente prejudiciais a nós mesmos. Elas
corrompem o coração.
O caso de Harry Potter
O que, portanto, os cristãos devem pensar do grande
sucesso da moda Harry Potter? Entre outros motivos, as
crianças se apaixonam por esses livros porque suas
mentes estão subnutridas e, empregando a metáfora de
Tolkien, suas imaginações estão como que aprisionadas,
ansiosas por uma via de escape.
As escolas, muitas vezes, trancam as crianças num
currículo politicamente correto, esforçando-se
zelosamente para inculcar na consciência delas problemas
sociais reais e deprimentes. Seus livros-textos são
materialistas. Os textos científicos asseveram o sistema
naturalista do evolucionismo. Os históricos atacam as
últimas sobras dos ideais cristãos. Os literários
desenvolvem histórias de problemas e dilemas morais. Não
é por nada que as crianças odeiam ler.
A popularidade dos livros Harry Potter não está
simplesmente no fato de eles serem fantasias
(literaturas como esta existem muitas, mas não com
tamanha projeção e popularidade). A série fala de
escola, educação. Eis o motivo de seu grande sucesso. Ao
lerem a respeito da Academia Verrugas de Javali, as
crianças se identificam com o ambiente, e isso lhes dá a
sensação de conhecê-la. Ao viajarem na leitura,
encontram-se com as panelinhas, as pressões estudantis
e, acima de tudo, a luta pela popularidade entre os
amigos, algo com que estão bem familiarizadas.
A Academia Verrugas de Javali é uma escola diferente,
interessante. Não é como as escolas comuns. Ao invés de
simplesmente colocar as crianças sentadas em grupos para
que compartilhem seus sentimentos, ensina-lhes coisas
maravilhosas: tornar-se invisível, mudar a forma dos
objetos com vara de condão (vara mágica) e voar!
As crianças, especialmente as mais perceptivas, podem
identificar-se com Harry Potter que, no início, está
preso no mundo de Muggle (âmbito material comum e
insípido daqueles que não conseguem enxergar o
sobrenatural), marginalizado na escola e desprezado
pelos padrastos. O desenrolar da história revela que ele
era realmente um mágico desde o começo. Mas na Academia,
o menino bobo de óculos alcança popularidade! Os fãs de
Harry Potter não estão interessados no enredo fantasioso
sobre bruxas, mas em se tornarem populares e
bem-sucedidos.
O argumento cristão contra Harry Potter é o fato de
estár ele em uma escola para feiticeiros. Sabemos que as
bruxas não são meras personagens dos enredos
fantasiosos. Elas são reais. Sejam elas adoradoras de
Satanás ou devotas neopagãs de Wicca. Não importa. Os
defensores de Harry Potter podem ressaltar que as bruxas
da Academia Verrugas de Javali nada têm a ver com Wicca
ou com algum tipo de feitiçaria de magia negra. Não são
iníquas, de modo nenhum, e muito menos pregam qualquer
tipo de religião da Natureza, como, por exemplo, a Nova
Era. As bruxas aqui envolvidas são tiradas das histórias
infantis, com suas vassouras e sortilégios. São bondosas
(assim como a bruxa virtuosa no Mágico de Oz). A
verdade, para tais defensores, é que Harry está
aprendendo a ser um mágico, e não um feiticeiro.
Mas isso não importa. Como cristãos, devemos desaprovar
esses livros. Nas histórias infantis, as bruxas são
tipicamente malignas, o que reforça as nítidas linhas
distintivas entre o mal e o bem; ou seja, entre as
forças das trevas e as forças da luz. Qualquer coisa que
borrar essas linhas é motivo de preocupação.
Harry Potter, no entanto, não apaga totalmente essas
linhas distintivas. Existe um poder abertamente maligno
na pessoa de Voldemort, uma bruxa realmente ímpia contra
a qual Harry e seus colegas de escola estão em conflito
durante a série inteira. Alguns enxergam desrespeito
para com os pais no péssimo relacionamento de Harry e
seus padrastos. Os verdadeiros pais desse personagem
foram mortos pela bruxa Voldemort. O amor e a admiração
por seus pais são sentimentos importantes no caráter de
Harry.
Todavia, essa literatura não está à altura de ser ideal.
Ela apresenta um perigo nítido e atual da bruxaria. Os
pais cristãos têm razão ao orientar seus filhos a evitar
essa série. Se a coqueluche Potter já afetou seus
filhos, caro leitor, você deve lidar cuidadosamente com
a situação.
Os pais devem deixar bem claro que os cristãos não são
Muggles. Em outras palavras, o cristianismo não é uma
cosmovisão bitolada, materialista e enfadonha, tal como
satirizada nas novelas Potter e ensinada nas escolas. O
cristianismo tem um universo aberto, com espaço para o
natural e o sobrenatural, para o corriqueiro e o
milagroso. O cristianismo reconhece as verdades
invisíveis da bondade e da beleza, e acredita numa
batalha genuína entre as forças das trevas e as forças
da luz. Os relatos bíblicos sobre como Deus se tornou
homem, através de Jesus Cristo, a derrota de Satanás, a
expiação pelos nossos pecados, mediante seu sacrifício
na cruz, a ressurreição de Cristo compõem a história
mais maravilhosa de todas as histórias.
A melhor maneira de evitar que as nossas crianças sejam
confundidas por Harry Potter e seduzidas pelas fantasias
más, o que é muito pior, é colocar à disposição delas a
boa literatura, e também a fantasia boa, como, por
exemplo, o livro O peregrino, de João Bunyan. Nenhuma
literatura, portanto, substitui a Bíblia Sagrada, a
poderosa Palavra de Deus.
Veja que maravilha: Educa a criança no caminho em que
deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele
(Pv 22.6 - ACF).
Gene Edward Veith é catedrático de Inglês na
Universidade Concordia, em Wisconsin, e editor cultural
do World Magazine. É autor de nove livros, inclusive
Postmodern Times e Reading Between the Lines: A
Christian Guide to Literature.
(Esta matéria foi publicada no Christian Research
Journal do ICP dos Estados Unidos e adaptada pelo ICP do
Brasil).
Os jovens não estão lendo coisas boas. Nos livros de
Harry Potter, por exemplo, a linguagem é horrível... O
livro inteiro é assim, escrito com frases desgastadas,
de segunda mão... É melhor ler a Bíblia como literatura
do que como texto religioso. O Velho Testamento é
trabalho de um dos maiores contadores de história do
mundo ocidental. Pense em figuras como José, Jacó e
Jeová. São personagens magníficos.
Harold Bloom (EUA), o mais importante crítico literário
em atividade. – Veja 31/01/2001
Notas:
2 Jornal Folha de São Paulo, 12 de agosto de 2000.
3 Revista Veja, 17 de janeiro de 2001, Lista dos Mais
Vendidos, p. 129.
4 Seleções, Janeiro 2001, p. 46.
5 Boa parte da matéria é extraída do meu livro Reading
Between the Lines: A Christian Guide to Literature
(Lendo nas entrelinhas: Um Guia Cristão à Literatura (Wheaton,
IL: Crossway, 1990), que considera as questões de modo
mais pormenorizado.
6 Ver, e.g., Norma Fox Mazer: When She Was Good, a
respeito do abuso de crianças e da fuga de casa;
Francesa Block: Weetcie Bat, a respeito do
homossexualismo; e Brook Cole: The Facts Speak for
Themselves, a respeito do assassínio e da pederastia.
7 William Kirk Kilpatrick: Psychological Seduction (Nashville:
Thomas Nelson, 1983, pp. 105-7). Ver também sua obra com
Gregory Wolfe, Suzane Wolfe e Robert Coles: Books That
Build Character: A Guide to Teaching Your Child Moral
Values through Stories (Nova York: Simon & Schuster,
1994).
8 Werner Jaeger: Paidéia: Os Ideais da Cultura Grega,
trad. Gilbert Higher (Nova York: Oxford University Press,
1965), XXVII-XXVIII.
9 Bruno Bettelheim: The Uses of Enchantment: The Meaning
and Importance of Fairy Tales (Nova York: Knopf, 1976).
10 Ibid., p.141.
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